
José Paulo Fafe
Não sei se o eng.° Carlos Moedas sabe quem foi Francisco Keil do Amaral, ou sequer lhe passa pela cabeça o quanto a obra deste arquiteto impactou Lisboa no século XX. Ainda hoje, muitos dos seus projetos são referências da capital como, só para citar algumas das suas criações, a primeira fase do Metropolitano de Lisboa, o Parque Eduardo VII, o aeroporto da Portela (ou o que resta dele…), o edifício da ‘velha’ FIL, o Campo Grande, ou o Parque de Monsanto.
O eng.º Moedas ainda muito menos deve saber que Keil do Amaral foi um dos maiores expoentes da nossa arquitetura moderna, que ‘bebeu’ da escola nórdica e norte-americana, e que tinha da vida, dos homens e da sociedade, uma visão aberta, humanista e solidária.
O eng.° Moedas não deve saber nada, mesmo nada, de Keil do Amaral – quando muito o apelido deve soar-lhe, porventura recordado do que aprendeu na escola sobre o Hino Nacional, de que Alfredo, avô de Keil, foi um dos criadores.
A ‘cultura’ arquitetónica do eng.º Moedas deve ser tão vasta quanto o par de ‘book tables’ sobre arquitetura que deve ter na mesa da sala de sua casa, mais por serem do mesmo tom das almofadas ou fazerem ‘pandã’ com os tapetes, do que qualquer outra coisa.
Tudo isto deve ser verdade, por outras palavras, até podemos dar de barato… Mas tudo isto, leia-se, esta visível ignorância do eng.º Moedas não pode nunca servir de álibi para o inqualificável atentado de que a obra de Keil do Amaral está a ser alvo por obra e graça da Câmara Municipal de Lisboa e de quem a lidera.
De há dois anos a esta parte, com a desculpa de precisarem de restauro, o par de coroas de palmas que Keil do Amaral desenhou na década de 50 para encimar as colunas do alto do Parque Eduardo VII, e que por ali se mantiverem por quase 70 anos, estão abandonadas e atiradas num (pasme-se…) talhão vazio de um cemitério na outra ponta da cidade.
Além da vergonha alheia que esta postura inqualificável do eng.º Moedas e da autarquia da capital provoca nos lisboetas e em quem conhece a obra e a importância de Francisco Keil do Amaral, há pouco mais para dizer, para além de pedir desculpa à memória de quem, contrariamente a quem o ‘agride’ desta forma, há muito faz parte da história de Lisboa – desculpe lá, senhor arquiteto.

José Paulo Fafe
Por muito que tenha tentado, ao fim de praticamente quatro anos ainda não consegui perceber se Carlos Moedas é ceguinho, mentiroso compulsivo, ou então pura e simplesmente não passa de um imbecil, daqueles que acreditam em tudo o que lhe dizem.
Ao longo dos anos em que está como presidente da Câmara de Lisboa, ouvi-lhe (e vi-lhe) um pouco de tudo — apropriar-se descaradamente da obra e projetos dos seus antecessores; enjeitar responsabilidades que lhe cabem, sacudindo-as de forma manhosa; surgir, com um descaramento inaudito, por exemplo, a garantir que Lisboa “não está mais suja, nem tem mais lixo”; e até, aqui num registo mais pessoal, apregoar a sete ventos e a despropósito sobre os vícios e adições de seu pai.
Paralelamente, ao longo dos anos que leva como edil de uma capital cada vez mais descaracterizada, sebenta, malcheirosa, com o património municipal mal gerido e ao abandono, não lhe encontrei uma ideia que fosse, quanto mais um pensamento estruturado sobre a cidade — apenas e só ‘números’ ensaiados e encenados para as redes sociais, que mais não são que o conforto que encontrou para afagar um ego imenso e desproporcionado.
Tudo o que corre mal (e é muito, para não dizer tudo…) é para ele responsabilidade do governo, ou então culpa de quem o antecedeu. O episódio em redor da tragédia do elevador da Glória fala por si — a forma indecorosa como tentou envolver e desculpar-se com alguém que nos deixou vai para 10 anos, diz bem do que Carlos Moedas é capaz.
Vi-o também — e aqui falamos de uma questão de carácter… — ter dois pesos e duas medidas relativamente a pessoas que estavam (ou estão) à sua volta, a facilidade com que ‘crucificou’ quem ele julgou já nada mais lhe trazer, naquele afã tão típico dos medíocres e cobardes que, para fugir do cadafalso, preferem sacrificar os outros a terem de assumir as responsabilidades que lhes cabem.
Em suma: ideologias à parte, a Lisboa de Carlos Moedas envergonha quem ali nasceu, vive, estuda ou trabalha: pelo estado descuidado a que chegou, pela falta de brio existente, pela gritante incompetência de quem a gere, mas principalmente pelo presidente que tem — sem dúvida, o pior de sempre.

José Paulo Fafe
Para ‘horror’ de muito boa gente, que interpretou as minhas palavras como um autêntico crime de lesa-majestade, tive a oportunidade de, há uns tempos, não assim tão longínquos quanto isso, afirmar publicamente que o dr. Balsemão, apesar de se julgar indispensável no panorama dos media em Portugal, não tinha ainda percebido que o seu tempo chegara ao fim.
Disse-o, admitindo sem qualquer hesitação, que a imprensa portuguesa lhe deve muito, que o dr. Balsemão possui bastantes e suficientes méritos na transformação que se sentiu no setor, nos últimos 50 anos, e que, de algum modo, devemos estar-lhe reconhecidos pelo papel que desempenhou no crescimento e na modernização dos media.
Permitindo-me aqui uma nota de cariz mais pessoal, eu mesmo – não me canso de dizê-lo – devo-lhe, de algum modo, a minha entrada neste mundo, quando em, finais dos anos 70, me convidou para ser correspondente do Expresso na Cidade do México.
O problema do dr. Balsemão e da sua família é que, pese embora os méritos que o patriarca amealhou ao longo dos anos, não teve o discernimento de perceber que os tempos mudaram, que concorrência não é sinónimo de obediência, e que nem todos quantos se movem neste mundo têm obrigação de curvar-se, diligentes e pressurosos, aos seus desejos e caprichos.
O fim anunciado do grupo Impresa, hoje prestes a transformar-se numa mera extensão do gigante italiano MFE, e o consequente afastamento da família Balsemão do controle do grupo, onde nos últimos anos apenas somou desaires e dívidas, mostra bem que os tempos mudaram e que, por muito que custe a alguns, mais do que qualquer coisa, traduz bem o fim de uma era.

José Paulo Fafe
Conheci bem o dr. Mário Soares – desde que nasci, aliás. O facto de meus Pais serem seus amigos próximos, permitiu-me conviver de perto e desde muito cedo com o casal Soares, de quem fui visita de casa, com quem passei férias, com quem viajei e percorri muitos quilómetros por esse país fora.
Mais do que líder do PS, primeiro-ministro, ou até Presidente da República, o dr. Soares sempre foi para mim, fruto da relação que existia entre as nossas duas famílias, ‘o Mário’, sem prévio ‘tio’ ou ‘sotôr’, sendo exatamente assim, pelo seu nome próprio, que sempre o tratei e o vi.
Nem sempre concordei com ele, bem antes pelo contrário, cheguei mesmo, talvez até algumas vezes exageradamente e pisando ‘linhas’ que hoje certamente me absteria de pisar, a criticá-lo duramente, a atacá-lo, e a colocar-me, sempre que podia, na trincheira contrária à sua – a que não terá sido alheio o facto de, pese embora a diferença de idades e a fortíssima amizade que o unia a meu Pai, tivéssemos cortado relações ao longo de mais de 20 anos, tendo-as apenas reatado algum tempo depois de ele ter deixado o Palácio de Belém.
Vem tudo isto a propósito de há pouco, por obra e graça de um daqueles ‘zappings’ de fim de noite, ter visto o dr. André Ventura, em plena Assembleia da República, recorrer a um dos velhos e estafados embustes que, vai para 50 anos, alguém resolveu inventar sobre o dr. Soares, no caso, atribuir-lhe o desejo de ver os colonos portugueses atirados aos tubarões.
Não sendo propriamente – nem de perto, nem de longe – fã do dr. Ventura, confesso que, porventura por alguma deformação profissional, já aprendi em não alinhar naquele frenético afã ostracizante com que muitos o olham, muito menos a ‘empurrá-lo’ para fora das quatro linhas de um regime de que, por muito que não o queira, ele faz parte e onde cresceu e se fortaleceu.

Aprendi, volto a referir que possivelmente por essa tal ‘deformação profissional’, a ser condescendente com muitos daqueles ‘números’ idealizados e protagonizados pelo dr. Ventura, que irritam tanta gente, mas que, no fundo, mais não são do que o ‘eco’ de uma multidão silenciosa que, até agora impávida, mas cada dia menos serena, assiste ao definhamento e ao abastardamento de um sistema em que cada vez menos se revê.
Mas tudo na vida tem um limite. E desta vez, quando o dr. Ventura afirma alto e bom som em pleno parlamento, que o dr. Soares defendeu que os colonos portugueses deviam ser atirados aos tubarões, definitivamente o líder do Chega ‘passou o ponto’. E passou-o, porque se há coisa que o dr. Ventura não é, é estupido – muito menos néscio. Antes pelo contrário, o dr. Ventura é suficientemente inteligente para saber que, por muito que não tenha com ele privado, ou sido seu ‘contemporâneo’ político, o dr. Soares nunca diria tamanha alarvidade.
Volto a dizer que o dr. Ventura ‘passou o ponto’, algo que um político tem de ter cuidado em não fazer, sob pena de poder ‘embarcar’ numa espiral inconsequente, perigosa, e suicida, que mais tarde ou mais cedo, se virará contra si. E eu, pese embora, repito, não sendo fã do dr. Ventura, não gostaria de ouvi-lo um dia destes dar eco a mais um daqueles embustes que há mais de meio-século uns quaisquer farsantes inventaram sobre o dr. Soares – ou que ele pisara a bandeira nacional numa manifestação, ou que tinha um luxuoso e espampanante palácio em Versailles.
O dr. Ventura que me desculpe, mas às vezes já chega…