
José Paulo Fafe
Num momento em que o Brasil se aproxima de mais uma eleição presidencial, talvez valha a pena desmontar uma ideia que durante muito tempo pareceu consensual: a de que Lula da Silva continua a ser uma figura praticamente imbatível no panorama político brasileiro.
Não nos iludamos – a realidade hoje é bastante mais complexa, bem como claramente menos confortável para o presidente brasileiro. Não porque a oposição tenha revelado uma alternativa particularmente sólida, mobilizadora ou intelectualmente estruturada, nada disso, mas sim porque as crescentes dificuldades de Lula resultam sobretudo do desgaste provocado pela sua própria governação.
Longe vai o tempo do ‘Lulinha paz e amor’ que marcou os seus primeiros dois mandatos, em que soube ser conciliador, pragmático e profundamente hábil na gestão das percepções. Hoje o tempo é de um outro Lula, este mais impulsivo, mais ideológico e, em muitos momentos, excessivamente condicionado por um núcleo político e pessoal mais radicalizado.
Este Lula ‘versão Janja’, chamemos-lhe assim, mais façanhudo e quezilento, parece ter perdido parte daquela sua extraordinária capacidade de diálogo transversal que lhe permitiu, no passado, conquistar simultaneamente sindicatos, empresários, investidores internacionais e até sectores moderados da direita brasileira. Nos anos 2000, esse ‘outro Lula’ percebeu rapidamente que governar o Brasil exigia estabilidade, previsibilidade e confiança. Soube, com instinto e maestria, tranquilizar os mercados, aproximar-se dos centros decisores da finança internacional, e construir uma imagem externa de estadista global. Foi isso que lhe deu a inegável dimensão histórica que possui.
Ao invés desses tempos, o Brasil vive hoje uma sensação crescente de incerteza política, ruído institucional e tensão permanente. A economia não deslumbra, a segurança continua a preocupar milhões de brasileiros, e o discurso presidencial tornou-se mais polarizador e menos agregador. Mas o problema para Lula não é apenas eleitoral; é sobretudo um problema de narrativa. Em suma: aos olhos dos brasileiros, o presidente deixou de representar esperança moderada para passar a simbolizar um regresso ao confronto ideológico permanente.
Existe ainda outro elemento decisivo, o de Lula já não ser novidade, nem tão-pouco representar renovação. O Brasil de 2026 é muito diferente daquele que ele encontrou em 2003, existindo hoje uma nova geração de eleitores, mais desconfiada dos velhos messianismos políticos e menos disponível para aceitar lideranças sustentadas apenas pelo peso histórico ou pelo carisma pessoal.
Perguntar-se-á se Lula continua forte – claro que sim. Continua a ser um político de enorme dimensão, provavelmente, a par de Fernando Henrique Cardoso, o mais talentoso da história democrática recente do Brasil. Mas estas presidenciais que agora se aproximam podem demonstrar algo importante, que o mito da inevitabilidade lulista possa estar finalmente a desaparecer…

José Paulo Fafe
Assinala-se hoje, 29 de abril de 2026, um ano desde a primeira publicação do 24 Horas nas redes sociais. Um ano pode parecer pouco tempo na vida de um projeto de ‘media’, mas, no nosso caso, foi mais do que suficiente para provar que havia espaço — e necessidade — para saber fazer diferente.
Sem favor, nem qualquer tentação de exagero, o 24Horas afirmou-se neste ano como um projeto inovador e, em muitos aspetos, pioneiro no panorama dos ‘media’ nacional. Os números falam por si: 100 milhões de visualizações orgânicas mensais nas redes sociais, com quase 300 mil seguidores, não são apenas um indicador de alcance, são sobretudo um sinal claro de relevância, de êxito e também de credibilidade.
Num tempo em que a atenção é o ativo mais escasso, conquistar diariamente milhões de pessoas exige mais do que presença — exige consistência, qualidade e identidade.
Este crescimento não aconteceu por acaso. Resulta do trabalho de uma equipa jovem, coesa, focada e determinada, que trabalha com uma energia rara e uma ambição saudável. Mas também de uma produção experiente e cuidada, que garante que cada conteúdo publicado respeita critérios de exigência editorial e de responsabilidade. Esta combinação — juventude e experiência — é, talvez, uma das maiores forças do 24Horas.
Ao longo deste primeiro ano, sentimos de forma clara o apoio do mercado. Parceiros, marcas e instituições reconheceram valor no que estamos a construir. Esse reconhecimento não é um ponto de chegada; é um estímulo permanente. Obriga-nos a fazer melhor todos os dias, a inovar sem perder o rigor, a crescer sem perder a identidade.
Com quase cinco décadas de ligação ao setor da comunicação — que completarei em 2029 — posso afirmar com total convicção: poucos projetos me deram tanto prazer e orgulho como o 24Horas. Não apenas pelos resultados alcançados, mas pela forma como foram conquistados — com trabalho, com visão e com uma crença firme de que era possível reinventar a forma como se faz informação.
Este primeiro ano não é um fim. É, na verdade, o verdadeiro começo. E se há algo que estes 12 meses nos ensinaram, é que o futuro dos ‘media’, pese embora a descrença dos que preferem o comodismo e a ausência de rasgo, não pertence a quem resiste à mudança, mas sim a quem a sabe liderar.
*Fundador e CEO do projeto 24Horas

José Paulo Fafe
Ouvi hoje, apenas ao de leve, os tradicionais discursos do 25 de Abril na Assembleia da República. Ao de leve porque, para alguém, como eu, que considera o 25 de Abril o dia mais feliz da sua vida, ouvir o sem-fim de banalidades e lugares-comuns que se dizem de há uns tempos, todos os anos, nesta data, no mínimo provoca prolongadas e insuportáveis náuseas.
Da direita à esquerda, o que escutamos cada ano sobre o 25 de Abril é triste, confrangedor, penoso até, e antecipa o que infelizmente parece inevitável – que daqui a uns anos, à semelhança do que ocorre com as estafadas comemorações do 5 de Outubro, acabem todos, como autómatos, e a arrastar os pés, em entediantes romagens ao Largo do Carmo, e a pôr coroas de cravos vermelhos no cimo do Parque Eduardo VII,
Um dia que há 52 anos foi de festa, de alegria, de entusiasmo, e principalmente de esperança, é comemorado agora, já de há algum tempo a esta parte, de forma enfadonha, sem um pingo de imaginação, e insuportavelmente sublinhado por discursos caducos e sem chama, muitas vezes proferidos por quem, bem lá no fundo, não faz mesmo a pálida ideia do que aquele dia significou para quem o viveu.
Verdade seja dita também que, do lado de quem fez, ou melhor, dos que vivem ‘à conta’ de quem de facto fez, o 25 de Abril, o panorama não é diferente. Desaparecidos que estão as grandes figuras daquele dia, dos que souberam enquanto vivos comportarem-se de uma forma eticamente irrepreensível, e sem ceder a fáceis e equívocos deslumbres (estou a lembrar-me, por exemplo, de Vítor Alves e Melo Antunes, entre alguns outros), a data foi infelizmente ‘entregue’ a quem, à falta de outro suposto talento, insistiu em dela se apropriar e nela ‘cavalgar’ de forma tosca, nociva e contraproducente.
Sem perceberem que ‘tradição’ não tem necessariamente que ‘rimar’ com ‘banalidade’, e que ‘comemorar’ não é tão-pouco sinónimo de ‘trivialidde’, estão todos eles, sem exceção, a dar cabo da memória e da verdadeira importância histórica de uma data que valerá sempre muito mais do que mal-amanhados discursos repletos de lugares-comuns e frases feitas, que mais não são que a tradução da mediocridade e da falta de categoria que, salvo raríssimas exceções, se instalou na política e na sociedade portuguesa.

José Paulo Fafe
Permitam-me antes de mais que sublinhe aqui, em jeito de declaração de interesses, a minha condição de ‘abrilista’ na verdadeira acepção do termo. Ainda hoje, apesar dos meus 13 anos na altura, considero o 25 de Abril como o dia mais feliz da minha vida, tal a alegria e o entusiasmo com que vi meus Pais recebê-lo e festejá-lo, tal o que sinto que a data representou para o meu país que já se sentia ‘cinzento’, injusto e atrasado.
Foi graças a meus Pais, democratas sem partido, oposicionistas de sempre, gente do ’reviralho’, como se dizia na altura, que desde sempre soube o que era a Democracia, que fui educado nos seus valores e princípios, que percebi a necessidade de saber ouvir os outros, por mais distantes que politicamente possam estar de nós – tive essa sorte, não precisei, como outros, que o 25 de Abril servisse para descobrir o que era a Democracia.
Ao assistir ontem ao debate que opôs José Pacheco Pereira a André Ventura, confirmei aquilo de que suspeitava há muito, ou seja, que Pacheco Pereira é assim uma espécie de Vasco Lourenço à paisana. Assume-se como ‘dono’ de uma data que não lhe pertence, alcandora-se a ser arauto de quem nunca lho pediu, insiste em assumir no debate público um desajustado protagonismo que não lhe cabe, e não se cansa de perorar uma pobre e estafada ‘Bíblia’ que já cansa e afasta. E tal como Lourenço, essa postura desajustada, arrogante e pretensamente doutoral de Pacheco torna-se desde logo perniciosa e contrária a tudo o que o 25 de Abril poderia e deveria representar para todos.
Acresce a tudo isto que Pacheco descobriu a Democracia tarde. No dia 25 de Abril, Pacheco abominava tudo o que a representasse, entrincheirava-se nas hostes de um maoísmo tão na moda, tecendo loas ao amado líder Enver Hohxa, o ditador albanês que ideologicamente balizava os movimentos em que militava, apregoando a ditadura do proletariado e outras insanidades então tão em voga.
Tenhamos memória: Pacheco e muitos outros, hoje quase acomodados numa direita ‘fofinha’, receberam o 25 de Abril com desconfiança, fazendo até gala de se manterem numa suposta ‘clandestinidade’ a que só o 11 de Março pôs termo. Vi-os a quase todos, anos mais tarde, a ‘descobrirem’ a Democracia, a converterem-se a valores que até aí abominavam, a ‘aggiornarem-se’ através de uma oportuna ‘esquerda liberal’ e dos seus clubes de reflexão política que lhes foi mostrada por quem, mais velho do que eles, insistiu em colocá-los dentro do sistema.
Se dúvidas houvesse, ontem confirmei, repito, que, estando eu claramente do lado contrário da trincheira onde André Ventura se situa, não é certamente Pacheco que alguma vez me representará, não é a ele que eu alguma vez darei mandato para falar em meu nome. Apesar de mais novo do que ele, tive a sorte de ter desde sempre sabido o que era a Democracia, nunca tendo sido ‘seduzido’ por ideias retrógradas e totalitárias, não precisando tão-pouco de conversões tardias.
O pretenso debate de ontem caiu que nem sopa no mel a todos – à CNN, que o organizou, e que precisava daquele momento para fazer frente às audiências rivais; a Pacheco que, encapsulado há anos naquele estafado programa, e esgotada que está a novidade da sua associação memorialista, necessitava de palco e projeção; e de Ventura que mais uma vez, concordando-se, ou não, com alguns disparates com que nos brindou, aproveitou a oportunidade para, mais uma vez, ’blindar’ o seu eleitorado e dar-lhe o argumento necessário para que hoje as redes sociais sejam para ele um verdadeiro festim – um favor que Pacheco Pereira, esse ‘filho do 11 de Março’, lhe fez…

José Paulo Fafe
A crescente utilização das redes sociais pela classe política tem vindo a acentuar uma tendência preocupante: a substituição do debate estruturado por conteúdos artificiais, desenhados sobretudo para gerar ‘likes’ e partilhas.
Nos dias que correm, salvo raras exceções, de um político já não se espera uma ideia ou uma medida, mas sim um qualquer conteúdo nas redes sociais que gere ‘buzz’, por outras palavras, que cresça por si próprio, e que lhe confira o protagonismo e a popularidade que dificilmente atingirá por outros meios.
Em vez de propostas consistentes ou de uma visão ideológica clara, os políticos preferem desdobrar-se em postagens superficiais, onde a forma se sobrepõe ao conteúdo, quase sempre obedecendo a um desajustado e ridículo estilo de entretenimento digital, que mais não é, muitas vezes, do que uma ardilosa maneira de disfarçar a incapacidade de resolver os problemas e de cumprir as promessas com que se apresentaram ao eleitorado.
Esta lógica de comunicação imediata, orientada única e exclusivamente por métricas de suposta popularidade, premeia a simplificação excessiva dos temas e a volatilidade das posições políticas, e ajusta-as à ínfima atenção ‘online’, transformando a arte da política numa sucessão de ‘números’, ‘performances’ às vezes a roçar o circense, e cada vez menos comprometida com a realidade e com o que se espera de quem merece o voto dos eleitores.
Agora, nas redes, vê-se um pouco de tudo, desde um primeiro-ministro a fingir um grande à-vontade a mostrar-nos a residência oficial, enquanto atende telefonemas e muda de roupa, até um dos líderes da oposição, ofegante, armado em maratonista ou coisa que lhe valha, a perorar sobre as exigências da política – razão mais do que suficiente para percebermos que estão bem um para o outro no que respeita à falta de noção do ridículo.
E como se isso não chegasse, basta abrir os facebooks, instagrams, e tiktoks da vida para percebermos quanto tudo isto bateu no fundo – ‘post’ sim, ‘post’ não, é ver políticos, autarcas e agora até gestores transformados em supostos ‘influencers’ digitais, a protagonizar situações artificiais, tentando passar-se muitas vezes por aquilo que não são, e a privilegiar a ‘leveza’ das coisas, e a demitirem-se pura e simplesmente dos seus deveres e obrigações.
Ao optarem pelo uso excessivo das redes, agindo por impulso, preocupando-se apenas por ocupar espaço, sem mostrar qualquer preocupação quanto ao conteúdo, os nossos políticos estão a ferir ainda mais a Democracia, a contribuir para uma crescente erosão na periclitante relação de confiança com os cidadãos, transformando o espaço público num mero palco, em detrimento da reflexão e da construção de soluções para os problemas com que todos se deparam diariamente.
Isto além, claro, de mostrarem a necessidade urgente de alguém inventar um ridiculómetro…

José Paulo Fafe
Tenho acompanhado, à distância e com as preocupações sanitárias que o caso aconselha, o longo ‘folhetim’ envolvendo um vereador do Chega na câmara de Lisboa, a sua namorada e – é preciso lembrá-lo… – o edil lisboeta, como sempre pressuroso e lesto em dar às de vila diogo, sempre que as coisas apertam e o atingem.
Convém lembrar, no entanto, como tudo aquilo começou – e porque começou. A resposta invariavelmente tem um nome, o de Carlos Moedas. Foi ele, esse paradigma de uma certa chica-espertice, que, ao arrepio da lei, e necessitando do voto do vereador do Chega para aprovar o seu orçamento, nomeou quem com este compartilhava cama e lençol, sem se importar que a criatura em causa não tivesse competências (o edil deve preferir o termo ‘skills’, imagino…), formação, ou sequer obedecesse ao que os estatutos da entidade para que foi nomeada exigem.
O resto já todos sabemos. Uma reportagem televisiva veio confirmar o que se falava à boca-pequena – a ‘piquena’ era aquilo que vulgarmente se chama de impostora, e tal como se comentava, capaz de tudo – desde alugar casas ilegais a imigrantes em situação precária, a fazer-se passar pelo que não é, e até, isto viemos a perceber mais tarde, capaz de gravar conversas privadas.
Mas o melhor ainda estava para vir, quando a ‘moça’, após ter sido forçada a largar o lugar a que Moedas e o seu namorado a tinham alcandorado, teve uma espécie de tombo espiritual e, não baixando nela o espírito divino, mas sim, pasmem-se (!), alegadas preocupações de cariz ético, veio a público garantir-nos que continuará “fiel aos valores” que sempre nortearam a sua ação. Quais? Lê-se e não se acredita, relê-se e hesitamos entre rir ou chorar: “responsabilidade, integridade e compromisso com as pessoas” …
Este exemplo de descaramento e a desfaçatez que imperam na autarquia do engº Moedas leva-nos a acreditar que, mais dia, menos dia, ainda vamos ouvir aquela volumosa criatura que recentemente foi ‘de gancho’, e que também é assim uma espécie de ‘namoradinho’ – mas do regime, tal a panóplia e diversidade de ‘senhores’ a quem serviu ao longo dos anos – vir justificar-se ter metido a mão na massa nas decorações natalícias apenas e só por devoção e compromisso espiritual com Deus, Maria e os Santos, e com o propósito de fortalecer a fé e aproximar-se da vontade divina. Amen…

José Paulo Fafe
O Mário Assis Ferreira, que ontem, através da Santa Casa da Misericórdia e do seu presidente da Câmara, Cascais teve a oportunidade de homenagear, é uma daquelas pessoas especiais com quem temos a sorte de nos cruzar na vida, tal o sinónimo e exemplo de visão, bom-gosto, genialidade e grande capacidade de execução, que sempre foi.
Nos quarenta e tantos anos em que esteve à frente da Estoril-Sol, o Mário Assis Ferreira teve o talento e a arte de mostrar que um casino era muito mais do que jogo, do que um pano verde e uma roleta, do que umas fichas ou uma ‘slot machine’ – podia (e devia…) ser também o quadro, a escultura, a peça de teatro, o livro, o espetáculo musical, todas as manifestações possíveis e imaginárias na área da Cultura que um casino, no seu entender, podia (e devia, também…) albergar.
O Mário ensinou-nos, com uma elegância própria de quem tem da vida uma noção lúdica e ousada, que o sonho é parte essencial da arte de gerir, que o impossível é algo que está ali à mão, bastando para isso ‘apenas’ conjugar sonho, vontade, determinação e trabalho.
Sejamos claros: o Mário, que nunca foi de ‘se ficar’, protagonizou aquilo que, sem favor ou exagero, podemos chamar, na verdadeira aceção do termo, uma autêntica ‘revolução cultural’, tais os estilhaços que conseguiu provocar num espaço e numa lógica até aí estática, apenas virada para o puro e frio lucro – e sabendo mostrar que um casino podia afirmar-se como uma magnífica vitrine e palco do melhor que se fazia no mundo em matéria de Cultura e entretenimento.
E como o fez! Com grandiosidade a rimar com qualidade; com um irrequieto atrevimento a ‘casar’ com o requinte que lhe é peculiar; e com aquela notável capacidade de surpreender pela positiva que só os ‘eleitos’ possuem.
Não é só Cascais que deve muito ao Mário Assis Ferreira. Deve o País, devemos todos e cada um de nós. Obrigado, Mário!

José Paulo Fafe
A eficácia é porventura uma das coisas mais importantes na política – tanto para quem está no poder, como para quem está na oposição.
Para uns e para outros, a eficácia política depende da capacidade de saber definir, decidir, e avaliar o que de facto interessa às pessoas, por muito que possamos achar que este ou aquele tema é circunstancial, que não possa passar de mero ‘folclore’. É isso que muitas vezes separa quem faz política de cátedra de quem a exerce percebendo o que faz ‘mossa’ na opinião pública, o que de facto mexe com as pessoas.
Atualmente, para quem está na oposição, a eficácia na política tem mais a ver com a forma como se comunica, do que com as alternativas a apresentar neste ou naquele setor da governação. Por muito que custe aos mais ‘puristas’, e aos que têm do exercício da política uma noção de nobreza e ‘arte’, hoje tudo se resume tão simplesmente ao ‘soundbyte’, à ‘frase-efeito’, ao ‘número’ que mais atenção possa gerar na opinião, que mais ‘posts’, ‘likes’ e partilhas provoque, no fundo, que mais mexa com a cabeça das pessoas.
Vem tudo isto a propósito do que, ao longo deste fim-de-semana, ouvi aos dois principais líderes da oposição: enquanto um, o socialista José Luís Carneiro, naquele seu estilo modorrento, resolveu vir falar aos portugueses do atraso na revisão do Conceito Estratégico de Defesa Nacional, um tema que lhes deve interessar tanto como a mudança de maré no golfo da Biscaia, já André Ventura, naquele seu estilo e tom habituais, surgiu a anunciar a decisão de chamar o governador do Banco de Portugal à Assembleia da República para que este “explique” a reforma de Mário Centeno e um suposto acordo secreto que concede ao antigo ministro aquilo que o líder do Chega chama de “benefícios escandalosos”.
Alguém tem alguma dúvida sobre qual destes pronunciamentos dos dois principais dirigentes da oposição é o mais eficaz?

José Paulo Fafe
Não sei se já tiveram oportunidade de alguma vez ouvir falar de Eike Batista – acredito que sim. Algo (para não dizer muito…) excêntrico, chegou a ser o homem mais rico do Brasil, com incontáveis projetos na área do petróleo, da logística, da mineração, etc., e sabe-se lá que mais.
Personagem fascinante de um certo Brasil que, no dealbar deste século, conseguia crescer quase ao nível da China ou do Vietnam, Eike era um autêntico ‘tanque’ na persistência e entusiasmo que colocava naquilo em que se envolvia. O seu estilo era único – sedutor, carismático, ambicioso ao limite, Eike era o protótipo do ‘vendedor’ perfeito, do tipo que encantava plateias e investidores pelo mundo fora com os seus inseparáveis ‘powerpoints’, vendendo visões e projetos de grande escala, prometendo mundos e fundos, leia-se, garantindo receitas e lucros inimagináveis.
A sua imagem de ‘rei Midas brasileiro’, que as praças financeiras e a imprensa especializada durante anos atestaram e fomentaram, fazia a outra parte, ou seja, conferia-lhe uma credibilidade e uma aparente robustez financeira que levou muitos a apostarem no seu ‘universo’, e a Eike a capitalizar-se junto de investidores e banca.
Por volta de 2013, o seu império entrou em colapso com a falência da petrolífera OGX, cuja ‘débacle’ financeira provocou um efeito dominó em todo o seu grupo, estimando-se perdas a ultrapassar os 35 mil milhões de dólares, e confirmando aquilo que muitos há muito vaticinavam: as projeções irrealistas ‘garantidas’ por Eike nos seus célebres ’powerpoints’ não tinham qualquer correspondência com a realidade – eram afinal um embuste.
A esta altura, haverá alguns leitores que legitimamente se perguntarão sobre o que um brasileiro, de seu nome completo Eike Fuhrken Batista da Silva, tem a ver com o nosso ministro para a Reforma do Estado que dá título a este texto, no caso, com o inefável ministro Gonçalo Matias, de sua graça.
Poderá parecer estranho, mas Eike e Matias têm tudo em comum, são assim como uma espécie de irmãos gémeos, ainda que separados, neste caso pela distância, idade, ocupação, e várias outras especificidades. Matias, não sendo uma personagem fascinante, ou encantando plateias, também adora a exibição – quem não se recorda daquela célebre aparição na Web Summit, ou da fotografia posando de ‘boxeur’ que postou nas redes sociais?; tal como Eike, tão-pouco resiste aos malditos ‘powerpoints’, arma essencial no que toca a distorcer a realidade; e, se não chegasse já a comparação, o ‘nosso’ ministro, quando escolhido, foi apresentado como se se tratasse assim de uma espécie de sétima maravilha do mundo, capaz de levar a cabo a tarefa que lhe foi incumbida.
E quando nós portugueses, simples cidadãos, nos damos conta de que, afinal, os sucessivos anúncios de uma suposta desburocratização e reforma do Estado afinal não passam de promessas vãs, de malditos ‘powerpoints’ que pouco ou nada têm a ver com o mundo real e tudo a ver com um mundo de puras ilusões, fica difícil não chegar à conclusão, pese embora o que os separa, de que o defunto império de Eike tem tudo ver com a suposta reforma de Matias.
Se não, o que dizer quando alguém, 2 semanas depois de ter pedido online o registo criminal, ainda não o recebeu? Ou que, ao invés do que foi anunciado a sete ventos, a validade dos passaportes não passou para 10 anos no início de 2026? Ou quando percebemos que o ‘Empresa na Hora’ pura e simplesmente não funciona, e que a formalização de todos os atos necessários para constituição de uma empresa e o seu início de atividade pode, na melhor das hipóteses, demorar uns 3 ou 4 meses? E já agora, quando sabemos que uma simples certidão negativa, segundo revelou ainda recentemente o bastonário da Ordem dos Notários, pode demorar até um ano?
Eike Batista que me perdoe, mas a comparação era inevitável…

José Paulo Fafe
Quando seria expectável que, chegado a S. Bento, escolhesse Pedro Passos Coelho, de quem foi ‘cria política’, como modelo, Luís Montenegro, preferiu ter Cavaco Silva como bitola. Fê-lo claramente por cálculo político, por intuir a existência ainda de alguma ‘toxicidade’ política no antigo primeiro-ministro, mas também por receio de por ele ser condicionado no exercício do cargo.
No fundo, ao optar por Cavaco, Montenegro quis pura e simplesmente ‘matar’ o pai, ganhar as asas que muitos acreditavam ser as de Passos, conquistar a independência de pensamento que poucos lhe reconheciam, mostrar aos portugueses que possuía um caminho próprio.
Metendo o ‘passismo’ na gaveta, esconjurando o seu prócere, Montenegro quis criar urgentemente uma ‘persona’ que não aquela que os portugueses dele percecionavam. Não tendo o peso e lastro políticos suficientes para se afirmar de supetão, e contar de facto numa cena política que cada dia mais é dominada por quem foi até agora segunda-figura, Montenegro foi ‘obrigado’ a socorrer-se de um modelo de liderança que o ajudasse a afirmar-se, alguém a quem pudesse mimetizar, apanhar o jeito e o tom, e que o ajudasse a esconder as fragilidades que naturalmente possui, e consolidar-se como figura de primeiro plano.
E num partido, cuja história sempre foi feita de homens providenciais, agora que Montenegro exorcizara Passos, e com a memória do fundador Francisco Sá Carneiro ‘propriedade’ há muito de outros, apenas lhe restava Cavaco para se inspirar e eleger como arquétipo.
Foi o que fez, claro que com a óbvia e célere conivência de quem, já ‘morto’ politicamente, dez anos após ter deixado Belém sem grande honra nem glória, viu a oportunidade de poder reconciliar-se com um eleitorado que, depois de enjeitá-lo, já o esquecera.
O grande óbice de Montenegro em toda esta estratégia foi esquecer-se de algo tão simples como isto – é que não havendo já cavaquistas, sobram dentro (e fora…) do seu partido os que ainda se sentem ‘passistas’. E o ‘montenegrismo’, se é que alguma vez virá a existir, só poderá ser construído em cima do ‘passismo’. E assim, fica difícil…