
José Paulo Fafe
Luís Marques Mendes é porventura a primeira grande ‘vítima’ de uma sociedade a quem, cada vez mais, afinal, mais importa ser do que parecer, uma sociedade lesta em apontar o dedo, a julgar, e a condenar – no fundo está a ser o alvo preferencial de um escrutínio ético-moral que ele próprio sempre ‘cavalgou’ e usou como bandeira política.
Marques Mendes é hoje um homem acossado, ferido, à defesa. Ontem, no último debate televisivo que juntou todos os candidatos a Belém, a tensão de Mendes era evidente, e nem os muitos anos passados nos ‘plateaus’ televisivos ou o à-vontade que todos lhe reconhecemos à frente das câmaras foram suficientes para disfarçar o desconforto que sentia, principalmente frente a Henrique Gouveia e Melo.
Visivelmente, nas últimas duas semanas, Mendes perdeu aquilo que mais importante é numa pugna eleitoral, o saber conduzir a agenda, o liderar o debate público, o fazer os competidores ‘correr’ atrás dele. Sem discurso, limitando-se, quando as sucessivas acusações, insinuações e suspeitas lhe deixavam tempo para isso, a lançar uns lugares-comuns em jeito de ‘números’, sem que daí saísse uma única ideia sólida que fosse (aquela do jovem no Conselho de Estado é no mínimo patética…), Mendes esteve sempre mais preocupado em defender-se do que em afirmar-se, deixando-se assim enredar na teia que lhe estenderam, ficando prisioneiro de um passado recente que, por muito que o tentasse explicar, o passou a aprisionar e a manietar.
O erro de Mendes e da sua estratégia foi em grande parte assentar a sua campanha na seriedade, na questão da ética e da experiência. Quando, principalmente após o debate com Gouveia e Melo, essas mesmas seriedade e ética, as suas, foram questionadas, e quando, à defesa, se viu obrigado a justificar-se, o candidato governamental perdeu o norte, ficou sem discurso, faltou-lhe o propósito. Um erro pueril, infantil, só possível a quem julgou que bastava apenas agitar o estandarte da experiência e da seriedade para chegar a Belém.
Com uma campanha desenxabida, pobre em ideias, ‘velha’, mais a parecer que corre para uma reeleição do que para uma primeira eleição, Mendes está a ser vítima de si próprio, de uma arrogância política e intelectual que foi deitada por terra logo na primeira suspeição, e quando, com sucesso, como se de um ‘boomerang’ se tratasse, lhe conseguiram ‘colar’ o rótulo do facilitador, do homem dos jeitinhos e das negociatas – uma imagem fatal nos tempos que vivemos.
A pouco mais de dez dias das eleições de 18 de Janeiro, Luís Marques Mendes está agora sem rumo, com uma campanha desgovernada, sem rei nem roque, a aguardar um ‘milagre’ que já nem o ‘velho’ Cavaco, ou um Luís Montenegro, lhe podem oferecer. Quanto mais não seja, porque ao primeiro deles falta um peso e uma importância que julga ter, e ao segundo, preocupa mais saber como escapar aos óbvios e naturais estilhaços de uma derrota eleitoral, do que propriamente dar a mão a quem ele já antevê fora da corrida.

José Paulo Fafe
Se há uns tempos alguém me tivesse perguntado quem, neste final de ano de 2025, poderia estar a disputar o cargo de Presidente da República, estou certo de que os nomes de António Costa, António Guterres, Durão Barroso, Paulo Portas, Pedro Passos Coelho, Pedro Santana Lopes – por ordem alfabética, sublinhe-se – seriam os primeiros que eu referiria.
Penso que todos estaremos de acordo que qualquer um deles possuiria suficiente e inquestionável perfil, percurso e carisma para aspirarem a ser chefe de Estado. Gostando-se, ou não, de cada um deles, todos eles seriam naturais candidatos a Belém, sem que alguém, nem ao de leve, pusesse em causa a capacidade para exercer o cargo.
Quis o destino que nenhum, por uma ou outra razão, mostrasse disponibilidade para avançar, conduzindo-nos a este penoso cenário, onde, da direita à esquerda, um naipe de figuras de segunda e terceira linha se perfilam para vir a ocupar a mais alta magistratura da Nação, sem que algum deles nos dê à partida a garantia de exercer o cargo com aquilo que é indispensável para o exercício da função presidencial – categoria.
Ao longo desta campanha, que se arrasta penosamente há algumas semanas, temos assistido a uma autêntica enxurrada de lugares-comuns apresentados como se de pensamento político se tratasse, a um sem-fim de ‘sound bytes’ e ‘números’ artificiais e sem nexo, à ausência total de qualquer ideia para um país órfão, mas cada vez mais sequioso, de uma figura de referência.
Independentemente de um ou outro dos candidatos até poderem ser pessoas estimáveis e mesmo bem-intencionadas, o panorama é realmente confrangedor – especialmente para quem, como eu, pertence a uma geração a quem foi fácil possuir referências políticas, tal a qualidade da ‘elite’ que ‘marcou’ a nossa adolescência e juventude…

José Paulo Fafe
A minha vida confunde-se desde sempre com os jornais. Foi com eles que praticamente aprendi a ler, foi neles que comecei a trabalhar, foi com eles que tive muitas das minhas grandes alegrias e também desilusões ao longo destes anos.
Conheço-os de fio a pavio, sei, sem falsa modéstia, ‘fazê-los’ na verdadeira aceção do termo – criá-los, planeá-los, escrevê-los, até, se tal for preciso, paginá-los, e fazer as suas primeiras páginas – só me falta mesmo saber dar a indispensável ordem de marcha à rotativa.
Sou ainda do tempo, embora miúdo, do chumbo, das redações submersas em densas nuvens de fumo, das máquinas ‘azert’ ou até mesmo ‘hcesar’, e dos chefes que, de pés postos em cima da mesa, balão de whisky numa mão, e cigarro na outra, comandavam a redação ao som de berros que mais soavam como estalidos de chicote.
Lembro-me até, pasmem-se, da polémica passagem do chumbo para o ‘offset’, da figura mítica que a protagonizou, Lopes do Souto de seu nome, do início da era dos ‘ozalides’, das ‘casas da venda’, dos ardinas, dos jornais lançados quais ‘boomerangs’ de uma só viagem para as varandas, e dos tempos em que os jornais eram companhia obrigatória nas manhãs de qualquer um.
Por outro lado, infelizmente, sei bem o que muitos, de empresários a jornalistas, fizeram aos jornais ao longo destes anos; assisti à decadência do papel; ao fim de aquilo que justamente se podia considerar uma ‘arte’; à maneira incompetente como cada vez mais são dirigidos, quase sempre à ordem de agendas e interesses que nada têm a ver com o propósito de informar, muito devido à ascensão aos cargos de chefia, salvos honrosas exceções, de gente sem qualificação ou sequer pálida ideia do que é um jornal, e como fazê-lo.
Vem todo este exercício memorialista, chamemos-lhe assim, a propósito da notícia, saída há dias, sobre a iminência dos jornais poderem deixar de ser distribuídos diariamente em oito distritos. E principalmente da aparente apatia e encolher de ombros de um ministro que, dizem-me, confunde o seu desagrado pessoal com manchetes e artigos, com o dever e obrigação de contribuir para que os jornais em papel não venham a desaparecer. Deixe-se de fitas, sr. ministro Leitão Amaro – faça qualquer coisa, toca mas é a salvar os jornais!

José Paulo Fafe
Fui colega, amigo e até compadre da Constança Cunha e Sá. Conhecemo-nos na ‘velha’ Sábado, lá para finais dos anos 80, quando compartilhámos um pequeno gabinete no primeiro andar daquela vivenda do Bairro das Colónias, onde um bando de saudáveis ‘malucos’ fez aquela que foi, entre outras coisas, a primeira publicação totalmente informatizada em toda a Europa.
Lado a lado, entre computadores que, comparados com os de hoje, pareciam movidos a vapor, disquetes que chegavam a voar pela janela, muitas fúrias homéricas devido a longos textos perdidos por falta de oportunos ‘save’, e também sonoras gargalhadas, fomos construindo uma amizade, daquelas que, pese embora a distância física, se mantém através dos anos, tantas vezes graças a cumplicidades forjadas em momentos menos bons, e que subsistem inquebrantáveis muitas vezes por um ou outro telefonema, ou por algum encontro casual.
Cada um de nós percorreu, a partir daquele número 5 da Rua Newton, caminhos distintos – o que não impediu, especialmente ali por volta de meados da década de 90, de coincidirmos por essa Lisboa fora, em noitadas que muitas vezes acabavam em lautos e divertidos pequenos-almoços tomados no Hotel da Lapa, onde as longas conversas se revelavam quase sempre inconclusivas, tantas vezes por desistência da minha parte, onde era o primeiro a deitar a toalha ao chão.
Conheci bem a Constança, compartilhei com ela alegrias e tristezas, momentos melhores e piores, inseguranças, temores e certezas. Guardarei dela a imagem de alguém que, sendo muitas vezes incompreendida, tinha do mundo e dos homens uma visão muito própria – determinada e coerente, a pensar pela sua própria cabeça (coisa rara nos tempos que correm…), imune a ‘modismos’ e às supostas certezas que mais não são que simples ‘muletas’ dos medíocres que, autoinvestidos de uma sabedoria que não possuem, pululam neste mundo cada vez mais pobre e caduco.
Um beijo, ‘Charlotte’!

José Paulo Fafe
“Um debate deve ser um jogo de capoeira, não um combate de boxe, até porque o objetivo não é agredir o adversário, mas sim impressionar a plateia”
Antônio Lavareda
“Desconheço se André Ventura conhece, ou não, esta definição do brasileiro Antônio Lavareda, colaborador desta casa e um dos mais lúcidos cientistas políticos que me foi dado conhecer, sobre o que deve ser um debate televisivo. Mas bastou-me assistir às recentes prestações de Ventura para me recordar desta máxima, tão certeira, quanto oportuna.
Uma das coisas que mais me saltou à vista nos dois debates de Ventura a que assisti – um contra António José Seguro, e o outro, há dias, o que o opôs a Luís Marques Mendes – foi que o líder do Chega não comete o erro que praticamente todos os seus adversários cometem – o de querer ganhar os debates, o de querer nocautear o oponente. Para ele, isso é coisa que, sucedendo, vem por acréscimo, não é de todo o mais importante, serve quando muito para que os inúmeros comentadores que pululam por essas televisões fora se entretenham.
O que conta para ele utilizando a expressão de Lavareda, é impressionar a plateia – é isso apenas que o move. Para Ventura, mais do que ganhar um debate, o importante é ser eficaz, ou seja, ir ao encontro aos seus objetivos, seja o seu oponente quem ele for. Nos casos acima referidos, e duvido que seja diferente nos outros debates que ainda aí vêm, o objetivo de Ventura é só um – ‘blindar’ o seu eleitorado, conservá-lo, garantindo uma ida à segunda volta, o que à partida um ‘score’ eleitoral semelhante ao que o seu partido alcançou nas últimas legislativas, lhe garante.
Para isso, Ventura tem executado uma estratégia eficaz, a de ‘obrigar’ os seus adversários a debater os temas que mais lhe convêm, os temas em que ele se sente mais à vontade, e os que sabe que o seu eleitorado quer ouvir. Isso é logo meio-caminho andado para que, ao fim de cada meia-hora, saiba que cumpriu a missão que definiu à partida.
Não fazendo mesmo, muitas vezes, qualquer caso das questões que os moderadores possam introduzir, é certo e sabido que a Ventura, quando se lhe falam de alhos, não perde tempo em responder bugalhos, levando os seus adversários, até pela forma vocal como se lhes dirige, a cair num ‘jogo’ onde à partida não se sentem confortáveis e onde menos jeito e habilidade mostram.
Foi assim com Seguro, foi assim com Marques Mendes – será certamente assim com o almirante Gouveia e Melo e até com Cotrim, só para citar os adversários com quem está a disputar a primeira volta destas presidenciais.
Só para terminar: e será certamente por isso também que, além do facto dos dois debates televisivos em que participou serem os dois mais vistos até agora, foram os únicos que ultrapassaram o milhão de telespetadores.

José Paulo Fafe
Lembro-me bem de quando, há uns cinquenta anos, entrei pela primeira vez naquilo que hoje é a Assembleia da República, na altura ainda e só Constituinte. Devia ter uns 14 ou 15 anos, e sei que a palavra que melhor pode definir o que o miúdo que então eu era sentiu, não pode ser outro senão ‘fascínio’, tal o encanto e até o algum deslumbre que todo aquele ambiente me provocou.
Pertenço a uma geração em que – espantem-se os mais novos – muitos de nós chegavam, à falta de outro entretenimento, a escolher as sessões parlamentares para passar as tardes lá em cima nas galerias, encantados que estávamos com o exercício da política, com a possibilidade de ver e ouvir de perto grandes tribunos que então marcavam aqueles tempos. Era assim como uma arte, era quase como ir ao cinema – ali aprendia-se, crescia-se, de alguma maneira sentia-se o país.
A par do forte cunho litúrgico que então a Assembleia possuía, os parlamentares que então a formavam, eram na sua generalidade homens de mão cheia, muitos deles gente de primeira qualidade, dos que tinham ‘mundo’, vida, critério, propósito, mas fundamentalmente que possuíam uma forma de estar na sociedade que prestigiava a política.
Durante anos passei ali horas a fio, noitadas até, algumas delas enquanto jornalista que fui, outras – muitas – como simples ‘voyeur’, apenas pelo único e exclusivo prazer de observar de perto grandes parlamentares e oradores de exceção, verdadeiros príncipes da política. Sem preocupações ideológicas ou partidárias, lembro-me ao longo desses anos, talvez até meados da década de 90, de nomes como, por exemplo, Adelino Amaro da Costa, Francisco Lucas Pires, António Almeida Santos, Carlos Brito, Francisco Salgado Zenha, Silva Marques, José Luís Nunes, entre tantos outros.
Há dias, por razões que não vêm para o caso, tive de voltar à Assembleia da República. Talvez há mais de 20 anos que não pisava os Passos Perdidos e todos aqueles corredores que envolvem a sala do plenário. E se há uns 50 anos, foi o fascínio que marcou a minha ‘primeira vez’ naquele edifício, desta feita, chegado lá acima, bastou abrir a porta do elevador, para sentir um prolongado e desagradável bafo de angústia…

José Paulo Fafe
Não sei onde, há 50 anos, andariam os drs. Nuno Melo e Paulo Núncio, ou seja, o que hoje resta do CDS. Agora, um com 59, e outro com 57 anos, presumo-os então ainda de bibe. E se ao dr. Melo o imagino em Joane a jogar à apanhada, ao berlinde, ou a fazer corridas de carrinhos, ao dr. Núncio, a esse, estou a vê-lo, de barrete na cabeça, a citar de longe um touro imaginário, ‘ensaiando’ uma pega de caras. Imagino-os a ambos – e sublinhe-se que é natural que assim o seja – muito mais empenhados com essas normais travessuras de infância, do que propriamente preocupados com o avanço de quem não se importava de ver insaturado um regime de cariz totalitário no nosso país.
Se tivessem mais uns anitos naquele tempo, aposto que o dr. Melo e o dr. Núncio,das três, uma: ou estavam escondidos nalguma sacristia, de rabinho entre as pernas, debaixo da sotaina de algum padre; ou andavam por Copacabana; ou então, aqui ao lado, na então cosmopolita Gran Via, deliciavam-se com uns saborosos ‘churros con chocolate’. É que, salvas raras e honrosas exceções, era aí que, nos tais ‘anos da brasa’, quando os democratas combatiam os que na altura queriam ver o país virar (ainda) mais à esquerda, o CDS estava – ou escondido nalguma sacristia, ou ao sol no Rio de Janeiro, ou então a fingir que conspirava em Madrid…
Hoje, porque a história de facto dá grandes voltas, mas também porque o Partido Socialista parece ter vergonha do seu passado, e com a conivência de um PPD/PSD que, para meu espanto, talvez por lhe faltar memória, aceita ser subalternizado por um parceiro menor, o CDS, ou o que ainda resta dele, quer apropriar-se do 25 de Novembro, uma data com a qual nunca nada teve a ver, e que pertence (sem aspas) a quem, na verdadeira aceção da palavra, de facto o fez – aos militares do ‘grupo dos Nove’, aos socialistas e também aos que, no PPD/PSD, não hesitaram até em pegar em armas e sair para as ruas e estradas por esse país fora.
Quem se lembra daqueles meses, e quem assistiu à forma como despontou e atuou a resistência ao devaneio totalitário de uma certa esquerda, então tão deslumbrada, quanto irracional, sabe bem quem eram os que de facto estavam nas ‘trincheiras’ e do lado certo da História e quem eram os que, por medo e oportunismo, apenas surgiram ao lado dos vitoriosos, quando o perigo se esfumou.
Vou mais longe: quem viveu aqueles tempos, quem soube em 1975 qual era o seu lugar, consegue apesar de tudo ter mais respeito pelos que, pese embora estivessem do lado contrário, tiveram aquilo que faltou a quem se furtou à obrigação e ao dever de lutar pela Democracia – a coragem.

José Paulo Fafe
Nascido e criado no anti-salazarismo, tendo vivido a minha infância e pré-adolescência no seio de uma família claramente oposicionista, não posso, em nenhum caso, admitir que o país, tal como afirmou André Ventura, precise “não de um, mas de três Salazares”, longe disso.
Para mim, o salazarismo cheira a atraso, a mofo, a mesquinhez, a repressão. Salazar, ele próprio, representa todo o contrário dos valores em que tive a sorte de ser educado e formado – foi alguém que se recusou a entender a evolução do mundo, que teimou em manter o país e o regime de que foi prócere numa rota que inevitavelmente os levaria ao colapso político e também económico, e que ‘carrega’ alguns mortos no seio de quem se lhe opunha.
É indiscutível que a herança de Salazar foi pesada, só pode negá-lo quem opte por ver o mundo a preto e branco, quem não queira ver os desmandos de uma polícia política que muitas vezes não hesitou em matar, quem não conheça os assustadores índices de analfabetismo ou a triste taxa de mortalidade infantil, ou quem recuse entender que os custos de uma descolonização tardia se devem única e exclusivamente a uma obstinação mantida ao invés do rumo que o mundo tomou desde a década de 50
Mas reconheça-se que Salazar teve o seu tempo – isso é indiscutível. E mérito, até: equilibrou umas finanças públicas feitas em cacos; preparou e levou habilmente o país a escapar de uma Segunda Grande Guerra que destruiu a Europa; e susteve, em alguns casos, o apetite voraz dos grandes grupos económicos, condicionando a sua expansão sem regras ou travões.
Mais: Salazar granjeia até hoje, 55 anos após a sua morte, a imagem do homem sério, impoluto, avesso aos encantos do dinheiro e das prebendas e mordomias. Mesmo quem sempre se lhe opôs ferozmente e foi sua ‘vítima’, caso de Mário Soares, soube, ainda há poucos anos, reconhecer isso mesmo, que Salazar – cito – “nunca mexeu em dinheiros públicos”.
Não é por acaso que essa imagem de homem íntegro nunca descolou de Salazar, acusado de tudo e mais alguma coisa, menos, reconheça-se, de ser corrupto, de se locupletar com bens ou fundos públicos. Como também não é por acaso que há uns anos, num ‘concurso’ levado a cabo pela televisão pública em plena era democrática, o ditador foi considerado ‘o maior português de sempre’ – lembram-se?
Ao afirmar que o país precisa “não de um, mas de três Salazares”, num momento em que o país parece viver num contínuo clima de suspeição, onde todo e qualquer político é alvo e muitas vezes vítima de um escrutínio implacável e de quando em vez a passar as marcas do razoável, Ventura apenas quis habilmente aproveitar-se dessa imagem de impoluto que Salazar conseguiu granjear.
Talvez tivesse sido mais feliz se tivesse condicionado a sua frase, e lembrado o ‘outro lado’ de Salazar, leia-se a repressão do seu regime, o atraso de que foi responsável, e as culpas que o ditador possui num processo de descolonização tardio. Bastava-lhe acrescentar um ‘apesar disso’ e podem ter a certeza que a reação teria sido outra.
Ou então, invocar outro que possui igualmente a aura de homem impoluto – Cavaco Silva, esse um pouco mais abrangente em termos políticos. Era só dizer que o país precisava, não de um, mas de três cavacos. Apesar do caso BPN, é claro…

José Paulo Fafe
Há quase dez anos, estava Marcelo Rebelo de Sousa a espantar tudo e todos com um estilo que então, até por comparação com a pose seráfica do seu antecessor, surpreendia e até encantava, tive ocasião de, respondendo a uma pergunta a esse propósito que me foi colocada numa entrevista dada em Moçambique, observar que “é muito fácil passar de indispensável a insuportável”
Ao longo destes anos, não sendo adivinho, vidente, ou mesmo bruxo, raro é o dia que não me recordo dessa minha espécie de ‘profecia’, em grande parte porque também raro foi o dia em que Marcelo não protagonizou situações no mínimo tristes, em que não faltaram dislates, figuras menos dignas, trapalhices, e até mentiras.
Desconheço se o lamentável e errático comportamento de Marcelo ao longo dos seus mandatos se resumiu a uma questão de carácter, ou se foi o peso dos anos, da solidão, ou ainda da falta de quem, a seu lado, conseguisse refrear-lhe os ímpetos mais suicidas do que assassinos, que trouxe à luz do dia este ‘outro Marcelo’, infinitamente mais capaz do pior que do melhor.
Quem o conhece, sabe bem que hoje Marcelo é um homem sem ‘círculo’ – faltam-lhe a família, os amigos, os companheiros ou seguidores políticos, tudo e todos foi perdendo ao longo destes dez anos … Ao invés de Ramalho Eanes, de Mário Soares e até do esfíngico Cavaco Silva, irá deixar Belém sem glória, memória, ou breve reconhecimento que seja, sendo que à sua volta se criou um enorme, profundo e pesado vazio.
Os portugueses dificilmente terão saudades de um homem que conseguiu, com uma destreza própria de um bombeiro pirómano, destruir o seu próprio capital político – privilegiando a maledicência e a intriga quase sempre gratuita e inconsequente, e no fundo, na verdadeira aceção do termo, traindo quem nele acreditou e confiou, por duas vezes consecutivas, através do voto.
Ou seja, deixou ser ‘indispensável’ para tornar-se ‘insuportável’. E dispensável, é claro.