
José Paulo Fafe
Luís Montenegro saberá bem melhor do que eu, que na política tem, muitas vezes, de se tirar ‘coelhos da cartola’ – por outras palavras, é ‘obrigatório’ surpreender, ir contra a corrente, levar apoiantes e adversários a tirarem o chapéu, e a deixar estes últimos sem grande capacidade de reação.
A política é muito isto – ter coragem e saber surpreender no momento certo.
Não é difícil de identificar em Portugal, assim de repente, uma mão-cheia de exemplos que, gostemos ou não, nos últimos anos, souberam-no fazê-lo como ninguém: Francisco Sá Carneiro, Mário Soares, Cavaco Silva ou até mesmo Pedro Passos Coelho personificam bem essa capacidade.
Muito do legado de qualquer um deles tem a ver com isso mesmo, com a capacidade e coragem que tiveram em momentos-chave de saber quando e como decidir, sabendo surpreender com a determinação e o foco que se exige a quem lidera.
Não querendo, nem de perto, nem de longe, como se diz, ‘ensinar o pai nosso ao vigário’, dei comigo há dias a pensar a quem Luís Montenegro poderia entregar o comando (e sublinho bem essa expressão, o comando…), com prazo e mandato, da reconstrução do nosso país.
E bastou-me colocar a mim mesmo três ou quatro perguntas para chegar a uma rápida e óbvia conclusão. A primeira dessas questões, sobre quem hoje em Portugal poderia ter a capacidade e a experiência de saber liderar uma equipa multidisciplinar que rapidamente planeie e comece a trabalhar? A segunda, sobre quem teria o indispensável peso político para tamanha tarefa, incutindo o respeito (e ‘receio’) suficiente para que nenhum ministro ouse deixar de atender-lhe o telefone? Finalmente, quem teria a consideração e admiração generalizada, para não dizer unânime, de autarcas e quadros superiores do Estado?
A resposta, essa, está no título deste texto…

José Paulo Fafe
Somos um país extraordinário.
Há muito que gostamos de ser quem não somos, de adotar – sempre tardiamente, aliás… – os tiques, modismos e manias dos outros, sejam eles espanhóis, franceses, ingleses ou até americanos.
Há anos que lemos o ‘Le Monde’ sem saber patavina de francês; que comentamos o ‘Financial Times’ como se trabalhássemos na City ou em Wall Street; que falamos sobre os restaurantes da moda em Madrid sem que tenhamos posto os pés num deles sequer; ou que debatemos a política brasileira com base no que ouvimos há dias da boca da ‘manicure’, ou do motorista de Uber que apanhámos na semana passada.
É assim que somos, sempre prontos a abrir a boca de espanto com o que vem de fora, e dar pouca importância ao que é de cá – sempre, mas sempre, com aquele bacoco pavor de parecermos os provincianos que somos…
Esta terrível e assustadora tendência começa, porém, a fazer escola em todos os domínios, já não se restringe apenas, por exemplo, à tasca manhosa que virou restaurante de ‘chef’ com ‘toque’ e cozinha de espumas, ou à pensão que virou ‘boutique hotel’, chegou mesmo, agora, até à política e ao jornalismo, ainda que muitas vezes os émulos dos nossos políticos e repórteres estejam bastante mais à mão, que é como quem diz, não precisem de vir de além-fronteiras.
Ainda há poucos meses tivemos um candidato presidencial que, porventura à conta da farda e de uma postura seráfica, se julgava Eanes; convivemos, desde há dois anos a esta parte, com um primeiro-ministro que, vá lá saber-se porquê, se julga um Cavaco; e começamos agora, deliciados e sem conseguir conter o riso, a observar as imitações de ‘tâniaslaranjo’ que começam a pulular pelos nossos milhentos canais de informação, sempre prontas a abandonar o conforto do estúdio e a fazer vivos de botas ‘afogadas’ nas cheias…
Tudo isto seria divertido e até causador de galhofa, se não revelasse a perda de identidade que está a tomar conta deste país, que continua com aquela mania de pensar ser o que não é. Bastaria olhar para Lisboa, hoje governada por alguém que, coitado, de tão ridículo, não consegue sequer encontrar alguém a quem imitar, também ela a julgar-se uma metrópole cosmopolita, moderna e ‘avant garde’, mas que afinal não passa de uma capital hoje tomada de assalto por ‘modismos’ bacocos, provincianos, e que começa a arriscar-se a atrair apenas quem consegue, apesar da seu abastardamento, considerá-la ainda ‘very tipical’.
Mas o maior exemplo que vivemos num país de fingimentos, num país há muito colado em cacos, e que não é o que durante muito tempo julgou ser, é exatamente a forma como o estamos a ver ruir num ápice, fruto dos ventos e chuvas que só serão surpresa para quem anda aqui há menos de 40 anos…

José Paulo Fafe
Não sei que idade teria António Leitão Amaro em 1993, nem sei mesmo se já teria nascido. Mas partindo do princípio que sim, que já por cá andava, presumo que ainda não tivesse idade para lembrar-se do episódio que conduziu à demissão de Carlos Borrego, então ministro do Ambiente, a quem Cavaco Silva, de um momento para o outro, indicou a porta de saída do governo.
A história conta-se em duas penadas, e revela em si mesma uma forma e um jeito de governar que fez escola. Apesar das muitas tentativas de imitação ao longo dos anos por parte de quem passou pela residência de S. Bento, nunca alguém conseguiu aproximar-se, sequer ao de leve, daquilo que ficou conhecido como ‘o cavaquismo’.
Segundo constava na altura, Carlos Borrego era um discreto professor, formado no Técnico, com um doutoramento na área do Ambiente tirado em Bruxelas, e que Cavaco Silva tinha ido buscar a Aveiro, onde era vice-reitor – pessoa estimável, profissional capaz, pouco experiente politicamente, dizia-se então.
Em Junho de 1993, não estava ainda há dois anos como ministro, em Braga, onde presidia a uma cerimónia pública, Borrego resolveu contar uma anedota que, além de não ter qualquer graça, ‘brincava’ com a morte de 25 doentes hemodialisados que meses antes haviam sido vítimas de uma intoxicação por alumínio, atribuída à má qualidade da água da rede pública.
Escusado será dizer que bastaram umas breves horas para que Cavaco decretasse a ‘morte política’ do seu ministro, demitindo-o sem apelo nem agravo, e praticamente sem dar tempo e oportunidade à oposição para que pedisse a sua cabeça – foi aquilo a que normalmente se chama ‘um ar que lhe deu’…
Admito que nesta altura os leitores estarão a perguntar-se sobre o que é que esta história dos anos 90, envolvendo um ministro e uma anedota, tem a ver com Leitão Amaro, este ministro nos dias de hoje… Tem, sim, neste caso concreto, a anedota. A única diferença em tudo isto é que, enquanto Borrego foi demitido por contar uma anedota, ao ver há dias o famoso vídeo protagonizado por Leitão Amaro fiquei sem perceber porque é que este, que é, ele mesmo, uma anedota, ainda não foi demitido…

José Paulo Fafe
Não é segredo para ninguém que o grande problema que há muito persegue Nuno Melo é o de tentar, sem êxito, passar por inteligente. Ele bem que se tem esforçado, mas a coisa não é fácil, mesmo que não lhe tenham faltado as oportunidades ao longo dos anos para tentar contrariar a perceção generalizada que existe sobre as suas argúcia e sageza, predicados esses com que visivelmente o nosso ministro da Defesa não foi brindado à nascença.
E como inteligência é coisa que não se aprende, compre, ou tome em pastilhas, ao longo da sua vida pública o dr. Melo tem sido obrigado a carregar uma cruz, a de alguém ‘limitado’, ou mesmo ‘bronco’, classificação que é dada aos néscios lá para os lados de Joane.
No entanto, honra lhe seja feita, o dr. Melo tem a notável de capacidade de não nos surpreender, ou seja, é aquilo que é, e a mais, também, não é obrigado. Por outras palavras, cada vez que enfrenta um microfone ou câmara, é certo e sabido que sairá tolice, normalmente ‘embrulhada’ em pose e tom doutorais.
Como todos os estultos, o dr. Melo não tem, também, a noção do ridículo, muito menos do sentido de oportunidade. O ‘número’ que protagonizou há dois dias, ao aparecer em Vieira de Leiria à frente de um dispositivo militar que de pronto se eclipsou logo depois dos holofotes televisivos se apagarem, mostra bem a ‘massa’ de que é feito o homem a quem Luís Montenegro entregou a pasta da Defesa. Alguém que, para sublinhar a suposta prontidão do Exército na resposta à tragédia que se abateu sobre a região centro do país, resolveu informar os portugueses de que o sargento Lopes, o homem que comandava o pelotão de militares que formava atrás de si, fazia anos: “E está aqui a trabalhar, não a festejar como devia …”, rematou o dr. Melo com aquele ar de pascácio a quem invariavelmente se manda tomar juízo.
Não sei porquê, mas ao ouvi-lo, lembrei-me do ‘velho’ treinador de futebol Manuel Machado, e de uma das muitas frases que ele teve o dom de imortalizar: “Um vintém é um vintém, um cretino é um cretino”. E por aqui me fico…

José Paulo Fafe
Ontem, ao demitir-se de anunciar uma opção na segunda volta das presidenciais ainda mal estavam fechadas as urnas, Luís Montenegro errou. Não porque o PSD seja obrigado a escolher entre António José Seguro e André Ventura, nada disso – apenas porque, por uma questão de coerência e até de formalismo institucional, só poderia ter sido o conselho nacional a fazê-lo, quanto mais não seja até porque foi esse mesmo o órgão que, em Maio último, decidiu o apoio a Luís Marques Mendes.
Mas convenhamos que esta não é a primeira vez que Montenegro erra no que diz respeito à eleição presidencial. De há ano e meio a esta parte, os erros estratégicos têm-se sucedido.
Primeiro, Montenegro errou quando restringiu o apoio do seu partido a um candidato que fosse militante do partido, criando assim paulatinamente um ‘fato à medida’ para Marques Mendes, uma candidatura que só quem fosse politicamente cego admitiria não fazer surgir no espaço do centro-direita e da direita outros candidatos.
E Montenegro errou uma segunda vez quando foi afastando liminarmente hipóteses eleitoralmente mais capazes, ganhadoras até, como as que se poderiam ter perfilado na área do PSD – a de José Manuel Durão Barroso, a de Pedro Passos Coelho, e a de Pedro Santana Lopes, qualquer um deles que, sabendo contar com o apoio do partido, dificilmente voltaria as costas a um desafio desse tipo.
Agora, ao precipitar-se a declarar uma mais do que questionável neutralidade na segunda volta das presidenciais, sem que para tal tivesse sequer consultado o órgão que tinha anteriormente ‘chancelado’ a escolha de Marques Mendes, Montenegro cometeu o seu terceiro erro. E este, possivelmente ainda com consequências políticas, suficientes para poderem mesmo afetar a governabilidade e o prazo de validade do seu governo.
Por outras palavras, ao errar, Luís Montenegro entregou-se nas mãos de André Ventura e do resultado que este poderá vir a obter a 8 Fevereiro próximo..

José Paulo Fafe
Escrever sobre António José Seguro nesta campanha não é tarefa fácil, quanto mais não seja porque é difícil escrever sobre quem apostou numa estratégia onde o que sobressaiu foi um extremo cuidado em passar ao lado dos temas e das questões que importava debater e saber a opinião de cada um dos candidatos, ao ponto de escapar de dar uma opinião concreta sobre o que fosse, tudo só e apenas para não cometer o ‘pecado’ de se comprometer.
Não é segredo para ninguém que Seguro não possui aquilo a que hoje se chama densidade. Sobra-lhe em aparente simpatia o que lhe falta em consistência – é ‘leve’, sensaborão, do tipo que ‘não aquece, nem arrefece’, incapaz de despertar um leve pingo de emoção em quem quer que seja. No fundo, Seguro, a sua imagem, a pose, o discurso, tudo é ‘redondo’, não tem uma aresta que seja.
Talvez por isso mesmo, a estratégia de Seguro assentou em querer mostrar apenas que a sua grande qualidade, em termos comparativos com quem disputa com ele estas presidenciais, é ser um pouco melhor do que os outros – o que, tendo em conta o panorama que nos é apresentado para o próximo domingo, não é propriamente um grande trunfo.
Aquele seu ar atilado, o discurso velho, estafado, a fazer lembrar as romagens do 5 de Outubro, a incapacidade que tem em ‘passar’ uma única ideia interessante, permitiu-lhe, no entanto, sem mexer uma palha, e sem que ninguém desse grande coisa pela sua candidatura, ir amealhando o suficiente para que, a três dias das eleições, seja dado como certo na segunda volta.
Reconheça-se, no entanto, a Seguro a virtude da paciência. Primeiro aguentou, calado e quieto, os dez anos de esconjuramento a que foi votado dentro do seu partido; a seguir, quando as curvas do destino levaram para longe quem, sem cerimónia, o tinha empurrado para a berma da estrada, foi-se levantando como quem não quer a coisa, fazendo, pouco a pouco, o seu caminho; e finalmente, já na prática candidato, aguentou firme e aparentemente imperturbável todas as muitas tentativas que surgiram no seu próprio partido, para que a área socialista encontrasse um protagonista para a corrida a Belém que não ele.
Sem chama ou rasgo, a verdade é que ao dia de hoje Seguro está bem posicionado para passar à segunda volta, e até para disputá-la com algum aparente favoritismo. Fazendo as contas, basta-lhe que, na hora do voto, muitos daqueles seus camaradas de partido que a partir de certa altura receberam a necessária ‘carta de alforria’ e começaram a surgir ao seu lado, não se enganem e coloquem a cruz no quadrado que de facto corresponde a Seguro – e não noutro. Situação essa que, conhecendo o PS, a sua história, e os muitos desencontros que sempre por lá existiram, é algo que não seria a primeira vez que sucederia. Para bom entendedor…

José Paulo Fafe
Mandam as ‘regras’ que um dos objetivos de um candidato numa campanha é que, mesmo perdendo, saia dessa mesma campanha melhor do que entrou. É o caso de André Ventura, primeiro colocado na maioria das sondagens divulgadas até agora, e cuja campanha tem mostrado uma inteligência e um posicionamento estratégico que falta a muitas das outras.
Falemos das coisas como elas são: Ventura é candidato a Presidente da República por ‘culpa’ de João Cotrim Figueiredo. Tivesse o candidato dos liberais preferido continuar pelo Parlamento Europeu, e Ventura teria ficado confortavelmente sentado, ele e os restantes 59 deputados do Chega, na Assembleia da República, a gozar do seu estatuto de líder da oposição, e quando muito a observar com cautela a prestação de alguma figura secundária que escolhesse apenas e só para marcar presença numa pugna que a ele, e ao seu partido, pouco diria. Até porque numa segunda volta, o perfil seráfico, austero, de cortar a direito’, um pouco ‘à chega’, do almirante, com aquela pose e estilo de quem quer pôr tudo na ordem, permitiria a Ventura cavalgar aquilo que se antevia como uma mais do que previsível vitória de Gouveia e Melo.
Mas perante o surgimento da candidatura de Cotrim, que o obrigou a entrar na competição direta, Ventura rapidamente conseguiu refazer a sua estratégia: primeiro, insistiu naquele discurso habitual, agressivo, belicoso, e de confronto, ‘blindando’ aparentemente o seu eleitorado, impedindo as fugas para outros candidatos à direita (a sua prestação no debate que o opôs a Catarina Martins é um exemplo disso mesmo) – o que, dada a atomização existente, lhe terá assegurado, aparentemente, a passagem à segunda volta; depois, numa segunda fase, e já moderando o tom e o estilo, partiu em busca de franjas do eleitorado que podem vir a constituir uma espécie de ‘almofada’ numa disputa que no próximo domingo se antevê a quatro. Mais: mesmo sabendo que dificilmente ganhará a qualquer dos seus possíveis adversários numa segunda volta, Ventura precisa, até para o seu futuro político, reduzir o seu elevado nível de rejeição, que as sondagens estimam em 70 por cento – e essa moderação mostrada nas últimas duas semanas poderá contribuir de facto para diminuir esse mesmo índice.
É isso que lhe vai permitir, mais do que ganhar qualquer eleição presidencial, afirmar a liderança da oposição, que formalmente já lhe pertence, amealhar o maior número de votos possível numa mais do que provável segunda volta, e partir definitivamente para a conquista do poder, afirmando-se de facto como alternativa ao próprio Luís Montenegro, que nas últimas legislativas recolheu – anote-se… – 2 milhões de votos.

José Paulo Fafe
A situação de perda com que se debate a candidatura de Luís Marques Mendes, enredada que está numa teia que a tolhe e manieta, permitiu a João Cotrim Figueiredo ser neste momento o candidato presidencial que maior margem de crescimento possui até ao próximo dia 18 de Janeiro. E, se conseguir manter a dinâmica de uma campanha diferente, poderá vir a ‘obrigar’ Luís Montenegro e o PSD, à boa maneira de Cunhal, a ‘engolir o sapo’ na segunda volta.
A liderar claramente ao dia de hoje o espaço do centro-direita, tanto em termos de intenções de voto como, ainda que sem uma ideia, a própria agenda política, Cotrim Figueiredo caiu no goto de um certo eleitorado, principalmente daqueles para quem, mesmo dentro do PSD, Mendes nunca passou de um ‘mal menor’, mas também de faixas do eleitorado para quem a política até agora nada disse ou representa.
No fundo, Cotrim é aquilo que se pode chamar o candidato dos tempos modernos, é o ‘espelho’ e intérprete mais fiel da sociedade ‘levezinha’ em que vivemos, onde tudo é tratado pela rama, e onde o que conta é, mais do que o conteúdo, apenas e só a forma.
É ali que Cotrim se move como peixe dentro de água – sem uma única ideia digna desse nome, alicerçando a sua campanha numa infinita série de banalidades ditas com um ar ‘blasé’, com a campanha toda ela assente nas redes sociais, onde se sucedem nada mais que ‘sketchs’ que pouco ou nada adiantam sobre o que poderá ser o seu entendimento da função presidencial. Pobre de pensamento, tudo para ele, por mais sério que seja, serve para fazer um ‘número’: o mundo de Cotrim resume-se às visualizações, aos ‘likes’ e às partilhas. No fundo, é aquilo a que se chama ‘um género’…
Mas isso, o que aparentemente poderia ser visto como uma fraqueza, é afinal a principal força de Cotrim, até porque uma importante faixa do eleitorado – os jovens – julga finalmente ter encontrado alguém com quem se identifica e que aparentemente consegue sair de um certo estilo bafiento e deprimente de fazer política.
Mas Cotrim foi também, mais do que qualquer outro, o principal beneficiário do desgaste a que Gouveia e Melo sujeitou Marques Mendes no debate de 22 de Dezembro. O que, somado à estratégia, às vezes quase oportunista, de ‘colar-se’ a um Pedro Passos Coelho ostensiva e propositadamente silencioso, bem como à dinâmica de uma campanha que, pese embora o ‘gap’ de 40 anos que as separa, faz de quando em quando lembrar a de Freitas do Amaral em 1986, contribuíram para que um até há pouco inexpressivo, para não dizer politicamente insignificante Cotrim, se afirme como o candidato do centro-direita mais bem-colocado para disputar a segunda volta das presidenciais deste ano.

José Paulo Fafe
Com os eleitorados naturais a aconchegarem-se, com maior ou menor dificuldade, aos candidatos presidenciais com carimbo partidário, resta agora a Henrique Gouveia e Melo, outrora favorito nesta corrida para Belém, tentar encontrar espaço para crescer os 3 ou 4 por cento que lhe faltam para garantir a passagem à segunda volta.
Não é uma missão impossível, mas requer tato e determinação da parte de quem não pode, a nenhum preço, afugentar um único voto que seja naquela imensa transversalidade de apoios que é a sua base eleitoral – um amplo espaço onde ex-comunistas convivem alegremente com conservadores e onde social-democratas e socialistas passeiam de braço dado. Se apresenta vantagens, essa transversalidade acarreta igualmente riscos, forjada que foi à volta de um candidato que, por teimosia ou inabilidade, nunca privilegiou o posicionamento político, apostando mais na pose e no estilo do que em qualquer outra coisa.
Mas onde poderá Gouveia e Melo ir buscar aqueles 3 ou 4 por cento que lhe possibilitem a presença na finalíssima?
Antes de mais, na abstenção – uma massa ainda significativa de votantes que, até 18 de janeiro, poderá ainda ser cativada por um discurso forte e convincente. Mas não só…
Sejamos claros: com os territórios do centro-direita, do centro-esquerda e da esquerda pura-e-dura ‘ocupados’, resta a Gouveia e Melo investir num eleitorado mais volátil à direita e que tem constituído a base de apoio de André Ventura: um eleitorado não ideológico que, embora emocionalmente aberto a ruturas, comporta também franjas mais racionais, mais esclarecidas e mais recetivas à eterna tese do voto útil, sabendo-se que o voto em Ventura é apenas uma afirmação de protesto e não terá seguimento prático no que a Belém diz respeito. Não lhe resta outra alternativa. É ali, só ali, nesse eleitorado sem compromisso ideológico fixo, que Gouveia e Melo poderá ainda crescer, desde que saiba encontrar e explorar as brechas que sempre existem em cenários que, por mais sólidos e estáveis que aparentem estar, não deixam de possuir fragilidades e pontos de ataque.
Neste eleitorado não-ideológico, que vive paredes-meias com o eleitorado desiludido que engorda a abstenção, poderá Gouveia e Melo encontrar aquele pequeno impulso que lhe falta para não “morrer na praia”.
Cabe agora ao almirante explorar o que é hoje a maior fragilidade de Ventura, leia-se, o seu elevado nível de rejeição (uma taxa que as sondagens nos dizem ultrapassar os 70 por cento), e que não é segredo para a sua base eleitoral, que a conhece e identifica como o principal ‘ponto fraco’. Uma fragilidade que pode, desde que aproveitada com ‘pinças’, justificar o argumento do ‘voto útil’, especialmente junto quem sabe que em nenhum dos quatro cenários ainda admissíveis para a segunda volta o líder do Chega terá alguma vez a hipótese de ser eleito Presidente da República.
Mais: este eleitorado, consciente de que não verá Ventura chegar a Belém, quer sobretudo vê-lo chegar a S. Bento como primeiro-ministro – tanto mais que, na hipótese remotíssima de uma eleição presidencial, esta representaria inevitavelmente o fim desse sonho e conduziria a uma previsível ‘débacle’ do “projeto Chega”, que ficaria assim amputado de uma liderança forte, carismática e essencial.
A chance de Gouveia e Melo neste momento é centrar a sua estratégia nesse ‘flirt’ à direita e junto do eleitorado abstencionista, afirmando-se cada vez mais como independente, descolando inteligentemente de algumas posições que, talvez por falta de jeito, foi assumindo ao longo dos últimos meses, e enfrentando André Ventura, afirmando-se como sendo de facto o único candidato de fora do sistema vicioso dos partidos e o único com capacidade para afirmar em Belém valores como a ordem, a autoridade e a segurança num momento particularmente delicado da vida mundial.
A grande dúvida é se Gouveia e Melo terá talento para o fazer e, também, se ainda irá a tempo…