
Carlos Reis
O Natal, mais do que uma data do calendário, é um marco civilizacional. Representa uma herança espiritual, cultural e simbólica que moldou a Europa durante séculos.
O seu progressivo esvaziamento do espaço público não é um acaso nem um simples reflexo da secularização. É um sintoma de algo mais profundo e inquietante:
Em nome de uma ideia distorcida de inclusão, multiplicam-se decisões que apagam referências cristãs, substituem símbolos históricos por neutralidades artificiais e tratam a tradição maioritária como um embaraço a esconder.
Entre nós, os idiotas úteis, sempre reconfortados pelo silêncio imbecil dos cobardes, começam já a antever a oportunidade de interditar o Natal no espaço público e nas instituições.
É o caso de uma junta de freguesia em Lisboa (Arroios) que assim que mudou de composição política (liderada agora pela coligação da esquerda radical com o PS) decidiu transformar o tradicional Mercado de Natal em “Mercado Comunitário de Inverno”, assim procurando eliminar o Natal da esfera pública.
Pior ainda, um Agrupamento Escolar em Pinhal Novo, Palmela, proibiu os cenários de Natal nas fotografias das crianças.
Estas e outras decisões foram tomadas pela calada e de sopetão, sem participação da população, num caso, ou dos pais das crianças, no outro.
Contando sempre com a indiferença do comentariado e dos referentes da Opinião Pública.
Mas o que os idiotas úteis não entendem é que, ao contrário do que justificam, esta autolimitação não nasce de um diálogo genuíno entre culturas, mas da pressão de minorias cada vez mais vocais, que aprenderam a usar a linguagem dos direitos, para condicionar o espaço comum.
O resultado não é coexistência, mas assimetria: uma cultura que se cala para não ofender, enquanto outras se afirmam em crescendo, e sem pudor.
Defender o Natal não é atacar ninguém.
Pelo contrário, defender o Natal é afirmar que a tolerância não pode ser construída sobre a renúncia unilateral. Porque uma sociedade que abdica dos seus símbolos fundadores perde o fio da sua narrativa coletiva e abre espaço ao vazio identitário, facilmente preenchido pelo ressentimento, móbil dos radicalismos.
A diversidade verdadeira exige raízes firmes, não uma planície cultural rasa onde tudo é permitido, exceto aquilo que nos trouxe até aqui.
Basta olhar para Londres, Berlim, Bruxelas e tantas cidades ocidentais, e olharmos para o que lá se passa, para assistirmos a um verdadeiro terrorismo de rua contra o Natal.
Este é o ponto a que nós, europeus, estamos a chegar: em lugar do Natal, a Jihad, em lugar do presépio, as bandeiras da Palestina e do Hamas, em lugar dos cânticos, a invasão de manifestações ruidosas.
A defesa da nossa civilização faz-se agora. Faz-se aqui, na nossa Europa.
Se a Europa deixar de reconhecer o Natal como parte legítima da sua identidade, não estará a ser mais aberta. Pelo contrário, estará apenas a confessar, perante o Mundo, a sua decadência e fragilidade.
Uma decadência que os outros leem como medo, irmão da vergonha.
E uma civilização que tem vergonha de si própria dificilmente conseguirá defender os valores que diz querer proteger.
Não nos tirem o Natal!

Carlos Reis
A recente Greve Geral voltou a expor fraturas profundas na sociedade, algumas antigas, outras agravadas pelo contexto económico e político atual.
Por um lado, esta Greve Geral corresponde a uma tradição enraizada da nossa Democracia, fruto da influência conservadora e retrógrada, embora a esvair-se ao longo dos anos, do Partido Comunista no mundo laboral.
Basta referir que das 11 greves gerais realizadas na nossa Democracia, 9 delas foram convocadas contra governos liderados pelo PSD. Aliás, com excepção dos breves governos liderados por Francisco Sá Carneiro e Pedro Santana Lopes, todos os primeiros ministros do PSD tiveram de enfrentar greves gerais (Francisco Pinto Balsemão, Aníbal Cavaco Silva, José Manuel Durão Barroso e Pedro Passos Coelho).
Em contraste, nos oito anos de costismo socialista não houve uma única Greve Geral.
Uma parcialidade evidente de atuação das centrais sindicais.
Mas há uma outra fractura na sociedade portuguesa, mais nefasta do que a fractura esquerda/direita:
No setor público a adesão foi amplamente mediática, e impactante ao nível da impossibilitação prática de muitos, que querendo trabalhar, não o puderam fazer, por não terem forma de se deslocar para o trabalho.
A este respeito importa denunciar que a politização recorrente da actividade das empresas de transportes constitui, cada vez mais, um obstáculo para a liberdade dos seus utentes, na maioria trabalhadores.
Nenhum país pode deixar-se capturar por qualquer força organizada de bloqueio. Mas entre nós, a persistência deste problema no nosso país é também um sintoma de ineficiência e de injustiça real no funcionamento da nossa democracia.
Já no setor privado a participação na Greve Geral foi mais difusa e quase irrelevante em termos de alcance económico.
O país, grosso modo, funcionou.
Esta assimetria entre público e privado levanta assim uma questão central: pode uma greve geral cumprir plenamente o seu suposto papel quando as realidades são tão distintas e os interesses nem sempre são convergentes?
Nesta greve tivemos mesmo o paradoxo de a clara maioria dos grevistas serem aqueles a quem a reforma laboral contestada se não irá aplicar.
Acresce a isto uma politização excessiva de um debate que, paradoxalmente, ainda não teve início formal no espaço próprio da Concertação Social.
Antes mesmo de qualquer análise aprofundada em sede de concertação social, posições rígidas foram cristalizadas no espaço público, transformando um tema complexo num confronto essencialmente partidário, onde os partidos de esquerda querem recuperar agora nos piquetes tudo o que perderam nas urnas de voto.
Mas isto prejudica todos.
Este ruído político não só dificulta soluções equilibradas como fragiliza os próprios mecanismos de diálogo social, que deveriam ser o primeiro instrumento para discutir reformas estruturais, salários e condições de trabalho.
Tudo isto ocorre num momento particularmente exigente para as economias europeias. A desaceleração do crescimento, a pressão inflacionista persistente, o envelhecimento demográfico e a necessidade imperiosa das transições energética e digital colocam desafios sem precedentes a todos os países europeus.
Responder a estes problemas exige coesão social, confiança institucional e capacidade de compromisso.
As greves são direitos e instrumentos legítimos de reivindicação, mas perdem eficácia quando se tornam substitutos do diálogo ou quando aprofundam divisões já existentes.
Num contexto europeu particularmente frágil, mais do que slogans ou trincheiras políticas, impõe-se um debate sério, informado e inclusivo sobre o futuro do trabalho e da economia.
E não serão greves parciais, ditas gerais, que resolverão o desafio do crescimento económico, dos salários e rendimentos.

Carlos Reis
As eleições presidenciais portuguesas chegam num momento decisivo, mas a pré-campanha e os debates têm deixado um sentimento de desilusão. Num tempo que exige clareza, visão estratégica e coragem política, assistimos a tácticas, micro-polémicas e discussões estéreis.
Falta ao debate público a profundidade necessária para enfrentar um país que, nos próximos cinco a dez anos, terá de se reposicionar num mundo em rápida mutação.
Os debates (que constituem o principal meio de campanha) em vez de iluminarem o país, revelaram, até aqui, demasiados candidatos presos a frases feitas, enredados por moderadores viciados em tricas sem visão.
Num tempo em que Portugal precisa de clareza e coragem intelectual, recebe, na maioria dos casos, teatro político de baixa intensidade.
Nesse sentido, o assassinato de Francisco Sá Carneiro, de que assinalámos 45 anos, veio assinalar uma ironia cada vez mais taciturna, sempre que nos exasperamos com a lentidão do país que queremos ser.
Entretanto, o mundo move-se depressa. A nova estratégia geopolítica americana, que pressiona a Europa a assumir responsabilidade pela sua segurança e estabilidade, anuncia um tempo de convulsão.
Isto obriga Portugal a repensar prioridades.
Se os actuais governos democráticos europeus mais influentes enfrentarem, já a partir do próximo ano, uma queda em estilo dominó — cenário delirante há meia dúzia anos, mas agora cada vez mais angustiante, quanto mais se vai tornando plausível — a margem de manobra nacional poderá encolher, exigindo, portanto, um Presidente capaz de interpretar o momento e agir como âncora constitucional de estabilidade.
Vivemos num momento colectivo em que precisamos de clareza estratégica.
E é precisamente aqui que a escolha do Presidente ganha importância acrescida: – um Presidente que incentive, mas que deixe o Governo governar, que não confunda influência com intriga, que não se preste a exercícios vácuos de ociosa vaidade pessoal, que não dissolva legislaturas ao ritmo destes últimos anos, que seja respeitado dando-se ao respeito.
Em suma, um Presidente preparado e com noção firme e clara dos interesses nacionais.
Portugal terá de lidar nos próximos anos com desafios estruturais: modernização económica, deter a pressão migratória, responder ao declínio demográfico, disputar a competitividade tecnológica, assegurar a sustentabilidade energética e reconstruir a confiança num sistema político fatigado.
Perante este futuro incerto, o papel do próximo Presidente é mesmo decisivo.
Por isso estas eleições deveriam ser um debate sobre o futuro de Portugal e não um concurso de candidatos a prémio-carreira.
O país merece — e precisa — de alguém que compreenda o momento histórico e que tenha ambição para Portugal. Não apenas ambição para si.

Carlos Reis
As comemorações do 1.º de Dezembro, dia da Restauração da Independência, voltam todos os anos como um lembrete silencioso de que a soberania nunca está definitivamente garantida.
Em 1640, a coragem de um grupo de conjurados, um punhado de nobres patriotas, que tudo arriscaram num único lance contra a maior potência imperial do mundo, naquele tempo, prevaleceu contra todas as probabilidades.
Arriscaram as suas vidas, as suas fortunas e a continuidade das suas famílias e também a sua honra, que geralmente é negada aos vencidos.
Mas um lance decidido e certeiro fez devolver a Portugal a autonomia soberana, perdida durante os sessenta anos da União Ibérica.
Um lance que depois do triunfo inicial, teve de ser continuado e confirmado por 28 anos de guerra, por uma arguta política diplomática, por bons governos, e acima de tudo, por muitos sacrifícios do povo.
Não foi fácil.
Hoje, porém, a defesa da independência nacional já não se faz com espadas nem barricadas, nem há império a defender perante as outras potências. Mas faz-se com lucidez estratégica, coesão social, instituições fortes, e capacidade de antecipar riscos num mundo cada vez mais volátil.
Celebrar esta data não deve limitar-se a mais um feriado em tempos adventícios ou a um ritual cívico discreto na Praça dos Restauradores, em Lisboa.
Este deve ser um momento para refletirmos sobre que independência queremos preservar: a económica, a energética, a digital, a militar, e, acima de tudo, a independência de decisão.
Portugal está integrado em alianças e estruturas internacionais que lhe conferem segurança e prosperidade, mas essa integração não pode significar passividade. Num tempo de pressões geopolíticas, guerras híbridas e dependências externas crescentes, um país médio precisa de estratégia, não de resignação.
A melhor defesa da independência hoje passa por diversificar parceiros, fortalecer a capacidade produtiva interna, proteger infraestruturas críticas, investir na cibersegurança e reforçar a literacia democrática.
E passa também por garantir que o debate público é plural, informado e imune a manipulações externas.
O 1.º de Dezembro recorda-nos que a independência foi conquistada porque alguém ousou querer um país autónomo com o seu próprio Chefe de Estado, e agir em consequência.
Honrar essa herança exige que, coletivamente, não deixemos de questionar se estamos a proteger o nosso futuro com a mesma determinação.
As eleições presidenciais são precisamente o momento mais adequado para pensarmos e decidir em conformidade sobre qual dos presentes candidatos estará mais apto a exercer a chefia do Estado, a garantir o funcionamento regular das instituições democráticas e o comando supremo das Forças Armadas.
Quem, de todos os candidatos, melhor saberá dar corpo ao nosso projecto quase milenar de subsistência de Portugal como nação independente?
Porque essa decisão cabe-nos a nós. Porque a soberania não se celebra apenas – constrói-se, pelas nossas decisões, todos os dias.
Celebramos, com inteira justiça, a coragem e patriotismo dos nossos egrégios avós. Mas temos de decidir agora, no nosso tempo, se queremos e como queremos continuar Portugal, e quem deve representar esse desígnio colectivo.

Carlos Reis
A recente “proposta de paz” para a Ucrânia apresentada por Donald Trump ao presidente ucraniano não merece ser tratada como genuína oferta de reconciliação, mas antes como um plano de capitulação da Ucrânia. Tal como têm sublinhado críticos credíveis, o documento — conhecido como o plano de 28 pontos — impõe à Ucrânia concessões drásticas: a cedência de território (inclusive de áreas não conquistadas pelos russos no terreno), o desarmamento parcial, e a recusa da adesão à NATO.
Isto não é propriamente um “plano de paz”, mas sim a formalização da rendição da Ucrânia perante a invasão russa.
São assim acolhidas e propostas pela administração norte-americana as pretensões da Rússia.
Ao propor reconhecer no papel mudanças territoriais e limitar a soberania ucraniana, os americanos não só se afastam das suas próprias responsabilidades de garantes da paz e segurança da Europa como igualmente repudiam mais de três anos de esforço heroico de um povo que lutou bravamente pela sua nação.
Passa a valer na Europa a Lei do Mais Forte. Um novo quadro geopolítico que destrói a ordem definida pelo pós-Guerra e a substitui pelo possível caos de todos os irredentismos, a partir de agora reconstituídos como legítimos, e cuja materialização apenas dependerá da força e vontade de cada um.
É igualmente um golpe na NATO e na sua capacidade de dissuasão, assente no empenhamento visível e credível da sua principal potência em defender qualquer um dos seus aliados.
Ao aceitar-se a proibição ou a limitação a presença de tropas da NATO na Ucrânia, esta deixa de ter quaisquer garantias de segurança, transferindo para a Ucrânia o ónus maior da paz, consubstanciado na sua mutilação territorial e na imposta limitação da sua soberania.
Finalmente, a Europa foi ignorada — ou colocada de lado — nesta iniciativa. A voz dos aliados europeus não parece ter sido integrada na génese do plano e, conforme analistas, o documento reduz o papel europeu ao de mero espectador. O que significa que a Europa verá a sua soberania estratégica e o seu papel geopolítico marginalizado: a paz para a Ucrânia transforma-se numa negociação entre EUA e Rússia, com a Europa à espera, à porta.
O que deve fazer então a Europa?
Em primeiro lugar, ser coerente com as suas proclamações. Porque de nada servirá reafirmar que a paz digna da Ucrânia deverá passar pela plena soberania, integridade territorial e respectiva capacidade de defesa, se as suas principais potências militares e económicas não estiverem disponíveis para continuar (e reforçar) a sua assistência militar e financeira, inclusive com a possibilidade de apoio directo no terreno.
Em segundo lugar, a Europa deve construir um mecanismo autónomo de segurança e defesa em relação ao flanco oriental: a União Europeia terá de reforçar as suas instituições, intensificar a cooperação militar dos seus membros, formalizando-se também numa aliança militar defensiva e não esperar apenas pelos EUA.
Em terceiro lugar, a Europa deve falar claro e defender também diplomaticamente a Ucrânia, rejeitando desde já os termos que lhe foram impostos.
Porque se a União Europeia e os seus Estados-membros aceitarem ficar à margem enquanto outras potências redesenham o mapa da Europa, estarão a comprometer não só a Ucrânia, mas a própria segurança europeia.
A Europa deve recuperar a iniciativa — antes que perca de vez.
Porque a Paz não será legítima se for sinónimo de rendição.
Quo vadis, Europa?

Carlos Reis
Esta semana assinala-se o Dia Mundial da Televisão (21 de novembro) proclamado pela ONU em 1996 para refletir sobre o papel central da televisão na comunicação e na globalização.
Será por isso oportuno refletir sobre a crise de credibilidade e de identidade que atravessam os media audiovisuais tradicionais nas democracias ocidentais.
Assistimos agora estupefactos ao abalo sísmico na BBC, que constituiu durante décadas a referência universal de rigor e credibilidade.
De facto, quando uma das mais importantes e simbólicas instituições britânicas é desmascarada a falsificar um discurso político de um chefe de estado, e uma jornalista que confirma um caso de perseguição e de condicionamento após ter corrigido em directo um teleponto que noticiava que “pessoas” que tinham engravidado, narrando em vez disso que as mulheres que tinham engravidado (o que a transformou aos olhos das chefias em adversária da comunidade trans) é fácil concluir-se que a BBC se tornou num instrumento anti-liberal e anti-verdade.
O que nem as subsequentes demissões das chefias da BBC resolveram, pois a responsabilidade (até mesmo a cumplicidade) radica no próprio colectivo da redação e da equipa editorial, percebendo-se que é o próprio edifício democrático, muito alicerçado no “quarto poder”, que está infiltrado pela doença woke.
Com efeito é inteiramente legítimo que se observe a crise da BBC como a confirmação de um problema mais global, severo e profundo: as redações dos media ocidentais mais influentes deixaram-se capturar por agendas ideológicas, a um ponto tão descarado que compromete irremediavelmente a confiança dos públicos.
Sejamos claros: a televisão pública não pode ser militante.
A sua força (que é igualmente a sua justificação) reside na neutralidade institucional, na sobriedade, na representação plural das vozes e na abertura do debate democrático. Por isso quando os cidadãos passam a desconfiar do enquadramento editorial — seja por excesso de zelo político, seja por activismo interno — o serviço público perde o seu propósito.
E Portugal não está imune a esta deriva.
A RTP, enquanto operador financiado por todos, tem uma responsabilidade acrescida: evitar que a perceção de enviesamento se consolide em desconfiança estrutural.
Sem ser preciso recuar ao tenebroso tempo dos governos Sócrates, e da sua tentativa de captura do Estado de Direito, basta confirmar, nos últimos anos, vários episódios de controvérsia na gestão editorial, inúmeras e justificadas críticas de falta de pluralismo, e a evidência de novas e impostas invisibilidades em substituição das antigas e outrora persistentes.
Por isso, hoje, mais do que nunca, a RTP necessita de reforçar padrões de transparência, escrutínio e rigor.
A televisão pública deve ser um espaço de confiança, e não de disputa ideológica.
O caso da BBC serve de aviso: reputações construídas ao longo de gerações podem ruir num instante.
Não acrescentemos por isso a outros problemas existentes de natureza estrutural, criados em função da evolução tecnológica e de novas necessidades dos púbicos, mais problemas conjunturais gerados pelos ativismos e pelas militâncias.
Porque sem credibilidade e rigor nem os britânicos têm de sustentar a BBC nem nós teremos de pagar a RTP.

Carlos Reis
A vitória de Zohran Mamdani nas eleições locais de Nova Iorque reacendeu entusiasmos na esquerda radical portuguesa.
Pedro Nuno Santos e a sua entourage, Mariana Mortágua e Catarina Martins, a cúpula do Livre, e até um desorientado José Luís Carneiro, vieram saudar a eleição do novo Mayor da capital do capitalismo como a nova lança sagrada de São Jorge que ao serviço do socialismo, mata o capitalismo odioso que nos submerge à escala global.
Muitos apressaram-se a celebrar o feito como sinal de uma viragem progressista nos Estados Unidos, como se o socialismo de bairro de Queens pudesse anunciar uma nova era política global.
Mas essa leitura apressada é mais um reflexo do desejo do que da realidade.
Mamdani, filho de imigrantes ugandeses, é uma figura notável — carismático, articulado, idealista e com um discurso que mistura justiça social, igualdade racial e políticas públicas assistenciais de proximidade.
No entanto, a sua vitória não traduz uma vaga nacional. É um fenómeno local, moldado por uma conjugação rara de fatores: uma circunscrição profundamente liberal, os dois últimos presidentes de câmara (democratas)terem sido uma desilusão e terminarem de forma péssima os seus mandatos, com o velho establishment desacreditado, e uma organização de base da candidatura muito disciplinada e um eleitorado urbano jovem, descontente e diverso. Em suma, o contexto ideal para um candidato à esquerda do Partido Democrata poder prevalecer.
Mas fora desse ambiente, a América é outra. Num país onde Donald Trump impera sem rival, e onde a insegurança económica alimenta o populismo de direita, o discurso de Mamdani — por mais inspirador que seja — está longe de encontrar terreno fértil.
A política norte-americana continua a ser dominada pelo medo, pela polarização e por um sistema que favorece o centro pragmático ou a retórica autoritária à direita, não as experiências socialistas de esquerda radical.
A esquerda portuguesa, fascinada com cada lampejo de sucesso progressista nos EUA, esquece-se de que o caso Mamdani é a exceção, não o prenúncio de uma nova norma.
Confundir um sinal local com uma tendência global é um erro de análise e, pior, de estratégia.
Em política, as vitórias simbólicas inspiram — mas só as vitórias estruturais transformam.

Carlos Reis
A anunciada saída de Mariana Mortágua da coordenação do Bloco de Esquerda (BE) simboliza mais do que a simples mudança de liderança: é o retrato do esgotamento de um projeto político que fenece irreversivelmente perante os nossos olhos.
O BE, outrora força vibrante e criativa da esquerda radical portuguesa, vive hoje o pior momento da sua história.
A sucessão de derrotas eleitorais, o afastamento do eleitorado urbano jovem que em tempos o seguia e admirava, e a incapacidade de se renovar perante a emergência de outras forças concorrentes e mais sedutoras para o seu eleitorado (o Livre, por exemplo) traçaram ao Bloco o bloqueio presente.
E o caminho futuro do BE parece mesmo ser o da sua absorção pelo Partido Socialista (se não orgânica, pelo menos eleitoral), logo que se complete a corbynização do PS e a consequente e definitiva tomada de controlo pelas suas gerações X e Millennial.
O BE é hoje um resquício em crise profunda — ideológica, estratégica e até emocional.
Mariana Mortágua assumiu o comando com o difícil legado de Catarina Martins, tentando equilibrar a herança de combatividade com uma imagem de competência, serenidade e maior alinhamento com a agenda woke. No entanto, o contexto para Mariana já era muito adverso: o “geringonçismo” deixou o Bloco preso entre a irrelevância parlamentar e a desconfiança de quem já só o vê como mero apêndice do PS. O eleitorado de protesto migrou para novas expressões — à direita e à esquerda — enquanto o discurso do BE se fechava cada vez mais num vocabulário identitário, distante das preocupações imediatas da maioria dos portugueses.
Acrescendo à exiguidade eleitoral das causas feministas, LGBTQIA e + variantes do abecedário, antirracistas e ambientais, a figura pouco empática e ressentida de Mariana.
O país enfrenta desafios estruturais deixados pelo socialismo — baixos salários, habitação inacessível, declínio demográfico, um SNS em crise, um Estado inchado e ineficiente — e o Bloco afunda-se na sua incapacidade política.
A verdade é que a retórica da “interseccionalidade” não paga rendas nem garante empregos.
Mariana Mortágua sai assim num momento em que o partido se encontra sem rumo e sem identidade, paradoxalmente vítima do próprio identitarismo que o consumiu.
O Bloco, que nasceu para dar voz aos sem voz, arrisca-se agora a falar apenas para um nicho. E num país cansado de moralismos e simbolismos, talvez essa seja a sua sentença definitiva: a de ser politicamente correto, mas politicamente irrelevante.

Carlos Reis
Há rostos que contam histórias, que são espelhos da alma e da palavra. Neles se lê a confiança, a dúvida, o acolhimento ou o medo. É através do rosto que a sociedade se reconhece e se relaciona. Por isso, cobrir o rosto não é apenas esconder uma feição: é suspender o diálogo humano, é apagar a identidade que permite o encontro.
Portugal, país de rosto virado para o mundo, não pode aceitar que, em nome de uma interpretação radical de uma qualquer religião, se anule o princípio da visibilidade pessoal que sustenta a convivência humana.
A burka e o niqab, mais do que tecidos, representam uma negação da presença — uma barreira erguida entre a pessoa e a comunidade. E uma sociedade livre tem o direito — e o dever — de defender os seus fundamentos.
A Constituição da República Portuguesa não é neutra: protege a dignidade humana, a igualdade entre homem e mulher e o princípio da laicidade do Estado. A nossa matriz cultural, de raiz judaico-cristã, moldou o valor do rosto como sinal de identidade e de responsabilidade.
Quando alguém se oculta totalmente, rompe-se esse pacto civilizacional que permite reconhecer o outro como igual.
Nenhum direito é absoluto e todos são relativos. Por isso mesmo o direito de liberdade religiosa não pode fazer precludir outros direitos essenciais como o da igualdade entre homens e mulheres.
Defender a proibição do uso de burka e niqab em espaços públicos não é um ato de intolerância, mas de coerência. A liberdade religiosa não pode servir de escudo para práticas que ferem a liberdade dos restantes.
Nenhuma crença pode exigir que metade da humanidade viva atrás de um véu imposto, visível ou invisível.
O rosto descoberto é símbolo de confiança e cidadania. É nele que a comunicação se cumpre — no olhar que se cruza, na palavra que se ouve, na expressão que não teme ser vista.
Portugal deve, com serenidade e firmeza, afirmar o direito de continuar a ser uma sociedade de rostos visíveis, onde a liberdade não se esconde atrás de um tecido, mas se mostra, inteira, à luz do dia.
Durante 900 anos, desde a Reconquista, temos caminhado nesse sentido. Não podemos voltar atrás.