
Carlos Reis
A quase coincidência, este ano, entre o início da Quaresma cristã e o Ramadão islâmico expôs um contraste simbólico que muitos europeus já vinham pressentindo: enquanto o mês sagrado muçulmano foi amplamente assinalado nas grandes cidades europeias ocidentais por muitas instituições públicas, meios de comunicação e responsáveis políticos, entre nós a entrada no tempo quaresmal passou quase despercebida no espaço público.
Não se trata de negar a liberdade religiosa nem o legítimo reconhecimento da diversidade, mas de interrogar o significado cultural desta assimetria.
Em várias cidades europeias multiplicam-se mesquitas, celebrações públicas do Ramadão e sinais visíveis de uma presença islâmica crescente. Mas paralelamente observa-se uma descristianização acelerada: prática religiosa residual, igrejas encerradas ou desconsagradas, com muitas transformadas sem uso benemérito, acabando algumas em teatros, bares ou discotecas, perda de referências simbólicas, de rituais públicos cristãos, outrora estruturantes das comunidades.
Este duplo movimento alimenta a perceção, em amplos segmentos da população, de erosão identitária e de enfraquecimento do sentido de comunidade histórica.
A par disso, os discursos oficiais insistem num horizonte de crise permanente: catástrofes climáticas, inverno demográfico, dependência energética, fragilidade estratégica perante novos blocos geopolíticos.
A migração em larga escala, proveniente maioritariamente de regiões periféricas não cristãs, acrescenta complexidade a sociedades já culturalmente fragmentadas.
Muitos cidadãos sentem que os poderes públicos revelam indiferença — ou incapacidade — na preservação da herança civilizacional europeia, o que é frequentemente interpretado como incompetência ou simples cedência estratégica.
Estaremos na antecâmara de um colapso civilizacional?
A história aconselha prudência. A Europa cristã sobreviveu a guerras religiosas, invasões, revoluções e totalitarismos. A questão decisiva não é a da diversidade em si, mas a capacidade de afirmar uma identidade cultural coesa e efectivamente maioritária, confiante e aberta. Viva!
Se houver vontade política e renovação cultural, talvez este momento seja menos um epílogo, e mais um ponto de inflexão.
Ainda está nas nossas mãos!

Carlos Reis
Coimbra e as suas populações pagaram por estes dias o preço da decisão ideológica que lhe foi imposta por António Costa e pela extrema-esquerda que o alcandorou ao poder.
Com efeito, em 2016, Portugal cometeu um erro estratégico grave e, pior do que isso, deliberado: o cancelamento da Barragem de Girabolhos.
Este empreendimento integrava o Plano Nacional de Barragens de Elevado Potencial Hidroelétrico (PNBEPH), lançado em 2007.
Na altura, a concessão foi atribuída à Endesa, que avançou com estudos, procedimentos administrativos e trabalhos preparatórios, assumindo encargos iniciais no terreno.
Contudo, em abril de 2016, já sob o Governo liderado por António Costa (PS), foi anunciada uma reavaliação do plano hidroelétrico nacional. Na sequência dessa revisão, o governo de António Costa decidiu cancelar a construção de algumas barragens, justificando a decisão com “alterações no contexto energético, ambiental e económico que tornariam os projetos menos justificáveis nos termos previstos inicialmente”.
O tal “contexto” resumia-se apenas a duas variáveis: a primeira, a militância histórica anti-barragens do lobby ambiental, que se opõe, por sistema a qualquer nova obra de engenharia hidroeléctrica. Não fora a persistência do bom senso e a razão comprovada de muitos técnicos e a determinação de alguns governantes e hoje as populações de Coimbra e do Baixo Mondego ainda estariam sujeitas à violência e aos prejuízos sazonais da desregulação de um rio que foi durante séculos indestrinçavelmente ligado ao desenvolvimento urbano da região de Coimbra e da exploração das terras mais valiosas de Portugal.
Esta variável encontraria na Geringonça e numa das suas protagonistas, Catarina Martins, a variável do cancelamento: como as barragens eram coisas do passado perante a “questão climática” e os rios teriam de ser “renaturalizados” nesse novo tempo, o plano de regularização do Mondego ficou por concluir e Girabolhos ficou cancelada.
Uma obra já concessionada, com trabalhos preparatórios iniciados e acessos em curso, foi assim interrompida por decisão política. Não por falta de estudos, não por falta de necessidade, mas por imposição ideológica, em nome de um ambientalismo de slogan e de um radicalismo que confundiu governação com propaganda.
O resultado está agora à vista. A bacia do Mondego e a região de Coimbra ficaram mais expostas às cheias e aos caudais extremos, sem um instrumento decisivo de regularização e controlo.
Num tempo em que se fala tanto de alterações climáticas e de eventos meteorológicos mais violentos, cancelar uma infraestrutura pensada para aumentar a segurança das populações foi, no mínimo, uma irresponsabilidade histórica.
Além disso, perdeu-se uma oportunidade relevante de aproveitamento hidroelétrico e de gestão racional da água. Não se tratava apenas de “betão”: tratava-se de proteção civil, de segurança hídrica, de capacidade energética e de planeamento sério para décadas.
O projeto abrangia território dos concelhos de Seia e Fornos de Algodres, no distrito da Guarda, e de Nelas e Mangualde, no distrito de Viseu.
Seria uma barragem de retenção de água, com vários usos, mas com o principal de controle de cheias.
Em vez disso, escolheu-se a fragilidade e o improviso.
E é aqui que importa exigir responsabilidades políticas. Catarina Martins, que na altura exigia a “re naturalização dos rios” como alternativa, devia agora ter a coragem de ir a Coimbra explicar o que isso significava, na prática.
A expressão é bonita, mas não substitui uma barragem, não trava cheias, não garante caudais e não protege populações.
O Mondego não se governa com palavras. Governa-se com decisões competentes — e Girabolhos foi a prova de que, naquele momento, o país não as teve.
Por isso este governo esteve bem, com determinação e seriedade, sob a coordenação esclarecida de Maria da Graça Carvalho a Ministra do Ambiente e Energia.
A sua decisão de solicitar à Agência Portuguesa do Ambiente (APA) o lançamento do concurso para a construção de Girabolhos merece o aplauso dos portugueses.
Sejamos por isso muito claros – ser solidários com as populações afectadas é também continuar a definição e articulação de medidas de mitigação e controlo de cheias na região.
E isto é possível.
Por isso só se pode saudar este governo.
Coimbra não pode continuar a pagar por uma decisão tomada em Lisboa para satisfazer agendas extremistas de geringonças partidárias.

Carlos Reis
A vitória de António José Seguro nas eleições presidenciais constitui uma grande e inequívoca vitória pessoal.
Não se trata de um triunfo emprestado, nem de um resultado por delegação: é uma conquista política própria, construída na credibilidade do seu percurso, na confiança que soube gerar e na capacidade de falar para lá das fronteiras tradicionais do voto partidário.
Mais: esta é uma vitória inconfundível com a de qualquer partido político. Num tempo em que tantos procuram apropriar-se dos resultados eleitorais para reforçar narrativas internas, importa dizer, com clareza, que o país escolheu um Presidente da República — não escolheu um governo, nem uma maioria parlamentar, nem um alinhamento ideológico fechado.
Estavam em causa as eleições para a Chefia do Estado, com a sua natureza específica, o seu mandato próprio e a sua responsabilidade singular.
A dimensão histórica do resultado é incontornável. António José Seguro torna-se o Presidente eleito para um primeiro mandato com a maior percentagem da Democracia e, simultaneamente, o Presidente eleito com o maior número de votos de sempre. Estes factos, por si só, exigem leitura séria e sentido de Estado: estamos perante um mandato forte, legitimado de forma rara e robusta.
Por isso será tão disparatado que André Ventura reclame agora a “liderança da Direita” a partir da comparação com um resultado percentual superior (que não em número de votantes!) ao obtido pela AD nas últimas legislativas como, por absurdo, se pudesse agora dizer que o Partido Socialista já estaria a caminho de uma maioria absoluta, de dimensão quase constituinte.
Então e o enorme espaço do centro e do centro-direita, social democrata, democrata cristão e liberal? Desapareceu de súbito, hoje, porque praticamente 90% dos seus eleitores resolveram rejeitar o apelo da extrema-direita protagonizado por André Ventura, muitos optando pelo “candidato socialista”, outros (muito menos) refugiando-se na abstenção?
A quem interessa discutir este tipo de abstrações? Obviamente só a quem foi ontem severamente batido e rejeitado pelos portugueses, mas faz da ação política um continuo fluxo de ruído e números de prestidigitação.
No entanto os portugueses não são parvos e souberam muito bem o que ontem estava em causa.
As presidenciais não são um atalho para reescrever o mapa partidário do país.
Os resultados eleitorais destas eleições extinguem-se já no próximo domingo, com a realização do acto eleitoral nas freguesias impedidas de votar.
E a actual configuração parlamentar continuará. Assim como o Primeiro-Ministro continua a ter o dever constitucional do seu Governo em governar e definir a política geral do país, de acordo com o seu Programa.
Portugal precisa agora de se focar no que é importante.
Para isso, a política nacional deve passar a ser um fator de estabilidade, assente no regular funcionamento das instituições e na responsabilidade dos atores políticos.
E foi este o apelo do Presidente Eleito, António José Seguro.
Temos agora três anos e meio para recuperar Portugal — com seriedade, com compromisso e com sentido de futuro.

Carlos Reis
Nada que saibamos politicamente de Espanha nos poderá surpreender.
E tudo o que ouvimos de lá deve servir-nos como aviso preventivo, aquilo que os norte-americanos chamam de “cautionary tale”.
As recentes declarações da mulher de Pablo Iglesias, eurodeputada do Podemos e líder da extrema esquerda espanhola, Irene Montero, proferidas num comício em Saragoça e divulgadas pelos media espanhóis, dificilmente poderiam ser mais claras quanto ao objectivo inconfessado, pelo governo espanhol, da anunciada regularização de emergência de meio milhão de imigrantes.
Irene Montero ao afirmar que, depois da regularização, o objetivo será o de avançar para a nacionalidade e para o direito de voto dos imigrantes, e ao celebrar explicitamente a ideia de “varrer de fachos e racistas este país” através desse processo, Montero deixou cair qualquer véu de ambiguidade política.
Afinal a motivação da extrema esquerda europeia com a sua reivindicação de open borders (fronteiras abertas) é sobretudo instrumental.
Não se trata apenas do discurso panfletário sobre direitos humanos ou integração social: trata-se mesmo de uma estratégia de poder.
A máscara caiu e só uma comunicação social portuguesa complacente e cúmplice pode tentar fazer ignorar isto dos portugueses.
Durante anos, lá e cá, a esquerda radical negou com indignação que a imigração pudesse ser encarada como instrumento eleitoral. Quem levantava essa hipótese era imediatamente rechaçado, acusado de conspiracionismo, ou de aderir à chamada teoria da “grande substituição”.
Ora, quando a líder da esquerda radical espanhola assume, sem rodeios, que quer alterar a composição do eleitorado para substituir politicamente uma parte da população por outra, o que está em causa já não é teoria, mas prática política assumida.
Como não consegue ganhar eleições com o voto dos espanhóis actuais, há assim que substituí-los por novos espanhóis, administrativamente fabricados.
Não nos surpreendamos pois que a nossa extrema-esquerda, desacreditada e reduzida a mínimos históricos, comece a exigir em breve o alargamento massivo e indiscriminado ao direito de voto da enorme massa de migrantes que alterou demográficamente Portugal de rajada, nos recentes anos.
Para o efeito usarão de todos os truques retóricos e falsos paralelismos.
Começarão certamente devagar e passo a passo.
Tentarão convencer e captar o comentariado pelo apelo à lusofonia, como se o direito de voto numa democracia estabelecida e consolidada como a nossa, pudesse ser reciprocamente garantido em democracias incipientes, falhadas ou intermitentes como algumas da CPLP.
Certamente Rui Tavares e a sua agremiação do Livre traçarão paralelismos históricos como o da reivindicação do sufrágio feminino, defendendo o direito de voto de imigrantes sem nacionalidade, ou até mesmo de nacionais de outros países.
É a redução de Portugal a um mero lugar.
Ora além de abusiva, esta reivindicação da extrema esquerda é reveladora de uma lógica instrumental: o voto deixa de ser o culminar de um processo de pertença cívica e passa a ser uma ferramenta para reconfigurar a correlação de forças.
A imigração surge, assim, não como fenómeno social complexo a gerir com equilíbrio, mas como matéria-prima eleitoral ao serviço de um projeto ideológico.
É neste ponto que as identidades nacionais se tornam o alvo. Não por acaso, Irene Montero fala em “reemplazo”, ainda que o tente revestir de ironia. A mensagem é simples: a comunidade política existente é um obstáculo a remover, não um património a preservar.
Quando a esquerda radical assume que quer mudar o povo para ganhar eleições, confirma precisamente aquilo que durante tanto tempo disse ser uma invenção dos seus adversários.
Como não ganham com este povo há que substitui-lo por outro.

Carlos Reis
Nas próximas eleições presidenciais votarei em António José Seguro.
Faço-o de forma racional, consciente e deliberada, por considerar que este é um voto em defesa da estabilidade política, do regular funcionamento das instituições e da defesa de um certo sentido de serenidade e decência, imprescindível à nossa vida colectiva.
Este não é um voto ideológico, nem um voto de esquerda ou de direita.
Muito menos representa qualquer reavaliação positiva do Partido Socialista, cuja ação política passada e presente merece uma apreciação profundamente negativa e crítica.
Como militante do PSD, com 38 anos de militância, nunca poderia, nem poderei, apoiar projetos que tenham como objetivo a destruição do meu partido ou a sua substituição no sistema político português.
Simplesmente não voto em quem quer matar o PSD.
O meu voto também não sustentará ambições messiânicas nem projetos presidencialistas. Essas conceções são, aliás, a antítese do pensamento e da ação de Francisco Sá Carneiro, que perdeu tragicamente a vida explicando aos portugueses que a democracia representativa e funcional é incompatível com a presença de um Presidente que concentre em si as decisões políticas do país, subjugando governos e maiorias parlamentares aos seus interesses, ou caprichos pessoais.
O que está em causa nesta eleição é, precisamente, a escolha de um Chefe de Estado — árbitro, moderador e garante institucional — e não a eleição de um homem providencial.
A Constituição é clara quanto aos limites e responsabilidades do cargo, e esses limites devem ser respeitados.
Nestas eleições os eleitores da AD têm um dever acrescido na defesa da estabilidade política. Portugal não pode viver em permanente sobressalto, com eleições todos os anos e crises políticas todas as semanas.
Por essas razões, o meu voto é Seguro.

Carlos Reis
Os resultados da primeira volta das eleições presidenciais são politicamente inequívocos.
A vitória clara de António José Seguro é sobretudo o resultado de um mérito pessoal que se traduziu numa coligação de eleitores, muito mais ampla que a força eleitoral própria do PS.
Em contraste, André Ventura revelou consolidação eleitoral, não conseguindo ir além do patamar já alcançado nas últimas legislativas, ficando agora a cerca de 120 mil votos desse resultado.
A leitura política é simples: dos dois candidatos, um candidato somou apoios, o outro apenas repetiu.
Estes são os dados de partida para a segunda volta, que deve ser entendida como aquilo que constitucional e politicamente é: uma nova eleição, com outra dinâmica, outros incentivos e um novo quadro de decisão para os eleitores.
E, ao contrário do que uma análise mais apressada e simplista poderá sugerir, esta dinâmica não se organizará necessariamente em torno do tradicional binómio esquerda-direita.
Dadas as personalidades em confronto, as suas biografias e as idiossincrasias das suas respetivas ambições, o verdadeiro dilema que se colocará aos eleitores será o de considerarem desta vez, neste acto eleitoral, como mais decisiva a escolha entre a defesa da estabilidade institucional ou o risco da introdução de um fator permanente de instabilidade nos próximos anos.
Importa recordar um dado essencial do nosso regime: quem governa é o Governo. O Presidente da República não governa. Contudo, pode condicionar, bloquear e, em casos extremos, impedir a governação.
É neste plano que deve ser feita a avaliação, em particular pelos eleitores da AD.
Neste contexto, a opção da direção do PSD de não se envolver ativamente na disputa presidencial, no quadro da segunda volta, é politicamente prudente. No quadro constitucional vigente, as maiorias presidenciais não existem, dissolvem-se no dia seguinte à eleição.
As maiorias que contam são as maiorias parlamentares. Por isso, a prioridade estratégica do PSD (e do CDS), deve ser a de assegurar a estabilidade governativa, o cumprimento do seu Programa, e a apresentação de resultados concretos das suas políticas durante a actual legislatura.
Para Portugal resolver os seus problemas neste quadro internacional complexo e difícil, não lhe pode começar por adicionar novas e sucessivas crises políticas.
Portugal não pode simplesmente ter eleições todos os anos.
A decisão quanto ao nosso futuro está agora nas nossas mãos.

Carlos Reis
O levantamento popular que por estes dias atravessa o Irão não é um mero sobressalto conjuntural.
É o grito de um povo, reprimido por décadas de opressão exercida por um regime teocrático entrincheirado e cruel, que governa pelo medo, pela violência, e pelo aviltamento sistemático da dignidade humana.
Um regime que durante 47 anos arruinou uma antiga e florescente nação ficou reduzida a foco da desestabilização do Médio Oriente.
Um regime que, com a excepção do petróleo e dos pistachios, pouco mais exporta do que a sua rede de proxy’s e agentes do terrorismo.
Um regime ao serviço do mal, inimigo ajuramentado de todos os esforços de paz arduamente tentados na região, entre os povos de Abraão.
Este regime, que justifica o seu poder por se reclamar de divino, assenta assim na perpetuação da crueldade como método e no terror como instrumento.
Nesta ditadura teocrática em que a autoridade do Líder Supremo dispensa o consentimento do povo, o tempo foi acumulando gerações inteiras marcadas por sucessivas camadas de frustrações.
Não deixa por isso de ser assombrosa a coragem das mulheres iranianas, que, por estes dias, chegou aos picos da heroicidade, enfrentando no seu país o espectro das prisões arbitrárias, da tortura, e das execuções públicas, com o simples desvelar dos seus cabelos.
E enfrentando tudo isto, sem outro poder que não o da sua dignidade. E, denuncie-se, sem qualquer auxílio do poder mediático internacional, mais uma vez surdo, mudo e atrasado, como quase sempre, quando se depara perante qualquer centelha de irrupção de revolta, em cenários que toma invariavelmente por inamovíveis.
Cairá esta ditadura? Ainda não sabemos.
Mas notável já é que estes dias tenham acontecido. E que estes dias tenham despontado pela revolta das mulheres contra a sua submissão.
Porque no centro desta revolta estão mesmo elas. Não estão as potências, não está o “inimigo sionista”, não estamos nós, europeus, não estão as feministas ocidentais, não estão flotilhas, nem está a esquerda pacifista internacional.
Estão apenas as mulheres persas. As mulheres que recusam continuar a ser corpos tutelados pelo Estado, símbolos de uma moral imposta à força, vidas confinadas a um estatuto de menoridade cívica.
Ao retirarem o véu, ao ocuparem o espaço público, ao enfrentarem a repressão, estas mulheres não lutam apenas pelos seus direitos.
Estão a erguer um manifesto vivo, exigindo aquilo que é elementar e que é direito natural dado por Deus em qualquer país, em qualquer lugar: liberdade, justiça e futuro.
Perante esta coragem o silêncio da esquerda radical ocidental tornou-se insuportavelmente nítido.
Tão empenhada num estafado anti-ocidentalismo e tão consumida pelo seu ódio obsessivo a Israel, esta esquerda escolhe fechar os olhos.
Denuncia, com razão ou sem ela, as falhas das democracias liberais, ergue flotilhas de indignação, mas cala-se quando um regime teocrático esmaga mulheres em nome de Deus.
Esta hipocrisia não é neutra: é uma forma de cumplicidade.
Porque defender a liberdade não pode ser um exercício seletivo. A luta das mulheres iranianas interpela-nos a todos. Exige solidariedade clara, sem relativismos culturais nem cálculos ideológicos.
Porque não há causa progressista possível quando se abandona quem arrisca a vida para ser livre.
Cada grito de liberdade no Irão é hoje um espelho da hipocrisia moral daqueles que, por aqui, só não se calam quando o tema é a Palestina.

Carlos Reis
A Venezuela não é hoje uma ditadura por acidente nem por deriva ideológica: é-o por necessidade de sobrevivência de uma elite que transformou o Estado num instrumento privado de saque.
O regime de Nicolás Maduro assenta no nepotismo, na corrupção sistémica e numa oligarquia que só existe porque controla, sem alternância possível, todos os centros reais de poder.
Para esse círculo, a democracia não é uma ameaça abstracta — é uma sentença de prisão.
É por isso que qualquer transição democrática seja vista pela clique de Caracas como um cenário intolerável. A resposta tem sido a militarização do regime, a compra de lealdades e a alienação acelerada dos recursos nacionais. A cooptação das Forças Armadas para o narco-negócio e a criação de instituições paralelas num labirinto institucional servem um único objectivo: impedir que o voto tenha consequências.
Diosdado Cabello, número dois do chavismo, simboliza este sistema.
Após a derrota eleitoral de 2015, o regime esvaziou o parlamento legítimo e criou uma assembleia fictícia para contornar a vontade popular. Em torno de Cabello, como em torno de Maduro, consolidou-se um denso emaranhado familiar: ministérios, impostos, diplomacia e contratos públicos transformaram-se em negócios de clã. Casos de corrupção internacional e ligações ao narcotráfico não são desvios, mas parte integrante do modelo.
O mesmo padrão marcou o legado de Hugo Chávez. Apesar da retórica revolucionária, a sua família construiu um feudo político e acumulou uma fortuna colossal, sobretudo através do controlo directo da indústria petrolífera. Desde 1999, centenas de milhares de milhões de dólares em receitas foram desviados, enquanto a PDVSA era destruída por incompetência e pilhagem.
O resultado está à vista: colapso económico, hiperinflação histórica, fome, ruptura dos serviços básicos e um êxodo em massa. Um país com as maiores reservas de petróleo do mundo foi reduzido à miséria absoluta.
A chamada “Revolução Bolivariana” apresentada no seu alvor como um projecto de justiça social, mas sim um esquema de apropriação predatória. A tragédia venezuelana não é apenas económica ou humanitária — é o produto lógico de um regime que prefere destruir um país a perder o poder.
Com esta gente, que roubou o poder a seguir às eleições de julho de 2024, não pode haver transição.
É bom que a administração dos Estados Unidos da América entregue imediatamente o poder a quem os venezuelanos confiaram em 2024.
Não o fazer será trair a Venezuela.

Carlos Reis
No próximo ano, o nosso país enfrentará um conjunto exigente de desafios, fortemente condicionados por um contexto internacional marcado pela incerteza económica, por tensões geopolíticas persistentes, conflitos regionais, transições energéticas aceleradas e rápidas transformações tecnológicas.
Estes fatores externos terão impactos diretos na economia, nos preços, nas cadeias de abastecimento, no comércio internacional e na segurança, exigindo respostas ponderadas, responsáveis e estratégicas.
No plano interno, será decisivo reforçar a coesão social, promover um crescimento económico sustentável, combater desigualdades e, depois de anos de descaso socialista, assegurar serviços públicos efectivamente eficazes e capazes de responder às necessidades reais dos cidadãos.
A competitividade das nossas cidades e empresas, a criação de emprego qualificado e a atração de investimento dependerão, em larga medida, da nossa capacidade de adaptação a um mundo mais instável e competitivo.
É neste enquadramento que a estabilidade assume uma importância fundamental.
Estabilidade política e institucional, económica e social, não é um fim em si mesma, mas sim a base indispensável do nosso trabalho coletivo.
É ela que permite planear a médio e longo prazo, gerar confiança nos cidadãos, nos investidores e nos parceiros internacionais, e garantir que as reformas necessárias são concretizadas com diálogo, responsabilidade e sentido de futuro.
Mas valorizar a estabilidade não significa imobilismo.
Pelo contrário, significa criar um ambiente seguro para a mudança, a inovação e o progresso. Só com cooperação, compromisso e com uma visão partilhada conseguiremos transformar os desafios do próximo ano em oportunidades para um país mais justo, resiliente e próspero.
E essa estabilidade depende muito de nós – designadamente, saber escolher um Chefe de Estado que seja promotor da estabilidade política e das instituições.
E deixarmos de andar de crise em crise, enredados pelo ruído fátuo dos media.
Darmos o nosso melhor, mas darmos também oportunidade a quem quer dar o seu melhor por todos nós.
Esta é a nossa escolha.