
Carlos Reis
As recentes posições e zig-zags do Chega sobre a reforma do Código Laboral expõem uma preocupante incoerência política e uma gritante falta de sentido de responsabilidade.
E são, objetivamente, um ato de traição aos seus eleitores de direita, desiludidos com a super-estrutura socialista, ainda hoje dominante no país, encravado por uma codificação legal herdada de oito anos de governação, que não o deixa progredir e impede mais liberdade económica aos agentes produtivos e mais segurança jurídica a quem quer investir e criar.
Num momento em que Portugal necessita de reformas estruturais sérias para aumentar a produtividade, atrair investimento e melhorar os salários reais, o partido Chega, sob a gritaria constante do seu líder, opta por “propostas” de forte ruído mediático, mas economicamente insustentáveis.
O exemplo mais flagrante é a proposta de redução da idade da reforma, uma medida que, a ser aplicada sem sustentação demográfica e financeira, colocaria uma pressão insuportável sobre a Segurança Social. Num país envelhecido, com baixa taxa de natalidade e ainda com níveis de produtividade abaixo da média europeia, esta ideia não é apenas irrealista – é potencialmente destrutiva para as contas públicas e para as futuras gerações.
Isto não é sequer uma proposta: é um slogan.
Um slogan que, se por absurdo, fosse vertido pelo Parlamento em lei, rebentaria com o país.
Assim, ao invés de contribuir para um debate sério sobre a modernização do mercado de trabalho (incluindo maior flexibilidade, qualificação da força laboral e incentivos à inovação) o Chega revela uma postura errática que dificulta qualquer convergência séria e reformista.
Esta inconsistência afasta-o de uma possível e credível articulação com forças como o Partido Social Democrata, a Iniciativa Liberal ou o CDS – Partido Popular, de modo a organizar politicamente a atual maioria de Centro e Direita, aritmeticamente constituinte.
Portugal precisa de uma agenda reformista sólida, capaz de gerar crescimento económico sustentável e melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores e libertar de tantos sacrifícios, as nossas classes médias.
Mas isso exige responsabilidade, coerência e visão estratégica – atributos que, infelizmente, até este momento, salvo uma ou outra questão casuística, o Chega ainda não demonstrou possuir de forma consistente.
São 60 deputados, que por muito frenesim e barulho que façam, não se podem contar para construir algo de sério e duradouro.
Quem votou no Chega deveria pensar nisto.

Carlos Reis
Entre cravos, discursos e encenações de circunstância, mais um aniversário do 25 de Abril passou como um déjà vu bem ensaiado: tudo no lugar, tudo previsível, tudo estranhamente gasto.
A esquerda, outrora pujante na produção cultural e na oferta política, parece hoje uma máquina cansada, repetindo palavras de ordem como quem cumpre um ritual burocrático.
Já não propõe, apenas administra símbolos. Já não inquieta, acomoda-se.
E, no entanto, continua a falar como se fosse a última guardiã de uma democracia permanentemente ameaçada.
Do outro lado, a direita mais histérica não ajuda. Entre aplausos institucionais e os habituais acessos de retórica inflamada do seu líder, continua a provar em cada ocasião a sua pouca preparação para o desempenho de funções de Estado, convivendo mal com a responsabilidade, preferindo o dramatismo fácil à construção de uma alternativa séria e funcional.
Há ali ecos de ignorância histórica e uma tentação caudilhista que dispensa subtileza e, frequentemente, também bom senso.
Saúde-se, ao menos desta vez, esta ignorância do Chega:
– graças à auto suficiência própria dos néscios, recuperaram um antigo símbolo da luta gay pela dignidade e visibilidade, exibindo um dos símbolos mais antigos da auto-identificação gay, os cravos verdes, propostos pela inteligência heróica de Oscar Wilde.
André Ventura e Oscar Wilde na mesma luta? A ironia derruba sempre pela demonstração do ridículo.
Pelo meio, o país mediático insiste em retratar um “país oficial” que pouco dialoga com o país real. Um país snobe, fechado sobre si mesmo, que celebra o popular representado pelo niilismo de um Toy, enquanto verdadeiramente o desdenha, que revisita fantasmas como as FP25 em versões cinematográficas discutíveis, enquanto se agarra a referências culturais cada vez mais estreitas.
No Parlamento, episódios quase caricaturais: intervenções inflamadas, zelo jurídico performativo, figuras que se levam demasiado a sério num palco onde o público já mudou de canal.
Porque o país real dá pouca ou muito pouca importância a um Pedro Delgado Alves derrotado na esfera pública menos no excesso. Não é preciso andar muito longe – basta ir até ao Lumiar, em Lisboa, que os eleitores de lá certamente explicam porque lhe viraram eles as costas, no único sítio onde esse gesto verdadeiramente conta: na urna de voto.
E projetos simbólicos – como a projectada disputa sobre onde instalar um centro interpretativo do 25A- elevados a batalhas de destino nacional.
Novidades? Nenhuma.
E talvez isso diga tudo. A democracia portuguesa, com todos os seus tiques e cansaços, continua a funcionar — mais por inércia do que por inspiração.
Ainda assim, há liberdade, há ruas cheias, há vozes diversas. Talvez seja pouco entusiasmante para os viciados no fenómeno político.
Mas, convenhamos, continua a ser preferível ao contrário.
Viva a nossa Liberdade!

Carlos Reis
No teatro trágico da política internacional, a guerra no Médio Oriente tornou-se mais um capítulo de uma encenação desastrosa, onde a estratégia cede lugar ao improviso e a diplomacia é substituída por bravatas de conferência de imprensa.
No centro deste palco, a Administração de Donald Trump parece ter optado por uma abordagem digna de um guião rejeitado de Hollywood: simplista, ruidosa e perigosamente desligada da realidade.
Enquanto a região arde, as decisões emanadas de Washington revelam uma combinação inquietante de ignorância histórica e oportunismo político.
Alianças são tratadas como descartáveis, compromissos internacionais como meras sugestões, e a complexidade do conflito como um detalhe aborrecido a ignorar. O resultado? Um agravamento das tensões e uma erosão da credibilidade diplomática dos Estados Unidos sem um único ganho de causa que se tenha visto até ao momento.
No Líbano o Hezbollah continua a sobreviver, por muito que os israelitas fustiguem as suas áreas. Em Gaza os resquícios das forças do Hamas continuam po desarmar e controlam ainda as populações. No Iémen os Hutis representam o país perante o mundo, na mais estranha das conclusões de uma guerra civil. No Golfo as Monarquias sentem que os acordos celebrados com os americanos não as seguram.
A verdade é que até agora não houve qualquer mudança de regime no Irão, que continua a ser uma tirania teocratica governada pela Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC)e pelos Basij (uma milícia paramilitar voluntária subordinada à IRGC, que continua a infernizar o quotidiano dos iranianos, desde o controlo dos preços no Bazar até ao tamanho do cabelo das raparigas e colocação do lenço).
Esta semana serão enforcados mais quatro jovens. Uma delas uma rapariga.
Mas entretanto confunde-se tudo isto com um circo.
Mas talvez o momento mais caricatural deste espetáculo tenha sido a retórica de Trump dirigida ao Papa. Entre críticas absurdas e ataques despropositados, assistiu-se a uma tentativa quase burlesca de instrumentalizar a religião. O problema é que, naquela Administração, até a Bíblia parece ser um acessório de cena: salmos e versículos citados com a convicção de quem claramente nunca os leu, ou pior, de quem os confunde com diálogos de Pulp Fiction.
A fé transformada em adereço, a moral reduzida a slogan.
No fim, sobra uma sensação desconfortável: a de que, por trás do ruído e da encenação, há consequências reais. E essas, ao contrário das frases decoradas, não podem ser apagadas nem reescritas.
A verdade é que Ezequiel alertou para o perigo da destruição de Jerusalém e admoestou aqueles que escarneciam dos outros em sua aparente glória.
Não era um palhaço.

Carlos Reis
A derrota eleitoral de Viktor Orbán e do seu partido (Fidesz)constitui uma das mais marcantes reviravoltas políticas na Europa contemporânea.
Poucos antecipavam um resultado tão claro e inequívoco, o que explica a sensação de surpresa – e até de alívio – que atravessa não só a Hungria, mas também o espaço europeu.
Importa, contudo, reconhecer que, apesar das suas derivas iliberais e dos erros acumulados ao longo dos últimos anos, Orbán teve a dignidade institucional de aceitar pacificamente o veredicto das urnas. Num tempo em que líderes conservadores ou de extrema direita usam o Playbook de Donald Trump recusando aceitar qualquer derrota eleitoral, este gesto não é irrelevante – pelo contrário retira força a alguns dos inimigos internos das democracias.
Outra comparação favorável a Orbán, mas que em bom rigor constitui um atestado da força das democracias europeias, é a existência de eleições livres e justas.
Por isso Vladimir Putin nunca aceitou a livre expressão eleitoral da soberania ucraniana. Se Putin nunca arriscará fazer eleições livres e justas no seu país, como é que ele o poderia aceitar noutros países vizinhos? Apenas a dissuasão da força da NATO o tem impedido de fazer com outros o mesmo que fez (com insucesso) na Ucrânia.
Apesar da similitude de Orbán e Putin, alguém imagina este a submeter-se ao escrutínio junto do seu povo?
A verdade é que a Europa, e as suas alianças, bem como as suas instituições confederais, são uma barreira efectiva contra os adversários internos e externos das democracias.
Mas os tempos são difíceis para todos.
Esta mudança política surge num contexto social e económico exigente. A Hungria enfrenta pressões inflacionistas, desafios estruturais, e um desgaste evidente do modelo de governação anterior. Sendo uma nação antiga e orgulhosa, a Hungria mostrou que não aceita ser instrumentalizada como Cavalo de Troia de interesses externos, nomeadamente russos.
A memória histórica pesa: os húngaros não esqueceram a repressão soviética de 1956, um marco traumático da sua luta pela soberania.
O novo Governo húngaro terá agora uma responsabilidade acrescida: responder a problemas concretos – recuperar a economia e restaurar a concorrência, acabando com a corrupção e desmantelando as redes de nepotismo alimentadas pelo Fidesz, restaurar a coesão social num país muito dividido e desigual, restaurar os serviços públicos, em situação de pré-colapso – evitando a tentação de se perder em guerras culturais estéreis.
A vitória eleitoral abre uma janela de oportunidade, mas também eleva as expectativas.
No plano internacional, o impacto é imediato. A posição húngara no seio europeu tenderá a alinhar-se mais claramente com os seus parceiros, o que reforçará naturalmente o apoio à Ucrânia. Num momento crítico, a resistência ucraniana ganha assim um novo alento, com o fim de uma liderança que, reiteradamente, dificultou consensos europeus.
A democracia ganhou na Hungria. A Hungria ganhou. A Europa ganhou. Ganhámos todos.

Carlos Reis
A actual guerra no Médio Oriente apresenta uma estranheza difícil de ignorar: não se percebem, com nitidez estratégica, os seus objetivos finais, em particular do lado norte-americano.
Não há uma doutrina clara de vitória, nem um desfecho político inteligível. A intervenção parece oscilar entre contenção, demonstração de força e gestão de equilíbrios regionais, mas sem um fim definido — o que, em termos clássicos de estratégia, constitui uma anomalia.
Recorde-se Sun Tzu: “A suprema arte da guerra é subjugar o inimigo sem combater.” Mais ainda, toda a sua obra pressupõe clareza de objetivos, economia de meios e coerência entre fins e instrumentos. Ora, o que hoje se observa é, precisamente, o inverso: uma ação prolongada, difusa e sem teleologia evidente.
Este padrão levanta uma questão mais profunda sobre a conduta da atual Administração dos Estados Unidos no quadro das Relações Internacionais.
Do ponto de vista moral, a seletividade da ação externa é perturbadora. Enquanto se mobilizam recursos num teatro de guerra complexo, povos como os da Venezuela ou do Irão permanecem entregues à continuidade de regimes que os oprimem há décadas, sem que se vislumbre uma estratégia eficaz de mudança. A defesa dos valores democráticos surge, assim, fragmentada e, por vezes, contraditória, por uma Administração que fala a várias vozes, até essas vozes simplesmente desistirem da sua própria incapacidade em mudar esses regimes.
Para países europeus de média dimensão, como Portugal, a margem de manobra é reduzida. A arquitetura de alianças — em particular com os Estados Unidos — não é apenas conjuntural; é estrutural. Rompê-la seria desestabilizar o próprio projeto europeu que construímos ao longo de décadas. Mas criticá-la frontalmente, ainda que com razão, seria um gesto diplomático simultaneamente corajoso e inútil: nada mudaria em Washington, e apenas fragilizaria a posição externa portuguesa.
Que fazer, então? Talvez a resposta esteja simbolicamente representada na célebre escultura dos “três macacos sábios”, no Santuário Tōshō-gū, no Japão: Mizaru, o macaco sábio que não vê o mal; Kikazaru, o macaco sábio que não ouve o mal; e Iwazaru, o macaco sábio que não fala do mal.
Originalmente um ensinamento ético shinto, a sua leitura contemporânea aproxima-se perigosamente de uma atitude de resignação: ver, ouvir e calar.
Talvez seja esse o dilema europeu atual: entre a lucidez crítica e a prudência estratégica, resta muitas vezes o silêncio — não por virtude, mas por necessidade.
Uma Páscoa difícil, esta.

Carlos Reis
A evolução recente do conflito no Médio Oriente projeta sinais inquietantes de confusão, mesmo desnorte e um derrotismo semeado e regado pela Comunicação Social, que não podemos mais ignorar.
Mais do que um confronto regional, estamos perante um teste à coesão política, moral e estratégica das democracias liberais.
Desde logo, torna-se visível uma preocupante fractura no seio da NATO.
A divergência entre os Estados Unidos, muito acicatada por um presidente grosseiro, injusto e meramente transacional, e vários aliados europeus, quanto ao posicionamento e à resposta ao conflito, revela não apenas diferenças táticas, mas uma erosão da unidade dos membros da Aliança, que, durante décadas, sustentou a primazia ocidental num quadro de relativa estabilidade internacional.
Paralelamente, assiste-se a um desinteresse crescente (quando não hostilidade aberta) das opiniões públicas, em particular a própria opinião pública americana, relativamente a novas intervenções militares no Médio Oriente, que depois dos falhanços morais do Iraque e do Afeganistão, vêm agora apenas como aventuras imprudentes, independentemente da justificação possível de cada uma.
Este retraimento, fruto de um derrotismo auto-imposto, fragiliza a capacidade dissuasora americana e ocidental.
A coincidência temporal entre um presidente transacional e narcisista como Trump e um Primeiro-Ministro que se vê a si mesmo como Rei de Israel, não apenas da terra soberana que o Direito e a Comunidade Internacional lhe reconhecem desde 1948 e 1967, mas também da futura nova terra de Sião que ele ambiciona arrancar entre a confusão dos tempos recentes, tanto pode vir ser o triunfo inusitado de uma nova era de paz, como a queda final no abismo.
Gazificar o Sul do Líbano, simplificar demograficamente a Cisjordânia, repartida apenas entre a população muçulmana e a dos colonatos judaicos, afastando dessa terra os últimos vestígios de cristandade, como se tem verificado, perante a completa indiferença do Ocidente, em Taybeh, a última aldeia inteiramente cristã na Cisjordânia, cujos ataques de colonos, incluindo incêndios a carros e intimidação próximo à Igreja de São Jorge, se verificam com a autorização do governo de fanáticos de Benjamin Netanyahu, que igualmente deixou de reconhecer legalmente a equivalência das escolas cristãs da Cisjordânia, primeiro passo para a erradicação cultural futura da cristandade na região.
Na sua opção de ficar sozinho e de contar apenas com os Estados Unidos, Israel vê a Europa como a América a vê: ruas hostis, governos europeus cada vez mais dependentes de porções de eleitorado muçulmano, e uma realidade geopolítica em declínio.
Perante isto, no plano simbólico e civilizacional, a proibição do Patriarca Latino de Jerusalém de celebrar o Domingo de Ramos nos Lugares Santos constitui um sinal profundamente perturbador.
Tal episódio não é apenas religioso: representa uma limitação da liberdade de culto num espaço historicamente central para o cristianismo, colocando em causa a proteção das minorias e o equilíbrio inter-religioso.
Mais inquietante ainda é o redobrar de políticas de anexação na Cisjordânia e o surgimento de ambições semelhantes no sul do Líbano.
Estes movimentos, a confirmarem-se, ameaçam comprometer qualquer solução baseada sequer num resquício de aparência de Direito Internacional e agravar tensões já explosivas.
Em conjunto, estes sinais apontam para um cenário de crescente instabilidade, onde o enfraquecimento das alianças, o cansaço das democracias e a radicalização no terreno podem redefinir, de forma duradoura, o equilíbrio entre o Ocidente e o Médio Oriente.
Oxalá que os americanos, depois desta sua intervenção, não traiam de novo o povo do Irão, que ainda há poucos meses se levantou nas ruas do seu país exigindo liberdade, pagando o preço em milhares de mortos.
Se os americanos se meteram ali só uma coisa os fará resgatar moralmente aos olhos das pessoas: mudar aquele regime. Libertar aquele povo.
Só mesmo isso justifica este último mês de indecisão e este medo irreal de assumir de vez uma meia dúzia de ilhas desabitadas no Golfo, e uns 30 kms de costa, para manter livre uma via de comércio internacional.
Tempos de véspera estes.

Carlos Reis
Num momento em que a generalidade do Mundo volta a invocar o Direito Internacional para condenar o início de mais um conflito militar no Médio Oriente, desta vez envolvendo os Estados Unidos e Israel contra o Irão, impõe-se uma reflexão incómoda, mas necessária: a seletividade moral com que esse mesmo Direito tem sido aplicado.
Condenar a guerra é não só legítimo, como indispensável. A Guerra não é a solução correta para a resolução dos diferendos entre as nações.
Mas condenar (pela enésima vez) Israel e os Estados Unidos, desta feita a propósito dos seus ataques e bombardeamentos ao Irão, ignorando no entanto décadas de violações sistemáticas do Direito Internacional por parte do regime iraniano é, no mínimo, intelectualmente desonesto.
O Irão não é um ator qualquer no sistema internacional. Trata-se de uma das ditaduras mais repressivas da atualidade e constitucionalmente vinculada à eliminação do único país soberano e judaico do mundo e assumidamente expansionista, invocando como seu direito, o seu armamento nuclear.
O seu historial inclui o apoio a milícias armadas, a desestabilização de Estados soberanos e a repressão brutal do seu próprio povo. Durante anos, essas ações foram sendo relativizadas, quando não convenientemente ignoradas por muitos dos que hoje erguem a bandeira do Direito Internacional.
É precisamente aqui que reside a hipocrisia: invocar normas jurídicas universais apenas quando convém, transformando o Direito Internacional num instrumento político circunstancial.
Ora, o Direito não pode ser um escudo para regimes que o violam de forma reiterada. Caso contrário, perde a sua autoridade moral e transforma-se num mero argumento retórico.
A paz que o regime iraniano oferece — dentro e fora das suas fronteiras — é uma paz assente no medo, na repressão e no silêncio forçado. Uma paz de cemitérios. Basta perguntar aos cidadãos iranianos que, repetidamente, arriscam tudo para exigir liberdade.
Se o Direito Internacional pretende ser levado a sério, deve ser aplicado com coerência. Caso contrário, não passa de um reflexo das conveniências de quem o invoca.

Carlos Reis
A morte de Jürgen Habermas (18.06.1929–14.03.2026) assinala o desaparecimento de uma das últimas grandes figuras da filosofia pública europeia.
Herdeiro direto da tradição da Escola de Frankfurt, Jürgen Habermas procurou preservar o impulso emancipatório do pensamento marxista ao mesmo tempo que o reconciliava com os fundamentos do liberalismo democrático.
A sua teoria da ação comunicativa e a defesa de uma esfera pública racional constituíram talvez a mais sofisticada tentativa contemporânea de justificar normativamente a democracia liberal sem abdicar da crítica estrutural às formas de poder e dominação.
Jürgen Habermas acreditava que a razão não estava condenada ao instrumentalismo denunciado pelos seus predecessores. Pelo contrário, na própria linguagem residiria um potencial de entendimento mútuo capaz de sustentar instituições democráticas mais legítimas. Assim, a tradição marxista, frequentemente associada a projetos revolucionários ou a leituras economicistas da história, encontrava na sua obra uma reformulação deliberativa: a emancipação não como ruptura violenta, mas como aprofundamento discursivo da democracia.
Contudo, permanece uma questão que a própria Teoria Crítica nos ensina a colocar. Se todo o edifício teórico deve permanecer exposto ao escrutínio crítico das condições históricas que o produzem, até que ponto a obra de Jürgen Habermas pode escapar ao mesmo processo de desconstrução que ela própria legitimou? Aplicada a si mesma, a crítica tende a operar sucessivos cortes epistemológicos, revelando contingências, pressupostos e limites que gradualmente reduzem a pretensão de universalidade de qualquer teoria.
Talvez resida aqui uma das ironias mais profundas da tradição crítica: o seu poder emancipador nasce precisamente da capacidade de minar as certezas que procura fundamentar. Nesse movimento contínuo de revisão, a filosofia corre o risco de produzir uma espécie de autodesgaste conceptual, onde cada nova camada crítica parece diminuir aquilo que julgávamos ser — ou compreender — sobre nós próprios.
Ainda assim, é possível que Jürgen Habermas tenha compreendido melhor do que ninguém esse paradoxo: que a razão só permanece viva enquanto aceita a possibilidade permanente da sua própria revisão.
Em suma, Jurgen Habermas supera o cogito, ergo sum de Descartes ao mudar o foco da filosofia da consciência para a filosofia da linguagem e da ação comunicativa, mudando o foco do “eu penso” para o “nós comunicamos”; logo existimos.
Talvez a crítica seja severamente injusta para uma mente tão brilhante como esta que a nossa civilização agora perde, mas é um facto inelutável que é nas ruínas intelectuais da Escola de Frankfurt que encontramos a caixa preta do colapso da Europa, enquanto projecto civilizacional de emancipação e liberdade, que aceitou e construiu o seu próprio cânone.
De certa forma, com a morte física de Habermas, foi atestado também o óbito da nossa Europa Ocidental…

Carlos Reis
Adam Smith (1723–1790) foi um economista e filósofo escocês, pioneiro no campo da Economia Política e figura-chave do Iluminismo Escocês.
Por muitos considerado como o “pai da economia” ou o “pai do capitalismo”, ele é sobretudo conhecido por duas obras clássicas: “A Teoria dos Sentimentos Morais” (1759) e “Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações” (1776). Esta última, frequentemente abreviada como ”A Riqueza das Nações” é considerada a sua obra-prima, marcando o início da moderna erudição econômica como um sistema abrangente e uma disciplina académica, de per si.
A Riqueza das Nações, uma obra viria a tornar-se um dos textos fundadores da economia moderna. Duzentos e cinquenta anos depois, o livro permanece hoje uma referência incontornável para compreender a organização das sociedades contemporâneas, em particular nas economias europeias e ocidentais.
Smith recusa-se a explicar a distribuição de riqueza e poder em termos de vontade divina e, em vez disso, recorre a fatores naturais, políticos, sociais, econômicos, legais, ambientais e tecnológicos, bem como às interações entre eles.
A sua obra destaca-se pela sua contribuição para a teoria económica, particularmente na exposição do conceito de vantagem absoluta.
Smith procurou explicar de que forma as nações geram prosperidade. A sua análise centrou-se no funcionamento dos mercados, na divisão do trabalho e no papel do interesse individual como motor da actividade económica. A célebre metáfora da “mão invisível” sintetiza a ideia de que, em determinadas condições, a busca do benefício próprio pode contribuir para resultados benéficos para a colectividade. Esta visão marcou profundamente o desenvolvimento do pensamento liberal e influenciou a forma como os Estados passaram a encarar o comércio, a produção e a regulação económica.
Ao longo dos séculos XIX e XX, muitos dos princípios discutidos por Smith foram incorporados na construção das economias de mercado que hoje caracterizam grande parte do mundo ocidental.
A defesa da concorrência, a importância da produtividade e a valorização da iniciativa individual tornaram-se pilares das políticas económicas e do funcionamento das instituições.
Contudo, a actualidade de A Riqueza das Nações não reside apenas na sua influência histórica. Num contexto marcado pela globalização, pela transformação tecnológica e por novos debates sobre desigualdade e o papel do Estado, o legado de Adam Smith continua a suscitar reflexão. A sua obra recorda que a prosperidade económica resulta de um equilíbrio delicado entre liberdade económica, instituições sólidas e responsabilidade social.
Celebrar os 250 anos deste livro é, por isso, mais do que assinalar uma data editorial. É reconhecer a persistência de um conjunto de ideias que continuam a moldar o debate económico e político das sociedades contemporâneas.
Num mundo que por vezes parece estar virado de pernas para o ar, interessa sempre voltar aos clássicos.

Carlos Reis
A ordem geopolítica internacional poderá estar perante uma inflexão histórica: a possibilidade real do fim de quase cinco décadas da República Islâmica do Irão.
Fundado em 1979 sob a promessa de justiça social e independência nacional, o regime rapidamente se consolidou como uma teocracia repressiva, assente na vigilância permanente, na compressão sistemática das liberdades civis e na eliminação violenta da dissidência.
A sua longevidade nunca resultou de consenso popular, mas da combinação entre repressão interna, instrumentalização religiosa e uma calculada perfídia diplomática que explorou as hesitações do exterior.
Hoje, sinais acumulados evidenciam uma sociedade iraniana exausta e simultaneamente preparada para a mudança.
Das mulheres à juventude urbana, dos pequenos comerciantes às minorias étnicas e religiosas, cresce a convicção de que o futuro do país não pode continuar refém de um aparelho político que responde às reivindicações sociais com prisões, execuções e força letal.
Denúncias recentes de organizações de direitos humanos apontam para mais de 40 mil mortos apenas no último mês, vítimas da repressão estatal contra o seu próprio povo — um dado que torna moralmente insustentável a invocação abstrata do Direito Internacional como escudo protetor de quem viola, de forma sistemática, os princípios mais elementares da humanidade.
Num eventual cenário de transição, a saída de cena de Ali Khamenei dificilmente suscitará nostalgia histórica. Para muitos iranianos, representará antes o fim de um ciclo marcado pelo medo e pela estagnação — e o início, finalmente possível, de um alívio coletivo há muito adiado.
A equação é muito simples: só haverá paz na região, desde o Mediterrâneo ao Eufrates, desde as montanhas do Curdistão ao Mar Vermelho, com o fim efectivo do regime despótico iraniano. E esse fim passa pela sua obliteração militar.
Porque o lugar desta ditadura é no caixote do lixo da história.
E a Pérsia milenar merece reencontrar-se com as suas tradições, o seu sol e o seu glorioso leão.