
João Vasco Almeida
Começo sempre por uma coisa pequena, porque as grandes cansam-me. Por exemplo: o calendário decidiu, outra vez, que para a semana é “novo”. Novo como um sofá de sala de espera, com plástico ainda colado e a mesma tristeza por baixo. As pessoas acreditam. É comovente. Partem dentes com a fava das presidenciais, brindam às sondagens como se fossem meteorologia fiável, e avançam para Janeiro com a fé mal lavada de quem acha que a Terra se reinicia ao som de um estoiro.
Penso nisto enquanto observo a preparação ritual do optimismo. A passagem de ano é uma missa laica onde ninguém sabe bem a que santo se dirige, mas todos ajoelham. Há uva-passa, Asti Gancia e desejos ditos para dentro, como pecados envergonhados. Desejos libidinosos, profanos, higienizados pela superstição do calendário. Não há base científica, climatérica ou astronómica para nada disto, mas quem sou eu para estragar o sonho? A sociedade enganada dorme melhor. E eu tenho inveja de quem dorme.
Pergunto-me se o problema não é meu. Talvez eu seja incapaz de acreditar em datas como quem acredita em promessas eleitorais: com a devoção exacta necessária para ficar desapontado depois. Sou uma criatura com demasiadas definições internas e nenhum botão “reiniciar”. Um electrodoméstico ansioso.
Para ajudar, proponho doze desejos de Ano Novo para 2026, todos perfeitamente realistas, como manda a tradição:
(E, caro leitor, se acha isto excessivo, recorde-se de que também acredita que Fevereiro muda alguma coisa.)
No fim, alguém abrirá uma garrafa, outro fechará os olhos, e o mundo continuará exactamente no mesmo sítio, com a mesma cara cansada. Levantarei o copo por educação. O calendário sorrirá. E amanhã, com sorte, voltarei a duvidar de tudo desde o princípio.

João Vasco Almeida
Há uma ministra que diz que o sistema de entrada e saída de passageiros no Aeroporto de Lisboa “pifou”. Sim, pifou. Aplaudo a palavra, vinda do francês biffer, que significa morrer ou roubar a vida, e tem essa qualidade de morte súbita que lhe vem bem. O problema – e digo-o com a serenidade de quem observa o mundo a desmoronar-se com tranquilidade – é que não aceito a desculpa que a acompanha. Porque os sistemas não pifam sozinhos. Não, senhor. Deixam-nos pifar.
É como culpar a língua portuguesa quando uma pessoa fica rouca de gripe. A língua não pifou; foi o indivíduo. Estava ali a língua, pacientemente, esperando por alguém que soubesse usá-la com um mínimo de dignidade. Os sistemas informáticos funcionam assim também. Velhos, claro, maltratados, desactualizados desde tempos em que ainda acreditávamos em revistas em papel, mas pifam? Não. Deixam-se pifar. Precisam de ajuda activa. Precisam de negligência bem feita, aquela negligência sistemática – e peço desculpa pelo pleonasmo que fez uma caminhada involuntária até aqui – para chegarem ao estado de pifaria sublime em que hoje residem confortavelmente.
A ministra, vejamos bem, é alguém que observa uma máquina caída no chão e profere a seguinte frase: “A máquina pifou.” Não. Não pifou assim. A máquina foi deixada cair. E aí está a questão que ninguém discute nos programas de televisão das vinte e duas horas, onde toda a gente finge ter opiniões muito firmes sobre assuntos que desconhece completamente.
Os sistemas são como a Biblioteca de Alexandria: não ardem sozinhos. Alguém tem de vir com o fogo, com uma intencionalidade, com uma vontade explícita de queimar. E há quanto tempo? Décadas. Há décadas que temos uma multidão considerável de piromaníacos bem remunerados a cumprir com excelência precisamente essa tarefa, enquanto os encarregados da Biblioteca fingem surpresa quando as chamas chegam às secções mais críticas, àquelas que de facto importam. Esses pirómanos levam o nome de “técnicos de informática”, ou “engenheiros”, que ainda sabe melhor.
“Pifou”, dissemos. Palavra linda, quase poética na sua brevidade assassina. Quem o fez foram os seres humanos. As pessoas que gerem o sistema, que o tocam, que o alimentam com as suas decisões. Pifaram. E continuam a pifar, de hora a hora, com uma cadência quase melancólica, como quem executa tarefas que sabe serem fúteis, mas que não conseguem deixar de fazer.
Imagine-se o Sistema como um corpo vivo: dezenas, centenas de “médicos” ao seu redor, os “informáticos”, observando cada célula, cada batida do coração, cada pensamento que atravessa a mente. Se pifa, pifa porque os seres humanos falham. Mas quando pifa, o corpo do Estado que é sempre inocente, sempre de mãos limpas, sempre a chorar a morte da máquina, envia ministras do tempo em que existiam Tupperwares dizer coisas.
A aldrabice não está no sistema. Está no uso da palavra “sistema” como um bode expiatório cibernético conveniente. Uma moscambilha corporativa. Um truque de magia que, após séculos de prática, se tornou invisível pela simples razão de que toda a gente conhece o truque e finge não o conhecer.
Se lhe disserem que o sistema pifou, ria-se, peça o livro de reclamações, sugira o uso de calculadoras Casio, que nos levaram à Lua, e saia em gargalhada. Antes que o seu sistema pife também.

João Vasco Almeida
Mote: “No plaino abandonado, em que a morna brisa aquece, levou o Almirante com o Seguro que só desce.”*
Tozé está um rapazinho. Já não agita o pulôver cor‑de‑rosa no Rato, nem diz frases que precisavam de dicionário Tozé-Português para se perceber. Fez‑se homem, dizem. E que homem mesmo — não daqueles que dá o PS a Costa e, com um sorriso de merceeiro antigo, cobra troco em Ferraris, autárquicas e promessas. É um homem que grita “A‑7!”, não pensa muito e ouve: “Tiro no submarino, Almirante ao fundo.”
O Almirante-Seringa afunda, mas lá vai pela Galileia, rodeado de cidadanias e microfones, a tentar ser uma espécie de apóstolo em campanha. E nós assistimos à conversão de um herói pandémico em peregrino político. Há quem diga que é a evolução natural. Outros chamam-lhe recaída. Eu, por cautela, chamo-lhe consequência — palavra que em Portugal é quase insulto.
Pensava o homem-marinheiro que, após tanto braço espetado em vacina e tanta fotografia de jornal com fundo azul-celeste, os jardins de Belém estavam à distância de um passeio no parque. Esqueceu-se, porém, que há doenças piores do que a COVID: a ingenuidade crónica e o vírus da vaidade. E ambos, quando se cruzam, produzem epidemias marítimas eleitorais.
O problema do Almirante é que confundiu disciplina militar com pensamento político. Uma conversa com ele é como assistir a um Conselho de Ministros submerso: há uma sensação constante de falta de oxigénio, mas todos fingem que respiram. Imaginou-se D. João II com telemóvel, mas acabou por se revelar capitão de ferry — vai e vem, mas nunca atravessa o Sade da convicção.
Dizem-me que anda atónito. Que não entende como um país que o aplaudia de pé agora o observa com a mesma curiosidade que se dedica a um peixe‑balão: simpático, mas perigoso fora de contexto. Talvez porque, por trás do uniforme, o país descobriu uma coisa terrível — o homem‑herói acreditava na própria estátua. E estátuas, quando pensam, desmoronam.
Tozé, esse, observa do camarote, com um sorriso de quem viu este filme três vezes e sempre com pipocas diferentes. É um génio discreto: sabe esperar. Deixou o Almirante perder‑se em mar alto, sem bússola nem doutrina, e agora assobia, inocente, como quem não fez nada — que, na verdade, é o segredo de fazer tudo.
Culpa do Almirante, claro. Teve meses, e meses, e meses (três “meses” é o tempo necessário para qualquer desastre político amadurecer) para inventar pensamento, discurso, plano. Nada. Nem rótulo, nem carisma, nem ideologia. É o tipo de homem que serviria para governar um aquário: muita circulação, pouca profundidade.
No fim, ficou‑lhe o eco de uma frase, dita a ninguém e a todos: “O Almirante ao fundo.” E é verdade — não se afundou por conspiração, mas por gravidade natural. Os políticos flutuam no vazio das ideias; os militares, sem o navio do dever, descem.
E lá vai o Tozé, o rapaz crescido, a ver o Almirante boiar devagarinho, convencido de que é golfinho, e não âncora. E nada, o almirantado. Oh, se nada!
*levemente inspirado em F. Pessoa

João Vasco Almeida
Não é insulto, é categoria profissional. O país tem médicos, professores, canalizadores e, desde há uns anos, tem também um chato oficial do regime, com tempo de antena, grupo parlamentar e direito a microfone sem limite de utilização.
O sempiterno André Ventura, estrela pop dos anos 20, é um chato. Parece veterano de uma guerra que só ele combateu, a da pureza da nação contra o perigo invisível do vizinho moreno, e conta sempre as mesmas histórias, como se o Natal fosse todos os dias e a ceia fosse paga pela Entidade Reguladora. Já estamos vacinados para não lhe perguntar nada sobre a Guiné ou o Lubango; perguntar-lhe seja o que for é abrir a cancela da central hidroeléctrica do ressentimento.
Primeiro, porque isso abre portas a que fale horas infindas. Até o Pai Natal e o Menino Jesus fogem para não o ouvir, suplicando à gerência do presépio por cancelamento de temporada. Depois, porque conta sempre o mesmo: os ciganos, os imigrantes de tez mais escura, os corruptos dos Generais e, ainda, os ciganos, os imigrantes de tez mais escura, os corruptos dos Generais, para finalmente desaguar nos ciganos, nos imigrantes de tez mais escura, nos corruptos dos Generais. É o ciclo hidrológico da conversa de café: evapora do Facebook, condensa no parlamento, chove em horário nobre.
É chato. É aborrecido, aperreador, sacal, aperreante, aporrinhante, azucrinante, cacete, cansativo, desagradável, enfadonho, enfastiante, fastidioso, impertinente, importuno, incómodo, inconveniente, insistente, intrometido, irritante, maçador, maçante, monótono, tedioso. O sempiterno André Ventura não tem mais temas do que Jorge Máximo, conhecido taxista do Benfica que fez greve (?) um dia, contra a Uber, junto à rotunda do Relógio. Desfilou argumentos à primeira pergunta e, quando lhe fizeram a segunda, repetiu a resposta.
O truque é simples: troca-se a cassete, mantém-se a música. Hoje são ciganos, ontem foram outros, amanhã será uma nova categoria oficial de culpados com carimbo e estatística conveniente. Ventura descobriu que a política é karaoke de indignação: escolhe-se uma base rítmica — “eles”, “os de fora”, “os que vivem à nossa custa” — e grita-se por cima até o público acreditar que aquilo é improviso — e ainda levam as fronhas de borla.
O mais inquietante é que o chato não vive sozinho. Precisa de plateia, de aplauso, de comentador a sério a dizer “temos de o ouvir, representa muitos portugueses”. Como se representar medos bastasse para lhes dar razão, da mesma forma que um termómetro, por medir febre, passasse a ser especialista em vírus.

João Vasco Almeida
Finalmente a velha Maçonaria do Grande Oriente Lusitano vai iniciar umas senhoras — poucas, porque a tradição não gosta de multidões femininas — numa das suas Respeitáveis Lojas. Neste caso, a R.L. Delta, nome tão carregado de simbologia que, se eu fosse um Jodorowsky em saldo ou um Vilhena ressuscitado de mau-humor, já fazia tudo para não me rir, licencioso: “A primeira é a Delta, depois havia de ser as Montanhas…”, diria distraído, como esses que conhecem bem os rituais, mas tropeçam sempre na ironia.
Em Portugal há muitas Obediências e Grandes Orientes, essa espécie de federação de lojas que se levam muito a sério, que aceitam há décadas as chamadas lojas “mistas”. O termo é de uma infelicidade épica: soa a tosta-mista pedida num café apressado, com fiambre sem vocação e queijo em crise de identidade. Quando a espiritualidade começa a cheirar a snack-bar, talvez seja altura de rever a carta.
Dizem os livros, com voz grave e respeitável, que tradicionalmente somente os homens podem tornar-se maçons, porque tudo começou em antigas guildas de pedreiros, esses senhores da pedra e da argamassa. O argumento é comovente: como no século XIV eram homens, em 2025 continua tudo igual, como se a Humanidade fosse um regulamento em latim colado na parede. A regra passou de mão em mão, como loiça herdada, até se transformar num dogma tão rígido que nem uma chave de fenda o solta.
O curioso é que, desde que a Maçonaria se tornou “especulativa” — isto é, deixou de assentar pedras e passou a assentar ideias — a ferramenta central é o cérebro. Se a obra é mental, excluir metade da espécie é como abrir academia de filosofia e proibir quem lê livros com óculos. Mesmo assim, o Machismo Retrógrado ganhou a batalha, e as grandes obediências, incluindo as duas maiores portuguesas, continuaram firmes, de falo em punho metafórico, como se a dignidade dos rituais dependesse da ausência de voz feminina na assembleia.
Havia uma alternativa mais honesta: assumir um Machismo Progressista, com calendário de caducidade, avental unissexo e cláusula clara a dizer “estamos atrasados, mas sabemos”. Era pouco, mas era qualquer coisa. Em vez disso, optou-se pela versão clássica, com cheiro a papel antigo, e só agora aparecem duas ou três senhoras a entrarem pela porta, recebidas como se fossem pioneiras numa selva que elas já conhecem melhor do que muitos irmãos de compasso ao peito.
Lamento, portanto, que a iniciação de duas ou três mulheres seja notícia e motivo de aplauso. Se me chamasse Sara, Ana ou Maria, mandava-lhes uns abraços sinceros e saía de mansinho, sem ficar para o brinde de honra. Há conquistas que chegam tão fora de prazo que arriscam parecer esmolas cerimoniosas. Uma coisa é abrir portas; outra é destrancar a arrecadação, avisar as televisões e fingir que se inventa o futuro.
E o mais irónico de tudo é que, após tanto segredo, tanto símbolo e tantas palavras sussurradas em tom grave, a verdadeira subversão talvez seja apenas esta frase, dita à porta do templo, por uma dessas senhoras de avental novo: “Chegaram tarde, irmãos. Nós já estávamos à vossa frente há muito tempo.” Nesse dia, se houver justiça poética, o compasso há-de aprender a medir vergonha.

João Vasco Almeida
Há na ciência política contemporânea uma teoria pouco estudada, mas empiricamente irresistível: a do Silenciamento por Altitude. Funciona assim: quanto mais elevada a posição de um agitador vocal, menor o ruído que consegue produzir. É física básica, conjugada com psicologia das massas e um toque de gestão de recursos humanos aplicada ao espectáculo mediático.
Proponho, pois, que se eleja o Dr. aVentura para Presidente, Primeiro-Ministro, ou qualquer função decorativa que o seu ego comportar sem implodir. Quanto mais depressa, melhor. A urgência não é política — é acústica. O homem transformou a praça pública num monodiálogo obsessivo, repetitivo na temática e tão excitante quanto o autor das legendas da CMTV durante os jogos da bola. É como ouvir a mesma campainha tocar durante três anos. Eventualmente, o cérebro deixa de registar o som como informação e classifica-o como poluição sonora de fundo.
Não constando nos planos do Dr. aVentura invadir a Polónia através da Jerónimo Martins — operação que, convenhamos, seria logisticamente complexa e pouco rentável em termos de narrativa heróica —, nem tampouco marchar sobre Paris, não vá ele espezinhar um português “de bem” que lá mora e paga impostos aos franceses (traição imperdoável, certamente), resta-nos a solução vertical. Elevação estratégica. Consagração imediata. O homem merece, e Portugal igualmente merece: três Salazares, dois Marcellos e um João Franco em cada esquina. Todos de meia de liga, malinha de puta e batom laranja com purpurinas, naturalmente. Porque se vamos transformar o país num parque temático da nostalgia autoritária, ao menos que seja kitsch o suficiente para ninguém o confundir com a realidade.
A beleza do plano está na sua simplicidade darwiniana: levem o Dr. aVentura aos píncaros dos Himalaias, de helicóptero de preferência, para que se cale ou fique somente a ouvir o próprio eco. No Evereste não há plateia, apenas sherpa educados demais para interromper. Ali, finalmente, ele poderá discursar para as nuvens, que têm a paciência infinita dos elementos naturais e a vantagem adicional de não votarem. O eco, esse, sim, responderá sempre — mas com o atraso suficiente para criar a ilusão de diálogo sem a inconveniência da discordância.
Resta ainda a questão da oportunidade. É preciso agir antes que Cristiano Ronaldo se lembre de querer jantar com ele. Porque se isso acontecer, a cobertura mediática transformará o evento numa espécie de ceia mística pós-moderna, com análises infindáveis sobre o simbolismo do vinho escolhido e especulações sobre se houve ou não abraço à despedida. E aí, meus amigos, já não haverá Himalaias suficientemente altos nem helicópteros suficientemente rápidos. A máquina de ruído tornar-se-á auto-sustentável, alimentada pela curiosidade mórbida de quem não consegue parar de olhar para o desastre em câmara lenta.
A solução está, como sempre esteve, na física das montanhas e na sabedoria dos alpinistas: o ar rarefeito não permite gritos prolongados.

João Vasco Almeida
A ciência contemporânea descreve a atrofia cortical frontoparietal como um processo degenerativo. A sociedade, zelosa imitadora da biologia, parece ter abraçado o diagnóstico com entusiasmo clínico: áreas críticas de raciocínio e empatia em colapso, sinapses sociais queimadas como carochinhas de papel em romaria de São João.
Diz-se que das cinzas brota sempre algo novo — o problema é quando o novo traz avental rendado e um sorriso de detergente. Eis as “TradWifes”, essas esposas vintage da pós-modernidade que acreditam ter reinventado o amor, mas só reciclaram o patriarcado em frasco de cristal. “A submissão, dizem, é liberdade com filtros.” Fazem milhões de filmes para o TikTok e Instagram a explicar porque a palavra de seu marido é uma ordem a que devem obedecer. Explicam como nunca discutir com o algoz – antes pelo contrário, subir ao quarto, botar lingerie da Temu e libertá-lo da sede.Existem, estão aí, são aos milhões. Santo deus levou as três Marias a tempo de não verem estas coisas.
As “tradwifes” são as heroínas do ferro de engomar emocional. Submetem-se voluntariamente — palavra nobre para um acto de rendição — ao marido que decide, orienta e protege. Elas administram lares como quem gere pequenas monarquias domésticas, com a obediência por decreto e a felicidade como propaganda de detergente “sem corantes nem ideologia”. O insólito é que o fazem em reels de 15 segundos, entre receitas de pão artesanal e citações bíblicas com filtro sépia.
A sociedade, fatigada de si, assiste com ternura. Talvez porque a servidão, quando filmada em 4K, parece menos servidão. Observa-se uma espécie de nostalgia higiénica: voltar aos anos 50, mas sem o cheiro a naftalina. Cada post é uma cápsula de tempo sem pó — onde o machismo brilha de tão polido.
Depois, claro, virão os “TradHusbands”, que se dizem líderes espirituais com barba aparada e discurso sobre “ordem natural”. Seguir-se-ão os “TradKids”, programados para acreditar que o forno é um sacramento e o pai, um oráculo. O algoritmo agradece: quanto mais submissão em alta definição, mais engajamento por pixel.
Mas não é por ironia que o movimento cresce — é por carência. A promessa de um papel fixo, de um manual de instruções moral, é sedutora num tempo em que ninguém sabe quem deve pôr a máquina da roupa. O caos assusta; a obediência, consola.
Talvez o cérebro colectivo esteja, de facto, em regressão — uma nostalgia neuronal, uma recusa infantil da incerteza. Porque, no fundo, a “tradwife” é o sonho húmido de um mundo exausto: ordem, perfume, e um jantar à mesa sem perguntas.
E todavia… há beleza nessa ilusão. Uma harmonia impossível que lembra o éter luminífero — substância outrora imaginada para explicar o inexplicável. Talvez o amor precise sempre de um pouco de ficção, mesmo que em papel de embrulho cor-de-rosa.
No fim, o diagnóstico mantém-se: a atrofia é real, mas é selectiva. O lobo frontal morre de tédio, enquanto o coração insiste em acreditar que o retrocesso é, às vezes, só uma forma de dançar para trás.

João Vasco Almeida
O mundo, desde o Iluminismo, trabalha a eito para provar que a Lei de Murphy é apenas um optimismo ingénuo. A única certeza sólida que resta, para além da morte e da obrigatória burocracia, é a imortalidade processual. Um caso em Portugal não se resolve: atinge a sua idade de reforma sem nunca ter prestado um único dia de serviço útil à verdade. A Justiça, essa Dama cega, veste, na realidade, um hábito de monja anacoreta, especialista em peripatetismo forense. Aviso: isto é sobre a lentidão, não sobre o culpado.
Felemos do advogado defensor de Sócrates: Delille. Este génio da manobra dilatória, essa arte subtil de transformar a defesa num tratado de geologia temporal. A sua mais recente performance — a demissão estratégica — deveria ser estudada nas academias militares. Não como táctica jurídica, mas como exemplo de guerrilha contra o Tempo. O Advogado abandona o campo de batalha, não por cobardia, mas para obrigar o Inimigo (o relógio da prescrição e caducidade) a parar e esperar que chegue o substituto. Um brilhante ato de auto-sabotagem profilática.
A Justiça Portuguesa é uma tartaruga que, por vezes, se finge de caracol para não ser apanhada a correr.
Chama-se um “oficioso”, um pro bono que, coitado, ao ver as dois milhões de páginas do processo, se sente como um filatelista a quem oferecem a biblioteca de Alexandria. A Juíza, que os leitores com a sua irónica sabedoria apelidam de “tonta” — é, na verdade, uma vestal da “resiliência” que, no momento, não consegue negar o óbvio: o homem precisa de meses para ler a epopeia burocrática. Três anos, talvez, para a mera primeira leitura, sem interrupção para almoço. Tempo que, curiosamente, coincide com o ciclo de gestação do elefante.
Delille, entretanto, está no paraíso da indolência calculada. Não de férias; está em retiro estratégico, a beber chá-de-crisântemo com a paciência dos jesuítas. O “oficioso” mal pago, após um ano a desfolhar autos, clama por uma pausa. É então que, com a precisão de um relojoeiro suíço, o génio Delille reaparece. A Juíza (a Sísifa com toga) é confrontada com o óbvio: o regresso do maestro exige que este se ponha “ao corrente”. Que, na língua processual, significa: mais meses. Mais anos. O infinito é agora um prazo.
O jogo não é sobre a Lei, mas sobre a exaustão. É uma partida de xadrez maratona onde o objetivo não é o xeque-mate, mas o desinteresse do público e a fadiga dos materiais. A prescrição, esse buraco negro da lei, espera, paciente. O Direito de Defesa é um escudo perfeito para a manobra dilatória. E a Juíza, acossada, sabe que a negação deste tempo é um presente envenenado para o arguido, uma futura nulidade escrita em papel timbrado com ouro.
É a dança dos ineptos ou a apoteose do estratégico? Quem ganha não é o inocente, nem o culpado. Ganha o Sistema, que demonstra a sua grande capacidade de se auto-anular, de implodir a um ritmo geológico para que tudo, no final, se esfume num “oi?” mal compreendido.
A resposta está onde sempre esteve: entre um sussurro e um anúncio.

João Vasco Almeida
A velha pasteleira impositiva, feita com os sobrantes de uma cama de ferro que para ali andava desde o séc. XIX, pintada por tinta verde, errada para metal, era um diabo.
Subir era uma prova de esforço clínica, descer uma actividade desgovernada conduzida pelo guiador que, um dia, fora vaso e rosa retorcidos pelo martelo e forja. Hoje, anda-se de bicicleta eléctrica, que parece logo outra forma de exterminar prisioneiros nos Estados Unidos, além da conhecida cadeira. A imagem é tão clara quanto absurda: um objecto doméstico transformado em versão motorizada do destino. E assim começámos a chamar bicicleta ao que era lambreta — porque os GNR disseram-no, e bem: “(…) há sempre uma bicicleta / com motor é uma lambreta(…)”.
As cidades, entretanto, trocaram nomes por esperanças: temos ciclovias sem lambretovias; temos tinta para o planeta e betão para lembranças. Aqui, há atrasado, apareceram estes desportistas de motor fácil e moleirinha a pedir traumatismo, com umas trotinetas que, ‘quitadas’, batem os cem à hora. Concordo. Da observação à cólera há um só passo burocrático — e outro, mais curto, chamado medo e traumatismo. Porque não basta que algo seja veloz; é preciso existir um lugar que aceite essa velocidade sem sacrificar quem caminha devagar… ou pensa devagar.
Proponho, com a seriedade de quem brinca por causa, uns snipers somente com Pressão-de-Ar, para chumbar rabiosques de meninos e meninas, que ousam sequer pedalar em passeios, passadeiras, contracorrente, contra putos, velhos, desatentos — marimbando-se para as famosas vias exclusivas onde se derramaram milhões em tinta e betão… para salvar o planeta. (Não é uma proposta; é um sintoma.)
A pasteleira virou símbolo de resistência ao motor; o vaso e a rosa, guiador; a cama de ferro, mapa de cidade. Observação: quanto mais depressa esta imbecilidade de andar nos montes, vales e colinas — empilhados de carros e barrotes de cimento, para o pedalinho — desaparecer, mais feliz será a vida, de Norte a Sul. Mas antes, há que pensar se não seria interessante ter lei, educação e, vá, bom senso: três coisas que não se encontram em lojas de acessórios. Quem paga ciclovias imagina demente; quem monta lambretas, cobra fémures.
No final, a última volta: a pasteleira permanece, verde e errada, lembrando que as soluções recebem sempre o nome do problema. E se a resposta está entre um sussurro e um anúncio, então talvez o que nos falta — entre tinta e betão — seja a coragem de chamar as coisas pelos seus nomes e de não confundir velocidade com virtude. A cidade que se organiza contra si própria ainda nos pode ensinar algo: andar devagar também é política.