
João Vasco Almeida
À procura do planeta Freud, decerto para nos deitarmos no sofá e suspirarmos o vazio interno, nem sabemos bem como a realidade é real. Existe um “pacote laboral”, que penso ser caixa de velho cartão com tolices de loiça lá enfiadas, para a quermesse parlamentar. O velho Freud perguntaria se tinha sido um pesadelo. Diríamos que não: é apenas um baile mandado sem mandador. O “pacote laboral” é uma obra dadaísta, onde quem passa atira sem pudor qualquer coisa para a tela e lá vai ficando, entre um Presidente da República que disse que vinha para estar calado, mas não está, e um Primeiro-Ministro que não distingue, de manhã, se o couto da meia esquerda é igual ao da direita.
A questão dos trabalhadores – que agora se chamam “colaboradores”, como se não trabalhassem, mas passassem “por lá” para dizer adeus – é simples. Trabalham, geram riqueza, são pagos pelo seu trabalho e o capital fica com a mais-valia (aquilo que o trabalhador produz a mais do que o valor do seu ordenado). Nem me meto agora no debate que propõe a mais-valia partilhada.
Esta semana ficámos a saber que os portugueses trabalham mais horas do que a média dos restantes cidadãos europeus mas – oh, mas! – a sua produtividade é muito mais baixa.
Claro que é. Não temos gestores; temos contas de merceeiro. Quantos “CEO” desta terra saberão configurar e activar a Chave Móvel Digital? Uns dez por cento? Há uma desqualificação na gestão financeira, económica e humana nas empresas. Os trabalhadores também não criam brio: ‘para quê?’, pensam, ‘se daqui a três meses me põem no olho da rua e contratam a uma empresa de trabalho temporário um jovem a ganhar metade e a fazer (mal) o dobro’?
Os guardiões da galáxia política são tão fracas figuras que dou comigo a aplaudir o olvidado “Chicão” e a perguntar se o PS terá entre seis a nove por cento nas eleições que hão-de vir.
Mas concentremo-nos. Como bem demonstra o magnífico podcast do 24horas, as audiências de televisão provam que quatro milhões de portugueses decidem, todas as noites, escolher ver e ouvir as defesas do Damas e os remates do Chalana, a dura história de Gabriela, Cravo e Canela ou o programa dos apanhados numa casa fechada.
Só falta o guarda, de sinete, a passar nas ruas e bradar: “São onze horas, está tudo calmo, o rei está Seguro”.

João Vasco Almeida
Na segunda-feira, dia 27 de Abril, por volta das 12h30, um estrondo enorme e um terramoto abalaram toda a zona centro, com epitáfio (epicentro, perdão) na Figueira da Foz. A Força Aérea (FA) desculpou a coisa, dizendo que um avião F-16 tinha acelerado para além da velocidade do som, o que causou a explosão sonora sónica. Mas, no dia anterior, a FA disse que não sabia de nada. E não sabia.
Na verdade, no livro de regras da Força Aérea, está escrito de forma clara que «Sobre Terra: Quando autorizado para treinos específicos em áreas segregadas (zonas militares), a altitude mínima [para passagem a voo supersónico] situa-se geralmente acima dos 30.000 a 35.000 pés (aprox. 10.000 metros)».
Para o resultado que as testemunhas relataram, um caça da Força Aérea teria de estar muito mais baixo, aproximadamente entre os 6.500 e os 13.000 pés.
Os pilotos portugueses não são malucos. São loucos, porque são os melhores do mundo, mas nenhum piloto nacional é maluco nem quer causar cretinices. Por isso, a explicação oficial “não cola”.
Resta-nos, então, apurar a verdade.
As primeiras imagens de Pedro Santana Lopes demoraram cerca de 8,6 anos a chegar ao sistema planetário à volta da estrela Sirius (a mais brilhante no céu noturno). Os siriencenses, que passam por uma profunda crise civilizacional, vasculham há décadas as emissões de rádio e televisão dos sistemas solares em seu redor, à procura de ajuda.
Tor-El, o líder interino de Sírius 3, presidiu a uma das mais importantes reuniões de que há memória no sistema vizinho: a solução para a boa governança estava em escolher um líder que fizesse o bem. Em 2014, quando chegaram as imagens de Pedro Santana Lopes como primeiro-ministro, os sírios avançaram com uma megaexpedição para “subtrair” Pedro Santana Lopes do planeta Terra e fazê-lo imperador do sistema Sírio.
Chegaram à Terra, finalmente, nesta segunda. Os sírios, ao chegarem à Terra, encontraram um mundo em caos, em que a verdade e a mentira se entrelaçavam como as raízes de uma árvore antiga. Pedro Santana Lopes, subtraído à socapa e substituído por um androide, era agora um ícone intergaláctico. Foi recebido com uma mistura de adoração e desconfiança. Os habitantes da Terra, intrigados com o som barulhento do travão de mão da nave,, começaram a questionar o que teria acontecido.
Enquanto isso, Tor-El e sua equipe de exploradores tentavam entender as complexidades da política terrestre. Mas Pedro Sanatana Lopes desencorajou-os. «Uma coisa é salvar impérios», disse, «outra é compreender um leitão Amaro ou um tipo que se põe de costas para o Aguiar Branco». E num ápice, qual Capitão Kirk, melhor que um Han Solo, Santana disse: «Vá, vamos lá embora com isto, que ainda temos de ir buscar o Miguel Relvas e o Fernando Seara».
E assim se explica, cientificamente, o que se passou. Ao contrário dos terrestres, que só reconhecem Santana no “depois”, os de Sírius há muito compreenderam o que é um homem livre. Bastou um estrondo.

João Vasco Almeida
Uma pessoa anda aí pelas ruas e chega a ouvir catraias nascidas em 1990 a dizer mal de Mário Soares. A que se somam as associações de retornados, os famélicos da Terra, alguma Santa Madre Igreja e espontâneos a quem nada se perguntou, mas que fazem do táxi sua tribuna.
Porém, atente nisto: nunca dizem mal de Mário Soares da forma certa. Atacam o enorme Soares por três coisas: «Estava vendido aos americanos»; «Ele encheu-se foi do bom, do nosso dinheiro» e, ainda, «Ele traiu os amigos todos e ficámos na miséria».
Uma pessoa ouve e não está para contestar, tal a pobreza. Mas decido ajudar. Querem dizer mal de Soares? Então, pela minha saúde mental, usem-se disto a seguir:
1- «Estava vendido aos americanos Ainda bem. Imaginem que estava vendido a Moscovo ou a Nairobi. Era pior, ou não? É uma cantilena sem sentido.
2 – Soares não precisava de dinheiro para nada. Já o tinha. Podia ser advogado da Coca-Cola toda a vida…
3 – As grandes zangas de Soares são públicas. Zenha, a que mais lhe doeu, teve arrependimento póstumo.
Mas, para dizer mesmo mal, tome nota:
1- A urgência da descolonização baseou-se na insustentabilidade militar e financeira de manter três frentes de guerra. Deu numa descolonização em que Moçambique, Angola e Guiné assinaram em papel molhado. Guerras civis que ainda hoje afloram. Mas Portugal estava de rastos financeiros (o Botas deve ter levado o ouro nazi para Santa Comba).
2 – Não há graça que não faça o FMI: por duas vezes, uma no pós-guerra colonial e outra depois do PPD a governar, Soares teve de pedir empréstimos ao Fundo. Ou isso, ou íamos mesmo ao fundo.
3 – Esta decorre da (2): A “política do rigor” foi um imperativo de saneamento financeiro; sem o ajuste das contas públicas, Portugal não teria atingido os critérios mínimos de convergência necessários para integrar o projeto europeu. Soares impõe CEE, mesmo contra um vacilante Cavaco e uma revolta dos agricultores. Sabia que, para sair do abismo, tínhamos de dar um passo atrás — para a terra,não para o mar.
Por isso, caro leitor/a, estimo que, para a próxima, já vá preparado. Ou fale do Benfica.
(Nota: Leia “O Tempo e a Memória”, crónicas de Mário Sores, com escolha e organização de Jorge Morais, Âncora, 2026. Vai a ver-se e, afinal…)

João Vasco Almeida
Já sabíamos pouco sobre quem financiou os partidos políticos em Portugal. Agora, nada se vai saber. O perigo é óbvio e enorme. Se uma empresa de criação de coelhos der dois milhões ao PSD e este, estando no Governo, atribuir a essa empresa contratos e parcerias com o Estado, não haverá forma de questionar: “O que se passa aqui?”
Ao esconderem os financiadores (por causa de um regulamento qualquer que protege os dados pessoais, o RGPD, mas que tem mais falhas que a rede de pesca da Nazaré), os políticos põem os seus partidos à venda. É o “quem dá mais” dos favores.
Até agora, era possível solicitar a lista dos doadores. A partir de hoje, caso haja uma loucura, a Ferrari pode investir três milhões de euros no PCP, só para garantir que o partido mantém os seus lugares no Parlamento. E ninguém saberá disso. Ou o líder do Chega pode passar a usar exclusivamente roupas da Primark, pois esta empresa financiou a sua campanha. Há um “product placement” legislativo. Lembro-me de uma cantiga infantil que se aplica:
«O porquinho foi à horta
e comeu uma bolota;
o cão também lá quis ir,
mas fecharam-lhe a casota.»
A partir de agora, os partidos, os porquinhos, vão à horta e ninguém saberá quando, como ou quanto comeu. A democracia passou a ser de mercado e nós, o cão, teremos de confessar na declaração de IRS quem nos deu dinheiro, quanto, quando e porquê. Dá vontade de entregar a papelada ao fisco e dizer: “Lamento, mas por causa do RGPD não posso revelar quem me pagou.” Ou há lei, ou comemos todos. E nós também queremos comer impunemente.

João Vasco Almeida
De manhã, na aldeia, o pão ainda chega morno e a conversa vem fria, como se a noite a tivesse guardado no bolso. Encostamo-nos ao balcão do Manel, medimos o café pelo rumor, e alguém diz que os estrangeiros continuam a arranjar o palacete do Rossio –estrangeiros de onde, pergunta-se, como se a geografia fosse uma forma de parentesco. A casa, que dantes respirava abandono com dignidade de senhora antiga, está agora coberta por um véu de andaimes e promessas. Até aqui, nada de novo. Mas ontem, ao dobrar a esquina, vi o que não estava previsto – e o dia ficou com um dente a mais.
Levantam piso. Acrescentam altura. Um torreão cresce no quintal como um pensamento que não nos pertence. E eu, cá de baixo, com a prudência de quem já perdeu uma carteira e encontrou apenas recibos, senti um susto manso: isto é maior do que devia. Talvez maior do que nós. Ou do que a memória que fingimos ter.
“É progresso”, diz um homem do boné, com a autoridade de quem nunca sobe escadas.
(Nota ao leitor: progresso é palavra elástica; serve para embrulhar tanto um pão como uma catedral.)
Há em todas as terras um gosto pelo excesso miudinho, uma febre de purpurinas que se cola às coisas sérias como musgo a pedra antiga. Não se vê, mas pesa. E paga-se. A burocracia assina, os jornais piscam o olho, a política ajeita a gravata. Nós, que somos poucos e muitos ao mesmo tempo, olhamos e comentamos, com essa arte de murmurar que é uma forma de concordar.
“Construímos o que nos falta para não vermos o que nos sobra.”
Disse-o ninguém, ou talvez eu, numa dessas conversas interiores que começam com o frio e acabam na consciência. Porque há qualquer coisa de profundamente íntimo neste torreão novo: ele cresce como crescem as desculpas, por camadas, e de cada janela futura espreitará uma vista que não existia – e, por isso mesmo, parecerá necessária.
Volto hoje ao Rossio. A casa antiga, coitada, continua lá, a suportar o acrescento como quem aceita um chapéu que não pediu. Julgava-me imune a alturas – mas dou por mim a medir o céu em prestações. No fim, talvez seja isto: a aldeia não cresceu; apenas se esticou um pouco, para caber melhor no retrato que alguém imaginou. E nós, com o café já morno, continuamos a caber nela.

João Vasco Almeida
O ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, é um rapaz novo, com a sapiência de um amanuense universal, se acreditarmos nas notícias. Soube-se que o seu homólogo norte-americano, Marco Rúbio, lhe ligou para dizer “obrigadinho, Paulo”, porque o Governo português deixa que Donald Trump e companhia façam o que querem de Portugal. Não bastava o uso “à Lagardère” das Lajes; também o bunker que existe em Monsanto, Lisboa, tem os EUA nos últimos e mais enterrados pisos do subsolo alfacinha — de onde controlam meio mundo.
Ao contrário de Giorgia Meloni e Pedro Sánchez, chefes de Governo de Itália e Espanha — que fizeram manguito ao louco Trump —, o passe-vite que é Portugal deixa fazer tudo, passar tudo; assobia para o lado como um carneiro amestrado, ou um Rangel de papel.
O perigo é óbvio: se isto chega aos ouvidos xiitas da velha Pérsia, isto é, Teerão, os grupos terroristas que estão a acordar em todo o mundo, a mando do regime iraniano, vão ter Portugal na lista dos pequenos atentados de vingança no “pós-guerra”. E, se Espanha e Itália perceberam que, ao impedir que os americanos fizessem o que queriam, se puseram na primeira linha empresarial para vender ao Irão obras públicas e receber gasosa mais barata, o Governo português anda aos ziguezagues, como num famoso vídeo de há um par de anos.
Portugal, que sempre foi um país de neutralidade interessada, passou a criado de sala, com Rangel. A Lusitânia, que ocupa os lugares de Secretário-Geral da ONU e da presidência do Conselho Europeu, vê Rangel dar tiros para o ar e acertar nos próprios pés.
Não é o único caso de total incompetência. Um destes dias, já conto outra história, em que Paulo, apóstolo de MonteNegro, se prepara para derrapar em grande.
Fomos, durante séculos, mestres da ambiguidade útil. Sabíamos dizer “talvez” com um sorriso que valia ouro. Hoje dizemos “claro” com um encolher de ombros que vale pouco. Entre a subtileza e a submissão há a distância de um gesto. Rangel parece preferir o gesto curto.
Até lá, ficamos nesta sala bem varrida, com as cadeiras alinhadas e a porta escancarada. Entra quem quiser. E nós, de vassoura na mão, pedimos desculpa pela corrente de ar. Porque, no fim, o mais inquietante não é o que nos fazem. É o que passamos a achar normal.
À lixeira foi parar Portugal – antiga potência da subtileza diplomática, hoje acocorada perante o homem cor de laranja. Rangel pode ter posto em risco vidas portuguesas. Pode; não temos certeza. Mas não deixará saudades a ninguém.

João Vasco Almeida
A América americana, a do homem da Marlboro, tem muitos defeitos, feitios e qualidades. Uma das qualidades é a quantidade de actos democráticos em que o Poder pergunta ao povo o que deve fazer. Uma tangente à democracia directa, em que cada um de nós pesa mais, pois toma mais decisões.
Anda aí um arrazoado penoso: a Assembleia da República, como lhe infelizmente compete, vai ter que votar juízes para o Tribunal Constitucional. Aliás, a AR só vota juízes do Tribunal Constitucional e o Presidente do Tribunal de Contas, cargos considerados de suma importância. Como sempre, trazem a panelinha. O PPD vira-se para o Chega!, depois para o PS, depois para a IL e tenta cozinhar, dando apenas a pedra, uma sopa de magistrados para que o Constitucional não fique “partidarizado”. Uma balela, pois são os deputados que pertencem a partidos que hão de escolher os homens e mulheres do mais alto Tribunal do país.
Chamo então à liça os Americanos da América. E, com eles, proponho que os Juizes do Constitucional, o presidente do Tribunal de Contas e, acrescento, o Procurador Geral da República sejam eleitos por voto directo dos portugueses.
Este modo de chamar “órgão de soberania” aos tribunais, mas, depois, a soberania ser corporativa e partidária, lembra-me uma sopa de caracóis com “perejil”, intragável, numa estação de serviço entre Salamanca e Plasencia. Era novo, rareavam as pesetas e tragava-se tudo para manter o corpo a funcionar.
Assim está MonteNegro, à beira de mais um ataque de partidarite, em vez de ter o rasgo de se sentar com pessoas e democratizar mais o Portugal.
Sinto que temos medo de referendos e eleições. Num “gonçalvismo” apocalíptico, tudo o que tenha voto do povo é visto de lado — as nossas pseudoelites temem a ignorância e o analfabetismo político das pessoas. E terão alguma razão, pois eles mesmos são reflexo da grande ignorância.
Talvez um dia não lhes doa mudar a regra e deixar a partidarite de lado e avançar para a cidadania concreta. Ou talvez não, arrastando assim o feudalismo das sedes partidárias sobre o povo inane.

João Vasco Almeida
Além do mistério que a Maçonaria envolve, e apenas por força de mitos urbanos, corriqueiros e de antanho, esta sociedade iniciática é tão inofensiva como outros grupos de homens e mulheres que, voluntariamente, se associam. A Maçonaria não é o único grupo iniciático em Portugal. Entre muitos, contam-se as Ordens Rosacruzes, as Ordens Templárias, a Ordem Soberana e Militar de Malta, a Ordem Equestre do Santo Sepulcro de Jerusalém ou o Opus Dei, apenas para citar algumas. A maior parte, curiosamente, está ligada ao Cristianismo e à Igreja Católica, e por esta sancionada e apoiada.
Mas a Maçonaria possui um prestígio internacional e nacional que merece atenção. O Serviço Nacional de Saúde foi gizado por maçons, tal como toda a rede da Segurança Social, que ainda hoje subsiste. Conhecem-se maçons fundamentais para o progresso do País, bem como grupos de maçons que lutaram pelas dívidas — ou antes, pelos ideais — da liberdade, igualdade e fraternidade ou, se preferirem, da solidariedade.
A obra dos maçons, como a de outros grupos, não se faz aos berros nas capas dos jornais. De França aos Estados Unidos, de Portugal ao Brasil, a maioria dos maçons entrega-se a um caminho solidário, mesmo em relação àqueles que não foram iniciados. A missão, segundo a literatura disponível, consiste em que cada iniciado se melhore a si mesmo e, tão ou mais importante, actue no sentido de melhorar a sociedade.
E isto leva-nos à erva daninha. Em todos os grupos há erros de selecção, idiotas e imbecis. Quando as claques de futebol têm de seguir dentro de uma “caixa” policial até ao estádio do adversário, compreende-se bem que o problema reside nessas centenas de indivíduos — e não nos restantes adeptos pacíficos.
Em sociologia, isto é simples de entender. Durkheim afirmava que «o crime é normal… faz parte de todas as sociedades saudáveis». Além disso, a sociologia identifica quatro sinais claros, a saber:
1. Estrutural —«Sempre existirão desvios, pois são parte do funcionamento social (Durkheim);
2. Cognitivo — «O negativo pesa mais do que o positivo» (Baumeister);
3. Relacional — «Os grupos precisam de culpados e de contraste» (Girard);
4. Sistémico — «As falhas colectivas tendem a ser personalizadas» (Perrow).
Por isso, quando a polícia britânica determina que os membros da Maçonaria declarem essa condição, está apenas a tentar criar uma pressão de percepção geral, errónea. Parte do princípio de que um iniciado poderá ser “pior” do que os outros. O mesmo sucede na opinião pública portuguesa: quando um corrupto é corrupto ou um criminoso é criminoso, não basta afirmar que fulano é um bandido. A “mitologia profana” apressa-se a carimbar, acrescentando que o meliante “é maçom”.
Claro que, num país de Concordata, se o crime for cometido por um membro do Opus Dei, por exemplo, raramente tal é referido. A sociedade católica suporta, de forma tolerante e sem grande agravo, essa condição.
O que nos conduz a uma conclusão: há criminosos. Mas um epíteto basta para tornar o criminoso “ainda pior”, o tal carimbo. A responsabilidade, essa, também cabe à sociedade iniciática, que deve comunicar melhor com a sociedade em geral e não hesitar em mostrar a porta da rua àqueles que não cumprem os seus bons e consolidados costumes — seja na Maçonaria, seja na Ordem de S. Miguel da Ala.
Mas o sensacionalismo vende. E a Maçonaria é, para os jornais, uma espécie de Taylor Swift vista sob um erro de paralaxe.

João Vasco Almeida
Olho com a mesma tranquilidade de sempre para o mostruário dos cadáveres comestíveis, no talho. Estou na dúvida. Entre umas bifanas baratas e uns bifes do acém, ando ali como um verdadeiro José Cid: ou Amar como Jesus Amou ou Cai neve em Nova Iorque. Por fim, digo: “Levo uns quatro bifes do acém”, numa entoação mais pergunta que decisão. “Não levas, não”, responde o “Senhor Guilherme”, que me conhece desde que nasci, do alto dos seus setenta e poucos, que mandou a reforma dar uma volta e a vida caseira soçobrar, antes que tudo isto acabasse com ele. “Queres é umas costeletas”. E pega na peça exposta, leva-a à bancada dos mártires e, com uma machadinha, acaba, qual médico legista, por separar quatro costados, enfiar num saco transparente e pesar. Depois da operação de medida exacta, rapa de uma quinta costeleta e enfia-a no saco. Põe-me a encomenda em cima do transparente balcão e pergunta: “E os rapazes?”.
Este golpe de abuso de poder, corrupção, inside-trading e outros crimes subjacentes que devemos ter praticado são, apenas, a forma mais pura de um socialismo sem esse grande. O acém não está para clientes antigos. Está para gente estranha, cabrais a matar revoluções, kaulzas a perder nós górdios. Para a “gente”, o talho não é uma loja, é uma sala de estar com um amigo, que vai buscar a melhor garrafa ou aquele medronho ‘ilegal’, engarrafado numa água do Luso de litro e meio.
Quando bradam que hoje as pessoas são ‘assim’ ou ‘assado’, penso sempre no mesmo: as famílias não falam, as escolas não debatem mas, e principalmente, o meio social morreu. O meio social que me permite comer carne decente, que às sete horas já tem o medicamento que eu preciso e que às três e meia não há na botica – e que a eterna “menina Fernanda” vai mandar buscar.
Encafuados em cavernas com fibra para ver TV, com vibra para ajudar os intestinos, sem fibra para aguentar quatro horas nos transportes, diariamente, o meio social foi assassinado. O medo do ‘outro’ instalou-se de tal forma que impede as trocas seguras e simples entre as pessoas. Não, não são amigos íntimos. Mas são a nossa comunidade, a nossa pequena aldeia, a nossa base e respaldo.
O nosso bife do lombo.

João Vasco Almeida
Das letras mais pequenas e achava-os como os dedos espachados a agarrar-se à terra, como um herói numa levada com dedos de pianista, mas cafre.
Enquanto insistias em chamar a empregada que o teu pai arranjara na paróquia de Benfica, baixa, atarracada, o mais longe que tinha ido era ao lugar do cristo rei, sem subir, pelas ‘vertigens’ e nunca mais sairia de Benfica, umas viagens a Campo de Ourique para ver a mãe acamada.
E ouvi agora a notícia que morreste, alegram-se melancólicos, estão a mostrar-te em todas as idades, com uma musiquinha de pianinho tolo, nunca leram a brutalidade que escreveste nem o prazer da janela por onde ias vendo o mundo a seco.
A empregada chamava-se Sustida, quem lho deu já cá não está, um padrinho que veio do Lubango novo, ainda, e andara amante de uma mulata desse nome e quis que tu fosses tão disposta e tão nua como a original, numa perversidade que só se consegue se não tivermos um pingo de temor.
Quando passam a notícia da tua morte, que eras um dos maiores senão o maior, vem a ladainha do Nobel, do Saramago, sem perceberem que não era um jogo de futebol, um contra outro, mas um tango onde os saltos afiados mostram quem mais se esforça, não é apenas ouvido médio e parietal a funcional, é um talento, mas falam tantos , e morreste ainda há bocadinho.
E Sustida trazia um copo de leite espetada uma colher e na ponta da colher o mel, que deslaçava ao calor do copo, “para acalmar, senhor doutor, para acalmar”.
dentro de um mês toda a gente se esqueceu de ti e devolvem os livros, ou nem sabem onde andam