
João Vasco Almeida
Com novo Presidente da República chegará, como sempre, um novo léxico. Muda a música, mas a letra é a mesma modinha. António José, velho conhecedor de adágios indolentes, já nos habituou a estas ginásticas de salão. Foi ele que inventou a “abstenção violenta”, essa tourada sem touro contra o primeiro Orçamento de Estado de Passos Coelho. Ficámos todos a aplaudir o capote, esquecidos de perguntar pelo animal.
Não estranharemos, pois, que surja um “veto funcional”. A lei não trazia manual de instruções. O Presidente tentou ligá-la à tomada da Constituição, mas faltava-lhe uma peça. Não veta. Afina. É como aquele tio que não critica o cozido, apenas diz que o grão precisava de estágio.
Ou a “Prevenção Preventiva”. Um gato escaldado do Constitucional tem medo da água fria do Diário da República. Em vez de vetar a lei incauta, manda-a primeiro à Faculdade de Direito, como quem leva o tractor ao mecânico antes da lavoura. Depois, conforme os ventos e as marés do Terreiro do Paço, logo decide se a envia ao Tribunal Constitucional ou se a deixa a pastar.
E que dizer do “Consenso Marginal”? Uma aliança de partidos que, somados, não enchem uma carrinha de nove lugares, mas proclamam unanimidade com a solenidade de um Concílio. A democracia vira assembleia de condomínio, onde três vizinhos decidem pintar o prédio de verde-alface e chamam-lhe pacto estrutural.
Por fim, a “Carta Perene”. Mensagem à Assembleia que nunca acaba. Vai chegando aos bocados, como feno distribuído em tempo de seca. Um parágrafo hoje, outro no próximo equinócio. Só no fim do segundo mandato se percebe a frase inteira.
No fundo, este dicionário seguro-português serve para uma coisa antiga: aparar as arestas do real. Diz-se “funcional” para não dizer “impotente”. Diz-se “consenso” para evitar “irrelevância”. Diz-se “Chefe de Estado” e a cabeça acaba por pensar do Rei. No Rei Momo, decerto.

João Vasco Almeida
Sócrates e Santos Silva investigados em novo caso de branqueamento de capitais. A frase cai sobre a mesa do pequeno-almoço como uma nódoa de café: já lá estava ontem, regressa hoje com outra gravata. Novela de mau costume e pior argumento, o processo — ou processos, que a gramática também anda sob escuta — contra o antigo PM são chacota, não notícia. Fico a olhar para isto como quem revê um episódio repetido e descobre que, afinal, nunca percebeu o enredo.
O Procurador Geral anda a monte, diz-se; os magistrados podem ser vesgos; a defesa vai servindo cicuta, que o poder judicial engole como um puto traga um compal. A imagem é de tal modo nutritiva que quase se recomenda em rótulo: “Sabor Justiça, com polpa e fibra”. Pergunto-me quem escreve estas sinopses. Haverá uma sala com luz fluorescente onde se decide que hoje é dia de indignação morna e amanhã de escândalo requentado?
Soma-se a este quadro degradado a insistência de se fazer notícia com o cão que mordeu o homem. Sobre Sócrates, toda a gente tem opinião; todos já o julgaram e decidiram o seu destino, com a serenidade de um oráculo municipal. Cita-se Al Capone como se uma multa e um imposto por pagar fosse o Santo Graal do caso Marques — e dos outros. A justiça transformou-se num campeonato de metáforas: quem trouxer a comparação mais sonora ganha a taça da convicção.
Há dias em que suspeito que não queremos justiça; queremos argumento. Queremos a sensação de ter razão antes de saber do quê. «Em Portugal, a culpa é um estado civil», escrevi num guardanapo e alguém poderia tatuá-lo na omoplata sem notar a ironia. É isto.
Lembro-me do poema do Fausto e aplico-o aos tugas de certeza em bico: «As crianças e os moços / Trouxeram seu corpo / Sem vida pelas ruas / Arrastado pela garganta. / E a gente dava esmola / Oferecida aos meninos / Dava como se fosse / Uma obra muito pia e santa». Há nesta piedade uma alegria secreta, como se a esmola fosse um espelho onde nos vemos virtuosos.
Desconfio de espelhos, interrogo-me: não estaremos todos a arrastar um corpo qualquer — o da presunção, talvez — pelas ruas digitais, oferecendo moedas de opinião como se fossem absolvições? Talvez o processo seja uma novela. Talvez seja tragédia. Talvez seja apenas um espelho mal polido onde cada um ensaia a sua sentença.
No fim, desligo a televisão imaginária e fico a pensar no cão. Se mordeu o homem, ao menos teve a decência de o fazer sem conferência de imprensa.

João Vasco Almeida
Agora mesmo, sem pedir licença, já há músicas que nos entram no ouvido e foram paridas por uma máquina. Paridas, sim. Como quem larga um vitelo no meio da estrada e segue. Nós olhamos. Achamos graça. E depois dançamos em cima do bicho.
A tal Inteligência Artificial, que também começa a pôr fala aos maus Governos, aprendeu o truque mais velho do mundo. O refrão fácil. A emoção de alguidar. O verso que serve para tudo, como uma enxada que tanto cava batatas como abre valas na alma. O mau uso da maquineta dá resultados hediondos. E, no entanto, não nos queixamos muito. Porque ouvir Kendrick Lamar ou Chico da Tina, em certos dias, pode ter o mesmo efeito: uma pancada boa, seguida de silêncio.
O que quase ninguém reparou é nisto: o perigo não é a máquina fazer canções. O perigo é nós deixarmos de saber o que é uma canção. Uma canção era, no fundo, um contrato de trabalho invisível. Um pacto de dignidade. Alguém gastava noites, costas, renda de casa, e oferecia-nos três minutos de mundo. Agora começa a aparecer música sem suor. E isso dá cabo do resto: do valor do esforço, do preço do tempo, da ideia de autoria, da paciência. Dá cabo até da democracia miúda que existe em cada obra feita à mão.
Mas há quem estude a ferramenta. Quem a trate como companheiro de lavoura. Quem leve lírica humana, mexa, desmex a, componha passo a passo. Aí, sim, surgem exemplos deliciosos. Bonitos. Como pão quente ao virar da esquina.
A nossa guerra com a Inteligência Artificial foi perdida na linha de partida. Resta a atitude adulta: compreendê-la e dominá-la. A rejeição, como se fez ao sushi e ao arenque fumado, só nos põe de fora. E um país que se põe de fora, depois queixa-se de tudo. Até do Mozart que passou dois meses, a sós, a limar uma pérola de 80 BPM, com lírica de Fernando Grade resgatado ao esquecimento. E nós, em vez de escutar, perguntamos: “Isto é de quem?”
Talvez a pergunta certa seja outra: “Isto fez-nos melhores ou apenas mais fáceis?”

João Vasco Almeida
O Instituto Europeu para o Estudo da Coesão Social publicou há dias um relatório que estabelece, com precisão notarial, os 47 momentos anuais em que o cidadão comum deve experimentar felicidade. É um trabalho sério, financiado por fundos comunitários.
Acaba o Natal, e mal os magos viram costas há já máscaras de entrudo à venda nas lojas chinesas e supermercados gigantes. Passa-se da manjedoura para a cabeça de cavalo, com a tranquilidade do repetitivo. Esta transição, antes considerada indecorosa, é agora vista como eficiência comercial. Os economistas chamam-lhe «optimização do ciclo festivo». Os padres não dizem nada porque também eles têm calendários para preencher.
Acaba o Carnaval e pensamos de novo numa quaresma infinda, a que se segue o 25 de Abril, o 1º de Maio, o 13 de Maio, as festas dos Santos, a final da Taça dos Campeões. Um ser humano, hoje, não precisa conquistar liberdade para ter dias felizes. As Igrejas e o Estado encarregam-se de lhe marcar dia e hora para sorrir ou chorar. Uma completa e bela pincelada de felizardia coerciva. Maça-me, isto. A tirania dos dias marcados é a única que se paga com IVA e ainda assim ninguém protesta.
A Europa, que ainda ia tendo alguma personalidade, adoptou a máxima «os cidadãos burros merecem palha, pau e cenoura». É na palha que estão as felicidades. Mais o dia do pai, da mãe e do espírito santo. E aquele dia ridículo em que se apagam as luzes durante meia-hora para salvar o planeta — gesto que equivale, em termos práticos, a tentar esvaziar o Atlântico com uma colher de chá, mas que nos faz sentir virtuosos enquanto jantamos à luz das velas compradas precisamente para essa ocasião.
Há quem argumente que estas celebrações colectivas criam laços sociais. É verdade. Do mesmo modo que o rebanho também tem laços sociais quando segue para o matadouro. A diferença é que as ovelhas não compram bilhetes antecipadamente nem fotografam a experiência para redes sociais inexistentes.
Seria bom, num ano, limpar tudo e deixar a coisa profana e espontânea. Com uma limpeza de memória e um apelo ao subconsciente. A ver no que dava a maleita. Talvez descobríssemos que a verdadeira festa é aquela que não tem data marcada, que não aparece em calendários litúrgicos nem agendas governamentais. Aquela que acontece numa terça-feira qualquer, sem aviso prévio, sem máscaras à venda ou hinos oficiais.

João Vasco Almeida
Entretanto, andamos a ver o vendaval. Não o vento em si, que é apenas ar com opiniões fortes, mas o que ele revela quando passa: um quartel de bombeiros, esse objecto místico que julgávamos indestrutível, aparece destruído. O telhado, placas de zinco com rebites da loja dos 300, voou para longe. Não foi metáfora. Foi mesmo para longe, talvez para um sítio onde os rebites são promovidos a convicções.
Penso nisto e lembro-me de quando as Igrejas eram o último reduto de segurança. Entrava-se lá como quem entra num cofre. Hoje, entra-se num quartel e sai-se com a sensação de que alguém poupou onde não devia e investiu onde não fazia falta. A fé mudou de morada. E a engenharia também.
Os fios de comunicações e electricidade, que a lei mandou enterrar há décadas, continuam alegremente em postes de pau, erguidos como espantalhos. São postes optimistas. Acreditam no futuro. Acreditam que o sopro do Adamastor é apenas um boato literário. Depois caem. E nós caímos com eles, mas sentados no sofá, apáticos ou angustiados, sem net para jogar ao jogo das bolinhas coloridas.
O Governo, esse organismo que reage por fases lunares, espera mais 24 horas de borrasca para decretar o estado de sítio, ou de calamidade, ou, melhor ainda, de “desorientação total”. Esta última é a mais honesta. Não resolve nada, mas descreve tudo.
Ríamo-nos dos tufões na América, das pobres casas de madeira sem caboucos, a voar como ideias mal pregadas. Agora percebemos. A chuva em Portugal, violenta ou suave, será sempre de molha-tolos. A frase dói porque cola. Cola como zinco mal rebitado.
Penso, com aquela ansiedade doméstica enrolada em mantinhas, se não seremos todos edifícios importantes construídos com sobras. Prometemos resistência estrutural e entregamos improviso. Temos regulamentos, temos discursos, temos inaugurações. Falta-nos o invisível: aquilo que não aparece na fotografia e segura tudo quando o vento decide testar a nossa autoestima colectiva.
Talvez o vendaval não destrua. Apenas pergunte porque estamos e somos assim: trafulhas, aldrabões, moscambilheiros. No fim, desligo o rádio. O vento continua. Eu também. Só não sei por quanto tempo os rebites republicanos aguentam.

João Vasco Almeida
A segunda voltinha ao esquife eleitoral — onde, desta vez, vai amarrado o destino fatal da Nação — coloca o “não gostam de mim” frente ao “gostem de mim”. Paradigmas simples e, bem vistas as coisas, rigorosamente aquilo que merecemos.
De calções azuis, no canto direito, apresenta-se o herdeiro legítimo de Perón, Orbán, Putin, Bolsonaro e Berlusconi. Ventura usa exactamente os mesmos argumentos que estes monstros da política usaram — e usam — em eleições democráticas. O argumento é de uma simplicidade bíblica: «Estão todos contra mim, menos vós, meu povo amado». Foi assim na Argentina de 1946, com Juan Domingo Perón e a sua Evita; é assim, hoje, em Portugal, com Ventura, sem tango mas com igual dramatismo.
Resta saber se Filipe La Féria ainda vai a tempo de escrever um Não chores por mim, Portugal, à imagem do musical que Andrew Lloyd Webber dedicou à malograda mulher do general Perón, Evita. Por cá, se tal acontecer, teremos um magnífico “Dina” e versos reciclados:
«Não chores por mim, Portugal.
A verdade é que não te deixarei.
Embora possa ser difícil ver-me,
eu sou Portugal e sempre serei».
O «todos contra mim» tem provas dadas, currículo internacional e sucesso garantido, sobretudo junto de eleitorado distraído, ressentido e facilmente inflamável — uma tríade eleitoral de excelência.
Do outro lado, de calções rosa e laranja, está o oposto. O «gostem de mim», imortalizado num rato de esponja que mandava crianças para a cama nos anos 70 e 80 do século passado: Gigio é um rato de esponja, personagem de um programa infantil criado em Itália, em 1958, por Maria Perego. Um carente profissional, um caronte sorridente a caminho de Belém.
Seguro quer ser amado. Quer sê-lo muito. E, para isso, assume-se como esponja de tudo e de todos, numa corrida onde «as favas estão contadas», murmuram estrategas satisfeitos consigo próprios. Mas não estão. E o antigo líder da JS e do PS, em vez de subir ao piano de Rui Guedes, na RTP, a pedir para se deitar mais tarde, qual Topo Gigio tardio, prefere fazer que faz para não fazer nada — nada que lhe belisque a imagem de piedade, moderação e optimismo tão contido que mal se distingue a olho nu.
Entre a Evita e o Gigio, foi isto que nos calhou em sorte.
Sobre Portugal, quem tinha razão, afinal, era Fernando Ulrich: «Ai aguenta, aguenta».

João Vasco Almeida
Enquanto Trump incendeia o Irão, enquanto Putin faz arder a Ucrânia, enquanto Israel invade a Cisjordânia, Portugal assinou esta semana o acordo de «Exploração Sustentável da Lua e de Marte». Não invento, pesquise e sorria.
Bravos lusitanos, sempre a olhar para a frente – isso somos. Como o Montenegro e o Rangel já toparam o futuro, foram a correr assinar um papel que não vale um chavo – e que parece saído dos jogos florais da Sociedade Filarmónica União e Progresso.
Vejo facilmente uma nave espacial construída nos estaleiros de Viana do Castelo, com um autocolante a dizer “Como novo”. O lançamento a partir dos Açores, com vento lateral e atraso de duas horas. O comandante a pedir calma porque “isto já aconteceu noutras missões”. Tudo muito sustentável, claro. Sustentável como uma dieta de sementes que não alimenta ninguém mas dá conversa no escritório.
Não gozo de fora. Eu também assino papéis que não leio, aceito termos e condições como quem aceita o destino. Sinto-me muitas vezes um comando de televisão nas mãos de uma criança cansada. Carrego nos botões todos e nada acontece. Talvez por isso admire esta confiança nacional. O mundo pode acabar em Outubro, mas nós já garantimos um lugar no cosmos. Não se sabe bem para quê, nem com quê, mas está assinado. Já conta.
Mas vamos só “nós”, que os senhores do Bangladesh ficam cá a penar. Toma! Viva o aVentura, porteiro da Discoteca Portugal. Há qualquer coisa de ternamente inútil nisto tudo. Uma fé burocrática no futuro, embrulhada em linguagem solene, aprovada por 59 países antes de nós. O filósofo búlgaro Stoyan Petrov, que ninguém leu porque nunca foi traduzido, dizia que “quando o gesto é pequeno demais, chamamos-lhe esperança”.
Assinar este protocolo é tão relevante como apanhar um isqueiro que caiu ao chão. Diz o leitor: tanta escrita para uma palhaçada destas. Pois, permita-me: é do isqueiro que nasce a luz. E em Marte, seremos o V Império do Isqueiro, tenho a certeza.

João Vasco Almeida
Nuvens cerradas, chuva e uma máxima de 15°C, céu de morrinha e Domingo cansado. Esta é a previsão do clima para 18 de Janeiro, data e horas marcadas para que os cidadãos portugueses saiam de casa, regressem à escola e votem num dos 10 homens ou na única mulher que dizer querer ser Presidente.
A chuva não dará indicação de voto. Nenhum candidato falou do tempo ou proibiu a chuva. Votar às 16h00 é bom conselho: basta um pulôver e um casaquinho impermeável. Está quentinho, se é que se pode dizer tal coisa.
No dia 18 de Janeiro, a Igreja celebra principalmente Santa Margarida da Hungria, uma princesa dominicana conhecida pela sua profunda devoção à Eucaristia, humildade e vida de oração, sendo um exemplo de mística medieval. Outra figura lembrada neste dia, especialmente na tradição romana, é Santa Prisca, uma protomártir que teria sido baptizada por São Pedro e deu a sua vida por Cristo.
E em 2005 a empresa de aviões apresenta o Airbus A380, o maior jacto comercial do mundo, em Toulouse, na França.
Nada do que aconteça a 18 de Janeiro de 2026 em Portugal será tão importante como o contado. Visto de longe, ter apenas uma senhora a concorrer é um espelho de como ainda estamos no tempo das enfermeiras e senhoras do PBX – que não podiam casar. Estamos ainda amorroados: bem gostaríamos de lume que aquecesse, mas restam-nos galhos soltos e jornais velhos. Nem um tronco de azinho para durar, convicto o azinho da sua luta quentinha contra a flama.
E flama é coisa que não há neste grupo de pessoas que, com esforço e voluntarismo exagerado, nos querem convencer a comprar o que trazem na bilha, transportada à cabeça, feita por picheleiros cansados. No pichel nem um quartilho há, se o abrirmos. É tudo velho, de novo. É tudo titubeante, esfarelado, esquizofrénico.
Talvez a maior diversão seja o tempo infindo que os comentadores passam a discutir com uma seriedade e formalismo, que não há, as desventuras dos onze. Estes verbos fáceis encontram valor e pistas onde nem o Dr. Watson conseguiria ver, sem se rir.
Leve guarda-chuva. Porque choverá. Talvez um dia usemos a sombrinha porque, finalmente, haverá sol. Mas não desta vez.
Agasalhe-se.

João Vasco Almeida
Uma pessoa não é de ferro, mas desconfio que os sinais de trânsito o são e, além disso, vieram todos de sobras irlandesas. Ou comprados no site da Temu, ou AliExpress — essas lojas dos 300 contemporâneas onde a dignidade humana é vendida a peso e com portes grátis. Há uma certa melancolia metalúrgica na forma como a nossa sinalética urbana envelhece, uma ferrugem precoce que espelha a nossa própria oxidação moral.
Estava a ponto de estacionar o meu primoroso Huawei Gatz à porta de casa de meus pais, para a maçadora consoada — coisa que nem a Bíblia ousou descrever, talvez por falta de adjectivos para o tédio familiar —, quando olho para o alto e descubro um sinal de trânsito fabuloso. Rectangular, tinha um desenho de um automóvel e de uma criança ao lado, tudo em sombras chinesas, mas a branco e azul.
Pois que ali está uma escola e a imagem, por si, nada dizia, excepto talvez sugerir um rapto autorizado pela autarquia. Até que, escrito no alumínio, está a expressão «Kiss & Ride». Perdão? «Beija e Cavalga»? Que diabos, quem é que cavalga? E agora os nossos sinais de trânsito são poliglotas por razão de ser?
Ainda com o Toucinho do Céu a adejar de uma mão e a equilibrar o cigarro na outra, espequei. Aquilo não acontecia… O menino Jesus já me levara e eu não topei. «Kiss and Ride»? Será isto uma instrução camarária para a reprodução da espécie em horário de ponta? Ou será apenas a prova definitiva de que nos tornámos uma colónia de férias de um país anglo-saxónico que nem sequer existe?
Imagino a reunião de câmara onde isto foi aprovado. Um vereador, certamente com um curso de gestão tirado num fim-de-semana via Zoom, achou que «Larga a Criança e Desanda» era demasiado vernáculo, demasiado português. Faltava-lhe o glamour de um aeroporto internacional. «Kiss & Ride» soa a eficácia, a modernidade líquida, a uma aplicação de telemóvel que nos resolve a vida afectiva enquanto o motor está ao ralenti.
Mas, caros concidadãos de um país que teima em traduzir tudo menos o ridículo: onde fica o espaço para a despedida portuguesa? Onde está o sinal «Chora & Abraça»? Onde estacionamos para o «Recomendações Sobre o Casaco & Benção da Avó»? Não. O progresso exige brevidade e, aparentemente, um calão erótico traduzido por um algoritmo deprimido.
Fiquei ali, imóvel, à espera que um polícia me multasse por falta de afecto ou por ausência de montada. Se a placa ordena que eu beije e cavalgue, sinto-me na obrigação cívica de perguntar: a quem? E, mais importante, o cavalo está incluído no imposto de circulação ou tenho de o trazer de casa?
Suspirei, larguei cinza sobre o passeio calcetado — a única coisa honesta que restou nesta rua — e entrei para a consoada. Ao menos lá dentro, entre o bacalhau e as tias que perguntam pelos namorados que não existem, as instruções são em português antigo e a única coisa que se cavalga é a paciência.