
Manuel dos Santos
É cada vez mais difícil ignorar que o sistema político português entrou no seu verdadeiro “momento da verdade”.
Esta percepção não tem sido devidamente verbalizada pela generalidade da comunicação social nem pelos principais protagonistas políticos, mas basta ouvir a chamada “ideologia do café” – outrora conhecida como “narrativa dos taxistas” – para perceber que a credibilidade dos políticos está pelas ruas da amargura e que a confiança nas instituições já viveu tempos bem mais saudáveis.
As causas são múltiplas, muitas externas ao país, mas entre nós agravadas pelo surgimento de um partido que fez do descontentamento latente o seu único programa. Um partido sem lógica, sem racionalidade e sem moral, desde que isso renda votos, mesmo que implique mudar de opinião diariamente.
O resultado é uma democracia enfraquecida, pós-Chega, em confronto directo com a prática democrática construída entre 1974 e 2015. E os seus principais alimentadores estão identificados: os criadores e usurários da “geringonça”, serventuários exclusivos do projecto pessoal de António Costa, incapazes de reconhecer os problemas reais da sociedade portuguesa e, ainda menos, de lhes dar resposta.
Motivada por audiências, entusiasmo ou agenda própria, a comunicação social portuguesa tornou-se cúmplice deste estado de coisas. Não apenas pela promoção diária, obsessiva e quase pornográfica, de André Ventura, mas também pelo desgaste sistemático da classe política, feito de forma leviana – embora profissional – assente em palpites, suposições, denúncias e declarações sem razoabilidade.
Invoca-se, como sempre, a liberdade de informação, constitucionalmente consagrada. E bem. O problema surge quando esse direito não vem acompanhado do dever de corrigir erros e ressarcir os lesados. Algo que, tanto quanto se vê e ouve, raramente acontece.
O chamado quarto poder não existe para estragar, mas para, através do escrutínio e da verdade, fortalecer a democracia. Quando falha, fragiliza-a.
O recente arquivamento do caso em torno da actividade privada do actual PM é um exemplo paradigmático. Meses de investigação judicial produziram instabilidade política e atraso no necessário processo social e económico. Ainda assim, apesar da clareza da decisão do ministério público, o comentariado apressou-se a engolir o arquivamento num previsível “sim, mas”, anunciando novas investidas e acusações recicladas.
Nada disto surpreende vindo dos partidos extremistas. Já é bem mais difícil compreender que esta seja também a narrativa do Partido Socialista, historicamente um partido da responsabilidade republicana.
O líder formal limitou-se a lamentar os recursos públicos gastos – declaração tão bizarra quanto reveladora – enquanto o líder informal derrotado, Pedro Nuno Santos, (uma espécie de Papa Negro) insiste que Montenegro não tem condições para se manter como PM. Na mesma linha, Ana Gomes justifica o arquivamento da sua queixa europeia com o facto (aberrante) de os apoios terem sido concedidos pelo governo de António Costa.
Desvario completo. E sinal claro de uma degradação democrática que talvez venha a impor uma equilibrada e controlada “refundação”, possível apenas através de uma revisão constitucional consensualizada.
Tema a abordar com cuidado, sem histerias e sem tabus, num futuro próximo.

Manuel dos Santos
A política transformou-se, cada vez mais, numa gestão profissional das expectativas. Quem percebe isso sobrevive; quem se deixa embalar pela própria propaganda acaba, regra geral, a pagar a fatura.
Foi por essa razão que li os resultados autárquicos do Chega como um sinal de alerta sério. Não uma derrota estrondosa, mas um aviso claro de que o ciclo de crescimento fácil pode ter terminado. Um início de turnover eleitoral, lento, mas consistente. Tudo indica que André Ventura terá feito leitura semelhante – e talvez por isso se explique a sua decisão apressada e politicamente errática de avançar para uma candidatura presidencial.
Ao afirmar que não quer ser Presidente da República, mas sim Primeiro-Ministro, Ventura expõe a fragilidade estratégica em que se encontra. Reconhece, implicitamente, que o futuro do partido depende menos da convicção ideológica e mais da sobrevivência eleitoral imediata. É uma fuga para a frente clássica, normalmente associada a cenários de lose-lose.
O Chega confunde-se hoje totalmente com o seu líder. E quando o líder entra num vórtice de voluntarismo e sobre-exposição, o partido segue atrás, sem rede. Ventura decidiu ir ao pote antes do tempo – ou foi empurrado para lá por falta de alternativas internas. O resultado previsível será o abandono progressivo de parte significativa do eleitorado mais ingénuo, ficando apenas um núcleo duro, marginal e pouco recomendável.
Em paralelo, a direita tradicional beneficia da conjugação de dois fatores: os erros acumulados do PS e a postura calculadamente serena de Montenegro.
Mantendo, no essencial, o “não é não”, o líder do PSD transmite previsibilidade, algo hoje escasso no sistema político.
Os elogios recentes à economia portuguesa, amplificados por uma comunicação social de matriz liberal, sugerem que esse caminho está a ser preparado. Um cavaquismo 2:0, adaptado aos novos tempos.
No segundo semestre de 2026 haverá a “prova do algodão”.
Até lá, com o novo quadro parlamentar mais estabilizado – um tripartidarismo exigente em vez do velho bipartidarismo – os perdedores do novo “normal” procurarão deslocar o conflito democrático para a rua.
Greves gerais precipitadas, protestos simbólicos e dramatização excessiva substituem a incapacidade de ganhar no Parlamento.
A recente greve geral é disso exemplo. Com um processo negocial ainda em curso, a decisão foi politicamente irresponsável e economicamente cara. Serviu sobretudo para sinalizar existência –PCP incluído – à custa de uma perda de PIB difícil de justificar.
O governo falhou na pedagogia da reforma laboral, é certo. Mas o comportamento das centrais sindicais, e em particular dos sindicatos da função pública, roçou o caricatural – “Sindicatos da Função Pública, “prolongam” greve geral para sexta feira” – proporcionando um fim de semana alargado aos seus associados.
Se a economia produtiva não puder aproveitar, que, pelo menos, aproveite a restauração e o comércio das grandes superfícies. Já não se perderá tudo.
Quando a espuma assentar, regressaremos à negociação séria e ao crivo parlamentar. Será então, já depois do previsível fracasso presidencial, que o Chega terá de escolher: responsabilidade ou irrelevância. A duplicidade não é sustentável.
Com um PS atordoado e sem rumo, abre-se espaço para uma estabilidade liberal, alinhada com a matriz política europeia. Um cavaquismo 2.0 – menos messiânico, mais pragmático.

Manuel dos Santos
A Constituição é inequívoca: o artigo 57.º garante o direito à greve; o artigo 58.º garante o direito ao trabalho.
Dois direitos fundamentais que, apesar de coexistirem há décadas, continuam a ser tratados como se estivessem em permanente colisão.
E, curiosamente, sempre que surge uma greve em contexto eleitoral, todos os candidatos começam pela mesma frase preventiva: “a greve é um direito dos trabalhadores”. Como se, depois de meio século de democracia, ainda houvesse dúvidas sobre isso.
O que raramente ouvimos é alguém preocupar-se com o outro direito constitucional: o direito dos cidadãos a trabalhar. Entrevistadores, comentadores e candidatos falam longamente sobre piquetes, serviços mínimos e impactos políticos, mas quase nunca mencionam aqueles que, sem terem culpa do conflito, ficam temporariamente impedidos de exercer o seu próprio direito.
A greve é um instrumento poderoso, mas só é legítimo quando usado de forma ponderada e como último recurso, após esgotado o processo negocial.
Falo, claro, das greves sindicais destinadas a defender interesses reais dos trabalhadores e não das greves ideológicas, ou das célebres “greves-porque-sim”, (quase sempre marcadas estrategicamente para sextas-feiras ou vésperas de feriado) , que são mais úteis para marcar agendas partidárias do que para resolver problemas laborais.
O direito à greve e o direito ao trabalho só são valores absolutos em democracia e só se respeitam, em pleno, em sociedades subordinadas a um contrato social que respeite com equilíbrio os poderes e deveres de todas as partes em confronto.
Em contrapartida, dificilmente haverá greves ou direito ao trabalho em sociedades com uma organização produtiva incipiente, sem empresas capazes de gerar valor e com um nível de desemprego geral acentuado.
A greve geral convocada para o dia 11, sendo legítima, padece de um desvio estruturante. Por um lado, serve de demonstração de força para um PCP que tradicionalmente instrumentaliza a CGTP. Por outro, apresenta-se como protesto contra uma reforma laboral, que a maioria reconhece como necessária, mesmo discordando de partes da sua configuração atual (posição da UGT).
Duas motivações distintas embrulhadas na mesma paralisação — um sinal claro da confusão política e sindical que atravessa o país.
Para quem sempre defendeu um sindicalismo plural, democrático e longe das tentações hegemónicas da unicidade, é triste assistir a este regresso disfarçado a lógicas de “geringonça”, agora sob o pretexto da defesa de direitos que, ironicamente, acabam por prejudicar muitos trabalhadores. Porque, como sempre, haverá danos colaterais: muitos milhares de pessoas verão interrompido o seu direito ao trabalho por decisão de uma minoria com a qual não se revêem e que nem sequer as consultou.
Este silêncio sobre o impacto das greves sobre quem não participa nelas, tornou-se um tabu. Mas é um tabu que precisa de ser quebrado se quisermos um país mais justo e uma democracia mais adulta.
Como escreveu Javier Cercas, “a democracia não é uma dádiva, mas uma conquista permanente”. E talvez devêssemos recordar isso com mais frequência.

Manuel dos Santos
O 25 de Abril o ponto zero da democracia portuguesa – “o dia inicial inteiro e limpo”, na feliz expressão de Sophia de Mello Breyner.
Foi o dia em que a sociedade respirou depois de meio século de asfixia, o dia em que a censura caiu, em que a polícia política se desarmou e em que o país recuperou a possibilidade de escolher o seu destino. Foi também o momento em que Portugal se libertou de um colonialismo esgotado e moralmente insustentável, abrindo caminho à integração europeia, ao desenvolvimento económico e a uma ideia de cidadania que não dependia de medo, de perseguições ou de silêncios forçados. Abril não é apenas uma data: é uma fronteira moral. E por isso deve ser celebrado sempre, sem complexos e sem donos.
Mas o caminho entre Abril e a estabilização democrática esteve longe de ser linear. Entre 1974 e 1975, o país foi atravessado por confrontos ideológicos intensos, disputas partidárias e uma luta aberta sobre que tipo de regime deveria emergir da queda da ditadura. A esquerda revolucionária queria uma transformação profunda, muitas vezes sem grande apreço pelas regras democráticas; setores da direita sonhavam com um travão brusco ao processo. O risco de uma guerra civil não era um exagero, era uma sombra real no quotidiano dos portugueses.
O episódio mais perigoso ocorreu no cerco à Assembleia Constituinte, em novembro de 1975, uma tentativa clara de impedir que o país tivesse uma Constituição democrática e de contrariar o verdadeiro propósito do 25 de Abril: devolver o poder ao povo. A ameaça foi derrotada graças à intervenção dos militares democráticos de Abril e ao apoio dos partidos que se comprometeram com a liberdade, especialmente PS e PSD. Daí nasceu o 25 de Novembro, não como negação de Abril, mas como o momento em que Portugal escolheu, definitivamente, ser uma democracia pluralista.
O 25 de Novembro consolidou os valores de Abril, afastou aventuras autoritárias e permitiu que o país entrasse numa trajetória estável. Sem esse dia, o 25 de Abril poderia ter sido capturado por extremismos ou reduzido a uma ficção conveniente. Por isso ambos os dias são pilares da mesma casa: Abril abriu a porta, Novembro garantiu que a porta não voltava a fechar.
Hoje, multiplicam-se tentativas de apropriação política destas datas, (com a esquerda a querer protagonizar o 25 de Abril e a direita a querer apoderar-se do 25 de Novembro) enquanto o PS, apesar do papel decisivo que teve nas duas fases do processo, hesita em reivindicar essa herança. Mas essa disputa é tão estéril quanto perigosa: Abril e Novembro pertencem aos democratas, não às etiquetas partidárias. Celebrar o 25 de Novembro não diminui Abril; reforça-o. E celebrar Abril não apaga Novembro; completa-o.
Em suma: Viva o 25 de Abril, sempre. Viva o 25 de Novembro, porque garantiu que Abril não seria uma lembrança, mas um destino.

Manuel dos Santos
Num dos seus habituais truques de prestidigitação comunicacional, André Ventura afirmou que, perante a situação política, económica e social, o país precisaria de três Salazares para recuperar. Bastou isto para que a “indústria do comentariado” encontrasse a agenda perfeita e passasse dias a dissecar o profundo “pensamento” do político.
De repente, desapareceram os problemas nos serviços públicos e a narrativa dos partos fora dos hospitais. Tudo foi substituído pela interpretação deste soundbite, que para o Chega — e sobretudo para o seu líder — foi ouro puro: multiplicou convites televisivos e garantiu atenção pública sem grande esforço.
Agora resta esperar pelo próximo truque, que surgirá quando menos se esperar e sobre o tema mais insuspeito. Ventura sabe bem o alcance do desejo que manifestou, mas como não era para levar a sério, achou dispensável desenvolvê-lo depois de garantir o efeito pretendido.
Enquanto cidadão, funcionário público e político com passado no PSD, todos lhe reconhecem capacidade intelectual para saber o que diz. Só que esse nunca foi o seu objectivo. Criar realidades paralelas, estabelecer factos alternativos e explorar percepções primárias através da mentira e da desinformação é o seu método — e enquanto houver retorno eleitoral, não mudará.
Mas pode haver algum mérito na provocação se ela nos levar a revisitar os salazares e o salazarismo. E nada melhor do que recorrer ao pensamento de Fernando Pessoa, interpretado por Manuel S. Fonseca na obra ‘Que Salazar era o Salazar de Fernando Pessoa?’
Na mesma figura, terão convivido três personalidades: o Salazar financeiro, que Pessoa admira pela competência e porque soube estender a mão a opositores; o Salazar estadista, que inspira muitas reservas dada a acumulação de poderes; e o Salazar autoritário, que fundou e consolidou uma ditadura de décadas.
Não sendo provável que Ventura espere 48 anos para se “realizar” com os três salazares com que sonha, terá de escolher um. Talvez na próxima ronda televisiva alguém da tal indústria do comentariado o convença a fixar-se numa opção.
Todos ficaríamos a ganhar!

Manuel dos Santos
Assinalou-se, a 1 de novembro, o 30.º aniversário da entrada em vigor do Tratado de Maastricht. Apesar de aprovado em fevereiro de 1992, só se tornou lei em novembro de 1993. Nesse momento, a Comunidade Económica Europeia — com 12 membros, incluindo Portugal — deu lugar à União Europeia.
Foi uma mudança estrutural: de uma cooperação limitada ao mercado passámos para um projeto de verdadeira integração, que juntou interesses económicos, políticos e sociais. Para Portugal, representou novas oportunidades e, na Europa, abriu caminho ao grande alargamento para leste, favorecido pela queda do Muro de Berlim (1989) e pelo fim da União Soviética (1991).
Apesar disso, esta data passou quase despercebida e pouco divulgada junto da opinião pública europeia.
Depois de Maastricht vieram os tratados de Amesterdão, Nice e, finalmente, o Tratado de Lisboa (2007/2009), uma solução encontrada após o fracasso da Constituição Europeia. Pretendia-se dar mais eficiência à União e evitar a paralisia institucional. Porém, o prolongado confronto entre federalistas e intergovernamentalistas resultou num modelo híbrido e numa liderança difusa, alimentando a crise de identidade da UE.
O sistema assenta em três lideranças principais, (Comissão, Conselho e Política Externa) escolhidas muitas vezes por critérios pouco claros, e não por mérito ou capacidade de mobilização. Resultado: perante um mundo em convulsão, a UE parece hesitante e com dificuldade em afirmar-se. Mesmo com instituições imperfeitas, boas lideranças podem fazer a diferença — mas não é esse o caso atualmente.
Vivemos um momento crítico que ainda não foi totalmente percebido pelos cidadãos europeus. Se nada mudar — regras, coesão, comportamentos, escolhas de liderança — pode ser tarde demais. Quem acredita na integração europeia e na importância de uma União forte para a estabilidade global não pode estar tranquilo.
A cidadania europeia não pode limitar-se à nostalgia do “foi bonita a festa, pá”. É preciso exigir visão, ambição e coragem.

Manuel dos Santos
“As condições da minha candidatura são definidas por mim. Não troco valores ou princípios por votos.”
Com esta frase, António José Seguro encerrou uma entrevista recente. Recusa ser encaixotado numa gaveta ideológica, mesmo que seja a mesma onde sempre esteve e onde participou na criação de políticas públicas para o país.
Seguro percebe que a sociedade portuguesa se está a “deslaçar”, termo que usa com frequência. E vê nisso um risco sério para a democracia. Num mundo turbulento, nada está garantido: mesmo integrados na UE — que atravessa o seu próprio período de incerteza — a democracia liberal portuguesa nunca está totalmente assegurada.
Na Europa, multiplicam-se sinais preocupantes: autocracias em crescimento, regimes radicais normalizados por opiniões públicas desinformadas e, muitas vezes, desesperadas.
Sem entrar em pormenores sobre todas as causas, vale a pena lembrar um estudo recente de um investigador de Ciências Políticas: ao analisar o discurso político francês desde 1959 até hoje, concluiu que os governos passaram a enfatizar temas como “identidade nacional”, “autoridade” e “rejeição da imigração”.
Assuntos típicos da extrema-direita, que podem tornar-se perigosos, mas que não desaparecem por serem ignorados. Só podem ser geridos com bom senso e cooperação entre os partidos que acreditam no social-liberalismo, acompanhados de forte pedagogia democrática e comunicação clara.
Seguro percebeu que só criando pontes e unindo os portugueses — em vez de os arrumar em gavetas ideológicas — será possível consolidar uma democracia moderna, inclusiva e capaz de garantir um desenvolvimento justo e sustentável.
Essa será uma das responsabilidades do próximo Presidente da República.
Não é tarefa fácil, mas a proposta apresentada é um bom ponto de partida.
Como disse Manuel S. Fonseca, noutro contexto, “é lindo ser inocente, mas convém não abusar”.

Manuel dos Santos
Na sequência da decisão da CN do seu partido, o Presidente Carlos César afirmou que “o apoio formal a Seguro esgota a participação do PS”. Dá para entender ou é preciso fazer um desenho?
O posicionamento do PS face à eleição presidencial é uma “estória” que ainda fará correr muita tinta e terá consequências sérias no futuro do partido.
Entre tantas matérias que dividem os socialistas, esta pode bem ser a “cereja em cima do bolo”.
É evidente que, a partir de 2011, se iniciou no partido um processo de assassinato político de António José Seguro, com António Costa como mentor.
Esta pulsão irracional e suicida condicionou a vida do PS e afastou-o de êxitos eleitorais que poderiam estar ao seu alcance.
Com o estímulo de Costa, as direcções que se seguiram após 2015 usaram a cultura do ódio como forma de resolver divergências políticas.
Destacou-se Augusto Santos Silva, um dos mais violentos detractores do PS e de Soares nos anos a seguir ao 25 de Abril.
Apesar disso, fez carreira “profissional” e chegou (pasme-se!) a presidente da Assembleia da República.
O momento-chave desta política de ódio ocorreu quando, após manifestar interesse na PR, Seguro foi desvalorizado e insultado pelo pretenso senador da República.
Assassínio cívico e político — sem êxito, felizmente.
Santos Silva não está só: é a referência do “califado dos Silvas” que vem empurrando o PS para a insignificância.
Tem apoios e ainda cultiva a esperança de acabar o trabalho de destruição de Seguro que iniciou.
Convém recordar as palavras do actual SG do PS, há cerca de um ano, ao Observador:
“Se Augusto Santos Silva fosse candidato a Presidente da República, o meu apoio estaria com Augusto Santos Silva.”
Ainda é preciso fazer um desenho?

Manuel dos Santos
Os números contam sempre a verdade que nos convém — basta saber torturá-los. Por isso não surpreende que, após as eleições de domingo, todos os partidos se tenham declarado vencedores. Todos, menos o PCP, que lá admitiu que o resultado ficou aquém.
Mais inesperada foi a euforia do secretário-geral socialista que, antes de apurados os votos, proclamou o “regresso do PS” Ironias à parte, a realidade é simples: o PSD ganhou, o PS perdeu. Ganhou porque cumpriu todos os objectivos — mais câmaras, mais assembleias, mais votos — e consolidou o poder do centro alargando-o às autarquias. O simbolismo da conquista da Associação Nacional de Municípios e da ANAFRE fala por si.
O PS perdeu porque não travou o declínio e continua refém de ilusões e discursos de vitória moral. Persistem sectores incapazes de sair do estado de negação e raiva, enquanto se preparam novos assaltos internos. Não serão tempos fáceis e as presidenciais poderão agravar a crise.
Mesmo assim, em vez de se procurarem responsáveis, celebram-se pseudo-vitórias. Mas às vezes é preciso olhar também para as árvores: a queda de Fernando Ruas é um caso a estudar, mas mais significativa é a vitória do socialista Ricardo Leão em Loures.
Há um ano, Leão fora vítima de um “assassinato político” dentro do PS, forçado a abandonar a liderança da Federação de Lisboa após um artigo humilhante assinado, entre outros, por António Costa, então presidente do Conselho Europeu. Apesar disso, o partido não ousou afastá-lo — temendo perder mais uma câmara.
Candidatou-se, ganhou, e respondeu a Costa com um desejo sob a firma de uma frase cortante: que se entretivesse em Bruxelas e ficasse longe do país “onde não faz falta”. Uma vingança fria e saborosa, servida com precisão cirúrgica.
Talvez para memória futura.
Manuel dos Santos é antigo vice-presidente do Parlamento Europeu