
Manuel dos Santos
Como tem sido noticiado, um grupo de militantes do PS, organizados num “Clube de Reflexão da Social Democracia”, apresentaram uma proposta pública à direcção do partido, propondo o adiamento do Congresso.
O que está em causa não é a legitimidade formal da convocatória do Secretário-Geral. É a sua oportunidade política. Reunir o órgão máximo do partido no início de um novo ciclo, sem debate interno consistente e preparação séria, é um erro. Um congresso não deve servir para ratificar decisões já tomadas em circuito fechado, mas para discutir rumo, estratégia e liderança.
A marcação apressada — quase clandestina — tem outro efeito: inviabiliza alternativas. Muitos dos que poderiam assumir posições diferentes estiveram, nos últimos meses, totalmente empenhados em apoiar Seguro nas eleições, como lhes competia. Não se prepararam para disputas internas porque o foco era outro. Criou-se, assim, uma situação em que a discussão é comprimida e as hipóteses de escolha real praticamente desaparecem.
Nunca houve a ilusão de que a direção aceitasse o adiamento, mas era preciso fazer a contra prova.
A pressa tem um propósito claro: evitar uma reflexão profunda sobre a opção tomada nas presidenciais. Com tempo e serenidade, seria inevitável escrutinar decisões, declarações e alinhamentos. Sem esse tempo, empurra-se o problema para a frente e preserva-se o statu quo.
Há pouco mais de um ano, quando a candidatura de Seguro começava a ganhar tração, o atual Secretário-Geral afirmou publicamente que, “se Augusto Santos Silva fosse candidato, o seu apoio estaria com Augusto Santos Silva”.
Depois disso, multiplicaram-se declarações pouco amistosas em relação ao candidato socialista, com especial destaque para intervenções do então proto-candidato, preferido pela liderança, sobre “mínimos” e vacuidades semelhantes.
Estes factos mereciam discussão clara e frontal.
Sem escrutínio prévio e sem alternativas organizadas, o Congresso de Viseu arrisca-se a ser apenas uma formalidade. “Legitimará” a continuidade de quem se empenhou, quase até ao fim, numa estratégia presidencial falhada. Tudo permanecerá essencialmente igual.
Este modelo fechado e autossuficiente, desligado de uma realidade social cada vez mais exigente, não é sustentável. Pode sobreviver por inércia durante algum tempo, mas terá custos. A questão é quando e quão elevados serão.
Não falo como porta-voz de qualquer movimento, nem pretendo liderar o que quer que seja. Falo como militante com mais de cinco décadas de filiação, com o direito — e o dever — de expressar preocupações. O futuro do PS, com esta direção, concentrando poder e evitando debate sério, não me parece promissor. Ou contribuirá para reforçar o centro-direita, por incapacidade de afirmar alternativa credível, ou acabará por criar condições para o crescimento da extrema-direita.
O partido precisa de fazer um corte claro com o passado recente. A chamada “geringonça”, apesar dos seus méritos conjunturais, bloqueou reformas estruturais indispensáveis e deixou serviços públicos em níveis de insuficiência preocupantes. É preciso reconhecer erros, nomeadamente na política de imigração, e assumir responsabilidades.
Também seria saudável colocar em pousio político — temporário, naturalmente, pois no partido de Soares não deve haver lugar a uma cultura de cancelamento— os protagonistas do ciclo marcado pelo chamado costismo.
Manter na direção figuras associadas a decisões que hoje são vistas como politicamente tóxicas, ignorando o desgaste acumulado, é insistir no erro. A renovação não pode ser apenas retórica.
Convocar um congresso sem debate prévio sério — não confundir ações de propaganda com discussão interna — é um mau sinal. A política, como a natureza, não tolera vazios por muito tempo. Se o PS não abrir espaço à reflexão e à mudança, outros ocuparão esse espaço.
Ainda haveria tempo para escolher um caminho diferente. Bastava que o actual poder no partido o desejasse.
Mas para isso seria preciso coragem política, humildade e verdadeira abertura ao contraditório. Sem isso, o futuro não será brilhante — será previsível. E, em política, a previsibilidade da estagnação costuma anteceder a derrota.
José Luís Carneiro e os seus mentores, em especial Santos Silva, serão os responsáveis pela “tragédia” anunciada.
O Partido Socialista é o partido estruturante da democracia portuguesa.
O seu futuro não pode depender de uma pequena legião de carreiristas e de uma direcção autista, incapaz de perceber as verdadeiras razões para as derrotas eleitorais mais recentes.

Manuel dos Santos
As catástrofes, sobretudo quando surgem sem aviso e fora de controlo, desencadeiam quase sempre reacções instintivas, emocionais, muitas vezes populistas, quase sempre desproporcionadas.
Isto acontece nas democracias liberais, onde a liberdade de opinião é um valor essencial; já nas chamadas “democracias iliberais” — expressão elegante para designar sistemas de pendor autocrática- e, mais ainda, nos regimes que nem se dão ao trabalho de disfarçar o autoritarismo, não há espaço para grandes sobressaltos discursivos.
Ainda assim, é precisamente esse o preço — e também a virtude — da Democracia: um regime imperfeito, exigente, por vezes ruidoso, mas que deve ser preservado, aprofundado e defendido, até porque continua a ser, como se costuma lembrar, o menos mau de todos os outros.
Os fenómenos climáticos extremos que recentemente atingiram o país, deixando atrás de si destruição material e angústia pessoal, teriam inevitavelmente reflexo no plano político. Era previsível que o Parlamento discutisse o tema com intensidade, e assim sucedeu.
Nada de anormal, portanto. Nada que, em si mesmo, constitua sinal de ruptura institucional ou de crise do regime. É, afinal, o funcionamento regular da vida democrática.
O cidadão comum — com excepção, naturalmente, dos que sofreram directamente os danos — percebe que perante acontecimentos imprevisíveis e de grande escala nenhum Estado está totalmente preparado. Não é possível criar mecanismos de resposta absoluta para todas as eventualidades, nem manter estruturas redundantes para cenários extremos que felizmente são raros.
O que esse mesmo cidadão não aceita, nem tolera, é a sensação de negligência ou de incapacidade evitável. O que não perdoa é que não se faça tudo o que é razoavelmente possível para reduzir os prejuízos e acudir às pessoas.
E, menos ainda, compreende que a dor alheia seja transformada em instrumento táctico de disputa política ou em oportunidade para ganhos eleitorais de curto prazo que pouco ou nada resolvem.
É ainda cedo para avaliar com rigor se o Estado português respondeu de forma plenamente adequada às recentes calamidades e às suas consequências: na protecção das populações, na reposição de rendimentos, na recuperação das actividades económicas afectadas ou na reconstrução de infraestruturas essenciais — transportes, energia, habitação, comunicações — sem as quais não há regresso efectivo à normalidade.
A avaliação séria exige tempo. A democracia funciona também assim: os juízos definitivos fazem-se no momento próprio, e esse momento, em última instância, é o eleitoral.
Apesar disso, multiplicam-se propostas apressadas, algumas delas caricatas, outras francamente perigosas, amplificadas por uma comunicação social demasiado inclinada para o dramatismo imediato e pouco dada à ponderação. Muitas dessas ideias não passam de tentativas de alimentar um leilão político entre forças partidárias.
O alargamento indiscriminado do estado de calamidade a zonas menos afectadas, ou a distribuição acrítica de apoios a fundo perdido, seriam medidas mais simbólicas do que eficazes: não resolveriam problemas estruturais e criariam, isso sim, uma pressão pesada e duradoura sobre as finanças públicas, cujas consequências acabariam por recair sobre todos.
O estado de calamidade não é uma proclamação retórica; tem enquadramento legal, critérios próprios e duração limitada. Do mesmo modo, a gestão da despesa pública — sustentada pelos impostos dos cidadãos — exige responsabilidade, prudência e sentido de futuro.
O que se espera de uma política séria é bom senso, rapidez de actuação, equidade na ajuda e defesa do interesse colectivo, compatibilizando solidariedade com rigor. Ajudar quem foi injustamente atingido não pode significar comprometer, por imprudência, a estabilidade de todos.
Porque a verdadeira calamidade não é apenas a que destrói bens materiais. Pode ser também a que corrói, lentamente, a confiança nas instituições e o equilíbrio do próprio sistema político.
A Europa — e em particular a União Europeia — enfrenta hoje esse risco mais subtil. Se não souber reformar-se com lucidez, poderá vir a conhecer uma outra forma de calamidade, desta vez política, que não se resolve com subsídios, que muitas violam a concorrência, nem com “fundos perdidos” que, ao contrário do que por vezes se sugere, estão longe de ser inesgotáveis.

Manuel dos Santos
Após eleições relevantes, é costume fazer listas de vencedores e derrotados. Muitas vezes é um exercício superficial. Desta vez, porém, a distinção impõe-se.
António José Seguro foi o grande vencedor das eleições presidenciais.
Apresentou-se como candidato, “sem amarras e livre” de aparelhos partidários e grupos de interesses, enfrentou o desconhecimento inicial de parte do eleitorado, suportou hostilidade interna no seu próprio partido e lidou com uma comunicação social que, até ao fim da primeira volta, o manteve à margem.
Ainda assim, afirmou-se praticamente sozinho. Defendeu com clareza os poderes presidenciais, comprometeu-se com a estabilidade política e com o cumprimento rigoroso dos mandatos. Conquistou o apoio de cerca de três milhões e meio de portugueses e foi eleito, justamente, Presidente da República.
É o único vencedor inequívoco deste processo eleitoral.
André Ventura apresentou-se como alternativa. A sua campanha assentou na radicalização do discurso, no ataque às instituições e na tentativa de se afirmar como líder da direita. A proposta de adiamento das eleições, aceitando contornar a lei, revelou a sua visão instrumental do Estado de direito.
Apesar do apoio objectivo e do branqueamento de parte da comunicação social, falhou objetivos centrais, desde logo a consagração como líder incontestado da direita portuguesa. Procurou associar-se simbolicamente à primeira-ministra italiana, mas omitiu que o seu partido integra, no Parlamento Europeu, o grupo dos Patriotas pela Europa, onde se encontram forças da extrema-direita como as de Le Pen, Viktor Orbán e Robert Fico.
O eleitorado não lhe concedeu o desfecho que pretendia. É, por isso, um dos grandes derrotados.
O outro é António Costa, atual Presidente do Conselho Europeu.
Desde que combateu Seguro no interior do PS e, depois, arquitectou a solução governativa conhecida como “geringonça”, Costa consolidou um projecto de poder exclusivamente pessoal. Não travou agora a eleição presidencial de Seguro, a quem sempre foi politicamente adverso, e deixa como legado um país onde a extrema-direita ganhou dimensão estrutural.
As opções políticas que protagonizou e os episódios que marcaram o seu percurso contribuíram para esse crescimento. O legado (“legacy” como refere o jornal Politico) é um partido — o Chega — que ambiciona enfraquecer a democracia liberal e cuja influência na política portuguesa já não é meramente episódica.
O balanço é agora claro: um ganha, dois perdem — e o país sabe exatamente quem é quem e com o que pode contar.

Manuel dos Santos
António José Seguro será eleito, no próximo dia 8, Presidente da República de Portugal.
Será uma escolha inequívoca dos cidadãos portugueses e uma decisão acertada. Perante uma sociedade fragilizada e à beira do abismo social, impõe-se alguém “livre e sem amarras”, que queira unir e não semear ódios, mentiras e frustrações.
Nesta segunda volta das presidenciais, para que Seguro fosse eleito bastaria obter mais um voto do que o seu adversário. Mas isso não basta ao país, não renova o sistema nem honra a democracia arduamente conquistada em abril de 1974.
O candidato da decência, da transparência, da moderação e da inclusão tem de ser apoiado de forma esmagadora. Por ele, mas sobretudo pelo futuro de Portugal.
O seu adversário assume uma política de divisão, de mentira e de confronto, utilizando a notoriedade mediática que lhe tem sido concedida e o uso abusivo das redes sociais para espalhar ódio e falsidade. Ventura, capturado pela sua ambição desmedida, é um verdadeiro “semeador de ódios” e acabará, mais cedo ou mais tarde, prisioneiro das armadilhas que constrói.
É certo que, entretanto, causará prejuízos à nossa democracia liberal, mas esse é o preço pago por quem quer viver em liberdade e defendê-la para todos.
Ficou claro, para observadores atentos, que o resultado das eleições autárquicas foi um relativo fracasso para o Chega. Também foi evidente que o resultado da primeira volta das presidenciais constituiu um duro revés para Ventura, com menos 110 mil votos do que nas legislativas. No próximo domingo ficará ainda mais claro que Ventura e o Chega acentuarão o seu percurso rumo à irrelevância.
Aliás, o próprio candidato da extrema-direita começou a percebê-lo, ao declarar que, qualquer que seja o resultado, ele e o seu partido liderarão apenas o espaço político não socialista, abandonando a proclamação de ser o líder de toda a direita.
Mais significativo do que os resultados eleitorais é a fragilidade interna do Chega, comprovada pelos sucessivos abandonos de dirigentes e autarcas. Um partido construído sobre práticas oportunistas e sem coerência ideológica só pode terminar assim: a democracia, a prazo, impõe-se.
Em contraste, o futuro Presidente da República afirmou desde o início que vinha para unir, cumprir e fazer cumprir a Constituição, garantir estabilidade e promover políticas públicas orientadas para as necessidades de todos os portugueses.
Para Seguro, a estabilidade política não é um fim em si mesma, mas uma condição indispensável ao desenvolvimento e à coesão social. Aqueles que alimentavam cenários de instabilidade deverão agora rever as suas ambições.
Embora em política não existam certezas absolutas, com António José Seguro na Presidência, a queda frequente de governos e eleições sucessivas tornam-se um cenário improvável. Exercendo a sua magistratura com firmeza e discrição, respeitará o semi-presidencialismo e não deprimirá conflitos na praça pública.
Em suma não será exclusivamente uma magistratura de influência mas antes uma verdadeira magistratura de incentivo, como defendia e praticava Jorge Sampaio.
Seguro é um candidato suprapartidário e será um Presidente equidistante de todos os partidos que respeitem a Constituição. É reconfortante para o país verificar que entre os seus apoiantes se encontram figuras como Ramalho Eanes e Leonor Beleza, referências maiores da nossa democracia.
Defenderam a Verdade e a Solidariedade contra a Mentira e a sementeira do Ódio. Afinal, nem tudo está perdido na política portuguesa e ainda há endossos que valem a pena.

Manuel dos Santos
A relação da Europa com a administração Trump está a ser marcada por uma sensação desconfortável de déjà-vu: a perceção de que o aliado central do pós-guerra se converteu num fator de instabilidade sistémica.
A deriva autocrática, o desprezo ostensivo pelas regras multilaterais e a reabilitação de uma lógica imperial de zonas de influência colocam à Europa uma questão simples e brutal: adaptar-se ou afirmar-se.
Vários líderes europeus têm descrito Trump em termos que roçam o registo clínico. Ainda não se trata, evidentemente, de diagnósticos médicos definitivos, mas já faltou mais para o serem.
Por exemplo o chanceler alemão Friedrich Merz não hesitou, recentemente, em identificar no comportamento do Presidente americano, sinais de imprevisibilidade, impulsividade e uma relação problemática com a realidade factual.
Esta leitura — partilhada de forma mais ou menos explícita, embora “escondida” em várias capitais — visa sublinhar um risco central: quando o poder máximo é exercido sem controlo (“cheks and balances”), as instituições tornam-se decorativas e os aliados reféns do humor do poder de turno.
Seria, contudo, um erro reduzir tudo à psicologia de Trump. Por trás da personagem está uma ideologia estruturada, ainda que intelectualmente regressiva: um soberanismo ocidental que recupera as doutrinas isolacionistas do século XIX, (Doutrina Monroe-1823-sob o lema “América para os americanos”) e que pode ser extremamente perigosa para o futuro equilíbrio geoestratégico.
Na realidade Trump é apenas a face visível, ruidosa e por vezes anedótica de uma política mais profunda e mais perigosa, que rejeita o multilateralismo, desvaloriza alianças duradouras e transforma a política externa num exercício de coerção transacional. A caricatura distrai; a ideologia corrói.
Assim a resposta europeia não pode continuar a oscilar entre a indignação moral e a dependência estratégica e, sobretudo, não pode ficar à espera do resultado das eleições intercalares americanas do próximo novembro.
No plano político, a União Europeia tem de assumir, de imediato, uma autonomia decisória efetiva, abandonando a ilusão de um regresso automático de Washington à normalidade liberal.
No plano da defesa, isso implica acelerar a integração de capacidades militares, reforçar a base industrial europeia e aceitar que a segurança do continente não pode permanecer indefinidamente subcontratada.
Mas é no plano económico-comercial, que começam a surgir os primeiros sinais de reação inteligente. Os recentes acordos com o Mercosul e com a Índia devem ser lidos não apenas como iniciativas de abertura comercial, mas como respostas estratégicas à agressividade trumpista em matéria de tarifas aduaneiras.
Ao diversificar parceiros e consolidar cadeias de valor alternativas, a Europa reduz a sua vulnerabilidade a choques unilaterais vindos de Washington e reafirma o comércio como instrumento geopolítico.
Tudo isto será decisivo se, entretanto, as reformas em curso não forem capturadas por grupos corporativos, com reduzida visão estratégica e acentuado abuso de uma cultura de “direitos adquiridos” que tem cada vez menos sentido num mundo em profunda transformação.
Só que isso é um risco que existe nas democracias liberais que só pode ser anulado com transparência, esclarecimento, pedagogia e coesão social.
Existe ainda um terreno menos explorado, mas potencialmente decisivo: o financeiro. A dívida pública americana, de dimensão histórica, constitui uma fragilidade estrutural.
A Europa — pilar do sistema financeiro global e grande detentora de ativos denominados em dólares — dispõe aqui de um instrumento de dissuasão indirecta. Não se trata de uma guerra financeira aberta, mas da utilização coordenada de regras, mercados e política monetária como contrapeso a desvios sistemáticos à cooperação multilateral.
O simples facto de sinalizar que esse instrumento existe é um travão eficaz que será facilmente compreendido pelos interesses que se alinham por trás do espectáculo trumpiano.
Em suma, a Europa enfrenta não apenas Trump, mas o fim de uma era de conforto estratégico. Persistir na confusão entre prudência e passividade seria, desta vez, uma escolha verdadeiramente irresponsável.
Não há alternativa ao “confronto”. Com regras, mas determinado e para valer.

Manuel dos Santos
Se Eça de Queirós fosse vivo, dificilmente resistiria a escrever mais uma das suas farpas. O alvo seria óbvio: a “glorificação” da campanha eleitoral para a escolha do próximo Presidente da República, cuja primeira fase terminou no passado domingo.
Chamaram-lhe uma campanha alegre.
Alegre?
Talvez no sentido pitoresco do termo. Triste, na substância — como lucidamente assinalou o consagrado jornalista Alberto Oliveira e Silva.
Com exceção de meia dúzia de momentos, quase sempre protagonizados pelo mesmo candidato, a campanha foi um mau contributo para a credibilidade dos políticos, para a dignificação das instituições e para o esclarecimento dos eleitores.
Depois da longa maratona de debates, não será fácil encontrar muitos cidadãos que tenham compreendido, com clareza, quais são, afinal, os poderes que a Constituição atribui ao Presidente da República. E isto apesar de esses poderes estarem bem definidos.
Mais grave ainda: na área onde esses poderes são mais relevantes — a política externa — imperou um silêncio ensurdecedor e politicamente comprometedor. O mesmo se pode dizer sobre as transformações em curso nas políticas económicas e sociais ou sobre as mudanças institucionais, cada vez mais urgentes, para a salvação da União Europeia. Temas centrais, tratados como assuntos secundários ou simplesmente ignorados.
Em contrapartida, o essencial parecia ser, dia sim dia não, exigir a demissão de um ministro de turno.
A campanha acabou assim por se transformar num palco de egos mal resolvidos, numa tentativa pouco convincente de reanimar opções políticas em declínio e numa antecipação de trunfos eleitorais, já a pensar num cenário de instabilidade política.
Instabilidade que todos rejeitam em público, mas que alguns parecem desejar em silêncio.
Ainda assim, como tem sucedido ao longo de 50 anos de democracia, no momento decisivo o povo revela sensatez. Dessa sensatez resultou a escolha possível na segunda volta: a defesa do regime democrático e da liberdade, representada por Seguro ou a tentativa de subversão do sistema, pela via eleitoral, protagonizada por Ventura.
Não é difícil prever qual será a escolha final. Isso não retira, porém, interesse à segunda volta, que continuará a ser — por mérito e feitio de um dos candidatos — uma “campanha alegre”, no sentido queirosiano da expressão.
Mesmo com um vencedor praticamente anunciado, importa conhecer a dimensão da derrota do vencido.
Depois do fracasso nas autárquicas, agravado pela perda regular de eleitos, estas eleições confirmam-se como um momento de desgaste do Chega. O partido perdeu cerca de 120 mil votos face às últimas legislativas, apesar de o universo de votantes ter aumentado e de o candidato ser exclusivamente o seu líder.
Só um resultado claramente acima dos 30% poderá disfarçar essa tendência e sustentar a narrativa de uma futura liderança da direita. No cenário mais provável, o risco de instabilidade, a curto prazo, será nulo e abrir-se-á espaço para uma necessária reformulação da actual arquitetura partidária.
O que, a acontecer, será uma mais-valia para o regime e um estímulo para o país.
É verdade que por vezes parece que vivemos tempos em que “os piores perderam o medo e os melhores perderam a esperança” (Hannah Arendt). Mas, felizmente, tudo indica que não será isso que se confirmará no próximo dia 8 de fevereiro.

Manuel dos Santos
A Europa está novamente sentada na primeira fila da História — e, como tantas vezes antes, hesita entre levantar-se e sair da sala ou fingir que o espetáculo não a envolve. A ofensiva estratégica da administração Trump veio retirar qualquer conforto à ilusão europeia de neutralidade geopolítica: o mundo está a ser redesenhado, e a União Europeia ou participa nesse desenho ou aceitará viver dentro das linhas traçadas por outros.
A actual ofensiva política, económica e estratégica contra a Europa não é apenas mais um episódio de turbulência transatlântica. Trata-se de uma tentativa deliberada de reconfigurar o equilíbrio geoestratégico global, recolocando os Estados Unidos no centro de um sistema de dependências, pressões e lealdades forçadas.
Como reagir?
O primeiro imperativo é simples de formular e difícil de executar: maior coesão das políticas europeias. Enquanto a Europa continuar a responder de forma fragmentada, hesitante e frequentemente contraditória, continuará a ser percebida como espaço económico relevante, mas actor político menor — uma espécie de gigante comercial com alma de anão estratégico.
Essa coesão exige mais do que boas intenções e comunicados solenes. Exige mudanças institucionais progressivas, plenamente ancoradas nos tratados, mas orientadas para a construção de um verdadeiro federalismo europeu. Não se trata de abolir soberanias, mas de as somar. Num mundo de impérios económicos e potências geopolíticas, soberania solitária é sinónimo de irrelevância.
Em paralelo a Europa precisa de assumir, sem medo e sem rodeios, o confronto político com a estratégia de Trump — confronto diplomático, comercial, tecnológico e narrativo. Não por antiamericanismo primário, mas por elementar instinto de sobrevivência. Vários líderes europeus já o disseram: ou a Europa aprende a defender os seus interesses estratégicos ou passará a viver deles apenas na memória.
A assinatura do acordo comercial UE–Mercosul representa, neste contexto, mais do que um tratado económico: é a primeira brecha visível na pretensão hegemónica que Washington procura impor sobre a América Latina. A mensagem é clara — a Europa não aceita ser confinada ao papel de mercado consumidor num mundo redesenhado por outros.
Mas o anúncio recente do envio de tropas da Alemanha, da Suécia e Noruega para a Gronelândia e o reforço diplomático da França e Reino Unido com a região, é também um excelente sinal dirigido a Trump e contra a sua política unilateral.
Por outro lado, a UE deve abrir-se a novas e criativas formas de cooperação com a China, sem ingenuidade, mas também sem subserviência aos reflexos da Guerra Fria. O século XXI não será organizado por blocos ideológicos estáticos, mas por redes flexíveis de interesses, tecnologia, comércio e influência. Quem não compreender isso será ultrapassado — com ou sem nostalgia.
Por fim, há um elemento regenerador e esperançoso que a política tradicional ainda subestima: a Geração Z. Cosmopolita, digital, menos prisioneira de fronteiras mentais e mais sensível à ideia de destino comum, ela transporta em si um renovado pan-europeísmo. Se for mobilizada, pode tornar-se a força social que faltou às elites para salvar, atualizar e consolidar o projeto europeu para o futuro.
A História raramente oferece segundas oportunidades. A Europa está diante de uma delas. Com o discernimento, o sadio proselitismo e o empenho da Geração Z (que ajudará a opinião pública europeia a perceber o que está em jogo) a UE pode reerguer-se desde que as actuais lideranças tenham a coragem de abandonar a gestão do medo e assumam, finalmente, a responsabilidade do futuro.

Manuel dos Santos
A atual conjuntura europeia é marcada por uma rutura geoestratégica profunda, acelerada pela imprevisibilidade da administração trumpiana e pelo colapso das antigas certezas atlânticas. A União Europeia enfrenta este novo mundo não como potência, mas como plateia: dividida, hesitante e estruturalmente mal preparada.
A falta de coesão política da UE é hoje o seu maior fator de fragilidade. Entre governos nacionais capturados por agendas domésticas e instituições comunitárias com poderes insuficientes, a Europa reage em vez de agir. Enquanto Washington, Pequim e Moscovo desenham tabuleiros de poder, Bruxelas discute regulamentos.
No plano económico, o atraso é igualmente preocupante. A estagnação da produtividade, a fragmentação dos mercados de capitais e a debilidade da política industrial tornaram a economia europeia vulnerável. Os relatórios Letta e Draghi de 2024 são claros: sem investimento maciço em inovação, energia, defesa e integração financeira, a Europa continuará a perder competitividade e influência. Persistir no conforto do status quo é escolher a irrelevância.
A este quadro soma-se a fragilidade das lideranças europeias: curtas de visão, longas de cálculo eleitoral, incapazes de explicar aos cidadãos que a soberania hoje só existe em escala continental. O vazio estratégico alimenta, por sua vez, o crescimento dos extremismos soberanistas, cuja promessa de “recuperar o controlo” é tão sedutora quanto ilusória.
A Europa precisa de responder, como entidade política una e em pé de igualdade, às pulsões imperialistas da China, da Rússia e dos Estados Unidos, recusando ser mero espaço de disputa entre impérios alheios.
São inadmissíveis e perigosas algumas situações de subserviência, ocorridas recentemente, em relação à actual liderança norte americana.
Mas a Europa deve também empenhar-se, através de políticas públicas “amigas” dos cidadãos e de permanente pedagogia política, baseada na transparência e na eficiência, em travar o crescimento dos extremismos cujo único objectivo é destruir ou enfraquecer as democracias liberais.
Para isso, é imperioso avançar para a reformulação do projecto europeu que terá de passar pela concretização progressiva de um modelo de federalismo próprio que dê à União instrumentos reais de política externa, defesa e orçamento.
Mesmo que este percurso implique que alguns dos actuais membros no fiquem para trás.
Em paralelo, deve ser reforçada a dimensão europeia da NATO, não para substituir a aliança, mas para equilibrá-la e torná-la mais autónoma em relação aos caprichos americanos.
Finalmente, importa rejeitar a narrativa simplista de choque de civilizações que a atual administração dos EEU procura impor. O mundo não se divide entre campos morais estanques; divide-se entre quem organiza o futuro e quem se limita a comentá-lo.
Para a União Europeia, o tempo presente é, sem dúvida, a hora da verdade e a Europa, ou melhor os europeus, têm de escolher de que lado querem ficar na história.

Manuel dos Santos
No próximo dia 18 de Janeiro, quando formos votar nas eleições presidenciais, a democracia portuguesa realizará a sua 52.ª escolha desde o 25 de Abril de 1974. Não é um acto qualquer. É, mais uma vez, a confirmação de que o futuro do país não é um acidente: constrói-se.
Nunca como agora se viveu um clima político tão marcado pela fragilidade, pelo descontentamento e pela inquietação. O aparecimento de uma força política portadora de valores retrógrados da extrema-direita — impulsionada por erros de governação, jogos partidários e escolhas discutíveis feitas após 2015 — marca de forma clara um antes e um depois na nossa vida colectiva.
Estas eleições não servirão apenas para eleger um novo Presidente da República. Serão, sobretudo, uma avaliação ao estado do regime e um teste sério à resiliência da democracia.
Tudo aponta para uma segunda volta. Nenhum dos candidatos reúne condições para vencer logo à primeira. E, apesar das habituais sondagens de “empate técnico” que nos são “impostas” semana sim, semana não, é altamente provável que o candidato anti-sistema fique pelo caminho. Ao contrário do ruído produzido por comentadores e por uma parte da comunicação social com agenda própria, o eleitorado português tem dado provas de lucidez, maturidade e serenidade, mesmo quando a oferta política é frágil ou medíocre.
Só um resultado equilibrado poderá abrir caminho à estabilidade política e social de que o país precisa para proteger o seu interesse num mundo cada vez mais turbulento.
Num contexto internacional em que as democracias liberais enfrentam ataques coordenados de projectos autocráticos e cruéis, o pior erro que um pequeno país, como o nosso, poderia cometer seria mergulhar numa fase prolongada de instabilidade e indefinição. Nunca foi tão urgente reler Hannah Arendt e a sua obra clássica sobre As Origens do Totalitarismo.
O bom senso dos eleitores, contudo, não basta. É igualmente indispensável a competência, a seriedade e o sentido de bem comum dos partidos. Tal como funcionam hoje, arriscam perder relevância e desaparecer do espaço público. São mais falados pela corrupção (real ou percebida), pelo amiguismo, pela incompetência e pela cultura do tribalismo do que pelas soluções que apresentam.
Os partidos do futuro terão de construir lideranças fortes, mobilizadoras, capazes de apresentar planos de acção concretos para a resolução dos problemas reais das pessoas. E só recuperarão credibilidade quando convencerem os cidadãos de que as promessas que fazem são para cumprir.
Em Janeiro teremos uma nova oportunidade de refrescar a democracia. Não a podemos desperdiçar. Porque votar é, afinal, escolher.
A eleição do novo Presidente da República será um momento decisivo da nossa vida colectiva e poderá ajudar a edificar, seguramente, uma sociedade mais justa, estável e solidária.