
Manuel dos Santos
O novo quadro financeiro plurianual (QFP 2028–2034) não é apenas mais uma negociação orçamental é, sem exagero, a prova dos nove da União Europeia.
Aquilo que está em causa não são números, mas sim a capacidade política de a Europa se adaptar a um mundo que mudou mais depressa do que os seus mecanismos de decisão.
A proposta da Comissão Europeia, fixada em 1,8 biliões de euros, surge como um compromisso típico de Bruxelas: ambicioso na retórica, prudente na substância.
O Parlamento Europeu reagiu como seria expectável considerando o montante insuficiente e propondo um reforço de 10%.
Na óptica dos eurodeputados o pacote financeiro deve aproximar-se dos 2 biliões de euros e deve excluir o pagamento dos juros do Next Generation EU.
Esta é uma posição politicamente coerente, mas que ignora, ou pelo menos contorna, a realidade mais dura que significa que alguém terá de pagar essa factura.
E é aqui que entra o terceiro vértice do triângulo (o Conselho Europeu) cuja posição ainda não é conhecida, mas cuja orientação é previsível.
Os principais contribuintes líquidos, com a Alemanha à cabeça, enfrentam uma grave desaceleração económica, tensões inflacionistas e crescente pressão interna sobre as finanças públicas.
Neste quadro esperar deles um salto orçamental significativo é, no mínimo, optimista.
Este confronto institucional, sendo recorrente, trava-se agora num contexto particularmente exigente.
Com efeito, às funções tradicionais da União (coesão, agricultura, mercado interno) somam-se , num cenário de progressivo afastamento dos EEUU, desafios de outra escala como a segurança e a defesa, o apoio continuado à Ucrânia e o reforço do pilar europeu da NATO.
A Europa quer fazer mais, mas alguns dos estados membros continuam a hesitar no caminho a seguir para obter os recursos financeiros necessários.
O debate sobre os recursos próprios permanece, por isso, central, mas, infelizmente, parcialmente bloqueado.
É verdade que existe um compromisso formal para avançar, mas na prática persistem divergências profundas sobre o que deve ser tributado, em que medida e com que peso.
Sem a aprovação de novos recursos, qualquer aumento do orçamento transforma-se, inevitavelmente, num jogo de soma zero entre contribuintes nacionais.
E isso, como a experiência mostra, tende a paralisar decisões.
Neste cenário, ganha relevância o chamado “relatório Draghi”, inicialmente recebido com entusiasmo, por apontar caminhos para reforçar a competitividade europeia, mobilizar investimento e enfrentar a fragmentação do mercado.
Contudo, o ímpeto inicial parece ter esmorecido, e as medidas propostas caíram quase todas numa zona de penumbra política.
O mesmo se pode dizer, em parte, do relatório Letta, igualmente focado na revitalização do mercado interno.
Ambos os relatórios diagnosticam problemas reais, mas esbarram na incapacidade crónica da União em transformar consenso técnico em ação política.
A questão de fundo, ou seja as dificuldades estruturais, mantém-se, pois são o resultado de uma tensão nunca resolvida entre supra nacionalidade e intergovernamentalismo.
Não parece que a actual fragilidade das lideranças europeias ajude a resolver este dilema.
A arquitetura institucional da União continua a favorecer o bloqueio, mas também é evidente que os principais decisores raramente arriscam romper com esse equilíbrio instável.
Ursula von der Leyen tem insistido que a Europa precisa de mudar para enfrentar os novos desafios geoestratégicos.
Outras vozes influentes vão mais longe, defendendo que a União deve abandonar hesitações e assumir uma posição clara num mundo cada vez mais competitivo e conflituoso.
“A Europa deve afrontar, sem medo, Trump” “a velha Europa, não serve para fazer frente ao Mundo novo”, “a Europa está a morrer cada dia em que não toma uma posição clara” (alertas de Stiglitz, Borrell ou Costa e Silva).
O diagnóstico é pois duro, mas não descabido: uma Europa que decide tarde ou decide pouco arrisca a tornar-se irrelevante.
Neste contexto, o relançamento da ideia de alargar o voto por maioria qualificada, reduzindo o peso da unanimidade, pode ser mais do que um ajuste técnico.
Pode ser o primeiro sinal de um regresso a uma ambição política mais profunda, para recuperar o projeto falhado da Constituição Europeia.
Mas convém não confundir intenção com realidade: mexer nas regras de decisão exige, precisamente, unanimidade. Estamos, assim, perante o paradoxo europeu em estado puro.
Por fim, há um dado que nem sempre recebe a atenção devida: a dimensão do orçamento europeu.
Estagnado em torno de 1% do PNB da União, continua manifestamente insuficiente face às responsabilidades crescentes.
É este o limite que muitos estados defendem, condicionando a decisão do Conselho, enquanto que a proposta da Comissão equivale a 1,15 % (com juros do empréstimo da política NextGenerationEU) e a alternativa do PE atinge 1,27%, não incluindo o serviço dessa dívida.
Mesmo a referência a 1,40% , já incluindo os encargos com o Next Generation EU, permanece distante do que seria necessário para sustentar uma verdadeira política europeia comum.
No fim, a pergunta impõe-se: estamos perante a agonia de um modelo que esgotou, pelo menos transitoriamente, a sua capacidade para agir ou perante um momento decisivo de superação?
A resposta dependerá menos das declarações proclamadas e mais das escolhas concretas que forem feitas nos próximos anos.
A prova dos nove não se faz com intenções exige vontade política, sentido de necessidade e, só se concretiza com decisões arrojadas.
E, até agora, é precisamente aí que a Europa mais tem falhado.
Em resumo : A “prova dos noves” não é financeira, é civilizacional.

Manuel dos Santos
A dicotomia “nós e eles” deixou de ser apenas uma ferramenta retórica para se tornar num instrumento , através da qual uma parte significativa da sociedade portuguesa interpreta a realidade política.
Esta clivagem simplificadora, típica dos discursos populistas, alimenta-se de frustrações reais, mas prospera sobretudo na sua amplificação emocional e na redução do debate a antagonismos primários: povo versus elites, trabalhadores contra patrões , nacionais em oposição a estrangeiros…
O problema não está na existência de conflitos de interesses, pois esses são inerentes à democracia, mas na sua instrumentalização sistemática como argumento político.
Em Portugal, esta tendência tem consequências visíveis na dificuldade crónica em estabelecer pactos estruturais em áreas críticas como a saúde, a educação, as migrações, a administração pública ou a reforma laboral.
Tudo o que exige compromisso é rapidamente suspeito de traição.
Negociar passou a ser confundido com ceder, e ceder com fraqueza.
Por isso temos reformas adiadas, soluções remendadas e uma sensação permanente de bloqueio, mesmo quando há consenso técnico sobre os problemas.
Neste contexto, o confronto entre “massas” e “elites” tornou-se um recurso demagógico muito eficaz para o crescimento dos movimentos extremistas de direita ou de esquerda.
A narrativa é simples e sedutora: há um “sistema” que protege os seus e exclui os restantes.
O detalhe, como quase sempre, é descartável.
Pouco importa que muitas das soluções propostas sejam inconsistentes ou financeiramente insustentáveis; o que conta é a mobilização emocional. E essa tem sido conseguida com sucesso.
Curiosamente, este discurso convive com uma contradição difícil de ignorar: exige-se mais Estado (mais subsídios, mais apoios, mais protecção ) ao mesmo tempo que se denuncia a carga fiscal como insuportável.
Reclama-se intervenção pública quando convém, mas rejeita-se o seu custo estrutural.
Esta ambivalência não é nova, mas ganhou intensidade. E revela uma tensão de fundo: o desejo de segurança sem a correspondente aceitação de responsabilidade coletiva.
A mesma incoerência manifesta-se na relação com a mudança.
Clama-se por reformas, por modernização, por eficiência.
Mas quando estas se materializam em alterações concretas (seja no mercado de trabalho, na organização dos serviços públicos ou na regulação de sectores ) surge uma resistência quase automática.
Quer-se mudar tudo, desde que nada mude demasiado.
Entretanto, a avaliação pública da acção governativa permanece volátil.
Apesar de um esforço significativo em políticas de rendimento, fiscais e de emprego, e de um reforço consistente das políticas sociais dirigidas aos mais vulneráveis, a percepção dominante oscila entre a insuficiência e a desconfiança.
É aqui que a leitura do chamado paradoxo de Tocqueville ganha relevância pois quanto mais as condições melhoram, maior tende a ser a exigência e, paradoxalmente, a insatisfação.
A expectativa cresce mais rápido do que a realidade consegue acompanhar.
Este ambiente político também não é neutro nas relações institucionais futuras.
A pressão para a polarização tende a dificultar entendimentos entre partidos, fragilizar a ação governativa e colocar o Presidente da República numa posição ainda mais delicada.
Se o compromisso com a estabilidade política se mantiver firme, isso obrigará o PR a uma gestão constante de tensões artificiais, provocadas pelos partidos da oposição, na procura de uma recompensa eleitoral.
É, portanto, um desafio estimulador mas complexo e perigoso.
Mas o “nós e eles” marca também negativamente o papel das estruturas sindicais condicionando o alcance da sua acção ao serviço de um interesse geral
Quando a agenda sindical se aproxima, excessivamente, dos interesses partidários, arrisca-se a perder a sua função essencial de mediação equilibrada entre trabalhadores e tecido empresarial e a “empresa” deixa de ser um espaço comum e passa a ser um terreno de confronto.
Se essa percepção se consolidar, crescerá a conflitualidade e ficará comprometida a estabilidade que muitos consideram indispensável.
A harmonia social não se obtém por decreto.
A harmonia social constrói-se todos os dias e pressupõe convergência de objectivos e lealdade nos confrontos.
Condicionados pelo “nós e eles”, essas “exigências” estão, neste momento, longe de estar garantidas.

Manuel dos Santos
A derrota de Viktor Orbán, nas recentes eleições húngaras, parece, à primeira vista, uma viragem histórica. Mas convém não celebrar cedo demais.
A Hungria não deixou de ser um problema estrutural para a União Europeia. Mudou o protagonista; falta saber se mudou o enredo.
Orbán não surgiu do nada.
Em 1989, um jovem desconhecido destacou-se com um discurso contra o comunismo e a favor da liberdade e da integração europeia.
O momento é hoje quase irónico: quem simbolizava a ruptura com o autoritarismo tornou-se um dos principais praticantes desta prática dentro da UE.
A partir de 2014, Orban abandona o europeísmo e constrói uma narrativa na qual Bruxelas passa a ser o inimigo interno.
Adopta uma linha nacional populista, próxima da matriz putiniana, usando a soberania como pretexto para fragilizar instituições independentes.
Em 2016, radicaliza o discurso anti-imigração, denunciando, com violência, uma ameaça praticamente inexistente.
O conceito de “democracia iliberal”, assumido em 2021, apenas formaliza o óbvio: um regime com eleições, mas sem Estado de direito efectivo.
Beneficiado com uma supermaioria parlamentar, redesenha o sistema político, captura instituições e transforma fundos europeus em instrumentos de poder interno.
A Corrupção e o clientelismo tornam-se estruturais.
No plano europeu, o impacto foi profundo.
Durante a guerra na Ucrânia, Orbán fragilizou a unidade europeia e usou o veto para bloquear decisões críticas, transformando a chantagem num método político.
É neste contexto que surge Peter Magyar.
A sua vitória não representa uma revolução ideológica, mas uma rejeição do funcionamento do sistema.
Vindo da mesma família política, rompe menos com o conservadorismo e mais com os abusos de poder.
Apresenta-se como conservador, com traços populistas, mas promete restaurar o Estado de direito e reaproximar a Hungria da UE.
Ainda assim, persistem dúvidas.
O compromisso europeu é claro, mas posições sobre Ucrânia, Rússia e Estados Unidos permanecem ambíguas.
Vai anular o veto ao apoio financeiro a Kiev. Mas com que custo para a UE? Os fundos retidos serão desbloqueados antes da obtenção de garantias concretas sobre a reposição do estado de direito?
A base eleitoral jovem que apoia Magyar pode ser uma oportunidade para reconstruir uma identidade europeia na Hungria.
Mas isso não acontecerá se for percecionado como imposição externa, pelo que Bruxelas terá de equilibrar firmeza com inteligência política.
A questão central mantém-se, portanto: como deve agir a União?
A reacção inicial às eleições na Hungria foi eufórica, mas nada garante que uma simples mudança de liderança elimine totalmente práticas enraizadas.
O “cavalo de Tróia” não desapareceu; tornou-se apenas menos visível.
Outros Estados Membros mantêm ainda posições ambíguas ou hostis à integração, podendo bloquear decisões e alinhar com interesses alheios.
Insistir nos mesmos mecanismos é , assim, ingenuidade.
A exigência de unanimidade em matérias críticas tornou-se um convite ao bloqueio.
Reformular esta regra deixou de ser um
debate académico para se tornar uma necessidade operacional.
Ao mesmo tempo, os mecanismos de controlo financeiro devem ser aplicados com consistência.
Os fundos europeus não podem financiar derivas autoritárias.
A condicionalidade não é uma punição, mas, sim, uma outra forma de protecção do projeto europeu.
Surge agora um novo factor de tensão: a Espanha de Sanchez, eleitoralmente acossado, começa a desafiar consensos em áreas-chave, expondo, de novo, a fragilidade de uma União sem linha comum sólida, quando os interesses nacionais colidem.
A União Europeia está, portanto, num momento de teste.
A mudança na Hungria é uma oportunidade, não é uma solução.
Se Bruxelas reagir com complacência, repete erros. Se reagir com rigidez excessiva, alimenta populismos.
O caminho útil é exigente: condicionar sem humilhar, integrar sem ceder nos princípios e reformar regras que já não respondem à realidade.
Porque o problema nunca foi apenas Orbán.
Foi, e continua a ser, a vulnerabilidade estrutural de uma União que ainda não decidiu até onde está disposta a ir para se proteger.

Manuel dos Santos
O mandato presidencial de António José Seguro nasceu com uma ambição clara: garantir estabilidade política num país cansado de sobressaltos.
Evitar eleições antecipadas tornou-se o seu compromisso fundador; um compromisso nobre, mas perigosamente exigente num Parlamento fragmentado e atravessado por antagonismos difíceis de conciliar.
A estabilidade, neste contexto, não depende apenas da vontade do Presidente; depende, sobretudo, da capacidade de harmonizar forças políticas que vivem precisamente do conflito.
Foi neste terreno que Seguro começou a desenhar a sua magistratura: entre a influência clássica e um certo impulso de incentivo, mais interventivo do que a tradição aconselharia.
O problema é que, ao tentar empurrar os actores para o compromisso, acabou por, em alguns momentos, inclinar, inadvertidamente, o tabuleiro.
O episódio da reforma laboral é revelador.
Ao condicionar a promulgação do pacote legislativo à aprovação prévia da UGT, Seguro não apenas elevou o peso de uma central sindical hoje diminuída, como contribuiu, sem o pretender, para tornar mais improvável o próprio acordo na concertação social.
Ao “dar a mão” à UGT, conferiu-lhe um poder de bloqueio que a realidade do seu peso sindical já não justifica.
E aqui emerge uma questão incómoda: terá sido devidamente ponderado o estado atual da UGT?
Longe vão os tempos das lideranças fortes e influentes de Torres Couto, João Proença ou Carlos Silva, que subordinaram sempre a sua ligação partidária ao verdadeiro interesse do país.
A central parece hoje mais débil, menos representativa e, sobretudo, mais alinhada com uma agenda partidária que apaga uma visão abrangente do interesse nacional.
Ao elevá-la a árbitro tácito de um processo sensível, o Presidente pode ter trocado um desejado equilíbrio por uma dependência frágil.
Noutra frente, a das intempéries e das ajudas às vítimas, Seguro adoptou um discurso firme: rapidez, eficácia, presença do Estado. Tudo certo, em teoria.
Mas a realidade portuguesa é menos linear.
Como compatibilizar a urgência reclamada com as restrições orçamentais, com a burocracia paralisante, com a lentidão das seguradoras, com a ausência de cobertura em muitos casos e, não menos relevante, com o persistente “chico-espertismo” que transforma apoios legítimos em oportunidades de abuso?
Exigir celeridade é politicamente correto; garantir justiça e rigor na execução é infinitamente mais difícil e é aí que se mede a consistência de um mandato.
Na saúde, o desafio é ainda mais estrutural.
Seguro apontou a necessidade de consensos alargados para reformas inevitáveis, mas esbarra numa divisão ideológica profunda.
De um lado, a defesa de um SNS público, universal e tendencialmente gratuito e do outro, a aposta em modelos mistos com maior participação do sector privado e do sector social.
A conciliação destas visões exige mais do que boa vontade porque é necessário enfrentar interesses instalados, desde corporações profissionais até grupos empresariais que capturaram o sistema.
E aqui reside outra armadilha: sem resultados visíveis no curto prazo, o consenso arrisca-se a ser apenas retórica enquanto a degradação percebida alimenta o conflito.
Tudo isto ocorre num calendário político exigente.
A escolha de nomes para os órgãos externos à Assembleia da República, ainda incompleta, e a apreciação de dossiers sensíveis como a lei da nacionalidade acrescentam pressão a um mandato que ainda não esgotou o período de graça ou seja os primeiros cem dias.
Neste início a margem de erro é curta e o escrutínio promete ser intenso.
É neste contexto, aliás, que já surgem leituras, como a recente crónica de Miguel Pinheiro, no Observador (certamente recebida com prazer pelos “suspeitos do costume”) que, com uma dose de crueldade e alguma precipitação, levanta a hipótese de inadaptação de Seguro ao desafio.
A tese é excessiva, mas pode ser um sinal de algumas armadilhas já instaladas com a cumplicidade de quem menos se poderia imaginar.
O Presidente deve ser mais do que um árbitro distante; deve influenciar, orientar e até condicionar, no sentido positivo, sempre que considere ser essa a melhor forma de defender o interesse colectivo.
Mas a sua acção tem de ser recatada e fora do espaço público, sem fugir ao necessário escrutínio , pois será a única forma de evitar a especulação doentia, a notícia superficial e a intriga orientada.
Mas se optar por estimular (magistratura do estímulo ) e não apenas por influenciar (magistratura da influência), respeitando o princípio de separação de poderes, dará um conteúdo ao seu mandato, em harmonia com o verdadeiro espírito do seu programa.
O dilema de Seguro é, no fundo, simples de enunciar e difícil de resolver.
Como intervir sem desestabilizar, como promover consensos sem enviesar o equilíbrio partidário, ou como exigir eficácia sem ignorar os limites do sistema.
Até agora, tem oscilado entre a prudência institucional e a tentação de intervenção.
O perigo é que, na política, oscilar demasiado raramente gera confiança.
E a estabilidade que prometeu defender, pode depender menos das suas intenções e mais da natureza e aceitação geral das suas escolhas.

Manuel dos Santos
Foi num continente cansado de guerras, de ruínas e de desconfianças mútuas que, em 1957 com o Tratado de Roma, nasceu a Comunidade Económica Europeia.
A União Europeia, mantém hoje a ambição simples e, ao mesmo tempo, ousada de garantir à Europa um longo período de paz e desenvolvimento.
Não é , nem nunca foi, apenas um projecto económico; foi e é, acima de tudo, um compromisso político e civilizacional.
Desde o início, a construção da identidade europeia assentou num princípio exigente: a solidariedade entre todos os Estados soberanos.
Cada país manteria a sua identidade, a sua história e as suas especificidades, mas aceitaria partilhar um destino comum.
A integração alimenta-se precisamente da tensão produtiva entre diversidade e unidade e entre o direito à diferença e a obrigação de cooperar.
Depois do núcleo fundador, a adesão de novos membros sempre implicou condições claras, exigentes e de escrutínio demorado.
O respeito pelo Estado de direito, pela independência das instituições, pela economia social de mercado e pelos valores democráticos não é decorativo, é estrutural.
Durante anos, os candidatos são avaliados, analisados e ajudados para que harmonizem a sua legislação e os seus processos administrativos ao acervo comunitário .
A adesão não é um gesto simbólico, nem fácil. É um compromisso sério.
Ao longo das décadas, a União alargou-se várias vezes, passando do núcleo fundador até aos actuais 27 Estados-membros, já depois da saída do Reino Unido em 2020.
Este crescimento foi sempre apresentado como compatível com a manutenção de um espaço coerente de valores e práticas.
Em teoria, mais países significariam mais força, mais diversidade e mais solidariedade.
Mas, na prática, a aventura europeia tem sido tudo menos linear.
Avanços e recuos, entusiasmos e bloqueios, momentos de visão e episódios de hesitação.
Ainda assim, no balanço global, continua a ser um projecto de sucesso, seguramente o mais ambicioso exercício de integração pacífica entre nações soberanas, concretizado na história contemporânea.
Um dos momentos mais críticos surgiu com a rejeição, em 2005, da Constituição Europeia, após referendos negativos em dois países (França e Países Baixos ).
Perdeu-se então uma oportunidade real de aprofundar a integração política, económica e social.
O Tratado de Lisboa (aprovado em 2007, com entrada em vigor em 2009) surgiu como solução de compromisso porque menos ambicioso, mais pragmático, mas ainda assim muito relevante.
Trouxe progressos reais mas também deixou intactos alguns dos bloqueios estruturais.
Entre esses bloqueios destaca-se a persistência da regra da unanimidade em certas áreas decisivas.
Esta regra de decisão, embora atenuada, continua a permitir que um único membro trave decisões de interesse colectivo.
Este é o problema central, pois o bom funcionamento do sistema pressupõe boa-fé e compromisso.
Quando estes valores falham, o sistema entra em dificuldades.
Num mundo, em rápida transformação geoestratégica, a União Europeia enfrenta hoje pressões externas e internas que testam a sua coesão.
A fragilidade institucional torna-se assim terreno fértil para a chantagem política.
O caso da Hungria é paradigmático. Sob a liderança prolongada (4 mandatos) de Viktor Orbán, o país tem assumido posições que desafiam frontalmente os valores e interesses comuns da União.
Confrontado com uma gigantesca fraude na utilização de fundos comunitários (2015/24) a Hungria apenas devolveu cerca de 1/3 do valor devido.
Mas é o actual bloqueio de decisões fundamentais , como o apoio financeiro à Ucrânia, que melhor comprova a ineficiência do sistema, pois evidencia como um único actor pode comprometer a resposta colectiva a crises graves.
O risco deixou de ser teórico.
Perante isto, começa a ganhar força, sobretudo em círculos políticos alemães, a ideia de eliminar por completo a regra da unanimidade. É uma mudança estrutural, mas talvez inevitável.
Este momento é particularmente sensível. As eleições legislativas na Hungria, marcadas para 12 de abril, são vistas como uma possível “salvação”
Existe a esperança, talvez optimista, de que surja um governo mais alinhado com os valores europeus.
Mas essa expectativa está ameaçada por sinais preocupantes, nomeadamente interferências externas da Federação Russa e o apoio explícito a Orban de figuras políticas norte americanas que são hostis ao projecto europeu.
O Vice Presidente dos USA (Vance) acusou a UE de interferência (?) inaceitável nestas eleições no mesmo discurso em que apelava à recondução do amigo Orban.
Sem demasiado exagero pode dizer-se que a democracia na UE está também em jogo nestas eleições.
Com efeito a permanência de Orbán no poder levanta uma questão incómoda: pode a União sobreviver com forças activamente desagregadoras no seu interior?
A ausência de mecanismos de expulsão de Estados-membros limita drasticamente as opções.
Restam instrumentos de contenção, sanção e isolamento político que são insuficientes perante uma estratégia deliberada de bloqueio.
A Hungria transformou-se, para muitos, num verdadeiro cavalo de Tróia
E a metáfora não é exagerada porque o que está em causa não é apenas um desvio pontual, mas a possibilidade de erosão interna do projecto europeu, alimentada por agendas externas que já não escondem os seus objectivos demolidores.
Trump despreza a Europa, essencialmente por ignorância e Putin quer destrui-la porque não aceita os valores ocidentais.
Assim sendo impõe-se a pergunta directa, mas sem resposta pronta: qual o futuro da União Europeia se aceitar, no seu núcleo, sem reacção e consequente transformação institucional, forças que trabalham activamente para a sua fragmentação?
Resta a certeza desconfortável de que ignorar o problema não o fará desaparecer.
“Era uma vez” um projecto de paz e prosperidade. Continua a sê-lo, mas já nada por ser dado como garantido.

Manuel dos Santos
À boleia do conflito sobre a composição do Tribunal Constitucional foi aberta a discussão sobre uma próxima revisão constitucional.
Uma coisa não tem nada a ver com a outra, mas é evidente que uma nova revisão constitucional não é uma hipótese remota mas sim uma inevitabilidade.
Neste ano a Constituição da República cumpre 50 anos.
É tempo suficiente para que qualquer lei estrutural, por mais sólida que seja, comece a necessitar de correcções.
Apesar da propaganda, a Constituição de 1976 não nasceu de um consenso pacífico.
Foi aprovada contra a vontade do PCP, num contexto político tenso, com episódios deploráveis como o cerco à Assembleia Constituinte.
Ironicamente, o mesmo partido que rejeitou o processo, veio mais tarde a assumir-se como um dos seus mais zelosos guardiões como se a paternidade política pudesse ser atribuída por um registo bucal mais sonoro.
Mas há um facto ainda mais desconfortável para os defensores da inviolabilidade : a Constituição original já não existe.
Ao longo de sete revisões, o texto original foi sendo moldado, ajustado e, em momentos-chave, profundamente transformado.
Duas dessas revisões (1982 e 1989) não se limitaram a retoques cosméticos, antes alteraram profundamente a arquitectura do regime.
Na dimensão política, assistiu-se ao desaparecimento do Conselho da Revolução e à consequente redistribuição de poderes entre os órgãos de soberania.
Foi uma mudança de fundo, que redefiniu um novo equilíbrio institucional.
Na dimensão económica, caiu a ideia da irreversibilidade das nacionalizações e a limitação dos sectores, abrindo-se espaço para a iniciativa privada e consagrando uma opção clara pela economia social de mercado.
No que diz respeito à distribuição de competências no plano político e ao modelo económico, pode afirmar-se que o edifício foi reestruturado enquanto se mantinha a fachada.
É certo que se mantiveram praticamente intocáveis os direitos fundamentais, bem como os limites materiais, porque uma eventual alteração implicava uma habilidade constitucional mais complexa e também, claro, porque os equilíbrios políticos não eram propícios.
Mas, mesmo assim, as alterações estruturais concretizadas levantaram uma questão que raramente é enfrentada: até que ponto estas revisões respeitaram os limites impostos pelo artigo 288º?
A resposta honesta é difícil e incómoda pois, certamente algumas dessas alterações, testaram os limites da criatividade jurídico-constitucional.
Contudo foram genericamente aceites, não por distração, mas por necessidade política e histórica.
O país mudou, e a Constituição teve de acompanhar esse movimento, mesmo que isso implicasse alguma flexibilidade interpretativa.
Se assim não fosse estaríamos ainda a conviver (por exemplo) com a Constituição liberal de 1822?
É precisamente por isso que faz pouco sentido tratar a Constituição como um objeto intocável.
A médio prazo, uma nova revisão não só é desejável como necessária.
Não para reescrever o regime, mas para o fazer funcionar melhor.
A questão não é portanto, fazer ou não fazer uma revisão, mas sim definir e consensualizar
os limites actualmente aceitáveis para essa revisão .
Em algumas áreas a necessidade de mudança é evidente.
A regionalização continua por concretizar, presa entre receios políticos e inércia estrutural. O modelo de eleição do Tribunal Constitucional levanta dúvidas recorrentes sobre legitimidade e equilíbrio. As leis eleitorais merecem uma revisão que reforce a representatividade sem comprometer a governabilidade. A governação local precisa de mais clareza e autonomia. E o sistema de concertação social entre sindicatos e associações patronais carece de sustentabilidade só possível com uma abordagem menos ideológica e mais funcional. Mas há mais.
Neste contexto, a recente polémica sobre a eleição do Tribunal Constitucional, por mais ruidosa que seja, não deve ser utilizada como um argumento contra a revisão.
As soluções em disputa, sobre a composição do Tribunal podem divergir, mas nenhuma inviabiliza um processo de revisão constitucional, nem determina a natureza dessa revisão.
Misturar os dois planos é, no mínimo, uma distração conveniente, utilizada pelos imobilistas que reclamam reformas, mas não querem reformas nenhumas.
Mas se a revisão é necessária e inevitável, a prazo, o caminho para lá chegar não é automático.
A Constituição não se altera ao sabor de maiorias ocasionais. Exige consenso alargado e tempo político.
O mecanismo da chamada dupla revisão que permite ultrapassar bloqueios existentes, não é um atalho, necessita de consenso alargado entre forças políticas que raramente se entendem em matéria de fundo, e, além de muita ponderação, necessita de tempo.
Portanto acalmem-se “putativos donos da Constituição ” e os constitucionalistas com viés ideológico, à direita e à esquerda, porque a revisão não é para amanhã.
E aqui está o ponto essencial: não basta reconhecer a necessidade de rever, é preciso preparar o terreno para o fazer com seriedade. Sem dramatizações, mas também sem ilusões, sem bloqueios e sem estratégias de imobilismo.
Cinco décadas depois, a Constituição não está em risco, está, simplesmente, a pedir atualização. Ignorar isso não a protege porque apenas adia o inevitável.

Manuel dos Santos
A reunião do Conselho Europeu trouxe mais do que as habituais declarações vagas. Trouxe apoio financeiro e, mais importante, trouxe reconhecimento político.
Portugal, fustigado por tempestades recentes, com impacto real na economia e nas contas públicas, conseguiu garantir flexibilidade para a execução do PRR e compreensão institucional na avaliação dessas mesmas contas.
A nomenclatura de Bruxelas percebeu que há momentos em que a ortodoxia tem de dar lugar ao pragmatismo. Não é generosidade; é bom senso.
Já quanto ao prometido empréstimo europeu à Ucrânia, mantém-se o habitual impasse: a Hungria a bloquear e o presidente do Conselho Europeu a fingir surpresa. A unanimidade, mais uma vez, a provar que é, menos um mecanismo de decisão, solidário com os mais pequenos, e mais um convite ao veto.
No capítulo da competitividade, a União insiste na necessidade de reforçar as economias nacionais através da política energética. Mas o problema não está na intenção, mas sim na execução. O nosso país continua energeticamente semi-isolado, com interligações insuficientes com o resto da Europa. Fala-se muito de mercado interno da energia, mas na prática continuamos numa espécie de ilha elétrica. Sem ligações robustas, não há integração que resista nem competitividade que sobreviva.
Se a União quer mesmo apostar na competitividade tem de regular, estimular e investir nesta área, sem ambiguidades nem adiamentos.
A guerra no Irão, ainda com consequências económicas difíceis de apurar, já está, no entanto, a produzir os reflexos previsíveis: os governos nacionais a correr para apoiar empresas e famílias.
Mas resta a questão de saber: até que ponto estas ajudas colidem com as regras europeias de concorrência e a proibição de auxílios de Estado? A resposta certa é que colidem, ou colidiriam, em tempos normais. Mas não estamos em tempos normais.
Tal como aconteceu durante a pandemia e nas anteriores crises energéticas, a tendência será flexibilizar regras que, em teoria, são rígidas. O risco? Transformar excepção em regra e distorcer o mercado de forma estrutural.
Interessante será também analisar a postura política dos Estados-membros perante o conflito no Irão. Pela primeira vez em muito tempo, há sinais claros de que vários governos europeus não estão dispostos a alinhar, automaticamente, com decisões emanadas da administração “trumpiana”, sobretudo porque essas decisões surgem envoltas em contradições e volatilidade.
Não se trata ainda de rutura, mas, provavelmente, de algo mais subtil: início de uma indispensável autonomia estratégica.
Será que a Europa começa, lentamente, a comportar-se como um ator e não apenas como um espectador bem informado?
O problema é que esta ambição esbarra sempre no mesmo obstáculo: o modelo institucional e a qualidade da liderança atual.
Com a regra da unanimidade intacta, qualquer avanço significativo fica refém do país menos disponível para cooperar. E esse país existe sempre! Sem reforma institucional e liderança mais forte, falar do futuro da União pode ser um simples exercício de retórica.
Entretanto, o quadro político interno de vários Estados-membros não ajuda. A Espanha continua sem orçamento aprovado há anos, num impasse que fragiliza a sua capacidade de resposta económica.
Os sinais eleitorais, sobretudo em regiões-chave, apontam para um possível fim de ciclo político. Se na Andaluzia se confirmar a tendência, a mudança em Madrid deixa de ser uma mera hipótese para passar a entrar numa contagem decrescente. Em Itália, a recente derrota de Meloni, num referendo, levanta dúvidas sobre a solidez do seu capital político. Não é uma queda imediata, mas é um aviso claro: o eleitorado nem sempre é uma extensão automática do governo.
A França enfrenta um cenário potencialmente ainda mais disruptivo. A possibilidade de uma vitória da extrema-direita nas próximas eleições presidenciais não é um exercício académico mas sim uma hipótese concreta, que terá, se ocorrer, implicações profundas para o equilíbrio europeu.
E depois há a Hungria. Se Orbán se mantiver no poder, depois das próximas eleições, não será apenas uma questão interna.
Será mais um passo na consolidação de um foco de resistência dentro da União, permanentemente alinhado com os interesses russos, anti UE e sistematicamente disposto a bloquear decisões estratégicas.
Quanto mais aumentar a pressão externa mais diminuirá a coesão interna.
No meio de tudo isto, a União Europeia quer consolidar o seu espaço no novo equilíbrio geopolítico, mas sempre com hesitação e nem sempre com determinação .
O problema já não é falta de diagnóstico. É a falta de unidade e coesão para agir em conformidade.
Até quando?

Manuel dos Santos
A eleição de António José Seguro inaugurou um ciclo político que se pretende de estabilidade, mas que nasce, paradoxalmente, num ambiente de elevada volatilidade tanto interna como externa. O novo Presidente entra em funções num momento em que a política deixou de ser um exercício de gestão previsível para se tornar uma arte de contenção de danos.
Desde logo, o contexto internacional não oferece tréguas. A persistência de conflitos, a fragmentação geopolítica e a reconfiguração das cadeias de abastecimento continuam a pressionar os custos energéticos, com reflexos diretos no tecido económico europeu. Para um país como Portugal, estruturalmente dependente de importações energéticas, este cenário traduz-se em abrandamento económico, inflação persistente e constrangimentos adicionais à política monetária. O espaço para erro é, portanto, mínimo. E o novo Presidente, embora sem poder executivo direto, não poderá refugiar-se numa magistratura meramente simbólica: será chamado a intervir, a moderar expectativas e, sobretudo, a evitar que o ruído político interno amplifique fragilidades externas.
É precisamente no plano interno que se adivinham os testes mais exigentes. O Governo enfrentará uma pressão reformista intensa, não apenas por necessidade, mas, por imperativo político. A revisão da legislação laboral, a reforma do sistema de saúde, a crise habitacional, a resposta célere à destruição provocada por tempestades recentes e a definição de uma estratégia orçamental sólida para 2027, constituem dossiês incontornáveis. Em vários destes temas, o novo Presidente já deixou sinais claros de delimitação, particularmente no que toca à legislação laboral, onde dificilmente aceitará alterações que possam ser percepcionadas como desequilíbrios excessivos.
Ora, esta postura, compreensível do ponto de vista institucional, introduz um fator adicional de tensão. Um Presidente que estabelece linhas vermelhas demasiado cedo pode condicionar o espaço de manobra do governo.
E isso, num contexto de maioria relativa, pode ser o catalisador de bloqueios que a retórica da estabilidade não consegue disfarçar.
A ambição declarada de assegurar uma legislatura completa – o “grande objetivo” de Seguro – entra, assim, em choque com um ambiente político que começa a revelar sinais de “impaciência” eleitoral. O recente desentendimento em torno das nomeações para órgãos externos da Assembleia da República, em particular para o Tribunal Constitucional, é sintomático de uma deterioração precoce das relações institucionais. Quando os atores políticos começam a disputar posições, com lógica de campanha permanente, a estabilidade deixa de ser um objetivo partilhado e passa a ser apenas um argumento retórico.
Neste quadro, o papel do Partido Socialista será determinante e, simultaneamente, problemático. A fragilidade da atual liderança abre espaço a uma crescente contestação interna, já a ser protagonizada por figuras com peso político e mediático como Eduardo Ferro Rodrigues, Vital Moreira, Mariana Vieira da Silva ou Augusto Santos Silva. O denominador comum destas intervenções é claro: pressionar o partido a endurecer a sua oposição ao Governo da AD, ou seja, provocar instabilidade.
Este movimento coloca Seguro perante um dilema delicado. Por um lado, a sua legitimidade política assenta na promessa de estabilidade e moderação institucional. Por outro, o seu capital político será, inevitavelmente, associado ao seu partido de origem, que poderá seguir um caminho de crescente radicalização. A tensão entre estas duas dinâmicas não é meramente teórica: terá expressão concreta na gestão de crises, na promulgação de diplomas e na relação quotidiana com o Executivo.
Acresce um problema mais estrutural: a dificuldade do PS em fazer um balanço crítico do seu passado recente. A incapacidade de “racionalizar erros” fragiliza a sua posição enquanto alternativa credível e alimenta um discurso que, ao mesmo tempo que rejeita responsabilidades, exige protagonismo. A ideia, já verbalizada em vários círculos, de que “não se pode contar com aqueles que criaram os problemas para os resolver” é politicamente eficaz, mas pode encerrar uma armadilha.
Sem negar, em parte, o passado recente, o partido limita a sua capacidade de construir a reclamada estabilidade que, assim, se arrisca a ser menos um adquirido e mais um mero exercício de propaganda.
Seguro terá de gerir expectativas contraditórias, arbitrar conflitos institucionais e resistir à tentação de intervir para além do estritamente necessário. Porque, no fim, a estabilidade não se decreta.
Constrói-se, nomeadamente , quando os principais atores políticos aceitam que governar um país não é o mesmo que preparar a próxima eleição.
Estamos, pois, perante um desafio? Ou enfrentamos um resiliente paradoxo?

Manuel dos Santos
Durante décadas, a União Europeia habituou-se a viver numa confortável ficção: a de que a História tinha abrandado e que o direito internacional, as instituições multilaterais e a interdependência económica bastariam para manter o mundo relativamente previsível. Esse mundo acabou. O problema é que a Europa ainda não decidiu se percebeu isso.
A guerra na Ucrânia e o incêndio permanente no Médio Oriente são apenas os sintomas mais visíveis de uma transformação mais profunda: a erosão da ordem internacional que emergiu após 1945 e foi reajustada depois da Guerra Fria. O sistema que se baseava em regras comuns está a ser substituído por algo bem mais antigo e menos elegante: equilíbrio de poder, zonas de influência e competição entre grandes potências.
A União Europeia, que sempre preferiu pensar-se como “potência normativa”, enfrenta agora uma realidade desconfortável: normas sem poder raramente sobrevivem ao primeiro choque com a força.
É neste contexto que se torna particularmente significativo o recente choque político entre António Costa e Ursula von der Leyen e respectivos proxys. O episódio não é apenas uma divergência de estilos ou de ambições institucionais. É, no fundo, um pequeno vislumbre de uma disputa maior: quem define o rumo estratégico da Europa quando o mundo deixa de ser confortável.
Costa representa uma tradição europeia mais clássica — prudente, institucional, cuidadosa com equilíbrios internos. Von der Leyen, pelo contrário, tem vindo a empurrar a Comissão para um papel cada vez mais político e estratégico, aproximando-a de algo que em Bruxelas sempre se evitou nomear: poder executivo europeu em matéria geopolítica.
Naturalmente, este tipo de ambição cria anticorpos. Alguns governos temem uma Comissão demasiado musculada. Outros receiam simplesmente perder influência. E, nos bastidores, há sempre quem observe estas tensões com discreta curiosidade. Certos líderes europeus preferem não entrar diretamente no confronto, mas dificilmente lamentariam ver Bruxelas um pouco menos dominante. Na política europeia, as alianças raramente são declaradas e as rivalidades quase nunca são acidentais.
Von der Leyen parece, ainda assim, ter chegado a uma conclusão clara: a Europa precisa de poder duro — militar, industrial e tecnológico. A sua visão para o futuro da União aponta para uma integração muito mais profunda em áreas que durante décadas foram tabu: indústria de defesa, autonomia estratégica e capacidade militar credível. Não por idealismo federalista (mas também) mas por necessidade.
O problema é que a União continua estruturalmente dividida. Entre Leste e Oeste. Entre atlantistas e autonomistas. Entre Estados que vivem com a ameaça russa à porta e outros que ainda acreditam que o poder militar é uma relíquia do século XX.
E vive sobretudo o drama dos egoísmos nacionais, protagonizados por líderes em apuro eleitoral (Sanchez e Orban são excelentes exemplos) que não se inibem de contribuir para o desconforto geral.
E as regras institucionais ainda não tem mecanismos eficazes para os travar, impondo-lhes, como prioridade, o interesse comum europeu.
Mais uma vez a ideia de uma defesa comum volta à agenda. Mas convém distinguir retórica de realidade. Uma defesa comum é coordenação estratégica. Um exército europeu é outra coisa: comando único, doutrina comum, financiamento comum e — sobretudo — vontade política comum para usar força. E é precisamente aí que a unidade europeia começa a vacilar e se torna mais evidente a necessidade de definir outras regras e outros equilíbrios.
É nesse vazio estratégico que surge a proposta mais provocadora de Emmanuel Macron: a possibilidade de estender a dissuasão nuclear francesa ao conjunto da Europa. Num mundo onde a Rússia voltou a brandir a ameaça nuclear e onde a garantia americana deixou de parecer absolutamente automática, a lógica francesa é clara: sem dissuasão credível, não há verdadeira soberania estratégica.
Será possível concretizá-la no quadro actual de competências que os Tratados procrastinam e no conjunto de valores definidos para uma sociedade aparentemente ultrapassada?
As vulnerabilidades da União são conhecidas, mas nunca enfrentadas de frente: fragmentação militar, dependência energética recorrente, atraso tecnológico face aos Estados Unidos e à China, e um processo de decisão que continua demasiado lento para um mundo que se move à velocidade das crises.
Ainda assim, a Europa insiste em ver-se como a guardiã de uma certa ideia de ordem internacional — baseada em regras, direito e cooperação. A pergunta incómoda é se esse mundo ainda existe.
Quando o Conselho de Segurança das Nações Unidas fica paralisado pelo veto de potências rivais, o direito internacional entra numa zona cinzenta. A legalidade formal permanece, mas a capacidade de agir desaparece. A Europa enfrenta então um dilema clássico: respeitar estritamente um sistema bloqueado ou procurar caminhos que preservem o espírito da ordem internacional sem ficarem reféns da sua paralisia.
Não há resposta fácil. Mas há uma constatação inevitável: a Europa já não pode comportar-se como se estivesse protegida por um ambiente estratégico benigno.
A verdadeira questão não é se a União Europeia quer ser um ator geopolítico.
Num mundo que voltou a ser competitivo e perigoso, a Europa terá poder suficiente para defender os valores que diz representar ou limitar-se-á a escrever regras para um sistema que já ninguém segue?

Manuel dos Santos
A verdadeira calamidade raramente se anuncia com estrondo. As calamidades que devastam cidades e destroem infraestruturas são visíveis, dramáticas e mobilizadoras. Geram respostas, despertam solidariedades e obrigam à reconstrução. Mais perigosas são as calamidades silenciosas: aquelas que não deixam ruínas físicas, mas corroem lentamente a confiança nas instituições e o equilíbrio do sistema político. Quando isso acontece, o edifício institucional pode permanecer de pé durante muito tempo, mas só até que alguém descubra que os alicerces já não existem.
É precisamente esse risco que hoje paira sobre a Europa e, em particular, sobre a União Europeia. Não apenas por causa das crises externas que se acumulam, mas pela dificuldade crescente em responder a elas de forma coerente.
A actual escalada de tensões no Médio Oriente, agravada pela guerra envolvendo o Irão, funciona como um revelador implacável dessas fragilidades. Perante acontecimentos que colocam directamente em causa o direito internacional, seja a Carta das Nações Unidas, seja a Declaração Universal dos Direitos do Homem, a Europa volta a mostrar o seu velho problema: a divisão. Alguns Estados-membros defendem uma condenação inequívoca das violações das normas internacionais; outros preferem a prudência estratégica, o silêncio diplomático ou a ambiguidade calculada.
O resultado é conhecido: uma União que fala com muitas vozes e que, por isso mesmo, raramente é ouvida como um actor político credível.
Mais inquietante ainda é a forma como o debate público europeu se tornou refém de uma armadilha moral. A crítica a determinadas acções ou a invocação do direito internacional é frequentemente usada como a demonstração envergonhada de um
anti-semitismo militante. O problema jurídico e político é assim deslocado para um terreno moral onde a discussão racional se torna quase impossível. E quando o debate deixa de poder existir, a política transforma-se num exercício de evasão.
Mas a pergunta essencial permanece. Se a ordem internacional que a Europa diz defender assenta nos princípios consagrados na Declaração Universal dos Direitos do Homem, então ignorar esses princípios quando se tornam incómodos não constitui a forma mais grosseira de violação do direito internacional? A credibilidade de um sistema jurídico mede-se menos pelas declarações que proclama do que pela coerência com que as aplica.
Acossada pela política imperialista de Trump, pelo terrorismo de estado de Putin e pelos cavalos de Tróia, que aceita no seu interior (Orban e Fico), a UE luta pela sobrevivência.
Num cenário de incerteza estratégica, compreende-se que surjam propostas como a defendida por Emmanuel Macron: a construção de uma política comum a alguns países europeus de dissuasão nuclear. A ideia parte de um diagnóstico difícil de contestar. Num mundo cada vez mais instável, a segurança europeia não pode depender indefinidamente das garantias cada dia mais erráticas dos EEUU.
Contudo, o problema europeu raramente reside apenas na falta de instrumentos. Assenta, sobretudo, na ausência de uma estratégia comum. A União acumulou nos últimos anos fundos de defesa, programas industriais e iniciativas de cooperação militar. Tudo isso pode ser útil. Mas sem um consenso político claro sobre o papel da Europa no mundo, essas iniciativas correm o risco de permanecer fragmentos de uma arquitectura estratégica que nunca chega a ser construída. É tempo de encarar progressivamente um modelo federal específico e próprio para a escala e as idiossincrasias culturais europeias.
“O uso da táctica sem estratégia não passa de ruído antes da derrota”
E o que muitas vezes se observa na política europeia é precisamente esse ruído produzido por uma sucessão de iniciativas que procuram compensar a ausência de uma decisão fundamental sobre o tipo de “poder” que a Europa quer ser.
No fundo, a questão é simples e incómoda ao mesmo tempo. A União Europeia construiu-se como uma potência normativa, baseada na força do direito e na influência das regras. Mas o mundo que emerge, hoje, volta a ser um mundo de poder, de dissuasão e de rivalidade estratégica.
Nessas circunstâncias, a liberdade política de um actor internacional, como a UE, depende inevitavelmente da percepção do seu poder. Para ser livre é preciso ser temido e para ser temido é preciso ser poderoso. Não necessariamente agressivo, mas suficientemente credível para que as suas palavras tenham peso.
A Europa continua hesitante entre estas duas identidades. Quer preservar o seu ideal normativo, mas teme assumir plenamente as consequências políticas do poder. Enquanto essa ambiguidade persistir, cada nova crise — seja na Ucrânia, no Médio Oriente ou noutro ponto do sistema internacional — continuará a expor a sua fragilidade.
É assim que começam as verdadeiras calamidades políticas: não com um colapso súbito, mas com a lenta erosão da coerência, da autoridade e da confiança. Sistemas políticos raramente caem de um dia para o outro; antes disso tornam-se incapazes de decidir, de agir e, sobretudo, de se fazer respeitar. Se a União Europeia não for capaz de reformar os seus mecanismos de decisão e reconciliar os seus princípios com uma estratégia de poder credível, arrisca-se a descobrir demasiado tarde que a maior ameaça não vinha de fora. Vinha da sua própria incapacidade de agir como uma potência — e de se comportar como tal.