
Jorge Morais
Ainda não consegui entender por que razão os concorrentes ao cargo de Presidente da República se afadigam a apresentar “programas”, “ideias”, “compromissos” e “propostas” – da saúde à habitação, da educação à defesa, da cultura à proteção civil, das pescas à política ambiental. ¿Para quê – se o Presidente que for eleito estará legalmente proibido de pôr em prática o que agora anuncia?
Ao contrário do que por vezes se quer fazer crer, o Presidente da República não paira sobre a política nacional: é um poder limitado, com funções protocolares determinadas. Começa por ser empossado na Assembleia da República, o que indica expressamente o órgão perante o qual responde (e que é, de resto, o órgão que pode promover a sua destituição).
As suas competências são claras: no essencial político, marca as datas das eleições, empossa os chefes militares escolhidos pelo Governo, nomeia o primeiro-ministro de acordo com os resultados eleitorais, dissolve o Parlamento em circunstâncias especiais que a lei rigorosamente prevê, promulga leis, decretos e resoluções da Assembleia da República e do Executivo (podendo apenas atrasar a sua aprovação ou negá-la sob parecer do Tribunal Constitucional) e assina os tratados internacionais que o Governo lhe põe na mesa para assinar.
Não vejo, em qualquer destas competências, a capacidade de determinar o rumo das políticas do país, que começa por ser decidido em Bruxelas pela Comissão Europeia. O Presidente pode, evidentemente, tentar influenciar domesticamente esse rumo, como o tem feito Rebelo de Sousa ao longo dos seus mandatos. Chama-se a isso, pomposamente, “magistratura de influência”. Mas o mesmo pode fazer qualquer outro órgão político, grupo social de pressão ou ‘lobby’. Pode dizer coisas, sim; mas “fazer coisas” é algo que não passa do estúdio de televisão em que são ditas.
As leis são elaboradas na Assembleia da República, cuja composição é decidida em eleições; a execução das políticas, no respeito por aquelas leis, compete ao Governo; e a Justiça é administrada por um poder independente. A esta arquitetura legislativa, executiva e judicial não pode o Presidente sobrepor-se, sob pena de colocar-se ele próprio em estado de ilegalidade.
¿Porque se afadigam então os candidatos ao cargo a anunciar o que “propõem” e o que “farão” se forem eleitos? Que importa o que eles pensam que devia ser feito quanto à reestruturação do INEM ou às parcerias público-privadas? De que valem as suas opiniões avulsas sobre a quota da captura de carapau, os subsídios às rendas sociais, o calibre das peças de artilharia, a prevenção dos incêndios ou as médias de licenciatura em Medicina? Zero. Ou melhor: se por absurdo tiverem uma boa ideia, pode ser que alguém a aproveite. Obrigadinho.
Assistimos, pois, nesta campanha a uma imensa perda de tempo e a uma entediante mistificação. Deste exercício inútil beneficiam sobretudo os partidos políticos, que aproveitam a deixa para fazer claque e agitar bandeirinhas atrás dos seus candidatos.
No regime chamado “semi-presidencialista” em que vivemos, e no qual o único poder político efetivo do Presidente se resume à possibilidade (e, em todo o caso, fortemente condicionada) de dissolução do Parlamento, pouco poderá o eleito fazer para além de confirmar o que os outros órgãos de soberania decidirem. Sim, na audiência semanal com o primeiro-ministro pode mostrar-lhe má cara ou conceder-lhe um sorriso. E ele ralado!
Assim, à luz das competências constitucionais do Presidente, pouco resta aos candidatos para debater seriamente nesta campanha eleitoral além do estritamente inerente ao exercício do cargo: o orçamento das Casas Civil e Militar, as viagens oficiais a empreender, o número de condecorações a outorgar, talvez a cor da tinta com que retocarão as paredes do Palácio. Tudo o mais é geometria no espaço.
A menos, claro, que se pretenda questionar o “semi-presidencialismo” vigente e defender outro modelo de exercício do cargo. Mas nesse caso – lá está – o único local indicado é a Assembleia da República.
Na campanha em curso, e para efeitos práticos, falarem ou estarem calados vai dar rigorosamente ao mesmo.

Jorge Morais
O barulho que se faz neste país com conversa de xaxa!
O poder de cunhar faladura, antigamente exclusivo de catedráticos e taxistas, está hoje ao alcance de qualquer um, em profusão e intensidade. Ninguém quer ficar calado (nem eu, pelos vistos).
Como o exemplo vem sempre de cima, o papagaio-mor do reino dá o tom à palração e trata de nos invadir a casa de manhã à noite, explicando a nuvem que passou, anunciando a nuvem que passará, analisando os analistas, multiplicando-se nos jornais, nas televisões, nas selfies, nas redes associais, matraqueando o éter e ecoando pela estratosfera do planeta dos macacos.
Quem o ouve e contesta com a cabeça em água, como eu, tem também suas culpas no cartório – pois junta ao ruído primordial a chinfrineira comunicacional em que ele floresce. E a facilidade com que hoje qualquer pessoa pode lançar ao vento do ciberespaço seus amores e desamores, sem filtro e num instante, acaba por fazer de Portugal uma gaiola de papagaios esquizofrénicos, em que quanto mais alto palra um mais alto quer palrar o outro.
¿E quem nos pode censurar, se é só ruído o que a chamada comunicação social nos dá como modelo? Nas televisões, então, é o delírio total, com centenas de “comentadores” acotovelando-se para “comentarem” o que o vizinho já tinha “comentado”. Ainda se houvesse uma ponta de originalidade no chinfrim!
O efeito multiplicador deste blablá demencial abarca todos os níveis da falação. Na política é demais. Agora mesmo, pré-candidatos a Presidente da República, apoiantes e opositores são às dúzias, em debates e pós-debates, cada um com o seu saco de nadas para despejar sobre o eleitor indefeso. E falam, e falam, e falam – basta verem um microfone à frente, praqui e pracolá, frito e cozido.
Quando isto se passa nos excelsos areópagos e entre as altas esferas, não se pode estranhar que cá por baixo, no chão da vida real, o eco seja ampliado à proporção por dá cá aquela palha. O português, antigamente comedido e até bisonho, tornou-se verborrágico, fala-barato e replicador. Nos transportes públicos, nos restaurantes, nos hipermercados, nas ruas, toda a gente tem algo a dizer pelos cotovelos sobre tudo. E é um algo encarrapitado a tão importante, tão urgente e momentoso, que tem de ser expresso imediatamente, palavrosamente, extensamente e em vários tons, não vá perder-se no olvido telefónico aquela pérola do pensamento, aquela pedra filosofal da existência. ¿Está, Vanessa? Já levaste o Bobi a passear?
Não vou ao ponto de dizer, como Herculano, que “dá vontade de morrer”. Mas apetece certamente acrescentar ao bruá dominante os decibéis terminais: ¿por qué no te callas?

Jorge Morais
Era uma vez três freirinhas – Rita, Regina e Bernadette – já entradotas nos oitenta, que gozavam tranquilamente a sua reforma no Convento-Escola de Goldstein, paróquia de Elsbethen, distrito de Salzburgo, onde toda a vida tinham sido professoras e professas. Olhando agora para o retrato das três manas, figuras de jovialidade nos seus hábitos austeros, parece-me ver ali as Irmãs Berthe, Sophia e Margaretta, as monjas do Mosteiro beneditino de Nonnberg, na mesma Salzburgo onde a noviça Maria se preparava para tomar votos quando se apaixonou pelo capitão Von Trapp. Conhecem o enredo.
Ora, esta história também traz música ao meu coração.
Em 2023, fazendo frias contas de excel, um mangas-de-alpaca da Arquidiocese de Salzburgo decidiu acabar com a ala monacal de Goldstein (embora mantendo a escola, que é negócio guloso) e espetou com as freiras, muito contra a sua vontade, num “lar” para idosos onde pelos vistos saíam mais baratas.
Mas as três manas não se conformaram. Um belo dia, Setembro deste ano, com a ajuda de um grupo fiel de antigos alunos, evadiram-se do “lar” e, contra as ordens da hierarquia, regressaram à sua verdadeira casa, o mosteiro da paróquia de Elsbethen. Chamaram um serralheiro para destrancar as portas e reinstalaram-se nas suas antigas celas. Era tarde para os burocratas da Arquidiocese de Salzburgo – confrontados com o facto consumado (e com o furor que alastrava já nas redes sociais, com cem mil seguidores), não tiveram outro remédio: as Irmãs Rita, Regina e Bernadette estão finalmente autorizadas a terminar tranquilamente os seus dias no mosteiro, com um vasto grupo de amigos a garantirem alimentação, aquecimento de Inverno e assistência médica por todo o tempo de vida que os céus lhes concedam.
Das janelinhas das suas celas podem agora voltar a contemplar as montanhas de Salzburgo onde a noviça Maria de Música no Coração descobriu a sua alma livre, correndo e cantando pelas verdes colinas. Numa reminiscência inescapável, a Irmã Bernadette comentou há dias: “Antes de morrer naquele lar de idosos, prefiro ir para um prado e entrar na eternidade dessa forma”.
Abençoadas manas. Tiveram a vontade e a possibilidade de fazer o que muitas pessoas fariam – se para tanto tivessem posses e forças: fugir dos “lares” onde hoje se despejam os velhos e descer a colina da vida com a dignidade última do ser humano.

Jorge Morais
Perante as torrentes de neófitos que pretendem apoderar-se do 25 de Novembro, torcê-lo a seu gosto, ignorá-lo ou reduzi-lo a um mero exercício de blindados, permitam-me contar.
A escarlatina pseudo-revolucionária do PREC foi o ruído de fundo que permitiu ao Departamento Internacional do Partido Comunista da União Soviética preparar em sossego a proclamação da independência de Angola, que aconteceu em 11 de Novembro de 1975. Enquanto a RTP se distraía a ouvir os militares barbudos das “Campanhas de Dinamização Cultural”, em Luanda os três magnatas (Estados Unidos, União Soviética e República Chinesa) lutavam pelo maior armazém mundial de matérias-primas e pelo mercado de consumo mais promissor dessa época.
Consumada a independência de Angola, o Partido Comunista Português desinteressou-se da turbulência da “rua”, dominada pelo folclore desgrenhado da extrema-esquerda, e deu mesmo sinal de que ansiava também pelo regresso a alguma normalidade formal. Foi assim que, quando a ala radical do MFA se dispunha a avançar para as barricadas, o PCP a deixou a falar sozinha, salvando a pele ao soar do último gongo.
Faltava “apenas” selar e chancelar com um ato militar terminal a derrota daquela amálgama gelatinosa em que esbracejavam Otelo, Duran Clemente, Varela Gomes e outros exaltados da vida. Esse ato militar foi realizado em 25 de Novembro, duas semanas depois de em Luanda ter sido arriada a bandeira portuguesa.
O 25 de Novembro foi executado por Jaime Neves, sob o comando de Ramalho Eanes, com envolvimento direto de muitos outros militares – Alípio Tomé Pinto, Vasco Lourenço, Gomes Mota, num rol de algumas dezenas.
Os membros do chamado “Grupo dos Nove”, liderados por Melo Antunes, tiveram um papel fulcral na preparação do ambiente favorável nas Forças Armadas e na coadjuvação às operações militares.
Mas também os civis, geralmente esquecidos, participaram ativamente na preparação do 25 de Novembro.
Os agricultores da CAP, liderados por José Manuel Casqueiro, inspirados por Rosado Fernandes e articulados com membros do Conselho da Revolução (com destaque para Victor Alves), deram o sinal de arranque cortando a Estrada Nacional 1 em Rio Maior.
A Imprensa não-estatizada cumpriu também a sua parte, antes, durante e depois do 25 de Novembro: o ‘Jornal Novo’ surgiu em Abril desse ano, financiado pela CIP; ‘O Jornal’ e o ‘Tempo’ nasceram em Maio; ‘A Luta’ (dos antigos jornalistas do ‘República’) apareceu em Agosto. Todos eles, em conjunto com o ‘Expresso’ (que já vinha da Ala Liberal de 1973), alimentaram um fogo de barragem que muito contribuiu para a vitória das forças de Eanes e Jaime Neves.
No meio partidário, destacou-se praticamente isolado o Partido Socialista. Mário Soares manteve comunicação permanente com o “Grupo dos Nove”, com os membros moderados do Conselho da Revolução, com o Patriarcado, com as centrais patronais e com as Redações da Imprensa livre, sobretudo a partir de Agosto. Quando se chegou a Novembro, a cumplicidade era tal que Ramalho Eanes mandou entregar ao PS um lote de armas para o caso de ser necessária uma intervenção de retaguarda. Entre os políticos socialistas que então estiveram na primeira linha de contacto com os militares do 25 de Novembro destacaram-se Manuel Alegre e António Campos. Entre os operacionais do PS de primeira linha, recordo Edmundo Pedro, Fernando Oneto e Palma Inácio – tendo atrás de si toda a máquina nacional do PS mobilizada por Soares. Quem quer apagar o então secretário-geral socialista deste retrato engana-se redondamente: Soares não só esteve no âmago do 25 de Novembro como se deslocou nas vésperas para a cidade do Porto, combinadamente com os militares, ligando-se ali a Pires Veloso para preparar a resistência a partir do Norte, se fosse necessário.
Do PSD pouco se ouviu por esses dias. Teria, certamente, canais de contacto com os militares do “Grupo dos Nove”, mas os seus dirigentes chegaram assumidamente aos acontecimentos no dia 26 de Novembro. E o CDS, que agora se faz protagonista das comemorações da data, dividiu-se em 1975 em duas grandes tendências: uma estava fechada a sete chaves no Largo do Caldas; a outra exilou-se pacatamente no Hotel Zurbarán, em Badajoz, fumando ‘puros’ e “conspirando” ao telefone.
Não ouvi dizer. Não me contaram. Estive lá e sei.

Jorge Morais
O Bloco de Esquerda quis comer o PCP e acabaram ambos com fome. O Livre quer comer uma fatia do PS e o que resta do Bloco de Esquerda mas arrisca-se a uma paragem de digestão. O PCP voltou a ter um pouco de apetite e agora também quer comer o PAN, cujos destroços são ainda disputados pela IL. Esta quis comer as papas na cabeça do PSD e do PS e acabou a roer um osso.
É um problema de mercado.
Portugal, país pequenino de 11 milhões de residentes, 9 milhões de eleitores inscritos e 6 milhões de votantes efetivos, não chega para matar tanta fome. Na política portuguesa há lojas a mais e clientes a menos.
Seis milhões de votos é escassa freguesia para as bocas insaciáveis de 230 deputados: cada um representa apenas 26.000 fregueses votantes. Nas eleições locais o cenário é ainda mais pobre, com os mesmos 6 milhões a elegerem 30.000 autarcas (e cada eleito a representar uns míseros 200 votos). A velha expressão “sete cães a um osso” tem de ser urgentemente corrigida. São sete vezes sete.
Nos países grandes e ricos é outra loiça. A Alemanha, por exemplo, com 60 milhões de eleitores ativos, elege 630 deputados – o que dá uma média de 95.000 fregueses por deputado (quase quatro vezes mais do que em Portugal). Com uma clientela destas, sim, o negócio já é viável.
Se é verdade que a crise do comércio eleitoral toca a todos, não é menos verdade que, neste momento em que as ondas da direita cavalgam os mares da política, é a esquerda a mais afetada. Nas últimas legislativas, os cinco partidos assumidamente de esquerda recolheram por junto 2.020.860 votos: 19% dos fregueses eleitores. Com números destes, é natural que algumas das lojas em declínio acabem por ter de correr os taipais ou – cá está – deixar-se comer pela concorrência.
Dizem-me amigos economistas que a oferta nunca deve exceder a procura. Num mercado político tão exíguo como o nosso, este axioma aplica-se a dobrar. E explica por que razão os pequeninos andam a comer-se uns aos outros – e ainda por cima não deixam nada.
Organizem-se!

Jorge Morais
Não há coisa mais tóxica neste mundo do que as cimeiras contra a poluição.
Que o diga Lula da Silva, anfitrião da Cimeira do Clima e da COP30, agora a decorrer em Belém do Pará: ser muito amiguinho da floresta e autoproclamado “líder da agenda climática” não o impediu de outorgar à toda-poderosa Petrobrás uma generosa licença para prospeção de petróleo na Bacia da Foz do Amazonas, tesouro biológico dos mais preciosos da Margem Equatorial. Ali mesmo nas barbas da Cimeira ambientalista.
Que importa que a região esteja classificada como de elevada sensibilidade ecológica, abrigando um ecossistema marinho dos mais ricos do planeta, com recifes e espécies ameaçadas de extinção, como o peixe-boi, o boto-cinza, o boto-vermelho e muitos outros? Que importa que a Petrobrás se proponha exaurir mais de metade das reservas petrolíferas da Bacia e para isso tenha de perfurar a Margem Equatorial a mais de sete mil metros, montando no mar e em terra estaleiros capazes de extrair e processar 700 mil barris diários de petróleo? Que importa que aldeias, vilas e cidades de todo o Estado de Macapá sejam arrastadas para a hiperindustrialização e os seus povos escravizados nas usinas que serão disseminados por seis mil quilómetros quadrados de Amazónia?
Bem sei, os cifrões falam mais alto. Se a prospeção correr de feição à Petrobrás e a exploração avançar como está previsto, o Estado brasileiro terá o PIB engordado em 100 mil milhões de dólares e arrecadará 50 mil milhões em impostos e ‘royalties’ – isto sem fazer contas às comissões e gentilezas que ajudarão a “olear” o processo na secretaria. Compreende-se, assim, que Lula da Silva, confrontado com as críticas, tenha respondido com um axioma filosófico: “Se eu acabo com o petróleo, vou utilizar o quê?”. Não está mal, vindo do “líder da agenda climática”.
¿Para que serve, então, a Cimeira do Clima e a COP30 que se segue?
Antes de mais, serve para aumentar a pegada carbónica, atendendo a que falamos de 143 delegações idas de todo o mundo por via aérea.
Serve, depois, para o já tradicional salamaleque climático, bacalhauzadas para as câmaras e frases idiotas. António Costa e Ursula Von der Leyen esperam “um grande sucesso” deste “encontro crucial”. Keir Starmer fala de “ocasião histórica”. Emmanuel Macron abraça “a floresta tropical” na pessoa de Lula. António Guterres, derretido em lágrimas, vislumbra o “ponto de viragem de que a humanidade tanto precisa”. Até Luís Montenegro, que não resiste a uma máxima de meia tigela, espera que da COP30 saia “um pacote ambicioso”, “um acordo robusto” e “uma arquitetura global coerente”. Está bem, abelha.
É claro que da Cimeira do Clima e da COP30 nada sairá – a não ser meia dúzia de larachas de bom tom. E os ilustres participantes regressarão a casa de Ego consolado, cruzando e poluindo os ares como anjinhos distraídos.
Mais do que as presenças na Cimeira, contam as ausências: a China, os Estados Unidos e a Índia, que são os principais poluidores do planeta, nem sequer se dignaram aparecer em Belém do Pará. Está tudo dito.

Jorge Morais
Agora que o sábio mocho da Contabilidade tem o Orçamento mais ou menos resolvido, sobe ao palco a eleição presidencial.
Será em Janeiro, mas o estardalhaço ouve-se à distância. Estive a contá-los: são quase vinte os putativos candidatos a Presidente da República. Ainda que o grosso do pelotão venha a ficar pelo caminho, por falta de assinaturas ou falta daquilo com que se compram os melões, uma boa dezena de maduros chegará às mesas de voto. É gente a mais.
A eleição presidencial, que noutros tempos foi um sóbrio e respeitável acto político destinado a fechar o arco republicano do poder, está hoje transformada numa espécie de ‘big brother’ a que não faltam cenas de mão na anca, lavagem de roupa suja, nudez política da mais obscena e arranhadelas de unhas de gel. Não havia necessidade.
Pela lei natural das coisas, a liga dos pequenos e médios candidatos contentar-se-á com o prémio de consolação dos dois minutos de palco – o que já não é nada mau. Apenas os quatro ou cinco da primeira divisão estão em condições de lá chegar, toda a gente o sabe. Para quê, então, tanto dinheiro gasto, tanta energia desbaratada, tanto tempo perdido e tanto ruído inútil? Será porque ‘the show must go on’?
Os partidos precisam da charanga como de pão para a boca, lá está. Sobretudo aqueles que se arriscam a morrer esquecidos se não fizerem um pouco de chinfrim com a sua pandeireta. A eleição presidencial vem mesmo a jeito: como a expectativa é nula e ninguém está com exigências, todo o resultado será bom. Acima de 0,00001%, qualquer um deles poderá cantar vitória.
A dois meses e meio da eleição, a barulheira é já ensurdecedora. E ainda vêm aí os debates. E os cartazes. E as entrevistas. E as fake news. E os comícios. E as arruadas. E os “apoios” tirados da manga como coelhos da cartola.
E já que falamos em apoios: se a eleição do Presidente é uninominal e a candidatura ao cargo uma decisão pessoal e íntima, porque não deixam os partidos que o cidadão vote na paz da sua consciência, em vez de estarem a soprar-lhe ao ouvido onde deve pôr a cruzinha?
É assim que a Presidência, um exercício supra-partidário por definição, está contaminada na fonte pelo facciosismo bacoco das bandeirinhas e dos slogans, dos foguetes e das canas. Ainda por cima, cada candidato acha-se no direito – imaginem! – de ter “ideias”, como se concorresse à chefia de um governo. Não há pachorra.
Zzzzzzzzzz. Acordem-me quando estiver a chegar à final.

Jorge Morais
Comboio descendente, dez da manhã. Na primeira estação, a carruagem leva já dez pessoas – e sete vão grudadas a pequenos objetos pretos, de forma retangular e espessura reduzida.
Olham os objetos com visível zelo, nada as distrai um segundo. De quando em vez, os polegares entram em frenesi e dançam sobre os estranhos objetos. Há mesmo quem fale para eles, como se houvesse pessoas ali dentro da caixinha a contar o que vão fazer para o almoço.
Segunda estação: a carruagem vai já com vinte pessoas – e dezasseis estão presas aos seus objetos retangulares. Terceira estação, quarta, nona, décima: perco a conta ao aluvião de objetos que entram e me cercam. E ao chegarmos à estação terminal é uma multidão de objetos retangulares que desagua na cidade, onde uma multidão ainda maior encosta os objetos à orelha ou os dedilha com os polegares em frenesi.
Não, não é um pesadelo hitchcockiano de segunda-feira: é o bom povo agarrado ao telemóvel.
*
Pergunto-me muitas vezes o que haverá de tão importante para comunicarmos pelo telefone, tantas vezes, durante tanto tempo. Mistério. O melhor é pegar no telemóvel e ligar a alguém que me esclareça.
Declaro aqui à puridade que não partilho os terrores da velha guarda sobre as novas tecnologias – as que nos trouxeram até aqui, as que hoje usamos ou aquelas que a indústria continuará a derramar sobre o estimável público. São apenas instrumentos que usamos pela sua utilidade, como a enxada, a chave de parafusos, a caneta de tinta permanente, o saca-rolhas, a telefonia a pilhas, a bicicleta a pedal ou o avião do Gago Coutinho. O que importa não é o objeto em si: é o que fazemos com ele.
De resto, as maravilhas da técnica de um dia podem existir em simultâneo com as maravilhas da técnica do dia anterior. E existem: já me aconteceu atender uma chamada de iphone à lareira de uma casa sem eletricidade. A cada coisa sua função. E não é por haver carros elétricos que deixámos de andar a pé.
Dito isto, declaro aqui à puridade que partilho algumas das preocupações da velha guarda sobre o uso que se dá às novas tecnologias. Se a telefonia a pilhas foi sem dúvida uma etapa gloriosa na história da comunicação sem fios, que diríamos de alguém que não pudesse passar sem ter o ouvido colado ao aparelho, as 24 horas do dia, ouvindo notícias, anúncios, cançonetas e relatos de futebol sem um minuto de descanso? Que é doidinho da cabeça, está claro.
O problema do telemóvel, nos nossos dias, não é o uso: é a dependência absoluta. Dependência que começa na tenra idade e já se comunica aos mais velhos. É a incapacidade de existirmos sem o telemóvel – e isto mesmo confirmámos no recente “apagão”. Porque no telefone móvel encontramos, aparentemente, todas as funções que buscamos no dia a dia: falar, ouvir, presenciar, marcar e desmarcar, escrever e fazer contas, até pagar e receber. Foi desta multiplicidade útil que ficámos cativos. E ao fim de dez anos, no comboio descendente, ainda não encontrámos a moderação, o meio termo e o bom senso.
Talvez ajude concluirmos que há uma função que não está à distância de uma tecla do telemóvel: pensar.

Jorge Morais
Tive esta semana de ir à Baixa de Lisboa (ninguém é perfeito) e de novo mergulhei no souk de El Jadida. Abri caminho por entre trotinetas, tuktuks, malinhas roxas e amarelas com rodas, glovos, ubereats e selfies, guias turísticos e músicos da treta, pizzerias, cupcakes e pastéis de bacalhau com queijo da serra, sempre na esperança de reencontrar a cidade íntima e cálida dos dias claros. Mas de Lisboa, da Lisboa autêntica, só a sombra.
Toda a Baixa fede. Dos respiradores do Metro vem um bafo a mijo antigo, há no ar um cheiro nauseabundo a esgotos, a podre, a chulé, a sovacos mal lavados nos airbnbs. A Praça da Figueira é hoje uma galeria escabrosa de misérias em volta de um arraial; velhos sem casa encostam a cabeça a almofadas improvisadas com sacos de plástico e exibem pés com fístulas, jovens gatunos disputam bocados miseráveis do saque.
As mercearias, as tabernas e os cafés de tertúlia, os restaurantes baratos para o povo, tudo desapareceu, varrido pelo tsunami. Não se vende uma rosa, não se vê um jornal, não se encontra um banco onde se possa uma pessoa sentar. Tudo está concebido para passar, gastar, zarpar, veloz e indiferente, rebanho cego que tanto podia estar ali como deambular aos encontrões por Rawalpindi.
Vivi em Lisboa grande parte da minha vida. Conheci a cidade como as minhas mãos, residi em vários dos seus bairros, amei muitos dos seus recantos mágicos, milhares de dias vi a sua luz madrugar na janela, milhares de noites perdi-me nas suas vielas. Sobre ela escrevi prosa e verso, a ela voltava saudoso sempre que partia.
Vi-a mudar, era inevitável. Mas à mudança veio agarrada a destruição. De um dia para o outro começaram a desaparecer lojas, retrosarias, capelistas e pastelarias para nelas nascerem comércios artificiais que depressa se refazem, como trapos sem valor. Os meus bairros ficaram cada vez mais Istambul, arredores de Nairobi, arrabaldes de Bogotá. Pouco a pouco, a minha cidade deu lugar a uma topografia desconhecida, agressiva, hostil. E vieram as obras, e mais obras, e arrasa aqui para construir ali, ruas esventradas, poeira, destroços e cascalho, andaimes, camionetas e betoneiras, e veio a enxurrada do turismo que levou o que restava da cidade íntima.
Não deixei de amar a minha Lisboa. Simplesmente, ela já não está lá. De vez em quando regresso, na vaga esperança de reencontrar os seus traços de beleza sob os escombros da devastação. Arrependo-me sempre.