
Jorge Morais
Cá e lá fora (que a tolice não conhece fronteiras), a vida política é cada vez mais ruído e aparência. Chamam-lhe “comunicação”.
O homem público, que dantes era apreciado pela inteligência e pelo conhecimento, pela capacidade de organização e administração, pelo zelo e pela solidez de pensamento e ação, é hoje medido pelos soundbites que emite, pelas frases ocas que debita, pelos barulhos que faz com a boca, pelo padrão do fato que veste e pelo cenário que tem atrás.
Tudo é pretexto para aparecer e dizer coisas. Todos eles têm opiniões a dar sobre tudo, do movimento das galáxias ao bater de asas de uma joaninha. Falam, falam, falam sem que a voz lhes doa.
Governar, nos nossos dias, é “comunicar”. Não importa o que estão a dizer, o que é necessário é que digam.
Hoje, um governante não se governa com menos de trinta assessores, consultores e adjuntos – e uma boa parte deles está entregue à tarefa mais importante em todo o Ministério: “comunicar”. Parece mesmo que nomearam um Ministro da tutela.
Porque “comunicar” não é apenas abrir a boca. Há toda uma ciência em torno da gestão da agenda mediática, dos temas in e dos temas out, da pose a três quartos, do hair style e da cor da gravata.
O homem público de hoje passa um terço do seu tempo a dizer baboseiras e outro terço a escrever inanidades nas “redes sociais”. O que sobra é para estar ao espelho.
A televisão é agora uma feira da ladra sem travões.
Os Governos são tunas de pregoeiros à desgarrada.
Só lhes falta, mesmo, como há tempos aqui sugeriu José Paulo Fafe, um ridiculómetro que os meça.
O apuramento técnico e o refinamento estilístico deste coro de escravos alastra às brenhas. Até há pouco, as habilidades canoras mobilizavam sobretudo os grandes tenores e sopranos do poder central, mais próximos dos altifalantes da “comunicação”. Mas a moda já vai à província.
Tenho diante de mim o flagrante de uma reunião de vereadores de uma obscura Câmara Municipal do Minho profundo. Toda a encenação decalcada está feita para a fotografia: as bandeiras ao fundo, como no Conselho de Ministros, o prrrrresidente no topo da mesa e o resto da tropa fandanga em frente de uma floresta de microfones, computadores e garrafas de água do Luso. Parece uma cimeira da Nato. E é para parecer assim que está construída. Não vale a pena tentar perceber para que querem eles os microfones, se estão a um metro de distância uns dos outros. Na maior das probabilidades, nem estão ligados.
Quem se ocupa, afinal, da rede de esgotos e do centro de saúde? Sim, andando quem devia fazer preocupado com as árduas tarefas de parecer, perguntar-se-á: alguém está a pensar no governo das coisas desta vida, ou estão todos a ajeitar o colarinho e a compor o vestido?

Jorge Morais
Completará na próxima semana cem anos de vida o cientista David Attenborough, que o mundo conhece dos seus filmes e séries sobre a vida selvagem, o ambiente e a defesa dos recursos naturais do planeta. Vezes e vezes sem conta o vimos a abraçar macacos, a espreitar ninhos de víbora, a mergulhar na corrente dos salmões, a dissecar plantas equatoriais, a falar com elefantes, a filmar crateras de vulcões, a analisar fumos de fábrica, a seguir carreiros de formigas como quem desvenda o grande enigma universal. Não há, entre os documentaristas de televisão e os divulgadores científicos, quem se assemelhe a este homem extraordinário, cuja vida se confunde com o próprio pulsar da Terra.
Graduado em Ciências Naturais em Cambridge, estreou-se na BBC em 1952 com o programa “Animal, Vegetable, Mineral”, logo seguido pelas primeiras produções sobre a vida selvagem, “Animal Patterns” e “Zoo Quest”.
Depois de uma pós-graduação em Antropologia Social, David Attenborough aceitou dirigir a BBC2 (foi ele quem deu luz verde ao “Monty Python’s Flying Circus”) e gerir toda a BBC Television. Foram sete anos de fato e gravata e responsabilidades de administração, ao longo dos quais ainda conseguiu algumas escapadelas para documentar a história cultural de Bali, filmar a vida dos elefantes na Tanzânia (1969) e participar numa expedição às terras altas da Nova Guiné. Em 1972, farto do cativeiro, decidiu voltar ao documentário e ao ar livre. “Amanhã vou presidir a uma reunião do comité financeiro”, anunciou ele um dia a Denis Tuohy, “e será a última vez que tenho de vestir este maldito fato!”.
Compôs-se então a figura de David Attenborough que perdura até hoje: calça de caqui, camisa azul, escalando montanhas e descendo a vales, dos gelos aos trópicos, filmando tão próximo de plantas e animais que quase podíamos tocá-los nós como ele os toca. Logo em 1973 filmou na Indonésia (“Eastwards with Attenborough”), seguindo-se “The Tribal Eye”, “The Explorers” e “Fabulous Animals” (este para crianças, 1975). Surge então a sua grande trilogia sobre comportamento animal, que o tornou conhecido em todo o mundo, envolvendo mega-produções com filmagens em centenas de locais de vários continentes e mais de 500 cientistas colaborando nos bastidores: “Life on Earth” (1979), “The Living Planet” (1984) e “The Trials of Life” (1990).
Não há recanto do mundo ou aspeto da vida natural que David Attenborough não tenha documentado: a Antártida em “Life in the Freezer”, o reino vegetal em “The Private Life of Plants”, as aves em “The Life of Birds”, os mamíferos em “The Life of Mammals”, os invertebrados em “Life in the Undergrowth”, répteis e anfíbios em “Life in Cold Blood”, a vida marinha em “The Blue Planet”, o equilíbrio ambiental em “Planet Earth”, as alterações climáticas em “Nature’s Great Events”, os recifes de corais em “Great Barrier Reef”, os dinossauros em “The Final Day” e “Prehistoric Planet” – sem esquecer o maravilhoso “The Queen’s Green Planet” (2018), um documentário de 90 minutos em que Sir David passeia descontraidamente com a Rainha Isabel II pelos 16 hectares de jardim de Buckingham House.
Na televisão, na rádio, em conferências e colóquios, em livros (a sua última obra escrita foi publicada há pouco em Português sob o título “Oceano / O Último Reduto Selvagem”), David Attenborough tem sido a mais constante voz em defesa do património natural da humanidade. Tem sido e é, pois Attenborough continua tão ativo como sempre.
No final de 2025 estreou na BBC1 duas novas séries documentais, sobre a vida animal na Zâmbia (“Kingdom”) e a paternidade no reino animal (“Parenthood”), ao mesmo tempo que era difundido o seu documentário sobre a vida aquática (“Ocean”), logo seguido de um conjunto de entrevistas inéditas sobre a sua relação pessoal com a Natureza (“Making Life on Earth / Attenborough’s Greatest Adventure”). No primeiro dia deste ano a BBC1 emitiu o seu documentário sobre a vida selvagem desconhecida na capital britânica (“Wild London”). Em Abril estreou uma série de cinco episódios sobre fauna e flora nos quintais das casas inglesas (“Secret Garden”).
Prepara-se agora para a grande celebração do seu centenário, no próximo dia 8 de Maio, no Royal Albert Hall, em Londres: “David Attenborough’s 100 Years on Planet Earth”.
Isto, sim, é viver a vida a plenos pulmões. Abençoado David Attenborough.

Jorge Morais
Não sendo possível ao próprio gravá-las para a posteridade, por razões óbvias, as últimas palavras de um moribundo são necessariamente registadas por quem lhe sobrevive. É um risco muito grande, eu sei, mas não há como escapar-lhe.
Lembrei-me disso a propósito da batalha de Alfarrobeira, ferida numa tarde de há 577 anos, e das últimas palavras que os cronistas foram registar ao campo pejado de moribundos.
Viveu-se aí, nas colinas de Vialonga, uma das mais belas histórias da cavalaria medieval: a morte (“no campo da honra”, como outrora se dizia), não só prevista como desejada, do Infante D. Pedro e de seu irmão de armas D. Álvaro Vaz de Almada, Conde de Avranches e Cavaleiro da Jarreteira.
É Rui de Pina que nos conta o que então se dizia terem sido as últimas palavras do Infante: uns tinham ouvido “Ora fartar, rapazes!”; outros, “Ora vingar, vilanagem!”. O povo, mestre da síntese, cunhou o dito que ainda hoje corre, mais vezes até do que devia: “É fartar, vilanagem!”.
Verdadeiras ou inventadas, as últimas palavras de um moribundo acabam por incorporar-se na persona que dele se construiu, sobretudo se é famoso. São quase sempre palavras assertivas, apontando uma moraleja às gerações vindouras. A única exceção titubeante que me ocorre é a de Júlio César com a sua célebre pergunta “Até tu, Brutus?”. Não sei se o bruto respondeu, mas a surpresa é um pouco extemporânea.
Sócrates (o verdadeiro) é-nos apresentado no Fedon, escrito por seu discípulo Platão, a dizer ao seu amigo Críton de Atenas, depois de ter ingerido a cicuta: “Críton, devemos um galo a Esculápio, não te esqueças de pagar a dívida”. A frase parece mostrar que o velho filósofo estava, afinal, mais apegado à vida do que poderíamos pensar, pois na Grécia Antiga uma cura milagrosa requeria o sacrifício de um galo ao deus Esculápio. Naquele caso, já não havia hipótese.
Mais franca e direta foi a cantora inglesa Amy Winehouse, que ao fechar os olhos confessou candidamente: “Eu não quero morrer”. Já quanto a outros ficamos na dúvida. Charles Darwin disse “Não tenho o menor medo de morrer” no momento em que se apagava. Mas que nos confessaria ele se pudesse falar um minuto depois?
Algumas últimas palavras são surpreendentes. Elvis Presley, por exemplo, levantou-se e disse à namorada: “Não consigo dormir, vou ler para a casa de banho”. E ela: “Não adormeças”. E ele: “Não, não adormeço”. Pumba, caiu para o lado, já morto. O que é extraordinário não é o diálogo, mas sim a intenção de ler: uma pequena dissonância na derradeira hagiografia pelviana.
Oscar Wilde, esteta até ao último instante, morreu protestando contra a fealdade da decoração do quarto do Hôtel d’Alsace, em Saint-Germain-des-Prés, onde se hospedava: “Este papel de parede e eu estamos num duelo de morte. Ou sai o papel de parede, ou saio eu”. Saiu ele, na padiola do cangalheiro – e, 126 anos depois, o papel de parede continua lá.
Também dado ao teatro, o imperador Augusto despediu-se da vida com uma tirada de ator: “Representei bem o meu papel? Então aplaudam-me ao sair”. O vaidosão.
Cansado de tanto viver entre gente minúscula, o grande Winston Churchill partiu, creio, com algum alívio: “Tudo isto é um tédio”. Mais terra a terra, o empresário Steve Jobs limitou-se a comentar, muito à americana: “Oh wow. Oh wow. Oh wow”. Mais eloquente não podia ser.
Já Albert Einstein proferiu as suas últimas palavras em alemão – língua de que a enfermeira que dele cuidava não entendia patavina. Perfeito: não podem pôr-lhe na boca o que não disse e imagine cada um o que quiser. Como dizia o outro, é fartar, vilanagem!

Jorge Morais
A morte do Maestro Álvaro Cassuto, que era a boa educação em pessoa e gastou uma vida generosa a divulgar a obra alheia, não pode deixar de trazer à lembrança um grande compositor que ele acarinhou e cuja integral sinfónica dirigiu e gravou: Joly Braga Santos. Falar de Cassuto é falar de Joly. E vice-versa.
A obra de Joly Braga Santos é das coisas mais extraordinariamente coerentes da música portuguesa contemporânea. As suas peças para conjuntos de câmara, para piano, para solo e orquestra (e até para banda), os seus bailados, a música para cinema, e sobretudo as peças corais, os corais sinfónicos, as três óperas e as seis sinfonias são de uma absoluta harmonia entre si: basta escutarmos alguns acordes para identificarmos o compositor e reconhecermos naquelas notas a parte de um todo concorde.
Ao contrário de outros compositores geniais, que deixaram uma obra repartida num experimentalismo rico mas disperso, Joly manteve-se até ao fim no seu registo, no seu estilo, na sua atmosfera e na sua gramática musical, sem prejuízo da natural evolução que a aprendizagem traz consigo. Um diamante talhado em todas as suas faces. Dir-se-ia que nasceu com aquela música dentro de si – e que a sua vida foi fadada para compor essa música nas suas várias declinações, da primeira à última glosa de um mote que trazia do fundo dos tempos.
Joly começou a compor muito cedo e teve uma peça sua tocada em São Carlos aos 16 anos, ainda estudante do b-a-ba da composição, tão imberbe (o próprio o contou, numa entrevista de há muitos anos) que os músicos da orquestra inventaram uma “letra” para as primeiras notas dessa incipiente ante-estreia: “Vem cá, Joly / Vem já pr’aqui / Olha o papá / Olha a mamã / Olha a titi”. E contava isto com aquela candura de menino que era o seu retrato.
A verdadeira estreia, contudo, teve-a aos 18 anos, quando a Emissora Nacional transmitiu o seu hoje famoso Nocturno para violino e piano. A partir de então de modo exclusivo, o estudo, a composição e a direção de orquestra tomaram a sua vida com a intensidade de um destino.
Não perdia ensejo de exaltar quem lhe deu a mão nos primeiros passos de trabalho musical a tempo inteiro, o seu Mestre Luís de Freitas Branco e também Pedro de Freitas Branco. Com Luís estudou Composição, antes de partir para a Itália e a Suíça a apurar as suas imensas capacidades de autoria e regência com outros professores – Mortari, Pasqualini, Galliera, Scherchen. Estudou ainda violino (uma paixão de infância), piano (instrumento essencial à composição) e canto (“para conhecer a técnica vocal”, como ele explicava). Joly era música personificada.
Em 1950 era já o Diretor da Orquestra do Teatro Nacional de São Carlos. Pertenceu ao Gabinete de Estudos Musicais da Emissora Nacional, regeu a Orquestra Sinfónica do Porto e foi professor de Composição do Conservatório Nacional. Escreveu no Diário de Notícias e fundou a Juventude Musical Portuguesa. Em 1966 a UNESCO elegeu-o entre os dez maiores compositores contemporâneos.
Estou a vê-lo. Assíduo na Academia de Amadores de Música, Joly vinha às vezes com um cartuchinho deitar milho aos pombos à Trindade, porta ao lado, onde eu e a rapaziada da minha roda abancávamos horas a fio pelos anos 72 e 73. Havia então um bando arrulhando num alpendre de madeira que dava para a esplanada da cervejaria desse tempo, nada da balbúrdia babélica que é hoje. Os pombos conheciam à distância aquela silhueta esguia, de gestos angulosos, sobretudo comprido, o seu passo largo e voluntarioso, oculinhos de cegueta, aquele jeito de ternura com a cabeça, dir-se-ia ele próprio uma ave dançando no empedrado da esplanada, absorto – e logo que o avistavam desciam em volutas do alpendre e vinham comer-lhe à mão, adejando numa ânsia de asas, numa conversa que só Joly entendia.
Escrevo a ouvir a sua 5ª Sinfonia e volto a vê-lo, despassarado e feliz, bailando na sua música sem tempo.

Jorge Morais
Quem esteja um tempo longe deste paraíso à beira-mar prantado não pode deixar de espantar-se com algumas peculiaridades portugas. É sempre de fora que se vê melhor o que está dentro.
Num programa televisivo inglês de escopo mundial, “Salvage Hunters”, está o apresentador Drew Pritchard de visita a Lisboa, em busca de velharias de valor – quando, num antiquário da Baixa, encontra um verdadeiro armazém de azulejos históricos. São pilhas e pilhas, cobrem paredes, são às centenas, aos milhares. Século XIX, século XVIII, século XVII, todos à venda por bom preço. Prichard não consegue esconder o entusiasmo.
Pergunto-me, esfregando os olhos: ¿de onde terá vindo tanta relíquia? Uma breve pesquisa dá-me a resposta: de todos os azulejos “desaparecidos” de igrejas, palácios, moradias e repartições do Estado, 74% são descaradamente roubados e 15% são levados após queda por degradação ou má manutenção. Um estudo da organização “Vizinhos em Lisboa” é taxativo: “A subtração de azulejos históricos deliberada é claramente predominante”.
Divulgou-se isto na internet, escreveu-se à Câmara, identificaram-se edifícios em risco, propôs-se um conjunto de ações preventivas. Tudo em vão: neste país à beira-mar prantado, a Lei de Bases do Património Cultural só está lá para dizer que existe.
“Quando arrancam azulejos de uma fachada, não é só cerâmica que desaparece: é memória roubada”, alerta a “Vizinhos em Lisboa”. Mas Drew Pritchard é capaz de não se ter apercebido: certamente pensou que os azulejos históricos que viu à venda, em pilhas e aos milhares, tinham caído do céu por não terem unhas.
Alerta no telemóvel: notícia de última hora. Diz o título: “Portugal vai tremer de frio a partir desta data e esta será a região mais afetada”. ¿Qual data? Qual região? Para saber tenho de passar à janela seguinte e atravessar uma floresta de anúncios. Logo a seguir, outra: “Proibidos pagamentos em dinheiro acima deste valor a partir desta data”. ¿Qual valor? Qual data? Se quero apurar, tenho de dar ‘clicks’ ao patrocinador. Não conhecia esta moda, mas não deixa de ser esperta.
Imagine-se um jornal que na primeira página anunciasse “Acidente nesta localidade mata este número de pessoas”, ou “Presidente da República disse isto numa cerimónia neste lugar” – e agora, se queres saber o que aconteceu, compra o jornal e vai até à página 18.
Não me posso esquecer de atualizar as minhas ideias sobre “jornalismo” em Portugal.
Confiro o email: de parte incerta chega-me o convite para uma apresentação em Lisboa. Abro: é um ignoto “famoso” que cometeu aquilo a que chama “autobiografia” e agora a manda publicar chamando-lhe “livro”. O marmanjo ainda não tem 30 anos de idade, mas já enche 200 páginas de “vida e obra”. E tem quem o leve a sério.
Não há dúvida: é de fora que se vê melhor o que está dentro.

Jorge Morais
Os jogos europeus de sorte e azar têm raízes profundas na Baixa Idade Média, nesse século XV que anunciava já a modernidade e o monetarismo. Institucionalizados aqui e ali, floresceram na Europa do Sul, sobretudo em Itália, França e Espanha, sob a forma de lotarias.
Em Portugal, lotos e lotarias fermentaram em versões rudimentares de tômbola e taberna até ganharem patrocínio oficial no final do século XVIII. A lotaria autorizada por D. Maria I em 1783 (e que ainda hoje existe sob a tutela da Misericórdia de Lisboa) destinou-se a regular o comércio desordenado das apostas, usando o nobre pretexto de angariar fundos para o Hospital Real, para a roda dos expostos e para a Academia das Ciências.
O hábito e o vício dos jogos de sorte e azar mantiveram-se durante séculos como característica meridional, associada à superstição e à desigualdade social, por oposição à natureza mercantil e à organização económica das sociedades da Europa Setentrional. Ainda hoje a Espanha, a França e Portugal são os principais apostadores do euromilhões, a par do caso singular do Reino Unido, onde muitos dos costumes começaram a alterar-se após a metrificação da Inglaterra. O crepúsculo do xelim, da jarda e da onça explica muita coisa.
Mas isso era ontem: a internet e os recursos cibernéticos associados tudo vieram alterar. A febre do jogo tem hoje a escala planetária. E se no Oriente a aposta tinha origens antigas, no Ocidente ela conquistou mercados até aí relativamente virgens, estendendo-se mesmo aos polos urbanos do continente africano e aos confins do mundo. Admito que a esta hora, no seu iglu, um esquimó esteja agarrado ao portátil a registar as suas ciberapostas com a mesma naturalidade com que o seu pai caçava focas com um arpão de pau de sabugueiro.
A fúria de sexta à tarde para apostar no euromilhões e esfregar ansiosamente a raspadinha dos pobres está hoje largamente ultrapassada pela ciberaposta – instantânea, anónima, silenciosa, abstrata. O tempo do totobola, que se baseava em algo que realmente acontecia, tem o sabor arqueológico da pré-história.
Por tudo isto, e ainda mais que demoraria a escrever, não fiquei surpreendido quando há dias li que os portugueses apostam 63 milhões de euros por dia em jogos online. Sim, por dia. Os números trazem a chancela do Serviço de Regulação e Inspeção de Jogos, autoridade pública integrada no Instituto do Turismo de Portugal.
Em 2025, as apostas online registadas em Portugal ultrapassaram 23 mil milhões de euros – 90% dos quais em jogos de fortuna e o restante em apostas desportivas à cota. Aqueles 23.000.000.000 euros correspondem ao montante total utilizado pelos jogadores registados nas plataformas online e inclui depósitos diretos, promoções e dinheiro recebido como prémio e reinvestido.
Alguns dados curiosos: perto de cinco milhões de pessoas estão registadas nas 18 entidades autorizadas a explorar as apostas online em Portugal; o Estado embolsa todos os anos mais de 350 milhões de euros no Imposto Especial de Jogo Online; nos jogos de fortuna e azar online, a principal escolha são os jogos de máquinas (80,4%), seguidos da banca francesa (5,9%) e da roleta francesa (4,9%); nas apostas desportivas, dominam o futebol (75,6%), o ténis (10,6%) e o basquetebol (9,6%); as principais zonas apostadoras são Lisboa (21,8%), Porto (21%) e Setúbal (8,8%); a maioria dos apostadores (77%) tem menos de 45 anos, e destes 34,9% têm entre 18 e 24 anos.
Dispenso-me de comentar. O leitor ajuizará, melhor do que eu, sobre uma sociedade que à desordem económica, ao caos organizativo e à baixa produção opõe todos os dias 63 milhões de euros em jogos de sorte e azar. Ou só de azar, porque a sorte dá muito trabalho a conquistar.

Jorge Morais
A Grécia Antiga consagrou a Ekecheiria – o aperto de mãos que selava a trégua sagrada durante os Jogos Olímpicos, garantindo a livre circulação e a segurança de atletas, artistas e espectadores oriundos dos quatro cantos do mundo helénico – com frequência de cidades em guerra que em Olímpia suspendiam as hostilidades e encontravam um oásis inviolável de paz e entendimento.
Como esse exemplo superior de dignidade humana está esquecido! O fanatismo e o facciosismo tomaram conta, há muito tempo, de realizações culturais e desportivas que por natureza devem ser alheias a ódios e a feudos. Tornou-se, por isso, corriqueiro o “boicote” a festivais, conferências, concertos e jogos, visando com isso o banimento de participantes desta ou daquela origem, sob este ou aquele pretexto.
A Bienal de Veneza, que há 131 anos oferece ao mundo uma amostra do que de melhor e mais inovador se faz em arquitetura, artes plásticas, música, dança, teatro e cinema, decidiu este ano ignorar os ventos do rancor e do dogmatismo e proclamar em vigor o velho lema da Ekecheiria olímpica. Na 61ª Exposição Internacional de Arte da Bienal de Veneza, a realizar entre maio e novembro de 2026, não há lugar a “boicotes”, seja sob que pretexto for.
Esta corajosa decisão, que devia ser louvada como expressão do mais elevado bem social que existe no ser humano – a capacidade de viver em comunidade no respeito pelo outro – teve o inesperado condão de incomodar as altas instâncias da política, que nem por cinco minutos aceitam que povos desavindos possam apertar as mãos e puxar uma fumaça no cachimbo do entendimento.
O pretexto para o incómodo foi a anunciada participação, na Bienal deste ano, de artistas oriundos da Rússia – como se fossem eles os responsáveis pela invasão da Ucrânia e ou pela escassez de democracia no seu país.
Muito agastados, a vice-presidente da Comissão Europeia, Henna Virkkunen, e o comissário europeu para a Cultura, Glenn Micallef, “condenaram veementemente” a decisão da organização de “permitir que a Rússia reabra o seu pavilhão nacional na 61.ª Exposição Internacional de Arte”, argumentando que a decisão “não é compatível com a resposta coletiva da União Europeia à agressão brutal da Rússia”.
Esta confusão tosca entre uma exposição de belas artes e uma mais do que duvidosa “resposta coletiva” a uma disputa territorial sob a forma de guerra já seria suficiente para desqualificar o maltês que ostenta o título de comissário europeu “para a Cultura”. Saberá ele o que a palavra significa?
Mas Virkkunen e Micallef não se ficam pela “condenação”: usando descaradamente a chantagem, ameaçam que “caso a Fundação Bienal decida avançar com a sua decisão de permitir a participação da Rússia, iremos considerar outras medidas, incluindo a suspensão ou cancelamento da subvenção da União Europeia concedida à Bienal” (770 mil euros por ano).
Não sei o que será mais grave – se a grosseria, se a pura estupidez dos comissários. Mas sei que fazem um triste e vergonhoso papel manchando com a mesquinhez uma decisão nobre da Bienal de Veneza.
Na Grécia Antiga seriam expulsos de Olímpia e condenados ao escárnio de Zeus. Em Bruxelas recebem palmadinhas nas costas.

Jorge Morais
Sempre que em Portugal morre alguém que o vulgo pôs no firmamento da fama, logo brota no chão rasteiro da vidinha uma multidão de viúvos, como cogumelos depois da chuvada de primavera.
Não que tivessem partilhado com a estrela que se apagou qualquer tipo de intimidade: a maior parte nem sequer conhecia pessoalmente o defunto, embora no velório já se pavoneie companheiro de infância. Não: o que lhes importa é aproveitar aqueles dias, aquela semana em que o ilustre desaparecido ainda anda nas bocas do mundo para se colarem à sua fama, ao seu sucesso em vida, como se a glória do ídolo se refletisse lunarmente nos pequenos calculistas que o bajulam na morte.
Os jornais enchem-se então de artigos assinados por aduladores de fancaria. Uns fazem-se muito amigos lá de casa. Outros, oficiais diletos do mesmo métier. Outros ainda, seguidores indefectíveis que acompanharam tu-cá-tu-lá o percurso celestial do falecido.
Viúvos destes há-os para todos os gostos. Há quem chore a morte do ídolo com esgares de coreano nas exéquias de Kim Il Sung, convulsivamente, numa dor pública que até arrepia. Há quem faça o número do inconsolável sem palavras para exprimir a sua dor. Há quem aproveite para derramar ditirambos na segunda pessoa do singular (“lembras-te daquele dia…?”), dirigindo-se ao morto como se ele estivesse ali mesmo ao lado a ouvir as éclogas daquele desconhecido subitamente transformado em querido amigo. O importante é que o seu nome apareça, grudado ao sublime nome do génio desaparecido – mostrando como a genialidade passa de um para o outro, por osmose, através de um artigo de jornal.
Com sorte, a mistificação resulta e o viúvo de última hora passa por íntimo, quase herdeiro, daquela estrela que brilha no firmamento da fama. Dará então entrevistas sobre um distinto morto que mal ou nada conheceu. Será visto e notado nos colóquios, nos dias de aniversário e nas homenagens oficiais. Sem saber ler nem escrever.
Para já, nesta semana fatal, os viúvos vão chegando à basílica, de caras pálidas e óculos de sol – como se tivessem estado a chorar a noite inteira. Semblantes fechados, numa dor infinda. A verdadeira viúva, que nunca os tinha visto mais magros, tem de aceitar, coitada, os cumprimentos doloridos dos desconhecidos na fila do beija-mão. E os mais descarados sentam-se ainda um pouco na coxia, secando com um lenço descartável a lágrima de crocodilo que teima em não surgir e carpindo o seu fundo desgosto para as máquinas fotográficas dos repórteres das revistas cor-de-rosa.

Jorge Morais
Coitada da Bianca, aos 27 anos morreu de bela. Estava a banhos no Morro de Maluf, Praia de Pitangueiras, prefeitura de Guarujá – ¿e quem diria que ali ia ficar, esticada em seu botoque, o rimmel escorrendo de sua pestana sintética, ardendo de infeção em seu silicone?
Era influencer, cê sabe, aquela coisa de filmar a gente todo o tempo a fingir que existe e postar na net pra ganhar a vida: produto de beleza, artigo da moda, evento mediático. Vivia dos cliques, dos anúncios que se colavam ao seu podjicaste, à sua pele, 60 mil seguidores só no instagrame. Mulher valente. Assim fugiu da miséria em Mauá, meio caminho entre Pitangueiras e São Paulo, a grande cidade onde montou negócio.
Cabocla engenhosa, Bianca Dias. Seu corpo era tudo: o pretexto e a consequência, o princípio e o fim, local e ferramenta de trabalho, reclame e chamariz de cliente, altar dos fiéis e miragem de Maluf refletindo-se nas águas quentes da costa de Guarujá.
Vivia pra seu corpo e seu corpo vivia pra ela. Por isso, como influencer, era corporeamente que influenciava seus influenciados. Melhor que comentador de televisão, que tem de dizer baboseira para ganhar a avença, Bianca nem precisava falar. Bastava-lhe revirar os olhos, assim ó, fingir que mostrava suas tatuagens para na verdade mostrar seu guelamúr e suas mamas, dengar seu rabo numa preguiça de Pitangueiras, esticar seus lábios grossos de falsa mulata e tremeluzir sua pestana de plástico – e estava feita sua declaração.
Nem precisava balbuciar uma palavra de influencer: sua influência era muda, body language elevada à potência gama, a ponto de ser modelo para todas as influencers deste mundo, abelha-mestra de uma profissão tão etérea que não se pode explicar. Por isso, a sua mensagem de perfeito vácuo deixava seus influenciados sob a influência de um certo não sei o quê. O nada era o seu métiê.
Um dia, faz agora um mês, entrou naquela clínica de São Paulo para aferir seus silicones, que o corpo-ferramenta, como qualquer ferramenta, precisa de manutenção, afinação, calibragem. Tudo correu joia, cirurgia anestesiada com a mesma anestesia de seus podjicastes, um ivo pitanguy de segundo andar dando oquei e umas merecidas férias no Morro de Maluf. Foi então que tudo começou correndo mau.
Um xilique primeiro, um coma logo a seguir, a família Dias em angústia à porta do hospital – e a meio da noite o adido de imprensa bichíssimo confirmando o óbito com ademanes. Uma embolia pulmonar fulminante, uma síncope depois de uma apócope sem aférese, um silicone sob suspeita, e ei-la esticada na casa mortuária. Um verdadeiro acidente de trabalho, a bem dizer.
Em Mauá foi chorada uma noite inteira pela família Dias. O enterro já não entrou no seu podjicaste de pestana e tatuagem, tudo foi sepultado no cemitério municipal de São José, em Ribeirão Pires, no Ouro Fino Paulista. A notícia fúnebre galgou o éter e chegou às páginas interiores dos tabloides ingleses e teve ecos até na Nigéria, onde a agência noticiosa a chorou em língua hausa: “Mai tasiri Bianca Dias ya mutu daga ciwon huhu bayan tiyatar kwaskwarima”.
Agora que nos deixou, os enciclopedistas poderão contar a sua vida em poucas palavras: nascida em Mauá, aprendeu a ler brincando com bonecas, fez-se adolescente no asfalto da vida, descobriu a internet e abraçou o nada sob a forma de influencer, teve sucesso e um dia, depois de uma troca de mamas na oficina, um parafuso gripou e sucumbiu aquele soberbo local de trabalho que era todo nádegas, tatuagens, lábios grossos e aquele olhar assim ó.
A beleza a criou, a beleza a matou. E entre a criação e a morte ficou nada.
Filha da internet, do botok, afilhada do vácuo e do vento, abelha-mestra do planeta dos influenciados, uma vida chupada à nascença e cuspida na praia de Guarujá, carapaça seca. Bianca Dias. Agora eras, no instante seguinte nunca foste.
Eis o nada em todo o seu esplendor, ó.

Jorge Morais
Trouxe dos meus anos em Inglaterra uma consciência muito prosaica do papel da Família Real na vida dos ingleses. Essa consciência tem-se aprofundado ao longo do tempo, mercê da minha relação profissional com a cultura inglesa e do meu contacto permanente com o dia-a-dia da ilha. Não tenho, por isso, ilusões latinas quanto às consequências da queda do rapaz York nas malhas epsteinianas – como as não tive aquando da queda do rapaz Sussex na cama das suplentes de Los Angeles, nem aquando da queda da jovem Spencer nos braços de Al-Fayed e no regaço dos tabloides.
A Europa meridional (perdoem-me a generalização) tem da Monarquia uma ideia formada em séculos de cultura católica, pontuados por conflitos entre o poder religioso, o poder real, o poder da nobreza e aquilo a que chamamos poder local, com mecanismos muito frágeis e erráticos de consulta ao homem comum. A figura do Rei, para o europeu do Sul, é algo que ficou para trás no processo histórico, e apenas se admite como resquício cénico de um tempo em que o povoléu carregava a albarda (Bordalo Pinheiro gravou bem essa imagem, no século XIX).
O percurso histórico e a memória cultural da Monarquia inglesa são totalmente distintos. A Realeza, o Parlamento e a comunhão eclesial anglicana (cuja origem remonta ao século VI e cuja independência de Roma foi confirmada no século XVI) compõem o Establishment, a base harmónica em que os poderes se limitam mutuamente e à qual se agregam, cada um em sua função, a aristocracia (hoje reduzida em grande medida a um papel protocolar e social), a administração pública (o Civil Service que mantém “a máquina” em funcionamento), a City, as modernas Guildas e conglomerados económicos, os Colégios autónomos e a livre Imprensa. O Rei é em Inglaterra o protetor desta árvore frondosa – o protetor, não o dono ou senhor. A consulta popular mergulha as suas raízes nos Conselhos de Anciãos dos Reis anglo-saxões e nas Magnæ Cartæ do século XIII. O Parlamento inglês está convocado regularmente desde 1327 – uma diferença substancial das Cortes meridionais, reunidas a bel-prazer dos Soberanos e geralmente destinadas a agravar a carga fiscal.
Há na tradição inglesa uma pequena cerimónia simbólica que diz tudo sobre a relação do Rei com a nação. No dia da abertura oficial do Parlamento, um emissário real dirige-se à Casa dos Comuns, mas a porta é-lhe fechada na cara. Ele bate então três vezes com o Black Rod e só depois é admitido, apenas para anunciar que o Rei se encontra na Câmara dos Pares e convida os Comuns a juntarem-se-lhe. O Rei está proibido de entrar na sala dos eleitos do povo. Esta edificante alegoria, que ciclicamente sublinha a independência do Parlamento, vem de 1642, quando Carlos I tentou invadir a Câmara para prender cinco parlamentares, incorrendo assim em grave violação constitucional. Uma vez sem exemplo. E sem êxito na tentativa.
Entre o Rei e o povo inglês estabeleceu-se, ao longo dos séculos, uma relação que não aceita abuso ou negligência. O povo, desde há muito tempo, legisla através das Câmaras parlamentares e governa através dos Gabinetes resultantes de eleições livres. O Rei e a Família Real são apenas a representação simbólica da família inglesa – evoluindo nos costumes, nas práticas oficiais e até nos deveres públicos, nisso acompanhando a vida real. As mitologias principescas (as Dianas deste mundo), os escândalos e extravagâncias dos ‘royals’ são a espuma que se desvanece numa tradição que resiste. E ela resiste porque se transforma e se ajusta à evolução da vida do povo.
Príncipes caídos em desgraça há-os em quantidade na história inglesa. ‘Royals’ que sucumbem à lascívia, que trocam o Reino por uma noite escaldante, que são encontrados a trair, a roubar e a desonrar o título – encontramo-los em todas as páginas dos anais da vida inglesa. São a telenovela nacional favorita a seguir a Coronation Street. Nada de novo debaixo do Sol. Se a Monarquia inglesa tremesse de cada vez que um York qualquer dorme com o harém de um qualquer Epstein, ter-se-ia desmoronado há muitos séculos.
É normal que perante uma sucessão de escândalos, sobretudo se envolvem o uso indevido de meios que à nação pertencem, a Monarquia tenha de adequar-se a novas regras, novas exigências. Fá-lo-á sem pestanejar. Tem-no feito, em anos recentes, com a redefinição das funções reais, com a redução dos ‘royals’ de serviço a um número razoável, com o pagamento de impostos e tantas outras decisões que vão adaptando a Instituição Real à vida real dos ingleses e às suas expectativas.
Do “caso Andrew” nada mais resultará, estou certo, do que a espuma dos dias – ainda que venha a alimentar por muito tempo a telenovela. É mesmo possível que, pela dignidade com que o Rei Carlos e a Família Real têm enfrentado a tempestade, a Monarquia saia prestigiada deste episódio escabroso. Há dias, ao telefone com um amigo em Inglaterra, ouvi com um sorriso o seu comentário: “Pobre Carlos, que não merecia as dores de cabeça que lhe dão!”. E no comum dos lares ingleses, à hora dos feijões na torrada, virá como sempre à mesa a velha caneca de chá gravada com a cara de Camilla ou William e a velha Union Jack. “Poor darlings”.
Os meus pacientes leitores terão notado que não me referi uma única vez à Grã-Bretanha ou ao Reino Unido – mas apenas a Inglaterra. Disso falaremos noutro dia, que esta já vai longa.