A Académicos de Niterói transformou a Marquês de Sapucaí num palco de exaltação política e confronto simbólico ao homenagear Luiz Inácio Lula da Silva, de 80 anos, num desfile que dificilmente passará despercebido na história recente do Carnaval carioca. Com o presidente do Brasil na avenida, a escola elevou o tom e apostou numa narrativa direta, sem suavizar tensões.
O enredo percorreu a trajetória de Lula desde a infância pobre no Nordeste até ao regresso ao Palácio do Planalto, ‘costurando’ episódios de ascensão social com momentos de embate institucional. A letra do samba trouxe versos que ecoaram forte nas arquibancadas: “Tem filho de pobre virando doutor” tornou-se refrão de afirmação social. Noutra passagem, a escola evocou que “a esperança venceu o medo”, numa referência clara à disputa eleitoral recente e ao clima de polarização.
A organização assumiu o risco e transformou a política em alegoria. Num dos momentos mais comentados, uma encenação colocou a figura de Jair Bolsonaro representada como palhaço, numa crítica mordaz ao período anterior. O recurso cénico arrancou aplausos e também olhares atentos: foi um gesto de linguagem carnavalesca tradicional – exagerada, caricata, satírica – aplicado a personagens ainda centrais no debate público. A encenação incluiu ainda alusões ao que a escola classificou como tentativa de golpe e à tensão institucional que marcou a transição de poder.
O presidente do Brasil entrou na avenida, cumprimentou os participantes e posou com a bandeira da agremiação, reforçando o carácter simbólico da homenagem. A primeira-dama, Janja, acompanhou o desfile a partir de um camarote, sem descer à pista.
O desfile não esteve isento de polémica. O G1 noticiou que ações judiciais tentaram impedir a apresentação da Académicos de Niterói, questionando o teor político do enredo. As iniciativas não avançaram, porém, e a escola confirmou na avenida o espetáculo preparado.
Segundo o 24Horas apurou, junto de um especialista em Carnaval do Rio, a Académicos de Niterói apresentou um desfile ousado e competitivo. A comissão de frente destacou-se pela clareza da narrativa e pela coragem artística ao traduzir acontecimentos recentes em linguagem coreográfica compreensível. O samba-enredo mostrou força popular, fácil memorização e capacidade de envolver o público sem perder densidade temática.
Tecnicamente, a escola revelou coesão entre enredo, harmonia e evolução. Ao optar por um discurso frontal, assumiu riscos – mas também ganhou identidade. No Carnaval, a ousadia costuma separar apresentações protocolares de desfiles memoráveis. E, nesta noite de domingo, Niterói escolheu ser memorável.



















