
José Braga Gonçalves
Nenhum regime resiste à brutal decapitação perpetrada pelos Estados Unidos e Israel, do poder instituído há cinco décadas no Irão.
O velho regime caiu; mas o sistema teocrático persiste como alvo, ecoando os receios expressos pelo primeiro líder, o aiatolá Khomeini, antes de morrer.
Apela agora o Ocidente aos antigos Persas para agarrarem a oportunidade de lutar pela sua própria liberdade, contra o que resta daquele regime ditatorial e teocrático.
Mas essa luta apenas vencerá se for contra o próprio sistema, aquele que escravizou mulheres, mandou para a morte certa milhões nas trincheiras do Iraque, assassinou quem não rezava a Alá, dizendo-se eles os únicos intérpretes do Profeta.
Se Maomé voltasse à Terra, estaria certamente do lado dos Persas, não da teocracia cleptocrata dos mulás.
Apenas, Maomé não volta.

José Braga Gonçalves
Os iranianos devem estar a rir a bandeiras despregadas com o último atentado à vida de Trump em que um simples intruso, suposto hóspede de hotel, chegou até uns metros do Presidente no jantar magno e anual dos jornalistas credenciados pela Casa Branca.
Armado até aos dentes, o atirador desatou aos tiros, e atirou a matar sobre o primeiro e surpreso agente que encontrou, já perto da sala onde decorria o jantar.
Do outro lado do Mundo, Netanyahu, não deve ter dormido, a pensar quão fácil era assassinar o seu aliado-mor.
Em mais este episódio de falhanço dos Serviços Secretos americanos, levanta-se a questão da infalibilidade.
Sabemos que, naquele mesmo hotel em Washington, uma tentativa de assassinato de Ronald Reagan quase teve sucesso, sendo o então Presidente atingido e ficado em grave perigo de vida, com 6 meses de recuperação.
Se é fácil ir buscar um Maduro à cama, provado está, pela segunda vez, que qualquer assassino amador pode chegar ao Presidente dos Estados Unidos.
E se um dia for um profissional?

José Braga Gonçalves
O Irão não desconhece a História de Roma antiga. Nesta usava-se, já muito antes de Cristo, a expressão “à maneira de Fábio”.
Fábio é Quinto Fábio Máximo, um general e ditador romano conhecido pela sua guerra contra o general cartaginês Aníbal, o dos elefantes de combate, admirado e seguido até por Bonaparte.
O romano saiu vencedor e salvou Roma ao recusar-se enfrentar Aníbal em batalha direta aguardando que os seus elefantes morressem de frio após atravessar os Alpes.
Imitando Fábio, os aiatolás são hoje a personificação histórica da estratégia de quem foge à ação imediata para vencer pelo desgaste e pela paciência.
Sabendo que não podem derrotar o novo Aníbal num confronto direto, adoptam a tática de Fábio, evitando batalhas campais no Golfo, mantendo o exército em terreno seguro e deixando sacrificar diariamente os seus generais.
Esta “tática fabiana”, como ficou conhecida, resultará até ao dia em que Aníbal lance as suas hordas de elefantes de guerra evanescer a milenar civilização persa para gáudio de uns aiatolás fanáticos que apenas buscam o martírio de um povo que já nem sequer é o seu.
O verdadeiro povo persa anseia por ouvir os tambores de guerra de Aníbal e as passadas dos seus elefantes.
De guerra.

José Braga Gonçalves
Subitamente, um americano surge das catacumbas como principal figura de um mundo em teatro de guerra, onde apregoa alto pela paz.
A sua voz, audível do outro lado do Atlântico, prega contra um outro americano que lhe responde, em incómodo desafio.
Chegou-se a pensar que aquela voz das catacumbas fora eleita por influência da outra voz do Atlântico, ou vontade de seu aplacamento por parte da Cúria Romana.
Parece que não.
E subitamente, a guerra das armas passa para uma guerra de palavras pela Paz, outras em favor da Guerra, sabendo uma que almas não perde e a outra que só votos lhe pode levar.
De permeio, a Humanidade assiste atónita a esta guerra de catacumbas onde a amargura da resposta cai na vertigem da afirmação.
Afinal, são apenas dois americanos.

José Braga Gonçalves
Mark Twain, ao chegar-lhe a notícia da sua própria morte publicada num artigo de jornal, proferiu a célebre frase: “As notícias da minha morte são manifestamente exageradas”. E assinou.
O mesmo aconteceu com Alfred Nobel, de cognome ‘O mercador da Morte’, aquando da morte de seu irmão anunciada como a sua. E não assinou.
Mutatis mutandis, também Trump poderia dizer que as notícias sobre a sua morte política são manifestamente exageradas. E pode assinar.
Elas são exageradas nas aspirações dos seus adversários e, sobretudo, nas dos seus inimigos de cujas intenções está o inferno cheio, pois nem só de boas se paira por lá.
Das boas intenções, que levarão Trump ao inferno e que não são manifestamente exageradas, estão a tomada do petróleo da Venezuela, o apoio sem pejos a Israel, e a tomada seguinte de Cuba.
Com estas três, apenas, Trump passa pelo purgatório das intercalares, ao que, ditar-lhe a morte política, parece manifestamente exagerado.
O inferno o dirá.

José Braga Gonçalves
Todos nos lembramos do filme ‘O Caçador’ e da marcante cena do jogo de roleta russa. É de suster a respiração. Ao olharmos hoje para o Irão, revemos a cena, com outros atores, moribundos uns, outros caídos no chão.
Os russos, inventores da roleta de morte e que ensinaram os iranianos a jogar, como estes antes lhes ensinaram o jogo de xadrez (shatranj), não lhes disseram que na roleta russa o tambor da pistola é suposto levar apenas uma bala, e não cinco. E que, ao fim de cada sorte de tiro, se deve rodar o mesmo, antes de disparar novamente.
Acontece que os russos estão a olhar de longe e apenas a fazer sinais com bandeirinhas. Os Aiatolás, esses, continuam a disparar sem rodar o tambor. E de cada vez, cai mais um, à espera de acertar na câmara sem bala. Mas há que os parar. Alguém tem que dizer àquela gente que já chega de arriscarem a vida de todo um país milenar.
O que está em causa já não é só um regime cansado ou uma teocracia desvairada; é o próprio coração persa, a cultura que deu ao mundo a poesia de Hafez e as luzes de Isfahan. Um país inteiro refém de um punhado de homens que confundem martírio com glória e poder com fé. Alguém lhes agite umas bandeirinhas.
Ou vão acabar em cacos, ou como a sua própria marinha, num qualquer fundo de mar. E não há volta a dar.

José Braga Gonçalves
Há milhares de anos, os persas, hoje ditos iranianos, deram origem à primeira religião monoteísta, a qual inspirou todas as demais. Judaísmo, cristianismo e islamismo são influenciados pela obra teológica de Zoroastro ou Zaratustra, um persa considerado o primeiro filósofo da Humanidade. Aquela religião ancestral tinha uma essência: a luta entre o bem e o mal. Era dicotómica, e nisso mais radical do que as religiões vindouras. O Bem e o Mal eram a sua vida e a sua morte, e está-lhes na massa do sangue.
É esse sangue velho-persa, moldado por Zaratustra, que agora pode surgir à tona, vindo das entranhas de uma tradição que os iranianos não entendem ou erroneamente entendem como sendo islâmica. Mas não é. E por isso é perigosa.
Se não se vislumbrar uma vitória militar rápida, em algum momento os persas de sangue velho para quem os Ayatolas se tornaram no Mal de Zoroastro, podem começar a olhar para o Grande Satã, agora como o ator desse Mal.
E então, mesmo que caia o regime, o sistema sobreviverá.

José Braga Gonçalves
O Irão anda pela Suíça a tentar comprar um bom relógio suíço. Precisa comprar tempo. Tempo para cumprir a regra que o velho Khomeini estabeleceu como a Regra Suprema: “Preservar o sistema é o dever mais elevado.” E tempo, porque, desta vez, são os persas que estão nas Termópilas.
Já menos de 300 lançadores lhes sobram, tantos quantos os guerreiros espartanos que contiveram Xerxes, filho de Dario, o seu grande ancestral. Mas estes persas, agora iranianos, nem são os espartanos de então, nem têm Xerxes para os comandar. E têm a forçar o estreito deles uma força que lhes quer rasgar o ventre daquela Regra Suprema e exterminar-lhes o sistema, assim vingando a humilhação dos reféns de 1979.
Por isso, Teerão precisa de um relógio suíço. Um que se atrase. E que se atrase para se poder reorganizar internamente, agora que comunicaram ao mundo a indicação de um novo Líder Supremo, que jamais foi visto.
Mas é estreito este espaço de tempo. Tão estreito quanto o das Termópilas, pois que o filho do rei morto, o rei posto Khamenei II, se não morto também, terá pela frente um presidente Trump que mantém a posição de “rendição incondicional” como única saída.
A única que lhe foi dada e, por ora, outra se lhe não vê, salvo se o relógio suíço se atrasar, pois, neste momento crítico, quaisquer silêncios, negociações, ou mesmo recuos, visam um único objetivo: a autopreservação do sistema.
Mesmo que caia o regime.

José Braga Gonçalves
Escrevi em artigo anterior que Trump pode fazer o que na real gana lhe der em relação à guerra no Irão, à manutenção do status quo na Venezuela, ou até à entrada em Cuba.
O Congresso não tem forma de o travar, pois ele pode sempre vetar qual seja a deliberação do Congresso contra qual seja a guerra ou intervenção, e este ficará acantonado numa votação de 2/3 para invalidar e ultrapassar o veto presidencial.
Contudo, o Congresso conserva uma lâmina discreta, mas também eficaz: o Orçamento.
Este, permite limitar os recursos e pode resolver aquilo que os discursos não conseguem.
No fundo, como tantas vezes na história, não é quem levanta mais a espada que decide o desfecho, mas quem controla os meios.
E o Congresso dos Estados Unidos ainda controla os meios. E aqui, bastam 50%, mais um voto.
Assim, Trump está refém das eleições intercalares para poder continuar as suas intervenções no teatro de qualquer guerra ou invasão, que seja, a prometida de Cuba.
Sem embargo, e como ele muito bem já ameaçou os republicanos em relação a estas eleições intercalares, se os Democratas obtiverem maioria no Congresso, lá virá um impeachment e a probabilidade de Trump ser arredado da cadeira da sala oval, é bastante elevada.
Ele o disse.

José Braga Gonçalves
A Lei dos Poderes de Guerra (War Powers Resolution), foi uma Lei do Congresso aprovada em 1973, após o fim da participação americana na guerra do Vietname, Lei que visou a recuperação pelo mesmo Congresso do controlo sobre a capacidade de um Presidente americano prosseguir numa guerra.
Esta Lei impõe ao Presidente a notificação do acto de guerra ao Congresso no prazo de 48 horas após o início das hostilidades, obrigando o Presidente a encerrá-las em 60 a 90 dias, salvo autorização congressional explícita.
Esta semana vimos aquela Lei ser invocada para dar origem a uma nova votação na Câmara e no Senado visando impedir Trump de continuar a guerra no Irão, assim tentando aparentemente dar um nó Górdio ao Presidente.
Tal como Alexandre, o Grande, que desfez o nó com um golpe de espada, também Trump tem uma espada na mão para brandir à Câmara dos Representantes e ao Senado: mesmo que houvesse qualquer resolução vencedora em qualquer das Câmaras, Trump poderia sempre vetá-la.
E aqui a aritmética é brutal.
Para anular um veto presidencial são necessários dois terços em ambas as câmaras.
No Senado significa 67 votos e mesmo que todos os democratas votassem a favor, precisariam de arrastar consigo 20 republicanos. Desta vez conseguiram apenas um – Rand Paul.
Na Câmara, a proporção é semelhante.
Assim, mesmo com uma deserção republicana significativa, a eficácia prática seria zero. Votar contra um Presidente do próprio partido em tempo de guerra é, na cultura política americana, um suicídio eleitoral nas intercalares.