
Miguel Relvas
A escalada de tensão entre o Ocidente e o Irão voltou a colocar o mundo num estado de incerteza que não pode ser ignorado. Sempre que o equilíbrio geopolítico se fragiliza, os efeitos fazem-se sentir de imediato: a energia encarece, o transporte torna-se mais caro e as empresas retraem-se nas decisões de investimento. Para um país como Portugal, altamente dependente do exterior, este impacto é particularmente severo.
Mas a verdade é que os problemas não começam fora de portas. Portugal transporta fragilidades estruturais há demasiado tempo. A economia continua pouco flexível, presa a um modelo que gera baixo valor acrescentado e salários reduzidos. Faltam reformas profundas, desde logo na legislação laboral, que permitam maior competitividade e capacidade de adaptação num mundo em constante mudança.
A isto soma-se um Estado pesado e muitas vezes ineficiente, que não acompanha o ritmo das exigências globais. Em vez de estimular o crescimento, acaba por travá-lo, dificultando melhores condições de vida para famílias e empresas. Não basta, por isso, reagir às crises internacionais. É essencial mudar estruturalmente a forma como o país cria riqueza, gera emprego e remunera o trabalho.
No plano político, há igualmente um desafio que não pode ser adiado: o da transparência. Esta não pode ser tratada como uma opção ou um exercício retórico. Deve ser uma prática diária e exigente, assumida por todos os que exercem funções públicas, desde os partidos aos mais altos cargos do Estado.
Mais fiscalização, menos zonas cinzentas e um estatuto que aproxime a política da realidade profissional são passos decisivos para recuperar a confiança dos cidadãos. Porque quando a transparência falha, não é apenas a imagem dos políticos que sai afetada — é a própria democracia que se fragiliza.
Portugal precisa de clareza, de coragem reformista e de exigência ética. Sem isso, continuará preso a um ciclo de estagnação que o mundo, cada vez mais competitivo, não perdoa.
*resumo da responsabilidade do 24 Horas da intervenção
do autor no debate ‘CNN Fim de Tarde’ de dia 4 de Abril

Miguel Relvas
Há momentos na vida de um país em que as escolhas de política externa deixam de ser meramente circunstanciais e passam a definir o seu posicionamento estratégico no mundo. A relação de Portugal com o Brasil é, indiscutivelmente, um desses casos. E é por isso que considero um erro histórico — sim, um erro histórico — a atitude de confronto político com o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Portugal não pode olhar para o Brasil, para Angola, ou para Moçambique com ligeireza nem com sobranceria. Não estamos a falar de parceiros quaisquer. No caso do Brasil estamos a falar da maior economia da lusofonia, de uma das dez maiores economias mundiais. de um país com peso global crescente e de uma relação que assenta em séculos de história comum, de língua, de cultura e de interesses partilhados. Fragilizar este eixo por razões conjunturais ou por impulsos ideológicos é, no mínimo, um sinal de falta de visão estratégica.
Não se trata de concordar com todas as posições do Presidente Lula, nem de abdicar de princípios. Trata-se, isso sim, de compreender que a política externa exige maturidade, sentido de Estado e, sobretudo, pragmatismo. Portugal ganha mais em influenciar do que em hostilizar, em dialogar do que em confrontar.
Assistimos, infelizmente, a um debate público cada vez mais dominado por lógicas internas, por ciclos mediáticos curtos e por uma tentação permanente de transformar divergências em conflitos. Essa abordagem pode render aplausos imediatos, mas compromete interesses duradouros. E na política externa, o curto prazo paga-se caro.
Portugal tem muito a ganhar com uma relação forte e estável com o Brasil — do ponto de vista económico, empresarial, diplomático e até geopolítico. Num mundo cada vez mais fragmentado, onde as alianças são decisivas, não faz sentido enfraquecer uma das mais naturais e estratégicas ligações que temos.
A história julga, e julga com distância. E é à luz dessa distância que devemos agir hoje. Porque há decisões que não são apenas políticas — são estruturais. E errar aqui é comprometer o futuro.
*resumo da responsabilidade do 24Horas de intervenção
de Miguel Relvas no debate ‘CNN Fim de Tarde’ de 20 de Abril