
Alexandre Pais
Corria o ano da graça de 1968, ai, ai, quando ao anexo onde funcionavam os Serviços de Gravação da Emissora Nacional chegou a notícia de que um colega meu, o ‘operador Marcelino’ (nome fictício), não iria cumprir o seu turno: tinha levado uma tareia numa esquadra de Lisboa. Saíra com amigos na noite anterior, terão bebido uns copos, foram ‘dentro’ e, palavra puxa palavra, o ‘Marcelino’ acabou por se envolver fisicamente com os agentes e levou um ‘ensaio’. Quando voltou à rádio, dias depois, apareceu com a cara toda amassada. Se bem me lembro, apresentou queixa, mas o ‘papel’ caiu em saco roto. Outros tempos. O ‘25 de abril’ veio pôr fim a essa e a outras impunidades. O problema é que o regime democrático não foi capaz de criar e desenvolver uma relação salutar, de respeito mútuo, entre cidadãos e forças policiais, e de equilíbrio entre direitos e deveres – essa velha pecha que sempre nos perseguirá.
Ainda não há muito, a Relação de Guimarães anulou a condenação de um homem que insultou um militar da GNR, chamando-lhe “burro”. Numa primeira decisão do tribunal, o arguido teria de pagar 1.260 euros de multa, mas a Relação absolveu-o, considerando que se tratou de “um desabafo”. Não fizeram mais os doutos juízes do que seguir o exemplo do tribunal de Paredes, que havia inocentado um troglodita apanhado pela GNR a arrastar a mulher pelo pescoço em plena rua – na sequência de outros casos de violência doméstica perpetrados pelo arguido e registados pelas autoridades. E a absolvição abrangeu também o crime de ofensas e ameaças aos militares que o detiveram, a quem chamou “cobardes”, prometendo persegui-los. A juíza entendeu aquilo – e cá está a desculpa – como “um desabafo”.
Veremos em breve que pena aplicarão os ilustres magistrados ao único energúmeno que foi possível identificar – por inexistência de câmaras de videovigilância – de um grupo de 30, detido há dias em Alhandra, concelho de Vila Franca de Xira, após desacatos que resultaram em quatro agentes da PSP agredidos, “com socos na face e golpes nos membros inferiores”, tendo um deles sofrido fratura do nariz. ‘Desabafos’ dos nossos tempos.
Estes desajustes entre as leis e a sua aplicação são apenas mais um dos motivos que conduziram as forças de segurança ao lamentável estado em que elas estão hoje. Há escassez de armas e coletes porque é preciso cumprir os orçamentos e se possível reduzi-los. As instalações estão degradadas porque as obras urgentes nunca são uma prioridade. As viaturas estão obsoletas ou inativas porque substituí-las custa fortunas e as que andam não circulam porque a ordem é poupar nos combustíveis. A utilização das câmaras individuais vai sendo sempre adiada e a vigilância por vídeo em zonas problemáticas é atrasada porque há que proteger os dados, seja lá isso o que for. Os efetivos são escassos porque não se pode gastar mais em salários, estes são baixos porque o país é pobre e por tudo isso as inscrições nos concursos não cobrem as vagas – ninguém quer ser polícia para ser mal pago e maltratado.
Sim, mais do que a falta de condições é esse défice no reconhecimento que leva pessoas normais a não quererem isso para a vida delas. Arriscam o seu bem-estar e o das suas famílias por tuta e meia para verem depois os tribunais soltarem os criminosos e absolverem-nos de agressões e ‘desabafos’? E correrem ainda eles o risco de ser condenados pelo azar de uma bala perdida ou pelo uso da força perante atos de ameaça e de desobediência cada vez mais numerosos e mais violentos? Só se tiverem um sentido do dever para além dos limites do bom senso ou uma vontade de servir que a sociedade que somos não merece. Ou, claro, se forem maluquinhos.
Mas… aqui chegados, julgará o leitor que estou a relativizar os gravíssimos crimes atribuídos a duas dezenas de elementos da PSP, recentemente detidos, o que não é o caso. Venho do tempo da brutalidade policial que ficava sem castigo e sei bem o que passaram tantos ‘operadores Marcelinos’ entre as paredes de uma esquadra ou no simples trato com agentes lateiros. O que pretendo é demonstrar que as forças de segurança são hoje instituições onde é fácil a ‘invasão’ de gente mal formada, frustrada, ressabiada e criminosa, que lá encontra um caldo de cultura em que a desmotivação profissional criada pela precariedade das condições de trabalho se cruza com o sentimento de injustiça pela retribuição modesta e com a revolta pela brandura com que tantas vezes se pune, ou não se pune, a bandidagem.
Pessoas malévolas, daquelas que saem de casa prontas para arranjar sarilhos, existem em todo o lado e espalham-se pelas diversas profissões, sejam políticos ou padres, médicos ou jornalistas. No jornalismo, aliás, encontrei algumas e eu próprio nem sempre mantive as asas de anjinho. Como se esperaria, então, que a PSP, que perdeu quase todos os quadros intermédios – que ajudavam na integração dos mais novos – e hoje quase só tem chefes feitos a martelo e jovens mal preparados e com tendência para o disparate, escapasse a uma maldição que atravessa toda a nossa sociedade?
Não podia ser e digo mais: duvido que a dimensão do que se passou nas esquadras do Rato e do Bairro Alto seja apenas aquela que nos mostram. Tendo o início da ação contra a violência animalesca partido do interior da corporação, é óbvio que muitos dos envolvidos foram avisados, muitas gravações – que imbecis fardados fizeram para serem mais facilmente acusados, veja-se a estupidez – foram apagadas e muitas vítimas foram ‘advertidas’ para que se calem. A maldade não se erradica e a lei da selva renovar-se-á.
Gosto de polícias e escrevi milhares de carateres, ao longo de décadas e em múltiplos meios de comunicação, a defender a Polícia. Mas para esta cáfila desumana, perversa e brutal, que desistiu de defender os cidadãos e desertou para o lado do mal, que não haja contemplações nem diminuam os ‘desabafos’. A Justiça que faça o seu caminho – sem desculpas, nem hesitações.

Alexandre Pais
Chama-se lei do retorno e infelizmente nem sempre é cumprida. Mas desta vez tocou a Cristina Ferreira, vítima ao que diz a TVI, em comunicado, de “um coro de críticas, com particular repercussão nas redes sociais”, as mesmas plataformas até hoje utilizadas pela apresentadora do ‘Dois às Dez’ para que seguidores fanáticos persigam quem não é do seu agrado. E o façam de modo idêntico ao que a estação de Queluz agora repudia. E volto a citar: “Lamenta-se a forma, o tom, a descontextualização e a manipulação grosseira com que as palavras da apresentadora estão a ser interpretadas e disseminadas”. Ou seja, Cristina a provar do próprio veneno.
Pois foi exatamente uma ‘manipulação grosseira” o que fez a TVI a propósito de uma crónica que assinei no ‘Correio da Manhã’, em 2023, e na qual me referi ao excesso de peso de Maria Botelho Moniz e à falta de ginásio de Cristina – uma opinião pouco feliz, embora baseada em evidências, e que fez de mim o misógino que não sou. Como tal, fui então lançado às feras na TVI: à tarde, numa entrevista enviesada de Manuel Luís Goucha a Maria B. Moniz, e à noite, no Jornal Nacional, com uma Sandra Felgueiras a deitar chispas pelos olhos. E, claro, fui lapidado num arraial de histerismo no Instagram e sei lá mais onde pelos bajuladores de Cristina, gente treinada no insulto e com a vidinha mal resolvida. Muitas delas serão as mesmas criaturas que dirigem por estes dias impropérios à ex-amada criadora, acusada, calcule-se, de ser machista. O karma é tramado.
Dito isto, passo à polémica que motivou uma série de reações desproporcionais, que já vão em milhares (!) de queixas à ERC e de petições para retirada de La Ferreira de antena. E anúncios de queixas-crime, promovidos por anónimos e individualidades avulsas ou associações disto e daquilo, verdadeiras ou falsas, numa dimensão que raia o ridículo. Não pelo problema, que não é para brincadeiras, mas pelo exagero das repercussões. Cristina é acusada de ter minimizado uma agressão sexual gravíssima, uma violação em grupo de uma menor por quatro imbecis que, como influenciavam (?) muitos anormais como eles, se julgavam no direito de fazer o que lhes apetecesse. Interessa zero o que lhes fez a ‘adrenalina’, da condenação do que fizeram é que não nos podemos afastar.
Ao debater o assunto no ‘Dois às Dez’, da TVI, Cristina disse (como se estivesse à mesa no café): “Há que ter noção dos riscos quando se combina um encontro a quatro. Mesmo que ela tenha dito para parar, quando são quatro que estão naquela adrenalina de estar a fazer sexo com uma rapariga, alguém ouve, e claro que têm de ouvir, mas alguém entende que ela não quer mais?” Palavras perigosas, proferidas com a intenção de provocar a discussão no painel de ‘especialistas’ e não certamente de relativizar o consentimento ou de justificar o injustificável. Mas que não tiveram em conta a gravidade de um caso que deve ser tratado com pinças para que não restem dúvidas a outros javardos que ‘não é não’, seja dito no início, a meio ou perto do fim. Essa é a tecla onde se deve bater. O resto serve apenas de ruído e retira o foco do comportamento repugnante e do crime.
Resta-me referir a falta de sensibilidade e de empatia na abordagem, na ligeireza a tratar de um tema delicado. Isso deu-se porquê? Porque Cristina não se prepara. É uma comunicadora sem escola, ganhou fama depressa de mais, deslumbrou-se com o sucesso e o desafogo financeiro. E com chachadas pretensiosas como o ‘Cristina Talks’, para as quais não dispõe de credenciais, sejam académicas, profissionais ou sequer de experiência de vida. A sua arrogância chegou ao ponto de se julgar até capaz de ser Presidente da República! E é essa falta de noção que a faz largar pela boca fora qualquer coisa que lhe venha à cabeça – ela acha que tudo o que diz são pérolas. Não distingue as boçalidades que modera, em alguns programas, das matérias sensíveis cujo debate exige ponderação, estudo e preparação. Aconteceu-lhe mais uma vez, tornou-se num padrão – já se tinha espalhado noutras ocasiões – e agora a castanha rebentou-lhe na boca. Talvez lhe faça bem, talvez aprenda. Ou talvez o seu ego descomunal não lhe permita o banho de humildade que o bom senso aconselharia.

Alexandre Pais
A inveja social continua a mandar em Portugal, rima e é verdade. Ainda há dias se ouvia o clamor pela reforma dita milionária de Mário Centeno, ao cabo de 35 anos de um serviço de topo para o qual se preparou arduamente – sendo a última década passada como ministro das Finanças, e bom, e governador do Banco de Portugal – e já temos de volta nova festança, não com Dona Constança mas com o infindável caso dos almoços de Isaltino Morais. Vamos por partes.
Dez mil euros brutos e cerca de dois terços desse valor líquido para Centeno dão a volta à cabeça de quem ganha pouco – mereça ou não um salário melhor – e indignam, claro, os subsídio-dependentes para os quais tudo o que recebem do Estado devia passar pelo menos para o triplo. Sei do que estou a falar porque tive um amigo que reclamava que a boca dele era igual à de um cirurgião, de um cientista ou de um piloto de avião e não compreendia porque não ganhávamos todos, os preparados e os burros, a mesma quantia…
Mas esse ‘modelo’ coletivista, ou até albanês dos tempos do sinistro Enver Hoxha, acabou como acabou nos países que o adotaram, pelo que se torna hoje incompreensível que ainda encontremos saudosistas da ‘bela’ vida que era haver trabalhadores a esforçar-se para sustentar os parasitas – e viverem uns e outros alegremente na miséria.
Quanto ao estafado imbróglio que envolve Isaltino de cada vez que muda a hora, tudo parte do mesmo raciocínio invejoso e despeitado: eu pago o que como, independentemente de ser um borra-botas, e ele come à borla apesar de ser um autarca ‘n’ vezes eleito com maiorias absolutas – pelo que realiza, sim, mas também pela sua forma de encarar e celebrar a vida.
Ainda percebo que o ruído insistente da turba faça com que o Ministério Público se ‘estique’ na investigação, afinal é o que lhe pedem, e mais tarde os juízes que se amanhem. Já entendo pior a parolice dos jornalistas quando dizem ou escrevem não que foram gastos – e como – mas ‘desviados’ (!) 150 mil euros ‘do erário público’, sem que tenham sequer em conta que foram despesas efetuadas durante vários anos e por dezenas de funcionários. Confundem roubo, levantamentos em notas, com uma eventual (e ridícula) situação de peculato para alimentarem o tema genérico da corrupção. Incrível a especulação a que chegámos.
Depois, fica igualmente para segundo plano, ou terceiro ou quinto, se os almoços em questão foram ou não de trabalho, foram ou não com responsáveis de cidades geminadas com Oeiras, se resultaram da realização de congressos ou se foram simplesmente retribuições de refeições que investidores no concelho pagaram em diferentes ocasiões. Nada interessa para além do exagero com o ‘desvio’ do dinheiro, como aqueles estratosféricos 19 mil euros atribuídos à ‘mão marota’ da autarca hoje na Câmara de Lisboa e que Carlos Moedas, e bem, resolveu manter no seu posto.
País de pequeninos que nunca crescerão, eis o que somos.

Alexandre Pais
A falta de Cristiano Ronaldo na derradeira convocatória da Federação Portuguesa de Futebol, por causa de uma ‘pequena lesão’ – a 28.ª da carreira – adensa o mistério sobre o final do seu percurso desportivo e em particular do seu adeus à Seleção. Este último acontecerá dentro de menos de quatro meses, terminado que esteja o Mundial de futebol? É que disso estão dependentes outras decisões, a começar pela escolha do novo selecionador nacional.
Como se calcula, Roberto Martínez já não seria o responsável pela equipa das quinas se não houvesse conquistado a Liga das Nações. Perante esse êxito, a fúria reformista de Pedro Proença – leia-se a obsessão de eliminar tudo o que tenha ainda a marca de Fernando Gomes – foi forçada a conter-se e o espanhol irá cumprir o contrato até ao fim… do Mundial.
Mas a partida anunciada de Martínez não tem apenas a ver com a vontade do líder da FPF. Com o prestígio acumulado nas seleções da Bélgica e de Portugal, ao treinador, que vai deixar no nosso país um perfume de elegância e de respeito – a forma como aprendeu o Português ou a cantar o Hino Nacional falam por si – não escasseiam propostas e projetos aliciantes para dar continuidade à sua carreira. Uma opção e até um compromisso poderão mesmo já ter sido tomados por Martínez, pelo que ainda que Portugal viesse a ganhar o Mundial – ou precisamente por isso – Proença ficaria a falar sozinho.
Aliás, o presidente da FPF há muito tem em carteira os nomes dos sucessores de Martínez, que não poderão ir muito além de Jorge Jesus, José Mourinho e Sérgio Conceição, uma vez que Abel Ferreira ou até Leonardo Jardim parecem de ‘pedra e cal’ no Brasil, onde têm contratos leoninos – qualquer coisa como 5 a 6 milhões de euros/ano, livres de impostos. A solução do problema não será fácil e é aí que entra o inevitável Cristiano Ronaldo, ele próprio. Vejamos como.
Partamos do princípio que o Mundial corre bem a CR7 – chegada às meias-finais, golos marcados, condição física recuperada – e que ele decide jogar ainda a Liga das Nações, com partidas marcadas já para daqui a seis meses. Nesse caso, Jorge Jesus seria o preferido – a sua relação com Cristiano é perfeita – ainda que perdendo muito, muitíssimo dinheiro: aufere 12 milhões de euros no Al-Nassr. Só que em Riade não tem a cabeça de garoupa que come em Lisboa, ali para a Rua das Portas de Santo Antão…
Mas se o craque madeirense resolver deixar de facto a Seleção em julho, ficará anulado o eventual choque de egos com José Mourinho, que pode assim rescindir com o Benfica e rumar à Cidade do Futebol. O negócio estará até ‘nos livros’ se os encarnados falharem um dos dois primeiros lugares na Liga, o acesso à Champions e a ‘tonelada’ de milhões de euros que a prova proporciona. Pela sua parte, Cristiano cumprirá mais uma época na Arábia Saudita, para alcançar os mil golos e ser campeão – se não o conseguir já na presente época – e imporá seguramente a continuidade de Jorge Jesus no Al-Nassr, a troco de mais 12 milhões. A vida custa.
Neste quadro, quais serão então, as possibilidades de Sérgio Conceição? Serão algumas, pois se Jorge Jesus pode continuar ‘preso’ na Arábia com Cristiano, Mourinho corre o ‘risco’ de ser campeão na Luz, ou andar lá perto, e ver o seu contrato com o Benfica alargado e… melhorado. Afinal, o que são 3 milhões de euros anuais para aquele que foi um dia considerado o melhor treinador do Mundo? E pelo seu lado, Conceição não tem sido feliz como profissional desde a saída do FC Porto e o clube cuja equipa técnica lidera na Arábia, o Al-Ittihad, segue em sexto lugar no campeonato, perdeu Benzema e baqueou em jogos importantes. Como os sauditas não têm fama de ser muito pacientes, Sérgio parece ser, dos três principais candidatos, o que terá maior disponibilidade dentro de dois ou três meses e a sua indicação para selecionador não implicaria o derrube de tantos obstáculos como as outras duas.
Mas Sérgio Conceição tem um problema, esse sim de difícil solução: o seu temperamento irascível, que não terá muitos admiradores para as bandas de Caxias. Haveria mesmo quem estivesse disposto a comprar bilhetes para aquele inevitável grande momento em que o homem forte da Federação desatasse aos gritos – como é sua fama e parece que também seu proveito – com o novo selecionador. A verdade é que estaremos empatados nesse particular: é que Proença não terá melhor sorte nem com Jesus, nem com Mourinho. Com qualquer deles, terá de bater sempre a bolinha baixa. A coisa promete.

Alexandre Pais
O recente aproveitamento de uma frase de António José Seguro sobre José Sócrates, proferida em 2011 – “tenho orgulho do que fizeram os ex-líderes do PS e também o meu camarada José Sócrates”, atestada pelo ‘SIC verifica’ como se não estivesse gravada – serviu para continuar a distorcer a realidade e a reduzir a zero o papel do ‘animal feroz’ na memória coletiva. Sócrates venceu as ‘legislativas’ de 2005 e de 2009 porque mais de dois milhões e meio, e dois milhões de eleitores, respetivamente, de algum modo acreditaram nele – o socialista Seguro e este escriba sem partido foram apenas dois entre a multidão.
É que desde as autoestradas – que aos dias de hoje não parecem assim tantas como muitos então diziam – ao ‘boom’ da educação ou ao plano de barragens (que incluía a de Girabolhos, olha que coincidência), passando pela aposta no TGV, no novo aeroporto de Lisboa ou nas energias renováveis, Sócrates tinha uma visão, um projeto para a modernização do país – e um espírito reformista. Mas vamos a factos.
Na crise financeira global de 2008, caminhava Portugal para um défice de novo inferior a 3% – havia sido de 2,6% do PIB em 2007, o mais baixo em 30 anos – e uma dívida pública controlada, a União Europeia incentivou os estados-membros a ‘deitarem dinheiro’ em cima do problema. O ‘conselho’ foi aceite pelo primeiro-ministro José Sócrates, o que, dada a fragilidade da nossa economia – a dívida passou de 63,6% em 2007 para 135,5% (!) no ano seguinte – e a subida em flecha dos juros, acabou numa situação de pré-bancarrota – e não de bancarrota, como se repete até à exaustão na esperança de que passe a ser verdade. E isso terminou igualmente com o primeiro Governo de Sócrates, o de maioria absoluta do PS (2005-2009).
Veio depois Pedro Passos Coelho, que – ao contrário do que havia prometido na campanha eleitoral de 2011, em especial quanto aos rendimentos dos pensionistas – reforçou a austeridade que Sócrates começara de facto em 2010 (outra realidade que por vezes se tenta esquecer) e iniciou a recuperação do país. Daí que para as ‘legislativas’ de 2015, Passos e a ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, se propusessem pôr fim aos cortes de salários e pensões, bem como à aplicação de sobretaxas, ao longo dos quatro anos seguintes – erro fatal.
É que quase do ‘nada’ e do anonimato político surgira Mário Centeno, na equipa do líder do PS e da oposição, António Costa, a acenar com o suposto final da austeridade, graças a uma ‘fórmula milagrosa’: aumento dos impostos indiretos, nomeadamente sobre os combustíveis, para devolver, num único ano, o que estava a ser retirado, há cinco, a trabalhadores e a pensionistas.
Nem mesmo assim Passos Coelho perdeu as eleições, é certo, mas o pragmatismo de Centeno impediu que a AD alcançasse uma maioria parlamentar que lhe permitisse governar. E António Costa pôde criar a ‘geringonça’ e chefiar o novo Executivo (2015-2019).
Apresentada de forma simplista, esta é a verdade do que aconteceu na economia e no bolso dos portugueses entre 2008 e 2015, pelo que não vale a pena que voluntaristas de esquerda e de direita, intelectualmente desonestos, insistam em contar apenas a parte da história que lhes convém. Outra coisa é a vida de Sócrates ter dado a seguir no que deu – seja lá o que for que venha a ser provado em tribunal. Mas para esta nossa conversa isso já são outros quinhentos.

Alexandre Pais
À saída da sua mesa de voto, o Presidente Ramalho Eanes, com a sabedoria e a invejável lucidez que é património do país, alertou para a “situação dramática” em que a Europa se encontra, explicando, e volto a citar, que “o Mundo passou da lei e da ordem para o poder (do mais forte) e a desordem”. Afinal, aquilo que o primeiro-ministro canadiano definiu agora em Davos como “uma rutura” global.
Estou certo de que muitos dos quase 700 mil eleitores que optaram por votar em Henrique Gouveia e Melo, no último domingo, o fizeram por maioria de razões por reconhecerem que a preparação do almirante em questões de defesa e segurança estaria a anos-luz da dos outros candidatos. E seria de transcendente utilidade na PR no caso de a situação internacional se complicar mais e os conflitos nos baterem à porta. É que em cima das naturais preocupações dos portugueses com uma área altamente especializada como é a das Forças Armadas, cai um fator perturbador: a perda progressiva da influência militar junto do poder político em Portugal.
Gouveia e Melo denunciou-o na campanha, sem que mais alguém se interessasse pelo tema: tanto o Conselho Estratégico da Defesa Nacional como o Conselho Estratégico Militar estão “completamente desatualizados”, ou seja, não funcionam. E pergunta-se, então, em que pareceres – e de quem – se baseou o titular da pasta da Defesa, e o próprio Governo, para avançarem à pressa com o pedido de aprovação da Comissão Europeia para encomendas de material militar no valor de 5,8 mil milhões de euros, que os contribuintes, em particular as gerações futuras, vão ter de pagar. Isso para não relevar a pequena dimensão das nossas estruturas de defesa e a necessidade imperiosa de se saber, antes da tomada de qualquer decisão, o que compram – e a quem e para quê – aliados importantes como a Alemanha, a França ou a Polónia.
Tendo finalmente em conta que o ministro Nuno Melo julga que Margarida II ainda é a rainha da Dinamarca – e ela já abdicou há dois anos – que troca, na designação da NATO, Atlântico Norte por “Atlético Norte”, e que quer reconquistar Olivença, não parece poder esperar-se nada de bom a concretizar-se a sua encomenda de material que se desconhece quem lhe encomendou. E o deslumbramento com que fez o anúncio faz-nos temer o pior.
Fica a esperança de que, uma vez em Belém, Seguro ou Ventura – que também pouco perceberão do assunto, valha a verdade – ou, melhor dito, um deles, desfaça o mistério, ouça quem de facto entende da matéria e se assegure de que não venha aí uma nova macacada. Irá a tempo?

Alexandre Pais
A 9 de abril de 1982, dia do meu aniversário, o diretor do matutino ‘Portugal Hoje’, João Gomes – que dirigira o ‘Diário de Notícias’, de 1976 a 1978, e que viria a ser provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa – desafiou-me para ser chefe da redação. Eu já tinha uma carreira de chefia na rádio e o “PH”, fundado em 1979, não parara de devorar responsáveis editoriais. Num jornal ligado ao Partido Socialista, então na oposição, a confiança política sobrepunha-se à competência e os profissionais escolhidos para a chefia tinham sido genericamente um desastre. Se falhasse, seria mais um.
“O ‘Portugal Hoje’ na verdade só agora é que vai começar”, dizia, para me convencer, o João Gomes, entusiasmado como sempre. Não havia como recusar, ele era um grande jornalista, um homem bom e estávamos no mesmo barco: a opção era lutar ou morrer.
O mês de maio foi horrível. Deixámos as instalações da CEIG, no Dafundo, e fomos para um pequeno prédio do centro de Lisboa, onde se instalara um ‘novíssimo’ equipamento de fotocomposição, que João Gomes de boa fé adquirira, mas que ninguém conseguia que funcionasse em condições. Os textos saíam truncados e aos ‘soluços’ – era um desespero pela madrugada fora.
O jornal chegou a publicar-se apenas com 8 páginas e chegava ao encontro com os leitores tarde e a más horas – e esse é o princípio da desgraça. Os adiantamentos de dinheiro por parte da distribuidora começaram a falhar. A publicidade, que já era pouca, desapareceu. E só um pequeno grupo de jornalistas ainda arregaçava as mangas e recusava desistir.
Mas cedo a crise chegou aos salários, após empresários como Salvador Caetano ou Abel Pinheiro terem suspendido os apoios pontuais que iam adiando o fim. Foi nessa altura que alguém no PS sugeriu a João Gomes que fosse à Venezuela falar com o antigo (1974-79) e futuro (1989-93) Presidente, Carlos Andrés Pérez, suposto mecenas ligado à indústria do petróleo e a quem não faltariam recursos para uma ajuda generosa.
João Gomes levou na bagagem uma carta de Mário Soares para Pérez, mas nem assim logrou sequer ser recebido e ficou-se por contactos na nossa emigração. E houve um português, só um, que lhe deu 100 contos, pouco mais de 4 mil euros (feitas as contas à Inflação de 44 anos). Uma gota no oceano das dificuldades do ‘Portugal Hoje’.
Editorialmente enfraquecido, sem chegada regular às bancas, já com poucos jornalistas, alguma parasitagem e motivação próxima de zero, o ‘diário do PS’, que em 1980 chegara a vender mais do que o ‘Correio da Manhã’ – como é a vida! – agonizava. João Gomes, que tudo dera pelo seu projeto, não merecia a decisão que teve de tomar naquele triste início de tarde de 29 de julho de 1982. Chorámos juntos. Mas como as pessoas, os jornais morrem. Ontem como hoje. E nem as ‘venezuelas’ lhes valem quando chega a hora em que os leitores os consideram dispensáveis. Estou quase tentado a dizer: e ainda bem.


Alexandre Pais
A 17 de abril de 1998, como chefe de redação do novo diário ’24horas’ fui responsável pelo terceiro n.º 0 do jornal, o primeiro feito em tempo real. E quis o destino que um terrível acidente de viação, muito semelhante ao que ceifou agora a vida de seis jovens na Avenida das Forças Armadas, em Lisboa, tivesse ocorrido na madrugada anterior, pelas 4 da manhã, hora trágica.
Eram igualmente seis os jovens envolvidos, esses ainda adolescentes, amontoados dentro de um Ibiza que o condutor de 17 anos, e sem carta de condução, furtara por umas horas – e já pela terceira vez – à tia. Regressavam das Docas de Lisboa para Tercena quando se despistaram, na Avenida da Índia, embatendo numa viatura que vinha em sentido contrário. Morreram os seis, três dos quais irmãos: um rapaz de 13 anos e duas raparigas, de 15 e 16. Aliás, foram sete as vítimas mortais porque o condutor do outro carro também não escapou.
Aqui deixo essa 1.ª página do ’24horas’ de 18 de abril de 1998, com três notas obrigatórias. Uma é para a devida vénia ao repórter Fernando Brandão, que sacou a história e arranjou a foto que a suportaria. A outra é para um erro técnico da minha responsabilidade: ao ‘lead’ sob a manchete faltava o ‘onde’, coisa horrorosa. Finalmente, e o menos importante, é que executei esse trabalho já demitido: a saída do jornal estava atrasada e a culpa teria de caber a alguém. Sorte minha, como se veria mais tarde – outros 500.

Alexandre Pais
Há cinco anos na Presidência, Umaro Sissoco Embaló, também ex-primeiro ministro, foi agora (alegada) vítima de uma situação recorrente na Guiné- Bissau: um golpe de estado. Desde que Nino Vieira foi brutalmente assassinado em sua casa, em março de 2009 – sem que até hoje os culpados tenham sido presos e condenados – a antiga colónia portuguesa já teve 16 (!) chefes de estado e passou por diversos atos de revolta com deposição de dirigentes democraticamente eleitos. Desta vez, parece ter sido o exército a rebelar-se.
Apesar disso, o Estado português tem gastado muitos milhões de euros em décadas de apoio – na saúde, na educação e mesmo na área da Defesa – a um território que não consegue manter um mínimo de estabilidade. Os cartéis da droga, que se infiltram facilmente nas estruturas de poder, tanto civil como militar, explicam em grande parte a ingovernabilidade de um país que é dos mais pobres do Mundo.
Recuo até junho de 1998, quando na redação do ‘24horas’ – na sua primeira versão em papel – me apareceu um jornalista guineense que era portador de dezenas de fotos, obviamente ‘amadoras’, de Ansumane Mané, precisamente o líder do levantamento militar de dias antes e que poria fim à anterior passagem de Nino pelo poder (desde 1980).
Ansumane – cujo rosto era então completamente desconhecido em Portugal – havia sido destituído de Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas antes de uma viagem de Nino ao estrangeiro, situação habitualmente utilizada na Guiné para fazer ‘desaparecer’ figuras que se tornaram demasiado importantes e que de algum modo se revelassem hostis à liderança. Ansumane Mané dera o golpe para se proteger – e a revelação da sua imagem foi uma das primeiras ‘cachas’ do ‘24horas’!

Alexandre Pais
Há 27 anos, o ‘24horas’ trouxe à imprensa portuguesa uma lufada de ar fresco a que o mercado viria a corresponder: em 2004, a média de vendas em banca ultrapassou os 50 mil exemplares diários. Mas o começo não foi fácil, o DN e o JN ainda eram uma referência, o CM seguia em velocidade de cruzeiro, os três diários desportivos vendiam bem acima dos 200 mil jornais por dia e o ‘24’ tardou em encontrar um rumo – foram seis anos de combate duro.
Em duas décadas, o panorama da informação mudou mais depressa que o Mundo. Primeiro, as estações de TV privadas e o enorme investimento nos sites, a seguir a popularidade das redes sociais e a dispersão do investimento comercial fizeram da comunicação social um negócio complicado e um serviço público difícil de concretizar sem perdas profundas. O suporte papel luta hoje pela vida e o ‘jornalismo-google’ e as ‘fake-news’ atacam ferozmente uma atividade profissional indispensável às liberdades individuais, à investigação dos abusos e ao primado da ética e da verdade.
A pouco e pouco, as redações reduzem-se, o instinto de sobrevivência das empresas agudiza-se e só os mais aptos e inconformados resistem. E é nesse cenário de guerra que o ‘24horas’ renasceu – em contraciclo mas em boa hora – pela mão de um visionário, de um veterano de mil batalhas cujas cicatrizes dão aval ao projeto. Que todos os que trabalham neste novo ‘24’ e também nós, leitores, estejamos à altura do desafio. Afinal, é a grande aventura que continua.