
Alexandre Fonseca
Portugal gosta de dizer que é um país de empreendedores. E até pode ser, mas talvez não pelas razões mais positivas.
O tecido empresarial português assenta esmagadoramente em micro, pequenas e até nano empresas. Em muitos casos, não falamos de empreendedores no sentido clássico, mas de profissionais que, perante a necessidade, criaram o seu próprio negócio. Tornaram-se empresários na prática, muitas vezes sem formação em gestão, sem rede de apoio estruturada e com uma aprendizagem feita à força da experiência. E isso tem todo o mérito…há que reconhecer o espírito, a vontade, o empenho e a resiliência. Mas apesar de tudo, a grande maioria dessas empresas continuam, décadas depois, a ser…pequenas!
Durante décadas, esse esforço, dedicação e capacidade de criar pequenos negócios foi suficiente para sobreviver. Hoje, já não chega.
A concentração da atividade económica nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto tende a esconder uma realidade menos visível, mas fundamental. A de que existe um vasto país empresarial fora destes grandes centros, mais fragmentado, menos apoiado e, sobretudo, mais exposto ao risco de ficar para trás. É nesse território que se joga uma parte crítica da competitividade nacional e é também aí que os défices de competências, em particular digitais, mas também de gestão, são mais evidentes.
Entretanto, o discurso público evoluiu. Fala-se agora, e bem, de transição digital, de inteligência artificial, de automação, de dados. Multiplicam-se anúncios de programas, incentivos e fundos. O problema é que, demasiadas vezes, se parte de um pressuposto errado, de que o puro acesso à tecnologia resolve o problema.
O mito de que ter Fibra Ótica, ter eMail e um Website é o suficiente para navegar nas águas duras da competitividade global.
Mas o acesso à tecnologia não resolve esses problemas!
A verdadeira barreira à transformação digital das PME’s portuguesas não é tecnológica, mas é sim, humana. Está nas competências, ou na falta delas, de quem lidera as empresas. Está na dificuldade em compreender o que é relevante, em escolher prioridades, em implementar mudanças e em extrair valor real das ferramentas disponíveis.
Digitalizar processos sem mudar mentalidades, sem alterar a cultura da organização, sem otimizar e transformar, é apenas informatizar ineficiências.
É aqui que o país continua a falhar. A resposta não pode ser genérica, nem centralizada, nem desligada da realidade concreta das empresas. Não chega oferecer formação avulsa ou dar acesso a plataformas digitais. É necessário construir soluções enraizadas no território, com proximidade, continuidade e foco na aplicação prática, de preferência com enfâse setorial.
Isso implica criar verdadeiras parcerias entre empresas, universidades e politécnicos, consultores e associações empresariais, num contexto territorial.
Envolver os municípios e as estruturas locais ou regionais (CCDR’s, CIM’s e similares). Implica levar conhecimento a quem decide, mas de forma acionável,adaptada ao contexto, à geografia, à dimensão e ao setor de cada empresa. Implica, sobretudo, reconhecer que estamos a falar menos de tecnologia e mais de liderança. Menos de ferramentas digitais e mais de soft skills…menos de Inteligência Artificial e mais de Inteligência Emocional.
Porque, no fim, a competitividade não se mede pelo número de ferramentas disponíveis, mas pela capacidade de as usar com inteligência e os seus resultados no negócio.
Portugal não precisa apenas de empresas mais digitais. Precisa de líderes mais preparados para gerir num mundo digital. Líderes que saibam tirar partido das ferramentas que o Mundo Digital nos traz todos os dias e converter as mesmas em vantagens competitivas, em Inovação de negócio, em capacidade de exportação ou em criação de talento

Alexandre Fonseca
Portugal tem uma relação recorrente com crises económicas. Entre ajustamentos, resgates, choques externos e abrandamentos cíclicos, o país habituou-se a viver em permanente estado de alerta. Ainda assim, há um padrão que se repete, pois cada nova crise continua a apanhar demasiadas organizações desprevenidas e demasiados líderes políticos e empresariais expostos.
Durante os anos de crescimento moderado, com fundos europeus e condições financeiras favoráveis, criou-se uma ilusão de estabilidade…sempre sob o “mito” de que Portugal tem de ser um país de PME’s e que “ser pequeno é maravilhoso”, esse horrível e perigoso culto de que as grandes empresas são más para a Sociedade. Muitas empresas sobreviveram mais do que competiram. Outras cresceram sem verdadeiramente se tornarem mais robustas e se internacionalizarem. E, tanto no setor público como no privado, instalou-se uma certa complacência estratégica, de que a Crise, quando chega, limita-se a revelar isso mesmo.
O primeiro reflexo continua a ser o mesmo: travar! Adiar decisões, congelar investimento, entrar em modo defensivo. Em teoria trata-se de prudência, mas na prática é apenas perda de tempo. Num país onde a dimensão média das empresas já é reduzida e a capacidade financeira é limitada, o custo da indecisão paga-se caro. Quem demora a agir, raramente recupera terreno.
Segue-se os cortes… de custos, de pessoas, mas acima de tudo de ambição. Em Portugal, onde o capital humano qualificado já é escasso e frequentemente acaba por sair do país, cortar talento é um erro estratégico com efeitos prolongados.
Ainda assim, repete-se. É mais fácil reduzir do que reestruturar e redesenhar a organização. Mais imediato do que pensar, mas também muito mais perigoso. A comunicação é outro ponto fraco crónico. Entre o discurso institucional excessivamente otimista e o silêncio desconfortável, muitas lideranças falham em estabelecer uma narrativa credível, dentro e fora da organização. Num contexto cultural onde a hierarquia ainda pesa e o contraditório nem sempre é incentivado, a falta de transparência amplifica rumores e desconfiança. E isso tem
um custo direto na execução.
Mas há uma dimensão particularmente relevante no contexto português…a informalidade da Gestão. Muitas empresas são familiares ou têm estruturas de decisão muito concentradas. Isto poderia ser uma vantagem em termos de rapidez, alinhamento e agilidade, mas recorrentemente se torna uma fragilidade, sobretudo quando a crise exige decisões difíceis que colidem com relações pessoais e históricas. Liderar nestes contextos exige não só competência, mas maturidade.
Apesar deste cenário, há sinais positivos. Nos últimos anos, tem emergido uma nova geração de líderes e com eles um novo perfil de liderança, mais internacionalizada, mais confortável com a incerteza, mais orientada para crescimento sustentável. Líderes mais próximos da organização e das pessoas, mais conhecedores, experientes e empáticos, que tomam decisões e que arriscam, que comunicam bem e que dão o exemplo. Daí resultam empresas
portuguesas que competem lá fora, que inovam, que investem mesmo em ciclos adversos. Estas organizações mostram que a crise não é um obstáculo, mas pode ser um acelerador.
Num mercado pequeno, aberto e exposto ao exterior, a vantagem não está em esperar que o contexto melhor. Está em adaptar-se mais rápido do que os outros. Está em tomar decisões difíceis mais cedo. Está em proteger o que realmente importa, como o talento, a capacidade produtiva, o posicionamento estratégico e ajustar o resto com flexibilidade, disciplina e rigor.
No fim, a questão não é se haverá outra Crise, pois haverá com certeza. A questão é quem estará preparado para liderar quando ela chegar…porque, em Portugal como em qualquer outro lugar, a diferença não está na Crise. Está na Liderança!
Alexandre Fonseca é empresário, gestor e Business Advisor, administrador do TagusPark e presidente do Conselho Estratégico da Economia Digital da CIP

Alexandre Fonseca
Num mundo marcado por pandemias, incêndios extremos, cheias e conflitos regionais, a gestão de catástrofes deixou de ser um tema técnico reservado à proteção civil. Tornou-se um verdadeiro teste à liderança estratégica e política. Quando tudo falha, o que distingue os países e as organizações resilientes não é apenas o “Plano”, é a qualidade da liderança.
A ainda recente pandemia Covid-19 expôs fragilidades estruturais em sistemas de saúde e cadeias de abastecimento por todo o Globo. Ao mesmo tempo, mostrou como decisões rápidas, comunicação clara e coordenação interinstitucional podem salvar vidas. A diferença entre o pânico e a ordem raramente está nos recursos disponíveis, mas antes na capacidade de liderança sob pressão e nos líderes que se assumem como tal.
A verdadeira liderança em contexto de catástrofe começa antes do desastre. Países como o Japão, por exemplo, habituados a sismos e tsunamis, investiram durante décadas numa cultura de prevenção, treino regular das pessoas e infraestruturas resilientes. O resultado não é a ausência de impacto, mas a redução dramática de danos e vítimas.
Um exemplo de contraste, foi a resposta ao furacão Katrina nos Estados Unidos, que evidenciou falhas de coordenação política e institucional. A lição resultou bem clara, pois os planos existem em quase todos os governos, mas o que falha é a articulação entre níveis de decisão e a coragem de assumir responsabilidades.
Em momentos críticos, o Líder enfrenta um dilema de decidir com informação quase sempre incompleta e imprecisa. A hesitação prolonga os danos, mas a decisão precipitada pode agravá-los. É aqui que a qualidade da Liderança se evidência, na confiança, no assumir riscos e na preparação técnica e psicológica para o desafio.
Durante os incêndios de 2017, o nosso país viveu uma das suas maiores tragédias recentes. Mais do que os meios no terreno, o debate centrou-se na coordenação estratégica (ou falta dela) e na responsabilização política. A comunicação inconsistente e a perceção de desorganização amplificaram a crise. Numa era Digital, onde cada decisão é escrutinada em tempo real, a liderança exige transparência absoluta e crua.
As catástrofes ultrapassam fronteiras, sejam alterações climáticas, ciberataques ou pandemias, e todas exigem cooperação internacional e parcerias público- privadas. Empresas de energia, telecomunicações e logística são hoje peças centrais na resposta a emergências, sem esquecer as Forças Armadas.
O modelo de resposta coordenada promovido pela União Europeia, através do seu Mecanismo de Proteção Civil mostra que integração e partilha de recursos reduzem tempos de reação. Mas a eficácia depende, novamente, de liderança
política capaz de alinhar interesses nacionais com objetivos comuns, em tempo útil.
Mas a gestão de catástrofes não é apenas logística e coordenação…é também gestão emocional coletiva. Um líder eficaz reconhece o medo da população, comunica com simplicidade e empatia e mantém foco na solução, não alimenta pânico, nem minimiza riscos e muito menos se autopromove.
A gestão de catástrofes é hoje um dos maiores testes à qualidade das democracias. Não basta reagir, é preciso preparar, coordenar e comunicar. A liderança estratégica e política revela-se, no fundo, na capacidade de transformar momentos de rutura em oportunidades de reforço institucional.
Porque no meio do caos, o que a sociedade procura não é apenas um gestor, mas acima de tudo um Líder.
Alexandre Fonseca é empresário, gestor e business advisor, administrador do TagusPark e presidente do Conselho Estratégico da Economia Digital da CIP

Alexandre Fonseca
As crises geopolíticas são hoje um dos principais fatores de risco para a economia global. Para além do impacto político e humanitário, os conflitos internacionais e as tensões entre blocos económicos influenciam diretamente o crescimento, a inflação, o investimento e a estabilidade financeira.
Do ponto de vista macroeconómico, o primeiro efeito visível é o aumento da incerteza. Em ambientes instáveis, empresas e investidores tendem a adiar decisões, reduzindo o investimento produtivo e penalizando o crescimento económico.
A inflação surge como um dos efeitos mais relevantes. Crises geopolíticas em regiões estratégicas elevam os preços da energia, dos alimentos e de matérias- primas essenciais, criando “choques” nos custos. Estes impactos pressionam os índices de preços, reduzem o rendimento real das famílias e colocam os bancos centrais perante um dilema entre controlar a inflação e apoiar a atividade económica.
As cadeias globais de valor também são afetadas. Restrições comerciais, sanções económicas e reconfiguração de rotas logísticas levam a aumentos de custos, menor eficiência produtiva e perda de economias de escala. A tendência para a relocalização ou diversificação de fornecedores, embora reduza riscos geopolíticos, implica custos adicionais no curto e médio prazo.
No setor financeiro, as crises aumentam a volatilidade dos mercados e alteram fluxos de capitais. Observa-se frequentemente uma valorização de ativos considerados seguros (veja-se a valorização do Ouro) e uma penalização das economias emergentes, mais vulneráveis à saída de capitais, à desvalorização cambial e ao aumento do custo de financiamento externo.
A resposta das políticas económicas é outro elemento central. Para mitigar os efeitos inflacionistas, os bancos centrais tendem a adotar políticas monetárias mais restritivas, com impacto negativo no crédito, no consumo e no investimento. Em paralelo, os governos recorrem a políticas orçamentais focadas em apoiar famílias e empresas, o que pode agravar desequilíbrios orçamentais (défices) e níveis da dívida pública.
A médio e longo prazo, as crises geopolíticas estão a contribuir para uma transformação estrutural da Economia global. A fragmentação do comércio internacional, a menor integração entre blocos económicos (ou mesmo desagregação) e o reforço da autonomia estratégica em áreas como energia, tecnologia e defesa estão a redefinir padrões de crescimento e competitividade. Para as economias europeias, os impactos são amplificados pela dependência
energética e pela elevada exposição a efeitos externos. A resiliência económica passa, assim, por mais investimento em medidas que estimulem a produtividade, a procura pela diversificação de Mercados, uma rápida transição energética e políticas que reforcem a competitividade num contexto internacional cada vez mais fragmentado.
Com efeito, as crises geopolíticas afetam diretamente a Economia ao elevarem a incerteza e retraírem investimento, comércio e consequentemente o crescimento. Conflitos como as guerras na Ucrânia e no Médio Oriente, bem como a rivalidade entre grandes potências mundiais (EUA, China e Rússia), têm levado ao aumento de custos logísticos, à fragmentação do comércio global e à adoção de políticas protecionistas unilaterais, onde a Europa tem perdido competitividade em toda a linha.
Este contexto é, pois, propício para ambientes inflacionistas e para elevada pressão sobre bancos centrais e as finanças públicas, consolidando um ambiente de baixo crescimento e elevada instabilidade, como aquele a que temos vindo a assistir na Europa e que não parece ter um fim à vista.
Alexandre Fonseca é empresário, gestor e business advisor, administrador do TagusPark e presidente do Conselho Estratégico da Economia Digital da CIP

Alexandre Fonseca
O Natal é tradicionalmente associado a valores como solidariedade, partilha e empatia. Num contexto empresarial, esta época do ano representa uma oportunidade privilegiada para refletir sobre o papel das organizações na sociedade e reforçar práticas de Responsabilidade Social Empresarial. Mais do que ações pontuais, o Natal pode (e deve) ser um catalisador para compromissos sustentáveis e duradouros…para “devolver” à Sociedade, para fazer a diferença todos os dias do ano.
A Responsabilidade Social Empresarial assenta na integração voluntária de preocupações sociais, ambientais e éticas nas atividades das empresas e na sua interação com as partes interessadas. É verdade que por ocasião do Natal, muitas organizações promovem campanhas solidárias ou ações de voluntariado corporativo. Embora estas iniciativas tenham um impacto positivo imediato, o verdadeiro desafio está em garantir que não se limitem a gestos simbólicos ou estratégias de marketing sazonal, mas que se entranham na cultura da organização e dos colaboradores, e que se incorporem nos Valores, na Missão e na Estratégia das organizações.
Quando bem estruturadas, as ações de Responsabilidade Social Empresarial desenvolvidas no Natal, contribuem para fortalecer a cultura organizacional. Os colaboradores sentem-se mais envolvidos e motivados ao participar em projetos que geram impacto social real, reforçando o sentido de pertença e orgulho na empresa. Além disso, estas iniciativas ajudam a desenvolver competências como trabalho em equipa, empatia e cidadania ativa, que se refletem positivamente no ambiente de trabalho ao longo de todo o ano.
Adicionalmente, estas iniciativas criam contextos favoráveis ao desenvolvimento de competências humanas e sociais. O trabalho em equipa é reforçado quando colaboradores de diferentes áreas cooperam em prol de um objetivo comum, fora do ambiente tradicional de trabalho. A empatia é estimulada pelo contacto direto com realidades sociais distintas, promovendo uma maior sensibilidade às necessidades dos outros.
Os efeitos destas experiências prolongam-se para além da época natalícia. As aprendizagens adquiridas refletem-se no quotidiano organizacional, melhorando a comunicação interna, o espírito de colaboração e o clima laboral. Entendo, pois, que, desta forma, as ações de Responsabilidade Social Empresarial natalícias deixam de ser eventos isolados e passam a constituir um investimento na construção de uma cultura organizacional mais humana, participativa e alinhada com os desafios sociais contemporâneos.
Do ponto de vista externo, empresas socialmente responsáveis ganham credibilidade e confiança junto de clientes, parceiros e da comunidade. Num contexto em que os consumidores estão cada vez mais atentos ao comportamento ético das marcas, a coerência entre discurso e prática torna-se essencial. O Natal, por ser um período de maior sensibilidade social, expõe ainda mais essa coerência — ou a sua ausência.
Em resumo, o Natal deve ser encarado pelas empresas não apenas como um momento de celebração, mas como uma oportunidade estratégica para reafirmar o seu compromisso com a Sociedade. A Responsabilidade Social Empresarial ganha maior valor quando é contínua, integrada na estratégia e alinhada com valores autênticos. Só assim, o espírito do Natal deixa de ser sazonal e transforma-se numa prática consistente de cidadania empresarial, com benefícios para todos: empresas, pessoas e comunidade.
Alexandre Fonseca é empresário, gestor e business advisor, administrador do TagusPark e presidente do Conselho Estratégico da Economia Digital da CIP

Alexandre Fonseca
O excesso de regulação tem sido apontado por economistas e líderes empresariais como um dos principais entraves ao crescimento económico, à inovação e à competitividade da Europa, especialmente quando comparado aos Estados Unidos ou à China.
O ambiente regulatório europeu tornou-se altamente complexo, com mais de 13.000 leis aprovadas no período entre 2019 e 2024, enquanto nos Estados Unidos, no mesmo período, foram aprovadas apenas 3.000 leis de âmbito regulatório. Este excesso de regulação resulta em custos administrativos e burocráticos elevados para as empresas, que precisam de canalizar recursos significativos apenas para garantir a conformidade, sejam eles recursos financeiros, humanos ou técnicos. As PME (esmagadora maioria do tecido empresarial português), em particular, sentem-se sufocadas e desmotivadas para inovar, já que todos os processos são lentos e o ambiente regulatório e administrativo em geral, é considerado oneroso, instável e imprevisível. E sabemos bem que a Estabilidade e Previsibilidade são talvez os dois principais critérios de atração de investimento e de sucesso empresarial.
O excesso de regulação contribui ainda para fragmentar o mercado único europeu, dificultando o surgimento e crescimento de grandes empresas capazes de competir no contexto global. A “aversão” das Autoridades europeias pela consolidação de mercados, em múltiplos sectores, tem causado enormes danos na capacidade competitiva das empresas europeias, que mesmo grades no “velho continente” continuam a ser pequenas quando comparadas com os colossos americanos ou chineses.
Os grandes investimentos diretos estrangeiros têm vindo a migrar para ambientes mais simplificados e mais dinâmicos, como os EUA, onde os mercados financeiros são mais estruturados e as exigências regulatórias muito menos restritivas.
Nos Estados Unidos a “desregulação de Mercados” é vista como fator de aumento da produtividade das empresas, uma forma de “seleção natural” e de reforço do dinamismo da Economia. Este fator é decisivo no impulsionar da inovação tecnológica, resultando na liderança das grandes empresas americanas a nível mundial, apenas secundado pelos gigantes chineses.
O excesso de regras administrativas e de regulação na Europa, gera um ambiente de elevada complexidade empresarial, que tem como principais impactos a dificuldade no surgimento de novas e mais dinâmicas empresas inovadoras, o afastamento dos investidores globais e a falta de incentivos à inovação, isto sem referir as limitações na atração de talento, em particular entre os mais jovens.
Não há dúvidas que a Europa ficou, uma vez mais, para trás na revolução Digital e Tecnológica, em boa parte pelas enormes barreiras que ergueu ao nível administrativo, regulatório e porque não dizer, ao nível das Leis da Concorrência.
O resultado deste excesso de políticas regulatórias foi até agora a clara desaceleração de crescimento económico e a perda de produtividade e de rentabilidade nas empresas europeias.
O grande desafio da Europa não está em fazer “mais” ou “menos” regulação…está em fazer “melhor” regulação, garantindo simplicidade, clareza, transparência, previsibilidade e foco no que é essencial, como a proteção de Direitos e a Segurança, bem como na indispensável análise de impactos regulatórios, que suporte as decisões tomadas.
Alexandre Fonseca é empresário, gestor e business advisor; administrador do TagusPark; Presidente do Conselho Estratégico da Economia Digital da CIP

Alexandre Fonseca
Muito se tem vindo a discutir sobre a forma como a Inteligência Artificial vai mudar o Trabalho em geral, destruir postos de trabalho e mudar o emprego de forma decisiva para as gerações futuras. Porém, algumas análises apontam para um cenário pessimista, quase apocalíptico, sobre os efeitos nefastos da IA no mercado de trabalho.
A Inteligência Artificial não tem necessariamente de destruir postos de trabalho…esta é uma visão simplista e, muitas vezes, alarmista do impacto tecnológico no mercado laboral. Na realidade, a IA pode ser uma poderosa aliada na criação de valor, na melhoria das condições de trabalho e até na criação de novas profissões. Tudo depende da forma como a sociedade, as empresas e os governos escolhem integrá-la.
Segundo estudos recentes, a adoção da IA pode automatizar até 45% das horas trabalhadas nos próximos anos, especialmente em tarefas manuais e repetitivas, o que pode levar à eliminação de algumas formas de emprego. Mas a IA também vai criar novas formas de emprego e vai exigir o desenvolvimento de novas competências, em particular na área da tecnologia, da análise e da modelação de dados.
Estudos indicam que, apesar do desaparecimento de alguns empregos (estima-se que até 92 milhões podem ser eliminados globalmente até 2030), haverá uma criação ainda maior de novas posições (cerca de 170 milhões), resultando, portanto, numa transformação da natureza do trabalho mais do que na destruição de empregos. Claramente que para isso os Estados, as empresas e os trabalhadores precisarão investir na formação e na qualificação de competências digitais, para acompanhar essa profunda transformação.
Devemos ainda considerar a transformação dos hábitos laborais, onde a IA poderá contribuir de forma decisiva para a redução da carga laboral dos trabalhadores, que poderão ser mais produtivos com menos horas de trabalho, eliminando os erros resultantes de atividades manuais e aumentando a capacidade de processamento nas atividades envolvidas. Ou seja, a melhoria do equilíbrio entre Trabalho e vida pessoal dos cidadãos.
O recurso à IA também pode ser uma solução para a escassez de mão de obra qualificada em alguns setores, especialmente na Europa, dado o envelhecimento geral da população. Além disso, a IA pode ainda automatizar tarefas perigosas, melhorar as condições de trabalho e ajudar a tomada de decisões. Finalmente, acredito que a IA, paradoxalmente, pode tornar o trabalho mais humano. Ao libertar os trabalhadores de tarefas mecânicas, cria-se espaço para atividades que requerem mais proximidade, empa/a, cuidado, inteligência emocional e pensamento estratégico, sendo estas qualidades distintivamente humanas que teremos de preservar
Em resumo, a IA não é inevitavelmente destrutiva para o emprego. É uma ferramenta, e como qualquer ferramenta, o seu impacto depende da forma como é usada. Com visão estratégica, foco na qualificação e com políticas públicas adequadas, a IA pode ser um motor de crescimento, de inclusão e de melhoria da qualidade de vida no trabalho. A IA mudará o mundo do trabalho e adaptar-se a essa nova era será crucial para todos nós, basta que saibamos aproveitar esta extraordinária oportunidade e sejamos capazes de dar as devidas respostas a tempo. Para tal, o combate à burocracia e estaticismo e implementação de reformas legislavas serão essenciais e decisivas. Não haverá segunda oportunidade.
Alexandre Fonseca é empresário, gestor e business advisor, administrador do TagusPark e presidente do Conselho Estratégico da Economia Digital da CIP

Alexandre Fonseca
Vivemos hoje tempos de transformação acelerada, onde a mudança deixou de ser exceção para se tornar a nova normalidade. Neste contexto, os modelos tradicionais de liderança — hierarquizados, distantes e centrados no poder — revelam-se cada vez mais desadequados. As organizações mais bem-sucedidas estão a adotar novas formas de liderança, alicerçadas em três pilares fundamentais: Proximidade, Agilidade e Inclusão.
A Proximidade é um traço distintivo dos novos líderes. Num mundo cada vez mais digital e impessoal, as pessoas valorizam as relações autênticas e as lideranças humanas. Um líder próximo conhece a sua equipa, demonstra empatia e está disponível — não apenas para comandar, mas para ouvir, orientar e inspirar. Um líder que dê o exemplo, que conheça profundamente a empresa e o negócio, que gere confiança e que defina e comunique, de forma clara, a estratégia e o caminho. Um líder que mobilize, por ser um de “nós”.
A Agilidade vai para além das metodologias…é uma cultura! Exige líderes capazes de tomar decisões rápidas, que aceitem que falhar faz parte do processo, capazes de lidar com a incerteza e fomentar uma cultura de experimentação e aprendizagem contínua. Mas não se trata apenas de ser rápido a decidir e a agir: trata-se de ser intencional, de ler o contexto, de se adaptar e ser flexível, respondendo com inteligência e eficiência.
A Inclusão é mais do que um valor: é uma prática diária. Implica reconhecer o valor da diversidade, combater preconceitos e garantir que todos têm espaço para contribuir e crescer. Ambientes inclusivos não só são mais justos, mas também mais criativos e inovadores. Inclusão é assegurar a participação de todos, escutar, compreender, sem se demitir da responsabilidade de decidir. Inclusão é assumir um propósito coletivo e tê-lo bem presente diariamente.
Num momento em que escasseiam líderes com visão e coragem, tanto na política como nas empresas, a procura por novas lideranças é urgente. Não precisamos de repetir grandes e inequívocos líderes do passado, como Churchill, Roosevelt ou De Gaulle, reconhecidos pela sua enorme capacidade de liderança e pelo seu carisma, num dos momentos mais difíceis da nossa História. Mas precisamos sim de reinventar a liderança para os desafios modernos, nas empresas, nos Governos e na Sociedade em geral.
Precisamos de pessoas capazes de unir, de mobilizar talentos e de colocar as pessoas no centro. A liderança do futuro será, inevitavelmente, mais humana. E isso é uma boa notícia…e uma esperança para a Humanidade!
Artigo de opinião de Alexandre Fonseca, empresário, gestor e business advisor; administrador do TagusPark; presidente do Conselho Estratégico da Economia Digital da CIP.