
Manuel Soares de Oliveira
Como grande Segurista que sou, convertido tarde mas com sincera devoção, celebro os primeiros 60 dias da sua presidência.
O Presidente Seguro, numa notável demonstração de coerência, não quis que estes primeiros dias se distinguissem daquilo que tem sido toda a sua vida política. E conseguiu. Sessenta dias depois, ninguém se lembra de uma frase marcante, de um gesto inesperado ou sequer de uma pequena indignação com valor mediático.
Poderia ter existido uma intervenção mais dissonante em relação ao Governo, uma frase mais firme ou um sobressalto institucional. Mas o Presidente não se chama Seguro por acaso. É claramente adepto da ideia de que, num discurso, mais vale uma frase indiferente do que duas críticas que possam sugerir a existência de uma convicção.
São precisamente essas qualidades que admiro no Presidente. Propôs-se ser Presidente de todos os portugueses e, por isso, evita cuidadosamente expressar opiniões demasiado definidas. O ideal, suspeito eu, seria conseguir responder à mesma pergunta com várias respostas diferentes, todas suficientemente vagas para que cada português pudesse escolher a que mais lhe agradasse.
As más-línguas da oposição insinuam que o Presidente evita expressar opiniões porque simplesmente não as tem. Acho injusto. Seguramente que o presidente Seguro tem opiniões. Mas, sendo uma pessoa profundamente educada, não nos quer maçar com elas. Para ele, as opiniões são um assunto privado, quase íntimo, que não deve ser exposto na praça pública.
É natural que estranhemos. Depois do exuberante e imprevisível Presidente anterior, o bom povo português desejava alguma previsibilidade em Belém. E conseguiu-a. Vivemos agora numa realidade política em que esperamos que nada aconteça e, de facto, nada acontece. Como não admirar o Presidente Seguro?
É o Presidente ideal para quem quer apenas “governar a sua vidinha”. Para quem sonha com uma existência previsível, ordeira e sem sobressaltos. Para quem considera que ser cinzentão não é uma limitação de personalidade, mas uma virtude cívica.
À primeira vista pode não parecer muito apelativo. Mas depois lembramo-nos de que a alternativa era o imprevisível comentador da bola e começamos, pouco a pouco, a gostar genuinamente do nosso Presidente. Afinal, a maioria dos portugueses não votou num grande líder. Votou em alguém que não incomodasse demasiado.
Será sempre uma questão de expectativas. Basta não ter nenhuma para começarmos a gostar desta presidência.

Manuel Soares de Oliveira
Comentador que se preza não se identifica como comentador. É um daqueles casos em que o mundo inteiro diz que eles são comentadores, mas os próprios nunca se anunciam como tal.
O que faz algum sentido. Nos dias que correm, qualquer um corre o risco de acabar na televisão a comentar inúmeros assuntos, dos quais desconhece verdadeiramente algo para lá das parangonas dos jornais que consulta rapidamente online.
E é isso que caracteriza os nossos comentadores. São todo-o-terreno. Tanto comentam a política de saúde como a finança internacional e, se for preciso, ainda debitam opiniões sobre a guerra que estiver a acontecer. Aliás, a sua grande força é essa: não se deixam contaminar pelo conhecimento. O mote de um comentador resume-se nesta frase: “Sobre esse assunto, do qual tomei conhecimento agora, tenho uma opinião muito firme.”
Convém, por isso, fazer uma distinção que raramente se faz. Um comentador é, em teoria, alguém que sabe do que fala e se limita ao seu campo. Por isso, convém distinguir comentadores de comentaristas. Um comentador é alguém especialista num assunto e que se limita a responder sobre esse assunto. Já um comentarista fala e discorre sobre qualquer assunto, sendo democrático ao demonstrar igual ignorância sobre todos os assuntos.
Os comentaristas não são especialistas em nada e, sobre todos os assuntos, têm um conhecimento raso. Têm sorte, pois os jornalistas que moderam os debates também não têm conhecimento suficiente para uma contrapergunta. Mas ainda mais sorte têm, pois a audiência é constituída pelo povo mais iletrado da Europa, gente que nada lê, mas que muito comenta.
É relativamente recente esta moda dos comentaristas. Servem especialmente para os canais noticiosos encherem horas e horas de programação sem gastarem um tostão. A grande maioria dos comentaristas está lá a custo zero, movida apenas pelo desejo de protagonismo e vaidade. Há alguns especialistas (comentadores) que se limitam a comentar os assuntos que estudam, mas estes são raros.
E, com esta fórmula, preenchem-se horas de programação, com os comentaristas encantados com as suas próprias palavras. Não disfarçam o gosto que têm em se ouvir. E muitas vezes tornam-se enfadonhos, pois, embora todos já tenham dito tudo o que havia a dizer, o comentarista ainda precisa de falar. Nem que seja pela simples impossibilidade de ficar calado.

Manuel Soares de Oliveira
A ideia de que a história teria acabado era sedutora. Viveríamos para sempre num sistema liberal capitalista estável, libertos da angústia dos grandes confrontos ideológicos. Havia um modelo que tinha vencido, provado ser o melhor, e o futuro seria apenas a sua gestão tranquila.
Em 2026, essa ilusão parece não só ingénua como quase cruel. A história não acabou, acelerou. E avança a passos largos para um lugar que ninguém escolheu nem quer.
Queixamo-nos de ter um louco analfabeto como líder da maior potência do mundo. Consolamo-nos a pensar que foi um erro de casting, uma anomalia, e que na próxima eleição o bom senso regressará sob a forma de um candidato moderado e previsível.
Mas sabemos, lá no fundo, que não será assim. A eleição deste Presidente pela segunda vez não foi nenhum acidente. Foi um sintoma. O mundo mudou, e a comunicação política, sequestrada pelas redes sociais, continuará a ser cada vez mais ruidosa, mais violenta e mais mentirosa. Não por acaso, mas por design.
As pessoas não querem verdades. Querem que lhes digam que aquilo em que já acreditam é verdade. Que as suas desconfianças têm fundamento. Que os seus medos são legítimos. E, confortadas nessas novas certezas, o passo para a violência verbal e às vezes física, contra quem pensa de forma diferente torna-se quase natural.
Os políticos tentam regular o mundo digital. Mas cada vez que aprovam nova legislação já o ecossistema mudou outra vez. É como tentar regular um rio enquanto ele corre.
Entretanto, uma nova geração de líderes percebeu que não precisa de ter razão. Os Farages, as Melonis, os Venturas e tantos outros não querem construir pontes nem apresentar soluções exequíveis. As suas propostas não são programas de governo, são manifestos de crença. Prometem respostas simples para problemas complexos: a imigração, a habitação, a criminalidade. O mundo, claro, é imensamente maior do que as suas pequenas ideias. E eles próprios sabem-no.
Sabem também que nunca controlarão a narrativa num mundo que se move imparável. Mas não precisam. Basta convencer os seus eleitores de que existe uma solução simples. Não existe, e eles sabem. A sua sorte é que, por enquanto, os eleitores ainda não chegaram a essa conclusão.
Alguns de nós ainda gostaríamos que a história tivesse acabado. Que o mundo fosse previsível, governável, decente. Mas com as redes sociais primeiro, e agora com a inteligência artificial, caminhamos em sentido contrário, para um mundo mais violento, mais fragmentado, mais cruel.
O admirável mundo novo, afinal, não tem nada de admirável.

Manuel Soares de Oliveira
Talvez não haja hoje político mais subestimado na política portuguesa do que Luís Montenegro.
Durante anos, os comentadores decretaram que nunca passaria de mais um deputado discreto. Depois garantiram que, no máximo, seria um líder parlamentar sem grande futuro. Quando chegou à liderança do PSD, a previsão manteve-se: se lá chegasse, seria por pouco tempo.
Falharam em todas as previsões. E continuam, curiosamente, sem perceber Montenegro.
Esquecem-se de um detalhe incómodo: Montenegro já ganhou duas eleições legislativas e lidera um governo que, até agora, tem sido um raro exemplo de estabilidade e sobriedade política, sobretudo quando comparado com a barafunda que marcou os últimos tempos do ciclo socialista.
Talvez porque o estilo de Montenegro contrarie a fantasia que muitos comentadores têm da liderança política. Não há grandes proclamações históricas nem discursos inflamados sobre o destino do país. Há apenas uma insistência algo prosaica naquilo que a maioria dos eleitores realmente valoriza: previsibilidade, moderação e ausência de drama.
Há uma razão simples para isso. O eleitor português valoriza profundamente a estabilidade e olha com desconfiança para políticos messiânicos que prometem “grandes reformas”. Esse conceito mítico de que todos falam e que ninguém sabe exatamente ao que se refere.
No fundo, todos os portugueses querem reformas , desde que não mexam nos seus próprios interesses.
Reformas, sim. Mas sempre para os outros.
Os comentadores confundem muitas vezes carisma com a capacidade de fazer discursos inflamados que levantam multidões. Mas há outro tipo de carisma: o que nasce da sensação de confiança que um político transmite. É um carisma menos teatral, mas muitas vezes mais duradouro.
A política portuguesa já viu este filme antes. Quando apareceu, Passos Coelho também foi descrito como tudo aquilo que um político não deveria ser: inexperiente, demasiado partidário, sem vida fora da política e incapaz de entusiasmar quem quer que fosse.
Com o tempo, porém, a memória coletiva tem um curioso efeito amnésico. O político cinzento de ontem transforma-se no estadista que afinal tinha razão. E o líder pessimista passa a ser recordado como uma espécie de D. Sebastião reformista que um dia voltará para salvar o país.
Mas talvez a maior ilusão política do momento seja a ideia de uma grande união das direitas. A fantasia de que Passos Coelho e André Ventura poderão formar a dupla dinâmica que salvará Portugal.
Parece uma boa estratégia. Mas as estratégias são sempre excelentes, até esbarrarem na realidade. Acreditar que Ventura aceitará o papel de actor secundário nesse filme revela uma profunda incompreensão da natureza humana e da natureza do próprio Ventura.
Ele já saiu da garrafa.
E não tem a menor intenção de voltar para lá, nem ele, nem os seus eleitores.

Manuel Soares de Oliveira
Pode ter muitos defeitos, mas o nosso estimado Presidente Marcelo não é ingénuo. Assim que percebeu que teria de ir a Coimbra repetidas vezes durante as cheias, tratou de afastar discretamente a senhora presidente da Câmara, pessoa de verniz raso e compostura frágil. Um pequeno pre-emptive strike institucional, sob a forma de um elogio público à personagem.
Com pessoas destas, que não foram sobrecarregadas por refinamento, bastam dois ou três elogios bem colocados para produzir efeitos imediatos. Derretem-se. Interpretam-nos como aceitação num clube ao qual sempre aspiraram pertencer, quando na verdade funcionam sobretudo como sinalização para os restantes presentes: atenção, há aqui alguém socialmente desafinado.
Num país onde o Big Brother e o Preço Certo continuam a liderar audiências, comportamentos pouco polidos não penalizam; pelo contrário, rendem dividendos eleitorais. Vivemos numa era em que a teatralidade vale mais do que o conteúdo. Apostaria que as equipas de comunicação já estarão a preparar um vídeo para as redes sociais onde a autarca surge a pôr um ministro na ordem, versão heroica incluída.
Houve um tempo, talvez mitológico, em que a política era ocupada por pessoas que sabiam usar talheres e eram parcimoniosas nas opiniões que proferiam. Confesso alguma saudade desses agrupamentos partidários compostos por criaturas civilizadas, onde a formação era exigida e o decoro não era visto como elitismo, mas como higiene básica. Os políticos não berravam na rua nem faziam da televisão um prolongamento da tasca.
O processo de erosão começou cedo, com os primeiros governos de Cavaco, quando fomos convidados a aceitar uma galeria de figuras que exibiam as suas origens provincianas como certificado de pureza política. O tempo encarregou-se de mostrar que o défice de civilidade não imuniza ninguém contra os vícios do poder. Encantados com o novo estatuto, acabaram queimados como tantos outros, com ou sem pedigree.
Sou realista por natureza e aceito que esta nova realidade veio para ficar, com tendência para piorar. A descida qualitativa tornou-se inevitável a partir do momento em que passámos a ter comentadores de futebol como líderes partidários e líderes partidários a aspirar a comentadores de futebol. A discussão política transformou-se numa conversa entre claques, cada qual entregue ao seu fanatismo e cuja principal preocupação é humilhar publicamente o adversário. Nem que, para isso, se recorra a distorções, mentiras e insultos pessoais.
E, ao que parece, também a peixeiradas em direto nos telejornais.