
António Lavareda
O mercado norte-americano de apostas eleitorais movimentou, na eleição de Trump no ano passado, cerca de US$ 3,5 bilhões. Antecipar o futuro sempre foi obsessão humana. Das adivinhações à astrologia, das profecias às projeções científicas, o percurso de milênios convocou nossa curiosidade insaciável para prevenir tragédias, vencer guerras e planejar o porvir. Desde que as urnas se tornaram sucedâneas das disputas sanguinolentas pelo poder, atraem igual fascínio. Isso explica o volume de análises sobre a sucessão presidencial de 2026.
Doravante, o número de levantamentos crescerá, impulsionado por interesses diversos, atentos às oscilações do humor popular, mesmo antes de conhecido o elenco completo de competidores. Os institutos testam múltiplas listas, enquanto potenciais candidatos e dirigentes partidários insinuam ou desmentem pretensões. Multiplicam-se, fato novo, as manifestações de pretendentes a vice, lembrando o tempo em que concorriam em faixa própria, e não anexados aos titulares.
Mais uma vez, as sondagens funcionarão como corrimão seguro a guiar imprensa, campanhas e cidadãos através da névoa em que se misturam informação e desinformação. O certo é que o bailado dos números não cessará até o grande dia. Ainda assim, a tentação de vislumbrar o desfecho permanece irresistível.
Com base nas 13 competições realizadas desde 1945 — quatro no ciclo democrático pré-64 e nove na Nova República — é possível identificar padrões com razoável consistência. O primeiro diz respeito à configuração do confronto. Em cerca de 70% dos casos, três nomes alcançaram dois dígitos, formando cenários triangulares. Esse parece ser o formato mais provável em 2026, já que o duelo bipolar de 2022 não se repetirá, e haverá mais de um postulante à direita.
Outra questão: a possibilidade de vitória em turno único parece reduzida, apenas 23%. Lula jamais ultrapassou a metade dos votos válidos, ainda que tenha chegado perto em 2006 e 2022. Só dois o fizeram: Eurico Dutra (recordista com 55%) e FHC, em suas duas conquistas consecutivas.
Quanto à média histórica dos vencedores na primeira rodada, o índice gira em torno de 47%. Excluindo-se 1989, a mais fragmentada, sobe para 48%. Com variações inferiores a dois pontos, é esse o valor modal dos resultados. Cinco das seis jornadas eleitorais deste século confirmam o padrão. Assim, quem prevalecer em 2026 deverá situar-se próximo dessas marcas.
Por fim, a questão mais complexa: quais as perspectivas de Lula? Restringindo-nos necessariamente à Nova República, observa-se que a taxa de continuidade atual — 75% — é um parâmetro limitado, pois repousa sobre apenas quatro casos. Tampouco convém comparar com experiências estrangeiras, dadas as diferenças significativas. Melhor observar as intenções de voto um ano antes do pleito — em seis das nove vezes, o líder inicial acabou vitorioso — e combiná-las a dados de aprovação governamental, expectativas sobre a economia e projeções do mercado de variáveis-chave — PIB, inflação e desemprego — para o próximo ano.
Considerando esse fatores, com sinais macroeconómicos relativamente benignos, nosso modelo parcimonioso com regressão logística bayesiana, embora sensível à curta série histórica, indica uma projeção preditiva e atualizável de 72% de chances de reeleição do incumbente. Que se ajustará à medida que novas evidências empíricas surjam. Se o quadro econômico escorregar e simultaneamente ocorrerem eventos políticos disruptivos, a balança pende para a oposição. Do mesmo modo, estabilidade e crescimento reforçam a posição do presidente.
Lembrando que probabilidades não são vaticínios. Sempre é bom ouvir o recado de Shakespeare: “Nunca chame de impossível o que apenas improvável lhe parece.” O que foi didaticamente ilustrado na primeira corrida presidencial de Trump, quando o reputado site americano de prognósticos FiveThirtyEight lhe atribuía, na véspera, chances de apenas 28%.
António Lavareda é cientista político, sociólogo do IPESPE e presidente de honra da Abrapel (Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais). Artigo publicado originalmente no jornal Folha de S. Paulo.

António Lavareda
A escolha de um nome por Donald Trump, pouco tempo atrás, para batizar sua rede social, Truth Social, foi no mínimo, paradoxal — e ao mesmo tempo profundamente reveladora do funcionamento atual da informação e da comunicação no mundo digital.
Trump, cuja carreira é marcada por uma relação sabidamente conflituosa com a verdade, ao adotar justamente o nome “Truth” (verdade) para sua plataforma lançou mão de uma estratégia típica do populismo digital — a apropriação do vocabulário moral, onde palavras como “verdade”, “liberdade” e “patriotismo” deixam de ser categorias universais para se tornarem marcadores tribais.
No campo da filosofia política e da comunicação, isso ilustra bem o que Yochai Benkler chama de “economia da atenção polarizada”: a verdade não é mais o que é verificável, mas aquilo que ressoa emocionalmente com a comunidade de pertencimento. Assim, “Truth” não precisa ser factual — basta que seja identitária e afetiva – de preferência no binômio “medo” e “raiva” — como mostra a neuropolítica.
A escolha do nome também realiza o que o filósofo Luciano Floridi chama de “cleaving power” do digital: a capacidade das tecnologias de desconectar termos de seus significados originais e recombiná-los com novos sentidos. “Verdade”, aqui, já não é correspondência com os fatos — é fidelidade a uma narrativa.
Em um ambiente em que a disputa simbólica pretende ocupar a centralidade, chamar uma rede social de “Truth” opera como uma forma de reivindicar autoridade moral, invertendo os polos tradicionais da veracidade: é a construção de um espaço onde “verdade” é o que o líder diz — mesmo (ou justamente) quando isso contradiz a realidade verificável.
Em suma, a Truth Social não representa a verdade no sentido clássico, mas sim a verdade alternativa de um campo político que busca deslegitimar as instituições, reconfigurar os fatos e mobilizar identidades. É um exemplo claro de como, na era da desinformação e das bolhas digitais, a linguagem se torna um campo de batalha — e a “verdade” pode ser, ironicamente, a maior fake news.
Sinédoque quase perfeita
Mas, se a rede do presidente americano é uma sinédoque quase perfeita do ponto a que chegamos, vale resgatar, de forma ultra resumida, a trajetória que nos trouxe até aqui, e sublinhar ao final o desafio que o Brasil enfrenta hoje.
Nas últimas três décadas, a internet deixou de ser uma ferramenta auxiliar da política para se tornar seu palco principal. A promessa inicial de democratização cedeu lugar à oligarquização do controle digital, com poucas plataformas concentrando os fluxos de informação e mediando quase toda a comunicação pública.
Nos anos 1990, surgiram os primeiros sinais dessa digitalização: Clinton teve site oficial em 1996, ativistas usaram fóruns contra a OMC em 1999, e no Brasil FHC e Lula criaram vitrines online em 1998 e 2002. A internet ainda era coadjuvante.
A virada começou com a Web 2.0. Nos Estados Unidos, Howard Dean usou blogs e crowdfunding em 2004. Obama, em 2008, revolucionou o marketing político com redes sociais e mobilização descentralizada. No Brasil, YouTube e Twitter ganharam espaço em 2006 e 2008, inaugurando a era da política viral.
Entre 2010 e 2011, as redes mostraram seu poder de mobilização: Primavera Árabe, Occupy Wall Street e, no Brasil, as eleições de 2010 com Dilma, Serra e Marina Silva. O TSE já se preocupava com boatos online — era o começo da campanha 2.0.
O ponto de inflexão foi 2013. Os protestos de junho, articulados via Facebook e WhatsApp, desafiaram partidos e a mídia tradicional com uma estética de rua descentralizada e sem líderes. Nunca mais se repetiu algo similar.
Em 2014, as campanhas de Dilma e Aécio usaram big data, nichos e o WhatsApp — que já era essencial fora dos grandes centros. A polarização digital se consolidava com memes e guerra simbólica.
O marco global viria em 2016: Brexit e Trump revelaram o “populismo algorítmico”, com uso de dados, microdirecionamento e desinformação. A Cambridge Analytica expôs o papel dos algoritmos na manipulação eleitoral. “Fake news” virou expressão corrente.
De 2016 a 2018, essa lógica se espalhou. No Brasil, a vitória de Bolsonaro foi impelida principalmente pelas redes, com apoio descentralizado via memes, vídeos curtos e WhatsApp. A linguagem emocional e “caseira” marcou sua campanha. As denúncias sobre fake news e disparos em massa vieram só após a vitória.
A partir de 2020, começou o embate institucional. O TSE lançou ações contra desinformação, o STF abriu inquéritos, e plataformas passaram a ser cobradas. Iniciava-se a regulação da comunicação política digital.
Em 2022, o TikTok se tornou ferramenta-chave entre jovens, o Telegram cresceu entre bolsonaristas, e a inteligência artificial começou a ser usada para manipular imagem e som. Influenciadores e podcasters viraram cabos eleitorais. A campanha de Lula apostou em storytelling emocional e na parceria com criadores.
Após os ataques de 8 de janeiro de 2023, ficou claro que a radicalização digital tinha efeitos concretos. STF, TSE e Congresso passaram a discutir a regulação das plataformas, discurso de ódio e transparência algorítmica. Ao mesmo tempo, a IA generativa trouxe riscos inéditos à autenticidade do discurso público.
No plano internacional, a União Europeia aprovou o DSA em 2022, e o uso de deepfakes e avatares sintéticos acendeu alertas. Campanhas como as de Milei e Bukele mostraram como estratégias meméticas nas redes podem levar outsiders ao poder.
A história recente nos mostra: a tecnologia molda o jogo eleitoral. A questão hoje não é mais se as redes influenciam a política, mas se conseguiremos regulá-las a favor da democracia.
A menos de um ano das eleições de 2026, o Brasil vive uma encruzilhada decisiva: ou regula com firmeza o uso das redes e da inteligência artificial, ou arrisca ver a verdade derrotada pela viralização. O TSE avançou com a Resolução 23.732/2024, que exige rótulos em conteúdos gerados por IA, proíbe deepfakes eleitorais e veda robôs que simulem candidatos. Mas essa resposta institucional está sob ameaça.
O Projeto de Lei Complementar 112/2021, em análise no Congresso, pode limitar a autonomia do TSE, enquanto o Marco Legal da IA (PL 2.338/2023) tem sido criticado por favorecer a autorregulação das big techs e ignorar questões como explicabilidade algorítmica e rastreabilidade. Em paralelo, cresce o uso de IA generativa e de vídeos falsos, sem freios claros.
A recente decisão do STF sobre o Marco Civil reforçou a responsabilidade das plataformas por conteúdos ilícitos, mesmo sem ordem judicial, reconhecendo o conceito de “falha sistêmica”. Ainda assim, propostas no legislativo como a isenção de partidos da LGPD agravam o risco de manipulação algorítmica e microdirecionamento abusivo.
A resistência à regulação é conhecida e poderosa. Tratei disso, sob o enfoque da neuropolítica, em junho do ano passado nesse mesmo fórum, o que deu lugar a um texto publicado no caderno Ilustríssima da Folha de S.Paulo. Mas qual a opinião dos brasileiros, nós que nos destacamos globalmente pelo uso intensivo das redes sociais?
A opinião pública é inequívoca a respeito. Pesquisa do Ipespe e da BRZ Consulting, em dezembro de 2024, apontou que 70% da população acham que as redes sociais devem ser regulamentadas. 86% dizem que as fake news nas redes atrapalham e confundem muito (69%) ou um pouco (16%) as escolhas dos eleitores. E chama a atenção que esse número (70%) não apresentou diferença significativa entre eleitores de esquerda (70%) ou de direita (69%).
Finalizando, o que estará em jogo nessa eleição será a soberania informacional e a legitimidade do voto. Deveria interessar a todos os candidatos. Afinal, se não houver regulação democrática da arquitetura digital, restará sempre a dúvida se o próximo presidente terá sido eleito pela vontade consciente dos eleitores, ou escolhido pelo algoritmo que entregar a mentira mais eficaz.
Texto apresentado no XIII Fórum de Lisboa, na mesa “Comunicação e Informação no Mundo Digital”