
Aura Arantes Fontes
Não há Governo que se preze que não verta no seu programa a incontornável Reforma do Estado e, por conseguinte, não deixe de “implementar” as generosas medidas conducentes à realização de tão nobre fim.
É o reconhecimento expresso de que, se o Governo não governa melhor, é porque a máquina da Administração Pública o não permite: é que o eleitor quer-se sempre bem servido!
Com o passar dos anos e sempre em prol do desejado desenvolvimento socioeconómico e do combate sem tréguas à corrupção endémica, as ditas reformas (todas elas) anunciam-se baseadas nos mais qualificados autores e em aprofundados estudos académicos, alicerçados nas melhores práticas em uso nos países nossos congéneres.
Muitos milhões de euros, em grande parte financiados por fundos europeus, foram consumidos nas iniciativas pomposa e sucessivamente adotadas por São Bento: como poderemos esquecer a metafórica vaquinha voadora e as não menos plásticas golas antifumo?
Extinguiram-se, fundiram-se e foram criados de novo múltiplos organismos de natureza jurídica híbrida e ambígua: institutos públicos, entidades públicas empresariais, fundações, estruturas de missão… todos suficientemente maleáveis para que, à voz de comando dos seus briosos dirigentes, se cumpra depressa e bem a vontade do governante condicionado pela inexorável exiguidade do mandato eleitoral.
Por via do “outsourcing” e do “contracting out”, atividades pagas a bons preços ditados pelo conluio dos seus prestimosos fornecedores, o provisório gestor da “coisa pública” renuncia a áreas essenciais que lhe estão atribuídas pela Lei.
Em nome da especialização e da elevada tecnicidade, importantes diplomas são exclusivamente fabricados por empresas de engenharia jurídica: é que a “feitura das leis” constitui, por si só, uma promissora e inesgotável “área de negócio”.
Todo este acelerado “pronto-a-vestir” reformador, aliado à importação acrítica das últimas tendências para exceder as singelas medidas de simplificação e desburocratização, ao esvaziamento sistémico de responsabilidades efetivas e à ausência de garantias do sigilo necessário a muitas operações administrativas, compromete de maneira irreversível o bom funcionamento do próprio Aparelho do Estado.
Inspeções e auditorias parecem não ter relevância alguma: o seu papel é marginal e distorcido, limitando-se, quando ouvidas, a apresentar recomendações, a servir de distração mediática ou a validar controversas decisões previamente tomadas na invisibilidade dos gabinetes. E as responsabilidades nunca se apuram, talvez porque verdadeiramente as não há: como é costume, a culpa morre sem castigo.
Ao trabalhador público, antes do libertador santo ofício da aposentação, resta a motivação única de quem cumpre sempre que é mandado. No fim de cada mês, uma semanada!!

Aura Arantes Fontes
Esta campanha presidencial – mesmo sendo apenas e só mais uma campanha – já teve o condão de contrariar a apatia colectiva, de estimular a destreza intelectual e de aumentar a literacia política… e fez o vulgar cidadão despertar da sua hibernação eleitoral a que cíclica e voluntariamente se sujeita.
Dos beligerantes desta guerra ritual conhecemos os apoiantes mais destacados e as dimensões dos respectivos exércitos.
Mesmo não querendo, saberemos quem melhor se preparou para os debates mediáticos, quem neles se destacou, quem se apagou e nem sequer se defendeu, quem levou a melhor ou encaixou uma monumental coça… a luta de galos, parametrizada pela Comunicação Social, dita a sorte final de cada um dos guerreiros em liça.
Pelo meio, há sondagens para abrir o apetite e saciar a voracidade dos telejornais. Difícil é resistir à decisão de não participar, de não tomar partido, de não votar! Afinal, há mesmo candidatos que não queremos que ganhem, a quem não consentimos na nossa representação.
Alguns agnósticos e muitos indecisos tomarão finalmente partido, nem que seja pela exclusão sucessiva dos candidatos malquistos.
A dispepsia eleitoral dá lugar a um aumento inusitado da salivação… o Ovo Kinder é uma guloseima que traz sempre uma surpresa lá dentro: entretém.
Lá estaremos na data e nos lugares aprazados, muitos e obedientes, respondendo ao apelo da participação cívica em prol da cidadania e, com o nosso Cartão do Cidadão em riste, assinalaremos no efémero boletim de voto o nosso veredicto definitivo. Assim exerceremos o nosso pequeno/grande poder do sufrágio universal!
O brinde-surpresa, saído do Ovo Kinder, reinará por um quinquénio, pelo menos. A resignação será toda para quem nele não votou; ao invés, o receio nascerá para quem, tendo votado nele, não põe por ele as mãos no fogo.
Uma vez aberto, o Ovo Kinder já não pode ser devolvido: é comer e calar!

Aura Arantes Fontes
Décadas de responsabilidades políticas, cargos públicos, honrarias, notoriedade, e oportunidades sem fim… dos dois candidatos do óbvio nada se espera de diferente, de qualitativamente melhor, nada de transformador. Apenas a melancolia do politicamente adequado. Mais do mesmo e a garantia de que, um ou outro, terão desempenhos cumpridores. Porém, sem chama nem criatividade. À direita ou à esquerda, os candidatos formatados ao centro esperam que as bases de apoio dos respetivos partidos – os que sempre partilharam o poder – convençam os seus eleitores da bondade da indicação do voto. Na Presidência não farão nem mais, nem melhor, do que aquilo que os identifica e caracteriza. Por comodidade os exércitos, com o sentido do dever cumprido, votarão em disciplina, no previsível, no monótono, no desinteressante. Num país sempre adiado que não se reforma ou recria. Oportunidade perdida de ter na presidência quem pense, quem pense bem, quem possa agir de forma livre e em convicção – quem faça a grande diferença!
A originalidade poderia parecer estar do lado do candidato Ventura, mas a sorte de poder ser, simultaneamente, candidato a muita coisa desacredita a crença na sua especial e necessária vocação para o cargo de presidente da república. Para este cargo, o candidato, em concreto, oferece mais do mesmo: um discurso sem novidades, que se presta a esta ou a outra candidatura, a este ou a outro cargo público. A oferta que acrescenta, face a todas as outras, é, apenas, o aumento do volume do som com o fito de atemorizar o eleitorado com as ameaças do costume. Som alto, agitação, muita e desabrida provocação, são fatores que prejudicam a crença do eleitor na apregoada visão estadista do multi candidato.
Por seu lado, enquanto ziguezagueia, o Almirante estende redes à esquerda e à direita, sem rumo próprio. Enredando-se em permanentes contradições e declarações insensatas, aventura-se mar adentro, por águas (por ele) nunca dantes navegadas…
A sua louvada inexperiência política, proclamada como a sua grande vantagem, revelou-se fatal. O candidato sabe pouco, fala de tudo. Usurpa a vocação presidencial ao declarar querer mudar o que não depende do exercício do cargo. De quando em vez anuncia novos apoiantes, redutores, como balsas de salvação.
É recente a candidatura de Cotrim, mas já se demarca. Inova no estilo. Pensa o país e o seu contexto. É fundamentada. Realista, acredita que fazer diferente não só é possível como é urgente. É livre e pessoal. Uma esperança no panorama dos intervenientes na vida política do país. Ou seja, um Presidente!

Aura Arantes Fontes
Em direto, nas televisões, assistimos a uma “manifestação” à porta de um centro comercial, em Lisboa, onde decorria a apresentação da obra de Henrique Cymerman, ‘O Enigma de Israel’.
A “manifestação” não foi silenciosa, nem pacífica… Foi violenta e histriónica! Surpreendeu pela excessiva emocionalidade manifestada pelos seus intervenientes que, de forma desenfreada, chamavam sobre si a atenção de todos os que por aí passavam. Foram provocados aqueles que, saindo das instalações, levavam consigo um exemplar da obra, o seu exemplar! E foram, só por isso, confrontados e apupados.
Quem por ali passava assistiu, também, a uma muito ousada provocação directa às forças da autoridade que não lograram dissuadir os excessos comportamentais dos manifestantes.
Sobre quem rasgou as páginas do livro, retirado por “esticão” a quem o havia comprado, desconhecemos se alguma vez o terá lido e se conhecia o seu conteúdo… Mas sabemos que o insólito episódio se traduziu numa manifestação primária e deplorável que atentou contra as mais elementares regras de convivência democrática.
A destruição afanosa de obras, literárias e/ou científicas, tem leitura antropológica. A história remete-nos para vários períodos negros da humanidade. Tempos, esses, sempre marcados pela intolerância, pelo conflito e pela desordem.
Uma obra como esta incorpora saber, investigação, ponderação e, acima de tudo, responsabilidade. Tece opinião fundada e assumida. Não se esconde. Não se furta ao debate. A pública e ruidosa destruição de um livro é uma cerimónia simbólica, um rito que expressa a ilegítima superioridade daquele que, ao destruir, pretende silenciar o outro – aquele que não pensa igual.
Se houve coisa que incorporámos com Abril foi a tolerância perante opiniões diversas das nossas. Aprendemos a falar com liberdade e a ouvir com respeito. Foi uma aprendizagem longa e bem-sucedida. Sabíamos conviver, pacificamente, com crenças diferentes das nossas.
Mas, desta feita, não foi só a obra que foi vandalizada. Foi ameaçada a ordem e ostensivamente provocados os agentes da polícia. Os manifestantes foram ousados e excederam-se nas atitudes.
A emergência dos populismos e dos extremismos ameaça a paz social que conhecemos nas últimas décadas. É já uma realidade em vários países europeus e instala-se entre nós.
A memória histórica dos Portugueses, mesmo a mais próxima, não se impõe a um presente orientado pelo imediatismo e pela ignorância de quem tudo sabe, e cede perante a cegueira das emoções coletivas.
Não obedecendo, necessariamente, a ideologias ou, sequer, a objetivos é, por si só, uma dinâmica de protestos que se torna rotina, ganha os adeptos do descontentamento e mina a estrutura social do país.

Aura Arantes Fontes
Com a reprovação da deslocação e participação oficial do PR ao famoso “festival de hambúrgueres” na Alemanha (em boa verdade, quem não reprovaria?), ficou evidente que nem um só deputado do Chega! leu a correspondente proposta, tendo todos votado “às cegas” sob disciplina de voto.
Subsiste a dúvida legítima de saber se sempre assim votam… mas explicada a imperdoável ”gaffe” com o facto do Presidente, em viagens ao estrangeiro, já ter largamente utilizado as milhas aéreas consentidas pela plebe e pelos eleitores e simpatizantes apartados de Marcelo, estes aplaudem a desculpável, mas meritória, intervenção do líder do Chega!.
De seguida e a destempo, surge “a martelo” o anúncio do prometido e prodigioso governo-sombra. Recrutado fora da órbita habitual – e por isso mesmo condenado ao sucesso –, reúne profundos e indiscutíveis conhecedores das respetivas áreas, gente nova, refrescada, não contaminada, imune ao compadrio e à corrupção, identificada pelo Chega! para, sob a batuta do líder, servir Portugal.
Um governo “DeLuxe” cuja revelação, ao contrário do expectável, não suscitou qualquer reação, nem de júbilo, nem de rejeição. Nem o mais insípido debate ou singela curiosidade a seu propósito…
Ocorre, por isso, uma única e iniludível apreensão: a de que, afinal, o Chega! não veio para ”fazer”, mas tão somente para “desfazer”.
O líder denuncia, desmascara, desmente, desafia e provoca, aponta o dedo… até “diz as verdades”… mas será que dele se espera – ou esperam os seus eleitores – que efetivamente resolva?
O Chega! quer e sabe governar ou é, por enquanto e apenas, um partido embrionário dum “one man show”, o partido do “Burger XXL”, o partido do protesto nacional contra o “deixa andar” dos irresponsáveis e impreparados governantes que se sucedem no poder desde abril de 1974?
Sabemos que o fenómeno não é apenas nacional. Embora seja um produto padronizado, os valores calóricos desta “fast food” variam de país para país, sendo as respetivas guarnições mais ou menos apimentadas.
No seu âmago, o sucesso do produto reduz-se à facilidade da sua confeção e a um rápido e prático consumo que logra saciar de forma imediata.
Do “design” apelativo às designações sugestivas, o objetivo último dos gestores do “marketing” consiste em viciar o consumidor, mesmo o mais politicamente informado, que fica enredado quase de imediato em verdadeiras compulsões alimentares.
Acionado o estímulo da recompensa, o eleitor quer sempre mais e melhor! Persiste, no entanto, a irrefutável e paradoxal apreensão sobre o comprovado baixo valor nutritivo deste tipo de alimento…
Não admira, pois, que pela mão do Chega! tenha lugar, em breve, um promissor “Festival Internacional de Hambúrgueres” em Portugal.
Fica aqui a sugestão que, não sendo minha, tem o meu apoio!