
Luís Gomes
O discurso económico de Donald Trump soa forte, mas não resiste ao confronto com os números. A inflação está hoje em 2,7%, ainda acima da meta de 2% da Reserva Federal. Contudo, é justo reconhecer que, considerando que as tarifas alfandegárias tendem a gerar pressão inflacionista, estes números até são positivos. O problema é outro: para que os aranceles funcionem como instrumento de política económica, é necessária uma estratégia clara de reindustrialização — e essa estratégia simplesmente não existe. No mercado laboral, a distância entre discurso e realidade é evidente: criaram-se apenas 64 mil empregos em novembro, quando seriam necessários entre 120 e 170 mil para manter a economia estável. O desemprego subiu para 4,6%, máximo de quatro anos. Já o crescimento económico abrandou de 2,8% registado em 2024 para perto de 2% em 2025, longe da “era dourada” anunciada. Assim, os próprios números desmentem Trump e mostram que, sem um plano industrial coerente, as tarifas alfandegárias dificilmente produzirão os resultados prometidos até ao final do seu mandato. Os discursos passam; os dados ficam — e contam outra história.

Luís Gomes
A influência económica da comunidade latina nos Estados Unidos já é impossível de ignorar. Hoje, os latinos representam cerca de 20% da população, mas o seu peso económico vai muito além disso. Em 2023, a chamada “economia latina” gerou mais de 4 biliões de dólares, o que a colocaria como a 5.ª maior economia do mundo se fosse um país. Entre 2010 e 2023, a riqueza produzida pelos latinos cresceu 2,7 vezes mais rápido do que o PIB nacional, impulsionada por uma força de trabalho jovem e por um empreendedorismo vibrante. Todos os anos, milhares de novos negócios são criados por latinos, alimentando setores inteiros da economia americana. No meio deste cenário, vale lembrar — com alguma ironia — que “imigração” não é um conceito abstrato nem um mal universal. Há quem insista em misturar tudo no mesmo saco, mas os números mostram: existe a imigração que pesa… e existe a imigração que faz o país crescer.

Luís Gomes
Os novos acordos alfandegários entre os EUA e quatro países latino-americanos revelam uma viragem estratégica: Trump percebeu que o isolamento não funciona num momento em que a China se consolida de forma acelerada na América Latina, ocupando espaço económico, tecnológico e diplomático.
Washington sente-se cercado e reage com acordos dirigidos a governos alinhados com a Casa Branca. A região ganha acesso ao mercado americano, mas enfrenta compromissos exigentes.
É o início de um novo xadrez hemisférico, onde cada movimento redefine poder e influência.

Luís Gomes
A guerra entre os Estados Unidos e a China já não se trava com tanques, mas com algoritmos.
A Inteligência Artificial é o novo ouro. Washington aposta na velocidade — prefere errar primeiro e corrigir depois, convencida de que quem chega antes escreve as regras. Pequim aposta na disciplina — treina máquinas e cidadãos com a mesma obediência, acreditando que o controlo é a forma suprema de inteligência. Ambos competem para dominar a mente digital que comandará o mundo.
E a Europa? Continua a discutir regulamentos enquanto os dados lhe escapam pelos cabos. Quando finalmente aprovar o quadro ético perfeito, talvez descubra que já não há ouro para minerar — só servidores vazios e boas intenções em código aberto.

Luís Gomes
O fecho do governo dos Estados Unidos, que já custa mais de 15 mil milhões de dólares por semana, tornou-se um teste à capacidade de governar. Mais de 800 mil funcionários estão sem salário e milhares de serviços públicos paralisados.
Nesta semana, os republicanos propuseram uma medida para financiar apenas o Pentágono, tentando isolar a segurança nacional das disputas orçamentais. Para alguns analistas, Trump está a usar este impasse como estratégia de pressão, prolongando o bloqueio até que os democratas aceitem concessões. Outros defendem que o presidente procura, com este confronto, transferir para os democratas a culpa pelos maus resultados económicos registados pela sua administração, preparando desde já o terreno para as eleições do próximo ano.
Entre a tática e a temeridade, o país aproxima-se do seu ponto de inflexão: quando o conflito partidário começa a afetar a vida real das pessoas e a corroer a confiança nas instituições.

Luís Gomes
Os Estados Unidos enfrentam, mais uma vez, um ‘shutdown’ — um impasse orçamental que paralisa serviços públicos, manda milhares de funcionários para casa sem remuneração e fragiliza a confiança nas instituições.
O problema não é técnico: é político. Quando a polarização partidária bloqueia a aprovação do orçamento, quem sofre são os cidadãos. Famílias, estudantes, pequenos empresários e profissionais da saúde sentem directamente os efeitos desta disfunção. E não se trata de um caso isolado: em 1995-96, o país esteve parado durante 21 dias; em 2013, por 16 dias; e entre 2018 e 2019, durante 35 dias — o mais longo da história. Agora, em 2025, o cenário repete-se.
O ‘shutdown’ não é uma estratégia legítima de negociação. É sinal de imaturidade institucional e de um sistema que precisa urgentemente de reforma. Num mundo em que a estabilidade é um bem cada vez mais escasso, não é aceitável que o funcionamento do Estado seja refém de jogos partidários. Urge responsabilizar os líderes, proteger os cidadãos e garantir que o bloqueio político não se torne uma rotina.