
Luís Campos Ferreira
Pousei a caneta e o caderno para ir buscar o segundo café do dia. Para me fazer companhia, tinha a televisão do escritório, por norma ligada num canal de notícias. Eram pouco mais das três da tarde, quando vi o alvoroço montado por uma frase do Presidente dos Estados Unidos. Trump tinha acabado de escrever, na sua rede social, que uma civilização inteira morreria naquela noite. Não uma cidade, não um alvo militar, uma civilização.
Estava o caldo entornado e não era para menos. As redações e analistas entraram em contagem decrescente. O petróleo, já em máximos históricos, registou mais um sobressalto. O mundo ficou em suspenso à espera do pior – e havia razões para isso. Porém, cerca de hora e meia antes do fim do prazo, Trump anunciou um cessar-fogo de duas semanas, enquanto declarava vitória. Quem vê isto, à primeira leitura, tende a ver loucura. No entanto, há um fio condutor, uma quase lógica, escondida neste aparente descontrolo. Para a compreender, é preciso recuar algumas décadas, até um Presidente que a história tratou com uma espécie de justiça seletiva.
Richard Nixon venceu a reeleição de 1972 com a maior margem de voto popular da história republicana, levando 49 dos 50 estados. Foi, provavelmente, um dos presidentes com o sentido mais apurado para as relações internacionais: colaborou na abertura da China ao Ocidente, negociou com a União Soviética um tratado de limitação de armas nucleares (SALT I) e desempenhou o papel de Presidente na Guerra Fria com uma lucidez que poucos lhe reconhecem. Porém, o Watergate e a guerra do Vietname (apesar de ter sido uma frente aberta por J.F. Kennedy e intensificada por L. B. Johnson) mancharam o seu legado, e toda a política externa acabou por ficar na sombra.
Ora, Nixon tinha uma teoria, que veio a ser conhecida como a “Madman Theory”. A ideia era (demasiado) simples: se o adversário, naquele caso os vietnamitas do Norte e os soviéticos, acreditassem que o Presidente americano era imprevisível ao ponto de poder fazer qualquer coisa, incluindo utilizar bombas nucleares, então fariam de tudo para evitar confronto. No fundo, era usar “O Botão” sem tocar nele. Era uma espécie de arte do brinkmanship, de levar o bluff até ao limite dos limites, de forma a que o trunfo não precisasse de ser jogado, bastasse ser mostrado.
Ora, Trump repete este ciclo com uma regularidade. Vai ao limite das palavras, coloca o mundo em estado de alerta, e recua antes de a ameaça se concretizar. Com as tarifas à China, fez o mesmo. Com a NATO, fez o mesmo. Com o Irão, fez exatamente o mesmo. O problema é que Trump não é Nixon, e a diferença é importante. Nixon reservava a postura para um adversário de cada vez. A pose funcionava precisamente por ser excepcional, porque o sistema americano e ocidental, no seu conjunto, parecia controlado. O que o Presidente dizia, era ponto assente, por isso, Deus nos valha se perder a cabeça. Trump, pelo contrário, abriu demasiadas frentes em simultâneo. Quando o novo normal é a imprevisibilidade, nada é verdadeiramente ameaçador. O bluff, repetido com demasiada frequência e em demasiadas direções, deixa de ser bluff e passa a ser ruído.
O problema é que a credibilidade da ameaça desgasta-se. O cessar-fogo anunciado esta semana já vacila. Israel bombardeou Beirute no mesmo dia, o Irão voltou a restringir o trânsito no Estreito de Ormuz e cada parte parece apresentar uma versão diferente do acordo.
Nixon sabia que a ameaça só assusta quando os outros ainda acreditam nela. Sem essa crença, resta apenas o caos, e do caos não nasce negociação.

Luís Campos Ferreira
Quem defende um sistema de defesa robusto não está, necessariamente, a votar a favor da guerra. A lógica é precisamente a inversa: os conflitos não surgem quando os adversários calculam que têm tudo a perder. A dissuasão não é belicismo, pelo contrário, é estratégia pacifista. Naturalmente, o inimigo não ataca quando conclui que o custo da agressão supera o benefício. Esta é a gramática elementar que Emmanuel Macron veio reafirmar, a 2 de março, na base naval de Île Longue, em Brest.
Antes de mais, em tom de “disclaimer”, concordo que o ideal seria um outro mundo. Um em que tratados como o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, celebrado em 1968, ou o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário, assinado por Reagan e Gorbachev em 1987, tivessem sido honrados e cumpridos de acordo com a vontade dos que os assinaram e reconhecem que a contenção mútua é o único caminho racional. Acredito mesmo que essa ideia ainda merece ser defendida com unhas e dentes. O contrário é um jogo de soma zero em que nem o destruidor nem o destruido têm a ganhar. Porém, por mais paradoxal que seja, não podemos construir política de defesa sobre o que deveria ser, quando o que existe é algo bem diferente. O Tratado INF foi abandonado. O New START expirou sem sucessor. E a Rússia continua a travar uma guerra no coração da Europa.
O discurso de Île Longue foi uma autêntica reconfiguração doutrinária. Em suma, a França deixa de divulgar o total do seu arsenal nuclear, o que reintroduz uma incerteza dissuasora e, paralelamente, lançou uma cooperação alargada com oito parceiros europeus – Alemanha, Reino Unido, Polónia, Países Baixos, Bélgica, Grécia, Suécia e Dinamarca – que poderão contar com exercícios nucleares e acolher elementos das forças aéreas estratégicas francesas. É um verdadeiro primeiro passo para uma dissuasão com dimensão europeia.
Como disse o Presidente Reagan, a paz não é a ausência de conflito, mas a capacidade de o resolver por meios pacíficos. Essa capacidade exige poder. Não o poder como fim, mas como premissa para negociar de igual para igual. Uma Europa sem ele não negocia, é negociada.

Luís Campos Ferreira
Tal como Guterres, Pedro Sánchez também condenou os ataques dos Estados Unidos e Israel ao Irão. Este até foi mais longe e proibiu o uso de bases espanholas para as operações. Tornou-se o único membro Nato a recusar apoio. Ao mesmo tempo, a Arábia Saudita, que foi atacada com mísseis iranianos, condenou a agressão de Teerão e colocou a sua força militar à disposição dos aliados.
Ou seja, um país do Golfo, na linha da frente, agiu com mais determinação do que um país membro da Nato. Sánchez disse que é possível ser contra o regime iraniano e, ao mesmo tempo, ser contra aquilo que chamou de intervenção militar fora do direito internacional. Ora, a frase por si, soa bem, o problema é que, como convém relembrar, o regime teocrático de Teerão não é um regime legítimo.
Por isso, condenar é fácil, o difícil é apresentar uma solução para um regime que financia o terrorismo, desenvolve armas nucleares e oprime o próprio povo. Entretanto, do lado americano, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, garantiu que esta não será uma guerra sem fim. Descreveu a operação como uma missão clara e decisiva, com objectivos bem definidos: a destruição da ameaça balística e impedir que o Irão alguma vez venha a ter armas nucleares.
O que parece indicar que os americanos não tencionam que esta operação se estenda no tempo. Mas a ambição pode não ficar por aqui. O senador republicano, Lindsey Graham, um dos maiores aliados de Trump, já veio dar um sinal e dar um aviso que o regime cubano pode muito bem ser o próximo.

Luís Campos Ferreira
No artigo que publiquei no 24 Horas a 8 de fevereiro, escrevi sobre um problema que assola a minha geração: um contrato social esvaziado de garantias. Em síntese, abordei o facto de o poder da inteligência artificial estar concentrado nas mãos de uma oligarquia e de ter sérias dúvidas sobre quem serão os verdadeiros e últimos destinatários dos seus benefícios. Feitos os diagnósticos, ficou no ar a pergunta sobre o que fazer. Não pretendo oferecer respostas definitivas, mas acho pertinente arriscar com algumas linhas de orientação em três dimensões.
Comecemos pelo plano individual. Compreensivelmente, há uma tentação, relativamente à generalidade dos assuntos, de olhar para as grandes questões – como as alterações climáticas ou a inteligência artificial – como forças externas e incontroláveis, perante as quais o indivíduo pouco ou nada pode fazer. Considero, mesmo, que é uma leitura errada e comodista da realidade. Tal como começámos a reciclar em casa para reduzir o nosso impacto ambiental, aqui a nossa primeira obrigação é a adaptação ativa aos novos tempos. A literacia e o conhecimento dos novos sistemas de inteligência artificial não estão reservados a uma elite, e cabe a cada um compreender o que a tecnologia faz, como funciona e onde se aplica. Como já vários disseram, quem não souber usar estas ferramentas ficará refém de quem as controla. Não é preciso citar estudos e “experts” para argumentar que, cada vez mais, o próprio mercado de trabalho valorizará quem sabe dominar sistemas de IA.
Noutra vertente, a adaptação individual passa também por cultivar as competências que as máquinas dificilmente replicam como, por exemplo, as relações humanas. Há que perceber quais os campos em que esta tecnologia domina (como a análise de dados), os campos em que a podemos controlar e os campos em que o ser humano mantém a vantagem competitiva.
Passemos agora ao plano estatal, em que atuam os governos nacionais – que também parecem aguardar respostas coletivas – , que dispõem de ferramentas que lhes permitem serem pró ativos nesta matéria. A primeira medida estrutural passa pela fiscalidade. Os sistemas fiscais têm fins para além da arrecadação de receita. Um imposto pode ter um objetivo extrafiscal, que visa desincentivar/incentivar um comportamento (como, por exemplo, o imposto sobre o tabaco). Da mesma forma, pode ser pensado não para desincentivar a inovação e o desenvolvimento, mas para atenuar os danos colaterais, como a substituição de trabalho humano, que eventualmente vão surgir. Isto significa que se deve taxar o consumo e os serviços prestados por IA, em vez de cair na tentação de taxar o investimento na tecnologia, o que travaria a inovação.
Ainda, a educação deve ser vocacionada para os novos tempos e exigências do mercado. As universidades terão de ser vistas como infraestruturas permanentes de atualização profissional e não como sítios pelos quais passamos apenas uma vez na vida. Não só isso, como deve ser fiscalmente incentivada a requalificação e o investimento na formação de trabalhadores, de forma a que as empresas consigam adaptar os seus quadros às novas exigências. No fundo, a regra de ouro é incentivar que a IA seja canalizada para complementar e não substituir. Isto não quer dizer que não possam ou devam existir mutações no mercado laboral. Certamente existirão, como aconteceu sempre ao longo da história da humanidade. É sim preciso uma política fiscal que estimule o investimento em capital humano.
Por último, no plano europeu e civilizacional, há que ter um debate sério sobre qual o rumo que pretendemos seguir nas próximas décadas. Fomos os primeiros a regular a tecnologia com o AI Act. Porém, regulámos os riscos, mas nunca pensamos numa direção. É importante seguir sempre o princípio orientador claro de que a inteligência artificial deve complementar o ser humano, sem o substituir. Por isso, faz sentido a criação de diretivas para a inteligência artificial que tenham em consideração o seu verdadeiro fim.
O contrato social que acompanhou os nossos pais e avós está esgotado. É preciso líderes com coragem, que olhem para a realidade como ela é e definam as linhas orientadoras que, como espécie, queremos seguir. É preciso mesmo um novo contrato. Francamente, como os tempos têm mudado, não consigo fazer previsões sobre o amanhã. Contudo, a única certeza que tenho é que não será, de todo, igual a ontem. O objetivo deste artigo não é, de todo, travar o progresso, mas antes dar ao progresso um propósito que vá além do lucro.

Luís Campos Ferreira
A sopa arrefecia enquanto esperava que o apetite chegasse. Lá fora, já estava um escuro cerrado, ao ponto de até o relógio de parede parecer cansado de um dia inteiro de trabalho. Estava a jantar sozinho. Sei que muita gente não gosta, mas a mim não me incomoda. Pelo contrário, é muitas vezes nesse silêncio que penso no estado das coisas que, de todo, não dão garantias de serem favoráveis.
A minha geração cresceu com a promessa de que através dos estudos tinha um caminho seguro. Hoje percebe que cumprir com o que foi pedido já não chega, principalmente em mercados de trabalho hipercompetitivos. Apesar de termos níveis de qualificação historicamente elevados, somos a primeira geração que não sabe se viverá melhor do que os pais. Por isso, a emigração jovem tornou-se regra, não exceção, e embora em Portugal seja particularmente visível, não é de todo um fenómeno isolado. Houve um descuido sério das gerações anteriores, cujos efeitos se materializam agora, na habitação, nos salários, na precariedade prolongada. Podia dar mais alguns exemplos de como o “Contrato Social” (referência a John Rawls) foi quebrado. Não o faço sob pena de vos maçar com algo que é de conhecimento comum. Porém, ao que tudo indica, nada foi aprendido com erros do passado e, desta vez, avançamos por caminhos de sentido único, o que faz soar alarmes.
O poderio de inteligência artificial – talvez a melhor invenção da história da humanidade – encontra-se hoje concentrado nas mãos de uma oligarquia tecnológica cujo maior objetivo é a criação de “shareholder value”. Como sociedade, aceitámos enveredar por uma lógica de otimização permanente, de crescimento económico contínuo, que deixou de ser meio para se tornar fim em si mesmo. Nesse contexto, parece-me que a grande aplicabilidade de inteligência artificial de que se tem falado tem sido para reduzir custos a nível empresarial- o que não é por si uma coisa má. Porém, a médio prazo, torna-se difícil imaginar profissões onde a máquina não seja melhor e mais eficiente do que o Ser Humano. As limitações atuais que não lhe permitem fazer tudo o que o Homem faz não são de princípio, mas antes técnicas e momentâneas. Tudo indica que serão ultrapassadas. Torna-se cada vez mais evidente que a inteligência artificial não vem apenas auxiliar, vem substituir.
Para que fique claro: o problema não é a existência desta tecnologia. Creio mesmo que pode resolver as grandes dores da humanidade, se for empregue a seu favor. O problema é que não há propriamente garantias de que o maior incentivo não seja a criação de valor para uma elite, tendo como custo “colateral” efeitos no Homem.
Mesmo que algumas profissões sobrevivam mais tempo, é difícil imaginar uma economia em que grande parte dos seus agentes perde o emprego. Em tom de reflexão, deixo algumas questões no ar: O que farão os humanos? Quem lhes paga? Quais as garantias de que serão respeitados os deveres intergeracionais para não comprometer quem vem a seguir?
A ideia otimista que afirma que viveremos todos de um Rendimento Básico Universal, com tempo livre para as artes e para o pensamento parece-me ser um autêntico cavalo de Troia. Para além disso impossibilitaria um sistema democrático, porque, como convém já sublinhar e escrever a negrito, no futuro, quem controlar os sistemas é quem efetivamente controla o poder. Se atualmente as pessoas temem – e com razão em alguns casos – a interferência de interesses privados nas decisões publicas, imagine-se numa sociedade e economia completamente assente em sistemas privados de AI.
Ainda, a substituição humana tem impactos escondidos. O trabalho não é apenas uma fonte de rendimento. Pode também ser um lugar de propósito. Sem ele, a vida perde densidade, e a inteligência artificial não oferece substituto. Engana-se quem acredita que ela trará uma compreensão mais profunda da vida. Pelo contrário! Há um afastamento progressivo, em que a ação no mundo real é trocada por refúgios virtuais. Parece-me muito mais plausível que proliferem realidades digitais capazes de anestesiar o ser humano do sentido da vida do que sociedades, dependente de um rendimento garantido, serenamente entregues à busca de significado.
Por fim, talvez o problema esteja precisamente aí! Como dizia a frase: com grandes poderes vêm grandes responsabilidades. Nos últimos tempos emergiu o maior poder da nossa história, mas sem um debate à altura dos riscos ou do caminho a seguir. Entre otimizações e a mentalidade de “crescer por crescer”, podemos ter perdido de vista o propósito da inovação: melhorar a vida da generalidade das pessoas. A questão já não é tecnológica, é civilizacional. Qual é o nosso objetivo enquanto espécie? É a otimização? É o bem-estar das pessoas? E se for, isso passa mesmo por nos tornarmos dispensáveis?
Pela primeira vez, a humanidade é forçada a responder à pergunta sobre o propósito da vida e não tem resposta. A prova disso, é que se tivesse, já teria um caminho direcionado para empregar a inteligência artificial, em vez de entregar o seu destino de olhos fechados a uma oligarquia tecnológica. A minha geração cresceu a normalizar a precariedade no emprego, que agora se estende ao próprio contrato social, que já não oferece garantias mínimas de previsibilidade e segurança.

Luís Campos Ferreira
Há uma ilha que tem gelado as relações entre a Europa e os EUA. A Gronelândia, região autónoma que integra o Reino da Dinamarca, tem sido motivo de debate, por estar envolta numa controvérsia que se arrasta desde que o Presidente Trump tomou posse. Porém, recentemente, intensificou-se a vontade americana de assumir o controlo da ilha.
Ora, quem conhece a história, sobretudo durante a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria, sabe da importância estratégica da Gronelândia para a defesa do hemisfério norte, sendo o Ártico um posto estratégico do flanco norte. Por isso, é verdade que se trata de um ativo de segurança americana e europeia, razão pela qual a NATO mantém presença na região.
Na realidade, o interesse atual está menos ligado à segurança e mais ao que a ilha tem para oferecer em termos de recursos naturais, uma vez que já é, de facto, um ativo de segurança americana, mesmo sem ter bandeira hasteada. Daí a proposta de compra feita por Donald Trump e a imposição de tarifas de 10% e 25% até à celebração de um acordo ser ainda mais estranha, pois os gronelandeses até podem não querer continuar a ser dinamarqueses, mas também não querem ser americanos. Mesmo dentro dos EUA, não parece existir grande apoio popular a uma hipotética tomada da Gronelândia.
Não obstante, ao mesmo tempo, é necessário compreender como é possível cooperar para a segurança dos países da NATO, sem que isso passe por conceder a interesses exclusivos dos americanos, independentemente das ameaças de tarifas.
Este é um ponto decisivo para a Europa. Se ceder por medo, mostrará ao mundo que não existem linhas vermelhas e ficamos à mercê dos interesses estrangeiros. Isto, contudo, exige que se traduza numa posição política concreta. E foi precisamente nesse plano, ainda que longe de uma resposta concertada, que foi emitido um comunicado conjunto assinado por vários aliados europeus da NATO, a 18 de janeiro, onde foram traçadas linhas bem definidas, sendo a integridade territorial uma delas.
A questão da Gronelândia não é, por isso, um episódio isolado, é um teste político e estratégico à maturidade europeia. Ou a Europa afirma já, com clareza, que a cooperação entre aliados assenta no respeito mútuo e no direito internacional, ou aceita um papel de subalterno. Uma Europa que abdica de defender os seus limites hoje dificilmente os conseguirá impor amanhã.

Luís Campos Ferreira
Normalmente, antes de a água começar a ferver, são visíveis pequenas bolhas de ar que sobem do fundo do fervedor. Quem não está atento, só repara quando a água entra em ebulição e transborda, provocando aquela inundação no fogão. À semelhança, nas relações internacionais, os sinais de mudança raramente escapam aos mais atentos, manifestando-se através de variações de temperatura graduais. Paralelamente, no passado dia 4 de dezembro, a administração Trump publicou a nova “National Security Strategy of the United States of America, November 2025”. Este plano, publicado em cada mandato presidencial, serve para dar a conhecer ao mundo a estratégia externa de Washington.
No documento, com 32 páginas, cuidadosamente elaborado, a Europa surge em destaque, mas não para ser propriamente elogiada. A visão americana para o velho continente, ali plasmada, repete algumas das queixas habituais, como o baixo investimento europeu em defesa ou a estagnação económica.
Apesar do tom crítico, o documento reconhece a importância estratégica da Europa para os Estados Unidos. Realça o peso dos centros industriais e tecnológicos, o dinamismo dos setores de investigação e, sobretudo, a centralidade da relação económica transatlântica. Aqui chegados, há duas dimensões chave que importam considerar no relatório.
Por um lado, a parte estratégica, que recorre a conceitos um pouco indeterminados e que não nos dão propriamente uma visão clara sobre o plano de ação americano, como “cultivar a resistência à trajetória atual da Europa dentro das próprias nações europeias” (“Cultivating resistance to Europe’s current trajectory within European nations”) ou “incentivar o ressurgimento do espírito patriótico europeu” (“America encourages its political allies in Europe to promote this revival of spirit, and the growing influence of patriotic European parties indeed gives cause for great optimism”). Por outro lado, Washington apresenta também uma série de diagnósticos, como a perda de peso económico global, regulamentação sufocante, erosão das soberanias nacionais, políticas migratórias descontroladas, censura à liberdade de expressão e uma crise de identidade. Aqui impõe-se a pergunta: será que o presidente americano tem razão no diagnóstico? Será mesmo esta a Europa de que nos fala a administração Trump, um continente em crise de identidade? Ora, tão errado como tomar a aliança transatlântica por garantida, seria não fazer uma introspeção só porque a crítica chega de fora.
No fundo, este documento diz muito sobre a estratégia americana, mas os europeus devem vê-lo de outra forma. Cabe-nos interpretá-lo não como um guião imposto de fora, mas como o prefácio de uma estratégia europeia renovada, capaz de responder às fragilidades que nos são apontadas.

Luís Campos Ferreira
Com o fim do mês chegam também aquelas gripes típicas que nos transformam, por instinto, em médicos sem diploma, capazes de diagnósticos rápidos, curas improvisadas e do inevitável rebuçado para a garganta acompanhado de chá com mel. Geralmente resulta, porque a causa é evidente – esqueci-me do casaco, apanhei frio – e a cura parece simples. Mas nem sempre é assim. Há remédios que tratam, outros que apenas suavizam os sintomas, e alguns que, em vez de curarem a doença, agravam-na. O mesmo se passa com as políticas públicas. Umas resolvem problemas, outras funcionam como placebos que fingem responder a anseios, e há ainda as que acabam por piorar exatamente aquilo que visavam resolver. As tarifas entraram nesta última categoria.
Quem seguiu as campanhas presidenciais de 2024 dos Estados Unidos percebeu que o raciocínio destes impostos foi mais patriota do que económico. Foi quase a afirmação de um nacionalismo que tentava fintar o globalismo. À primeira vista, tudo parecia lógico: subir tarifas sobre importações, tornar os produtos nacionais mais competitivos, reanimar a indústria americana, criar emprego, fazer a economia crescer. Na prática, acontece o oposto.
Os dados recentes da Tax Foundation são claros. Segundo o relatório “Trump Tariffs: Tracking the Economic Impact of the Trump Trade War” (Tax Foundation, 17 de novembro de 2025), o impacto médio das tarifas equivale a um aumento de imposto de 1.200 dólares por agregado familiar em 2025 e 1.600 em 2026. Para além disso, representam a maior subida fiscal, em percentagem do PIB, desde 1993. Ainda, é estimado que leve a uma redução de 0,6% do PIB americano e uma perda de competitividade que pode neutralizar os benefícios dos cortes fiscais anunciados. Há ainda a juntar a conta inevitável da reciprocidade estrangeira, acompanhada pelo preço da erosão de relações comerciais, que a China saberá explorar.
O risco, agora, é o regresso de uma vaga inflacionária num país onde os salários não acompanham o custo de vida. Quando a política que diz proteger os trabalhadores se transforma num encargo adicional, abre-se caminho para vitórias de candidatos que fazem desse aperto a sua bandeira, como se viu em Nova Iorque com Zohran Mamdani. Como reação, surgem da Casa Branca soluções “pensos-rápidos”, com a promessa de distribuir uma espécie de dividendos financiados pelas próprias tarifas. Entretanto, Trump já recuou nestes impostos aplicados às importações de bens alimentares essenciais, numa espécie de admissão tácita de que estas medidas podem, afinal, traduzir-se num aumento do custo de vida. O pior é que os efeitos reais das tarifas ainda não se fizeram sentir. O protecionismo muitas vezes parece boa ideia, mas raramente sobrevive ao momento em que começam a chegar as primeiras faturas. No fundo, tanto nos EUA, como na Europa, o problema está diagnosticado – o alto custo de vida-, mas a cura ainda está para ser encontrada.

Luís Campos Ferreira
Há uma categoria de organismos na natureza, chamada saprófitas, que se alimentam de matéria em decomposição ou já morta. Só prosperam com o podre que cai dos outros organismos vivos. Vivem dos restos, do que apodrece, da matéria orgânica em degradação. A sua função, dizem, é reciclar. Mas antes disso, alimentam-se da podridão dos sistemas que habitam.
Não têm propriamente um grande propósito, nem trazem grandes benefícios. Daí, não serem de grande interesse. Paralelamente, normalmente estou pouco interessado nos delírios dos bullies ideológicos, sejam de esquerda ou de direita, que se alimentam do descontentamento e exploram o pior do nosso sistema. Não acrescentam, não melhoram a vida de ninguém, e muito menos a dos que dizem defender. Mas há momentos em que o silêncio é cobardia e desta vez, achei importante usar a minha voz não vá um dia ficar sem ela.
Este texto não é para os profissionais do ressentimento que já perceberam como capitalizar o descontentamento. É sim, um alerta dirigido à minha geração, principalmente aos que ainda acreditam que vale a pena participar na vida política com sentido de responsabilidade.
Ultimamente, principalmente nas redes sociais, surgiu a moda de idolatrar mitos reciclados do passado, em apologias cansadas a ordem e honestidade. Uma espécie de ‘La Belle Époque’ para tolos. E desta vez, foi no próprio Parlamento português que se ouviu, com entusiasmo, um apelo a alguém que, entre outras proezas, deixou-nos um país pobre e atrasado, numa espécie de romantismo palerma e revisionista.
Mas sejamos práticos. A maioria dos que têm apoiado estes partidos, não aparentam estar preocupados com censuras ou com o policiamento político feito pelos media. Também não estão interessados nas incoerências de quem finge lhes dar voz. E, sejamos claros, a solução não passa por insultar quem está revoltado. O caminho será sim dar-lhes motivos para não o serem.
O populismo bacoco que tem galvanizado muita gente não é propriamente uma doença. É mais um sintoma. Atacá-lo diretamente é como tomar analgésicos para uma fratura exposta: mascara a dor, até o problema se tornar fatal.
O verdadeiro prelúdio do que vivemos hoje foi a incapacidade de reconhecer os problemas do país real. Quem, durante muito tempo, não quis ouvir estas dores, ouvias agora nas urnas e nas ruas.
Por outro lado, estes vácuos que agora são preenchidos, foram criados pelo amargo legado de quem, no passado recente, criou problemas estruturais no país em nome de ganhos de curto prazo. Foi esta irresponsabilidade, somada à fina arrogância de uma elite política, que criou um terreno fértil para o crescimento de extremos.
Dito isto, o meu apelo é simples: se levamos a política a sério, então que sejamos exigentes com quem nos representa. Leiam os programas e votem em quem julgam apresentar soluções racionais, e não em quem berra mais alto. Não se deixem encantar por falsos profetas que já há muito se esqueceram que as ideologias existem para servir as pessoas, não o contrário.

Luís Campos Ferreira
Há momentos decisivos na História que passam quase despercebidos. Parecem apenas mais um virar de página, mas com o tempo percebemos que eram, na verdade, um iniciar de um novo capítulo. Vejamos o exemplo da entrada da China na Organização Mundial do Comércio, em 2001. Na altura, poucos adivinhavam que aquele passo viria a transformar o país na maior fábrica do mundo. Só anos depois conseguimos compreender o verdadeiro impacto.
Acredito que vivemos agora um desses episódios. Uma espécie de “turning point” que, apesar de não ter passado propriamente em branco, só daqui a uns anos vamos conseguir avaliar o verdadeiro efeito borboleta. Bruxelas, depois de anos a legislar primeiro e a inovar depois, parece finalmente ter invertido a lógica. As advertências de Mario Draghi, feitas há mais de um ano, começam a produzir frutos. Ao que parece, a Europa percebeu que é necessária alguma proatividade no investimento tecnológico.
Quando o AI Act entrou em vigor, a sensação geral foi de que tinha uma lógica de travar primeiro e acelerar depois. Não obstante a legislação ser de extrema importância por proteger direitos e interesses legítimos, acabou por simbolizar uma espécie de obsessão regulatória que nos caracteriza. Um pouco como as infames tampas presas à garrafa de plástico: partem de uma boa intenção, mas teimam em funcionar como uma armadilha acrobática, do tipo boomerang, contra quem só queria dar um primeiro gole. O mundo digital europeu tem sofrido do mesmo mal.
Porém, agora no início de outubro, a Comissão Europeia anunciou um investimento de pouco mais de mil milhões de euros para impulsionar a utilização de Inteligência Artificial na indústria (Apply AI Strategy de 7 de outubro de 2025). O gesto é positivo e serve de primeiro passo numa corrida em que já estamos atrás. O problema? A escala. Apesar de o plano europeu não ficar por aqui, basta olhar para os números. Como noticiado pelo Fortune a 7 de outubro de 2025, no artigo “Without data centers, GDP growth was 0.1% in the first half of 2025, Harvard economist says”, de acordo com Lisa Shallet, chief investment officer da Morgan Stanley Wealth Management, o investimento das tech americanas em infraestruturas de IA ronda já os 400 mil milhões de dólares por ano. Face a isso, os planos europeus parecem… simbólicos. Convém também ter em conta o potencial de crescimento que temos pela frente. A título de exemplo, segundo Jason Furman, economista de Harvard, citado no mesmo artigo, se não fosse o crescimento impulsionado pelo “investimento em centros de dados e tecnologia de processamento de informação”, os Estados Unidos teriam crescido apenas 0,1% no primeiro semestre de 2025.
Como já vimos, partimos de trás, mas ainda assim, é um início. Não se fazem corridas sem dar um primeiro passo. Precisamos só de acelerar. Porque o que está em causa não é apenas o crescimento económico. É, sim, a capacidade de a Europa continuar a poder escrever as suas próprias regras no futuro.