
Miguel Tiago
Do final da década de 70, início da década de 80, até hoje, o sentido da política nacional, pelas mãos de todos os governos que passaram pelo poder, foi sempre da esquerda para a direita.
Desde o início dos anos 80 até hoje, o sentido na política económica foi o das privatizações e do desmantelamento do aparelho produtivo, da soberania alimentar e da capacidade industrial.
Podemos dizer o mesmo sobre o sentido das políticas laborais. Desde essa altura, que a política para os trabalhadores se resume à redução paulatina de direitos. Primeiro, tiram direitos sindicais, depois facilitam despedimentos e criam falsos recibos verdes, depois alargam horários, depois diminuem o valor das horas extra, depois baixam o valor das indemnizações por despedimento, depois criam o banco de horas grupal com negociação coletiva e agora já querem que sejas tu a negociar sozinho o teu horário semanal com o teu patrão.
Na educação, primeiro aumentam a propina, depois empresarializam as universidades e politécnicos, mais tarde, tiram os estudantes dos órgãos de gestão e reduzem os direitos das associações de estudantes. Enquanto isso, nunca constroem as residências para os estudantes deslocados e promovem a total mercantilização do alojamento para estudantes. O ensino privado tornou-se, em muitos casos, mais barato perto de casa do que ir estudar para uma escola pública longe.
Na saúde, primeiro encerram os centros de saúde, diminuem os serviços e valências, depois chamam empresas dos amigos que vendem tarefeiros à hora, depois encerram serviços nos hospitais públicos e desviam metade do orçamento do estado para o negócio privado da doença. Ao longo das décadas, uma verdadeira privatização da saúde, por omissão do papel do estado previsto na constituição.
Também podemos falar dos preços e da regulação: seja nos combustíveis, seja na electricidade, seja no gás de botija. A desregulação e liberalização –anunciadas como as melhores modernices do mundo – sufocam hoje os portugueses que precisam deslocar-se para o trabalho e casa porque há uns anos também privatizaram a Rodoviária Nacional e agora não há carreiras. Também já se preparam para privatizar a TAP e há de chegar a vez da CP.
Também a política de habitação sofreu uma enorme deslocação para a direita e para a liberalização, especialmente após a lei dos despejos do governo da troika, de Passos Coelho e Portas, PSD/CDS. Hoje, o resultado da política de direita está à vista, com a especulação a determinar todo o comportamento do mercado, com os imóveis a serem adquiridos por estrangeiros com dinheiro e com os trabalhadores e jovens portugueses cada vez mais endividados ou presos nas casas dos pais.
E que dizer na espectacular entrada de Portugal na cee e depois na união europeia? Colocou-nos mesmo no pelotão da frente da periferia económica do espaço vital alemão. Por causa da UE, hoje temos um cabo USB único para todos os telemóveis, mas também por causa da UE temos energia, combustíveis, mercado de bens, capitais e de trabalho, totalmente desregulados. E também por causa da UE tivemos que pagar mais de 8 mil milhões de euros por um banco falido para depois entregar de borla aos americanos.
Dirão os fanáticos do liberalismo, essa seita que domina o parlamento, as televisões, e a comunicação social em geral, que o problema está em não liberalizar o suficiente. Que é preciso privatizar mais e mais depressa e acabar ainda mais e mais rapidamente com o direito ao trabalho, com os direitos laborais e sindicais, que é preciso é aumentar as propinas, liberalizar ainda mais os transportes e o mercado em geral. Que é uma banca soltinha da regulação e da supervisão que nos salvará, que é a privatização de São Bento e do palácio de Belém que vai colocar Portugal na rota do desenvolvimento.
A realidade, porém, não se compadece com fábulas. O País vai perdendo soberania, capacidade, perde na economia, na indústria, na ciência e tecnologia, perde no poder de compra, nos direitos à saúde, educação, habitação e nos direitos laborais.
O desenvolvimento que a seita liberal nos propõe é o da velha escola do neoliberalismo, de Chicago a Tatcher, com uns pozinhos de tempero vintage de Mussolini e uma pitada de modernismo pós-verdade de Milei.
Já lhes demos abril e maio, a 3 de junho… a realidade bate-lhes à porta outra vez.

Miguel Tiago
No dia 1 de maio de 1974, abriram-se os caminhos de Abril. Foi nesse 1.° de Maio, Dia do Trabalhador, que Abril mostrou ao que vinha. Ou melhor, que os trabalhadores mostraram que não permitiriam que, após 48 anos de ditadura violenta, comandada pelos latifundiários e pelo capital monopolista, o poder se limitasse a trocar de mãos e de forma.
Hoje como antes, é essa força de Maio, de milhões de pessoas que produzem a riqueza em Portugal, que defende todas as trincheiras da democracia e dos direitos sociais e laborais.
Se é verdade que os detentores dos privilégios económicos que controlavam o poder político até 74 nunca pararam de exercer todo o seu poder para reaver os privilégios perdidos, é igualmente verdade que, apesar das campanhas contra os direitos, pela mercantilização total da vida, pelo neoliberalismo, contra a organização sindical, contra o projeto constitucional de Abril, em momento algum os trabalhadores deixaram de defender o que conquistaram com a revolução.
O simples facto de os grandes interesses, donos da comunicação social, donos das grandes empresas, donos de governos inteiros, estarem há mais de 52 a tentar e a insistir para retomar todos os seus caprichos e o seu poder, demonstra bem quão importante é a luta de resistência e quão fundas e determinantes foram as conquistas dos trabalhadores.
O Serviço Nacional de Saúde, a escola pública, o acesso à justiça, a segurança das populações, o direito à criação e fruição cultural, o direito ao desporto, o direito a um horário, a um salário, à greve, às férias pagas, são apenas alguns exemplos dos direitos e conquistas que geralmente tentam resumir aos genéricos “liberdade e democracia”.
Abril não foi apenas, pesem as tentativas de o tornar nisso mesmo, uma mudança formal na tipologia de poder, uma troca de personagens, um jogo das cadeiras. Foi um processo em que transformações reais foram operadas na sociedade portuguesa e na economia. O poder dos monopólios foi verdadeiramente derrotado, a reforma agrária foi uma realidade de extremo alcance, os direitos na vida dos trabalhadores transformaram-se em realidades materiais.
50 anos de reconstituição do poder dos grandes interesses, com a ajuda constante de PS, PSD e CDS, e agora com Chega e IL a disputar o lugar de capataz de serviço, deturpam e amputam as conquistas de Abril, de Maio e da Constituição.
Mas 50 anos de resistência permitem dizer que é tão forte a nossa luta, que mais de meio século de braço de ferro constante, com uma tremenda assimetria de meios, não conseguiram ainda, nem vão conseguir, desfigurar o essencial de Abril: o que nos mostra que, com avanços e recuos, quem faz a história somos nós.

Miguel Tiago
Quem tentasse informar-se sobre a realidade do nosso país através da maior parte dos jornais diários, canais de televisão e outros grandes meios de comunicação social, mais depressa pensaria que o grande problema do País são as bandeiras em edifícios públicos do que qualquer outro. Apesar de o trabalho ocupar a grande parte da nossa vida, dos nossos dias, de condicionar a nossa vida familiar, a nossa convivência social, a nossa capacidade de descanso, de determinar em grande medida a nossa forma de viver ou sobreviver, o mundo do trabalho não merece linhas de jornais nem minutos de televisão, a não ser que seja para ouvir os comentadores de sempre com a ladainha do costume: “De que é preciso é mais facilidade para despedir, mais precariedade, mais horário, menos salário.”
Depois de uma greve geral que a comunicação social não apagou, não por falta de vontade, mas por falta de capacidade de ocultar uma realidade tão imponente; depois de uma grande manifestação convocada pela CGTP-IN na última sexta-feira, dia 17 de abril, já não é possível esconder a realidade, mesmo que a apaguem das capas dos jornais.
O pacote laboral que o governo tenta não discutir publicamente e que quer impor contra todos os que produzem riqueza neste país está derrotado socialmente, está derrotado pela parte fundamental e mais implicada das relações laborais que o pacote visa regular.
Percebe-se por que não quis o governo negociar este pacote laboral, incumprindo os mais elementares princípios da concertação social e da negociação entre partes: um pacote laboral que visa desregulamentar a tua vida, colocar nas mãos do patronato a faca e o queijo, deixar-te entre a espada e a parede no mundo do trabalho, agravando o que já de pior existe na legislação laboral nunca poderia ser negociado. E o governo sabe bem que só pela lei da força o poderia alguma aprovar, e ainda mais pela força o poderia impor.
Imagina que o patrão passa a dizer-te quando e como deves trabalhar mais ou menos, independentemente da tua vontade, da tua vida, das tuas limitações. Imagina que esta semana fazes 50 horas, na próxima 32, depois novamente 50 e que, em vez de te pagarem trabalho suplementar, te metem as horas num “banco de horas”, que só podes gozar quando o patrão quiser.
Imagina que foste despedido e levas a luta a tribunal. Enquanto o tribunal decide e não decide, recebes o subsídio de desemprego, pago pela Segurança Social. Dez meses depois, o tribunal dá-te razão, mas a lei diz que não podes regressar à empresa e que a empresa não te deve os salários que não pagou por te ter despedido ilegalmente. Ficas sem trabalho e sem salário, com um subsídio de desemprego de 65% do valor que receberias com a legislação anterior e pago por todos os trabalhadores, aliviando o patrão.
Imagina que trabalhas há dez anos na mesma empresa sem contrato definitivo e que isso é legal, porque lei considera que és sempre um trabalhador à procura de primeiro emprego, porque nunca tiveste um contrato definitivo.
Ao mesmo tempo que querem impor a lei da selva nas nossas vidas, querem limitar profundamente a possibilidade de intervenção dos sindicatos, esperando que, pela lei e pela força, consigam aquilo que nunca conseguiram pela via da democracia: quebrar a unidade dos trabalhadores, quebrar a sua força.
Isto é o dia a dia dos trabalhadores que o governo PSD-CDS, com o já anunciado apoio da IL e o novo entusiasmo do gang Chega, após os seus acordos com o governo para ocupar uns lugares e uns tachos. Querem-nos precários, pressionados, enfraquecidos, na mão do patronato, mas os trabalhadores deixaram já bem claro, com ou sem capas de jornal, que não aceitarão mais retrocessos na sua vida. A política de direita que governa o nosso país, ora pelas mãos de PSD, ora pelas do PS, acolitados pelos diversos aspirantes a capatazes, tem vindo a significar sempre menores direitos para os trabalhadores e maiores privilégios para os grades patrões.
E é precisamente essa opção que tem condenado o País ao subdesenvolvimento, à estagnação e à dependência, à constante degradação dos serviços públicos e ao empobrecimento geral. Enquanto um grupo cada vez menor de super-ricos e de acionistas das grandes empresas, com sedes no estrangeiro e o dinheiro em off-shores, acumula cada vez mais riqueza, a população tem cada vez menos acesso à saúde, à educação, à habitação, à justiça, à segurança, e cada vez menos bem-estar social, menos tempo livre, menos tempo com a família.
Esta opção, que vem do mesmo governo que anunciou pretender despenalizar (baixar em 78% as multas) o roubo de 23,75% do nosso salário por parte do patronato, permitindo que deixem de pagar a contribuição para a segurança social, denuncia por si só ao serviço de quem está o governo PSD/CDS, IL e Chega.
Esta opção, que beneficia os financiadores do Chega, os fundadores da IL, os beneficiários da Spinumviva, é a opção de todos os fantoches políticos desses grandes senhores do dinheiro que se escondem por detrás das sociedades e das sedes no estrangeiro. Esta proposta de legislação laboral vem num pacote, esse pacote é uma encomenda e traz no destinatário “governo” e “grandes grupos económicos” no remetente.
Está nas nossas mãos travar este pacote e, com a luta, mandar de volta a encomenda. Porque a fatura vem em nosso nome.

Miguel Tiago
Um pouco por todo o lado, vão surgindo os avisos: “É preciso prepararmo-nos para o pior”; “as taxas de juro vão aumentar”; ou “a inflação atinge novos recordes”. E a horda de arregimentados comentadores de jornais e canais de TV repetem em coro o alarme, preparando o caminho para os novos assaltos aos direitos, salários e qualidade de vida dos que vivem do seu trabalho em Portugal. Os comentadores preparam o caminho dessa nova investida, que não se inicia agora, mas que aproveita boleia da guerra para tomar novas proporções.
No momento em que o capitalismo empurra o mundo para um cenário de cada vez maior incerteza, por força da destruição galopante do planeta e dos seus recursos e do alastramento da guerra e da agressão constante de um império moralmente degradante e economicamente decadente, no momento em que os Estados Unidos da América e Israel fazem uma guerra contra o resto do mundo, perante o crescente militarismo da União Europeia em geral alinhada com esse eixo, o governo da república portuguesa toma o lado dos agressores, entregando inclusivamente parte do território nacional para a agressão, para a guerra e para o assalto ao seu próprio povo.
A guerra, sendo travada especialmente na região do Golfo, Médio Oriente, resultando de uma guerra de agressão não provocada contra o Irão, é no entanto muito mais profunda e mais vasta do que uma guerra entre EUA e Irão. Na verdade, é uma guerra de uma parte dos grupos capitalistas contra o mundo, contra os trabalhadores de todo o mundo, como forma de assegurar o desvio dos produtos do trabalho e dos recursos públicos de muitos estados para esses grupos e seus grandes acionistas. Por detrás do projeto colonial sionista, do projeto imperialista americano, estão os que lucram com a catástrofe, a guerra, a destruição.
A banca portuguesa amassou mais de 5 mil milhões de euros de lucros em 2024. A Galp, 1.150 milhões, atingindo um novo recorde, a EDP atingiu igual valor, representando um crescimento de 44% dos lucros em relação a 2024, a Jerónimo Martins encerrou o ano com mais de 600 milhões de euros de lucro, mais 8% do que no ano anterior.
Do conjunto dos lucros obtidos pelas cotadas na bolsa, 7,8 mil milhões foram enviados para o estrangeiro, escapando aos impostos devidos – além da borla e dos descontos que o governo lhes garantiu no IRC – e colocando importantes recursos fora da economia nacional, em grande demonstração do seu patriotismo.
Perante a situação de contingência real que o mundo atravessa, que em Portugal é especialmente significativa devido às intempéries de fevereiro de 2026 e seus devastadores efeitos, o governo PSD/CDS, com o apoio de CH e IL, e a habitual cumplicidade do PS, decide tomar o lado dos que pretendem esmifrar ainda mais os trabalhadores, as famílias, os pequenos empresários e apoiar o avanço da guerra, mantendo intocáveis os privilégios dos que lucram em alturas de perigo mundial.
Entre regular os preços – dos créditos e do acesso ao capital, do gás de botija, dos bens essenciais, da energia – ou abdicar do financiamento do Estado, o governo decide colocar o Estado numa situação ainda mais periclitante, abdicando da única receita que pode ter retorno para os que a pagam. Podendo limitar e regular preços de diversos setores, impedindo a escalada, a especulação, o desvio da riqueza produzida por quem trabalha em Portugal e assim exigindo aos grandes grupos económicos que contribuíssem, pelo menos em parte, para a superação das dificuldades, o governo decide o oposto: permitir-lhes que continuem e agravem a exploração e aumentem as práticas especulativas em tempos de guerra, mantendo intocados e crescentes os seus lucros.
É um governo que toma – no seguimento dos seus antecessores – a parte dos que lucram quando o povo empobrece, de submissão e ao serviço dos grandes grupos económicos e de interesses estrangeiros.
A guerra é no Irão, mas é contra os trabalhadores de todo o mundo.
Para não variar, PSD, CDS, PS, CH e IL estão do lado do agressor.