
Nicolae Santos
Há um equívoco tenaz que convém desfazer: o 25 de Abril não foi uma revolução ideológica. O Movimento das Forças Armadas que na madrugada daquele dia de Abril derrubou quarenta e oito anos de ditadura foi uma reunião de homens de sensibilidades políticas diversas. O que os unia não era um programa doutrinário, mas a convicção partilhada de que o regime se tornara insustentável, moralmente falido, militarmente derrotado, socialmente opressor. A alavanca que moveu os capitães não foi Marx nem Lenine, foi a exaustão de uma geração que regressava de uma guerra em África sem compreender em nome de quê.
Reduzir Abril a um golpe da esquerda é falsificar a história, é apagar os rostos e as convicções de todos aqueles que, sem serem marxistas, quiseram simplesmente que Portugal voltasse a ser um país livre.
Dito isto, é preciso ter a honestidade de reconhecer um erro histórico. A direita democrática portuguesa, aquela que rejeitava o salazarismo sem abraçar o colectivismo, abdicou, em grande medida do seu papel activo na recuperação da liberdade. Intimidada pelos excessos do período revolucionário, recuou para uma posição defensiva e deixou o campo simbólico de Abril ocupado quase exclusivamente pela esquerda. Foi um erro de consequências duradouras. Ao abandonar Abril, abandonou também a narrativa da liberdade, e permitiu que outros a monopolizassem.
A liberdade de imprensa, o sufrágio universal, o Estado de direito, a dignidade do cidadão perante o poder, todos estes são valores que a direita democrática deveria ter reclamado como seus desde o primeiro dia. Não o fez com a determinação necessária, e esse vazio foi preenchido.
Hoje assiste-se a um fenómeno diferente e mais perigoso. A direita populista e radical não se limita a disputar a memória de Abril, quer demonizá-la. Serve-se para isso dos excessos do período revolucionário, com as suas nacionalizações precipitadas, as suas ocupações de terras e os seus momentos de ajuste de contas. Esses excessos existiram, é verdade, e não merecem ser escamoteados. Mas transformá-los na essência do 25 de Abril é uma desonestidade intelectual que serve apenas propósitos políticos do presente.
Compare-se, com sentido de proporção histórica, o que foram os excessos portugueses com o que foram as outras grandes revoluções da modernidade. A Revolução Francesa produziu o Terror, a guilhotina, as vagas de execuções em massa, os afogamentos colectivos em Nantes. A Revolução de Outubro na Rússia inaugurou décadas de gulag, de fomes provocadas e de extermínio sistemático de classes inteiras. O PREC português, com toda a sua turbulência, não produziu nada que se aproxime remotamente dessas tragédias. Houve injustiças, houve arbitrariedades, houve medos, mas não houve Terror com maiúscula.
Não é por acaso que o símbolo do 25 de Abril é um cravo. Um cravo colocado na boca de uma espingarda, não uma guilhotina, não um pelotão de fuzilamento, não uma forca. É um símbolo de uma singularidade histórica rara, uma revolução que, na sua essência, foi tranquila. Que preferiu a flor à bala. Que quis a liberdade sem banhar as ruas em sangue. Esse símbolo diz tudo sobre o que Abril foi e sobre o que os seus protagonistas quiseram que fosse.
O 25 de Abril é uma data que une os portugueses. Une-os na memória de uma opressão comum e na recuperação de uma liberdade que custou décadas a conquistar. Não é uma data de uma família política, é uma data de todos os portugueses. Até os que vilipendiam a sua memória, o podem fazer como consequências das conquistas quer o 25 de Abril lhes deu. As tentativas da direita populista e radical de a demonizar, de a reduzir aos seus momentos mais difíceis, de a apresentar como o pecado original de todos os males do Portugal contemporâneo, devem ser combatidas com vigor por todos os portugueses que amam a liberdade que reconquistaram há cinquenta e dois anos.
Defender Abril não é ser de esquerda ou de direita. É ser livre. É recusar que a memória daqueles que tiveram a coragem de agir seja sequestrada, quer pelos oportunistas que a querem transformar numa bandeira partidária, quer pelos que a querem enterrar como um erro vergonhoso. Abril não foi perfeito. Nenhuma revolução o é. Mas foi, na sua essência, uma das páginas mais dignas da história portuguesa. E essa dignidade merece ser preservada e precisa de ser defendida.