A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas anunciou alterações às regras de elegibilidade para os Óscares de 2027, numa altura em que o uso de Inteligência Artificial na indústria cinematográfica continua a gerar debate.

De acordo com as novas diretrizes, o recurso a ferramentas de IA não será, por si só, fator de exclusão nem de vantagem. Ainda assim, a Academia sublinha que cada área de votação deverá avaliar “até que ponto houve um ser humano no centro da autoria criativa”, podendo solicitar esclarecimentos adicionais às equipas sobre o uso destas tecnologias.

A presidente da instituição, Lynette Howell Taylor, reforçou esse princípio ao afirmar que “os seres humanos têm de estar no centro do processo criativo”. A responsável acrescentou ainda que, à medida que a IA evolui, também o debate acompanhará essa transformação, garantindo que a autoria humana continuará a ser determinante na atribuição dos prémios.

No que diz respeito às interpretações, passa a ser obrigatório que os papéis sejam “comprovadamente interpretados por seres humanos com o seu consentimento”, uma resposta direta às preocupações crescentes com recriações digitais de atores.

Outra mudança relevante prende-se com as categorias de representação: os intérpretes passam a poder ser nomeados mais do que uma vez na mesma categoria, algo que não era permitido durante décadas.

Também a categoria de Melhor Filme Internacional sofre alterações. Até agora, cada país podia submeter apenas uma obra, selecionada por um comité nacional. Com as novas regras, filmes em língua não inglesa poderão qualificar-se automaticamente se vencerem prémios principais em festivais como Festival de Cannes, Festival Internacional de Cinema de Berlim, Festival de Veneza ou Festival de Sundance, permitindo ainda múltiplas nomeações por país. Além disso, os filmes passam a ser creditados diretamente, deixando de estar associados ao país de origem.

As mudanças surgem num contexto de crescente tensão em Hollywood quanto ao impacto da IA. Em 2023, a tecnologia esteve no centro das greves de argumentistas e atores, que alertaram para o risco de substituição do trabalho humano.

Mais recentemente, casos concretos reacenderam a discussão. O ator Val Kilmer, que morreu em 2025, foi recriado digitalmente para protagonizar o filme ‘As Deep as The Grave’, com autorização da família, surgindo rejuvenescido e com voz gerada por tecnologia.

Também a atriz Evangeline Lilly criticou publicamente a Disney após despedimentos em equipas criativas, acusando a empresa de substituir artistas por soluções baseadas em IA. “Custa-me acreditar (…) que os artistas que deram vida ao universo tenham sido dispensados”, escreveu, lamentando o impacto destas decisões.

Num setor em rápida transformação, a Academia procura assim equilibrar inovação tecnológica com a preservação da criatividade humana, estabelecendo novas regras para uma indústria cada vez mais moldada pela inteligência artificial.